quarta-feira, março 25, 2026

Queridos Anos 80

 Recordando os "Queridos Anos 80" num artigo para a revista Máxima em 2019.

"Não éramos convencionais. Pensávamos fora da caixa. E, como as fronteiras ainda eram bastante esbatidas, não nos antagonizávamos pela vida por causa de partidos políticos, jogos de bola ou religiões, até porque grande parte de nós estava fora dessas arenas e o nosso pequeno mundo era um vasto círculo sem fronteiras, onde o limite era o sonho de cada um. Naturalmente, éramos, muitas vezes, arrogantes, logo, intolerantes. Estávamos contentes com o nosso descontentamento e descontentes com o contentamento geral. Éramos, pensávamos nós, livres. Há 30 anos, tínhamos 20 anos, 30 e alguns 40, mas, diante de nós, o futuro desenrolava-se numa estrada da glória que nada nem ninguém poderiam travar. Trabalhávamos intensamente para isso. Sem horários nem limites, mas também sem relógio de ponto. Numa palavra, "dávamos o litro".
Os sinais eram todos a nosso favor."


Como era ter 30 anos há 30 anos?


Dos sonhos todos, quantos ficaram pelo caminho? Pergunta-se Manuela Gonzaga, otimista encartada, escritora e historiadora, que diz contabilizá-los melhor quando pensa em todos os que se concretizaram. E sem ceder às armadilhas da saudade, mostra-nos como é delicioso recordar os queridos anos 80.


11 de junho de 2019 às 07:00Manuela Gonzaga


O homem entrou, dirigiu-se ao rececionista sentado na secretária junto da porta da entrada que dava para a rua e disse: "Quero falar com um jornalista. Matei a minha namorada." O rececionista olhou para ele e disse: "‘Tá bem, filho, mas tens de esperar. Estamos em fecho e os jornalistas estão muito ocupados." O presumível criminoso obedeceu e afundou-se no sofá velho encostado à parede em frente. E ali ficou, manso como um cordeirinho, a observar o movimento do entra e sai dos jornalistas, fotógrafos, paquetes e outra gente da casa. O jornal, o Correio da Manhã, com sede numa cave à rua Ruben A. Leitão, em Lisboa, tornara-se um sucesso brutal em menos de um ano. Era um tabloide. O primeiro, em Portugal. Direção editorial segura e inteligente de um grande jornalista, Vítor Direito, linha gráfica e direção artística do pintor José Ralha, e uma equipa de gente entusiástica, alguns com muito talento que se viria a concretizar nos anos vindouros. Nesses tempos vivíamos a paixão dos jornais e acreditávamos que íamos mudar o mundo. Havia um suplemento semanal de formato magazine, onde alguns espraiavam a sua veia mais literária, e, mais tarde, um suplemento musical que eu coordenava e que escrevia, em parte, onde divulgávamos o melhor da emergente música popular portuguesa, uma parceria feliz com a excelente revista TOP Música & Som (de Duarte Ramos, o Chefe, como todos lhe chamávamos). O Correio da Manhã apostava também muito na reportagem, na notícia, na cultura, no desporto e no futebol (nas páginas finais) e… nas redes locais. Tinha correspondentes por todo o lado que, ao telefone, ditavam efemérides que, reduzidas a uma, a duas, a quatro linhas, traziam o nome da aldeia ou da vila às páginas do recente fenómeno da imprensa nacional. Acima de tudo, noticiava, embora ainda com algum pudor, os crimes que assombravam a espuma dos dias.

[...]




Fotos: no Sara com a Frente Polisário (1988), reportagem para revista Marie

Para ler a reportagem na íntegra: 

https://www.maxima.pt/atual/detalhe/como-era-ter-30-anos-ha-30-anos?fbclid=IwY2xjawQlSo5leHRuA2FlbQIxMABicmlkETB0VHJ3T2NMaFFjaWhmbmp6c3J0YwZhcHBfaWQQMjIyMDM5MTc4ODIwMDg5MgABHiKYtgkvSKZ3dfNaLTjFochlVTO03MfVHTnF4p4_r_CdUT4jx6G4pXoQJ5Gp_aem_OWEXWkBgehPXTfNQne3RsA




sexta-feira, março 20, 2026

Dia do Pai

 19 de Março. Querido Pai,

Repasso um texto de 2024. A foto (anos 40) é no Porto e prova que os pais também foram jovens. O avô ao centro, o tio Rogério à direita, o pai à esquerda. "All those moments will be lost in time, like tears in rain". Mas não. Enquanto houver palavras, enquanto resistirem as imagens, recordações não ficarão perdidas.
O avô ao centro, o tio Rogério à direita, o pai à esquerda. "

