quinta-feira, novembro 11, 2010

Nhungwes e memórias de um professor de matemática

Cá fora chovia a potes e o vento virava as árvores de pernas para o ar. Lá dentro, ao fim de uns minutos, sentia-se o poderoso bafo equatorial. Voltámos todos a Tete, Lisboa, encontro de 2010. Erámos uns 180, numa grande sala alcatifada, espalhados por mesas, com dísticos ao peito como congressitas. Havia um homem orquestra que produzia música de baile de garagem, ao sabor dos 60s, com eventuais marchinhas e tudo. Um bufê esplêndido. E nós.
Olhávamos para o peito uns dos outros e soletrávamos os nomes. Conheço-te, não te conheci, lembras-te de mim?
De mim, tirando o grupo pequeno dos antigos alunos do 5º ano do colégio liceu de Tete, ninguém se lembrava. Eu vivi apenas três anos na cidade do Zambeze. Mas do pai toda a gente se lembrava. Desconhecidos e desconhecidas falaram-me dele com lágrimas na voz.
Depois a Cilinha contou-me que uma vez numa aula de matemática adormeceu:
- E ele não deixou que ninguém me acordasse. Se ela está a dormir é porque precisa de descansar, disse ele! Imagina. Acordei, o teu pai na secretária a corrigir testes. Já dormiste tudo? Então agora vai, ainda apanhas um bom bocado de intervalo.
O Jorge e eu trocámos um olhar estarrecido. Nós não conhecíamos essa versão do professor Gonzaga. Ela continuou com a história do ratinho da Índia:
- Eu trazia-o no bolso da bata e pu-lo sobre a secretária. Toda a gente a olhar para trás. O teu pai avançou na minha direcção, parou, olhou para o rato, pegou nele e disse: fica comigo até ao fim da aula. Nao quero ninguém a olhar para trás. E levou-o para cima da secretária dele, e o rato ficou a correr de um lado para o outro até o sino tocar, enquanto a aula prosseguia com toda a gente virada para a frente.

Eu não estava naquela aula. Deve ter sido no 4º ano, quando ainda estava no Colégio Barroso, LM, interna. A Cilinha tinha os olhos húmidos: «marcou-me tanto aquele senhor», suspirou. De repente, via-a tal e qual como era naqueles tempos. O mesmo olhar sério e intenso, a mesma quase timidez de quem pede desculpa ao mundo por andar por aqui. Vivia numa espécie de floresta equatorial, no Bairro do Fomento. Uma instalaçaão provisória, que as mãos amorosas e os dedos verdes das mulheres transformaram num jardim edénico, surreal, onde as plantas cresciam loucamente e as pessoas morriam de calor. As casas tinham começado por ser contentores serrados ao meio. Cheias de ares condicionados e ventoinhas. E de plantas e flores e árvores e pássaros e cães e papagaios e macacos. A construção civil não dava vazão ao crescimento avassalador da cidade, que a partir dos anos 60 explodiu de vida. O transitório tornou-se de algum modo perene. A imaginação e o amor fizeram o milagre.
Diante de mim, a Cilinha tem 14 anos. O coração não envelhece. O corpo, o rosto, é que se desfocam como as imagens que caçamos com muita pressa porque estamos emocionados.
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