Querido Pai

Usávamos tão pouco esta terminologia que — não fora o privilégio das nossas últimas conversas, sem queridices vocais, mas com abraços verdadeiros — me pareceria quase formal referir-me a ti, desta maneira. Também nunca te tratei por tu. Nem à mãe. Impensável e absurdo. Com ela, já em Moçambique, ainda tentei e levei uma corrida:

Por TU?? Está parva de todo?
Não estava parva. Queria copiar o tratamento familiar que observava em várias das minhas amigas e respectivos progenitores, pensando que a alteração do pronome pessoal vos traria e nos levaria para uma esfera mais íntima. Seria uma outra forma de colo. Porque nem te sentia a ti, pai, como familiarmente "querido", nem te via especificamente próximo. Eras o pater familias. Era assim, e pronto. Até ao dia em que, em pequenos saltos, gerações separadas pelo sistemas de conveniências começaram a aproximar-se. Às vezes, só quase no fim das nossas tão finitas existências humanas.
Entretanto, tive a sorte de te ter como professor em duas disciplinas que eu odiava. Matemática e fisicoquímica. Eras excelente.
Quando fui ter contigo, para pedir ajuda, proporcionaste-me as tuas sebentas para poder estudar por ali:
É o meu sistema. Tens aí tudo. Dúvidas? Vens ter comigo e explico-te.
Eu queria mesmo é que o pai me desse explicações -- ainda hoje sinto na garganta o sabor amargo das lágrimas de decepção quando ouvi a tua negativa que me pareceu um atestado de desamor profundo.
Eu não posso ser teu explicador. Eu sou teu pai. Se tiveres boas notas, nunca te livrarás do desprestígio e eu da calúnia. Todos dirão que te passei os enunciados dos testes e, pior, que os trabalhei contigo.
Mas o pai dá explicações a muitos dos meus colegas.
Pois dou, e darei. Não são meus filhos.
Pior do que a decepção era a vergonha de vir a ser uma aluna medíocre ou mesmo má nas disciplinas lecionadas pelo meu pai no Colégio Liceu de Tete, Moçambique, década de 60 do século passado. Portanto, atirei-me ao trabalho com uma tenacidade de formiga. E de tal forma me houve que acabei por ser a sua melhor aluna, ex aequo com o meu amigo João Nasi Pereira. Aliás, chegámos a estudar juntos. Com a físico-química foi igual. Segui as sebentas do Professor Gonzaga. Finalmente, concluí o antigo quinto ano (atual 10?). dispensei às orais de Letras, mas fui às orais de Ciências. A tremer.
Mas acontece que nesse processo de tentar ser a tua melhor aluna, para não passar "vergonhas" , acabei por me apaixonar pela ciência dos números e, mais tarde, quando cheguei à Geometria dei por mim maravilhada. Resolver equações parecia-me mágico. Era o início de uma aventura mental que abria perspetivas inesperadas e avassaladoras. Provar teoremas, usar, sem qualquer emoção, as ferramentas mentais da inteligência pura a dura, era, como dizer?, muito emocionante. Era outro patamar. Era outro lado da lua. Tive classificações excelentes nas provas orais, e o meu pai foi elogiado pelos professores de fora (vinham da Beira) pelo nível do ensino e pela qualidade dos alunos.
E depois? Um alívio desmesurado. E um arrumar definitivo daqueles apontamentos e daquele conhecimento para um canto da memória, aquele lugar a que designamos como o do "adeus até nunca mais". Até ao dia em que me descobri a dar com a cabeça nas paredes por não ter bases mentais suficientes para entender mais a fundo as coisas maravilhosas, surpreendentes e intraduzíveis de outro modo que a física contemporânea nos oferece.
Nunca te agradeci por isso, querido Pai.
O conhecimento que me passaste, daquela forma seca e comedida.

Mas foi assim que, muitos anos mais tarde, comecei a ver-te de toda uma outra maneira, tentando reconhecer-te no "road book" da tua própria existência, tão balizada por cânones de todo o género. Sobretudo cânones de "género" que te levaram a ocultar comportamentos tidos por menos patriarcais. Ser homem não é fácil, nunca foi. Parecendo que não, nós, mulheres, chegamos com toda uma outra panóplia de recursos que vos são negados, ou eram, aos da tua geração. Daí, vocês nos tentarem amordaçar tanto. Fazemos-vos medo, acho.
O facto é que tentaste encaixar-te no modelo paternal e masculino que abria fissuras por todos os lados e que acabou com o teu casamento. Também, quem é que te mandou apaixonares-te por uma mulher ainda mais forte e determinada do que tu?
Sim, ela. A Mãe. Mas hoje não é o dia de ela, É o teu. Querido Pai. Querido Professor. Sem saberes, ensinaste-me muito mais do que possas imaginar. Onde quer que estejas, nesse não-lugar a quem chamamos muita coisa, acolhe o meu profundo e comovido e apertadíssimo abraço. Vou mesmo chamar-lhe, sem pudores, o meu genuíno Xi ❤ É para ti, mas podes estendê-lo ao querido avô Justino, teu pai, e ao querido tio Rogério, teu irmão. Tão bonitos vos vejo aqui nesta imagem. No Porto, minha cidade berço.

sexta-feira, março 13, 2026

O poder da imprensa na história de Maria Adelaide

 Há um ano, estive no Porto a celebrar Maria Adelaide Coelho da Cunha. Mais uma vez, "regressando" ao antigo Hospital Conde de Ferreira, agora pela porta grande. Não imaginam a comoção que sinto de todas as vezes que a levo ali...  Partilho o excelente artigo na Revista Viva - O Grande Porto on line: 

“Desapareceu uma senhora de mais de 40 anos, de estatura não alta. Usava vestido castanho-escuro, casaco preto, de abafo, romeira e peles, canotier de veludo preto, sem enfeites, e sapatos de verniz abotinados”.

Esta notícia constou durante uma semana seguida na primeira página do “Diário de Notícias”. Atente-se que nunca identificava o nome da mulher, mas prometia recompensa a quem tivesse informações sobre o caso.
doida8Esta não é a primeira vez que a história de Maria Adelaide é contada. Foi retratada inúmeras vezes pela comunicação social e, em 2009 a jornalista e historiadora Manuela Gonzaga publicou uma investigação de grande detalhe sobre o tema na obra “Doida Não e Não!”, que foi recentemente reeditada pela Bertrand. Um livro bem fundamentado, segmentado e claro quanto a esta história de amor. Uma biografia cativante, capaz de nos conferir grandes lições nomeadamente a importância e a força de uma imprensa livre.
A VIVA! assistiu à apresentação no Hospital Conde de Ferreira e falou também com a autora, de forma a levantar um pouco o véu desta história.

Porquê o interesse em investigar mais a fundo o romance?
Para uma escritora, de mais a mais historiadora, como eu, ainda por cima jornalista durante quase toda a minha vida profissional, historias destas obrigam-nos a ir ao fundo da memória. Aqui não havia meio termo: era tudo grandioso, para o melhor e para o pior. E, por parte do casal de apaixonados, uma grandeza de alma, uma excelência a que ninguém consegue ficar indiferente. Ora acontece que, muitos anos depois, conheci a que era então dona do palácio onde Maria Adelaide Coelho da Cunha vivera e de onde fugira, em novembro de 1918, para ir viver com Manuel Claro. Ela tinha 48 anos, o seu antigo motorista 26. A história começa realmente aí. Ora acontece também que, a propósito do mesmo palácio, escrevi um artigo para a Máxima e recebi duas cartas de duas leitoras já com bastante idade, mas extremamente lúcidas, que se prontificaram a contar-me o resto da história daquele casal. Ambas tinham privado com Maria Adelaide, que fora amiga das respetivas famílias, e tinham informações preciosas para partilharem comigo. A somar-se a tudo isso, a então dona do palácio de São Vicente pôs à minha disposição a biblioteca onde, devidamente arquivados e catalogados, se encontravam centenas de documentos encontrados no fundo falso de uma escrivaninha. Alfredo da Cunha, o marido abandonado, coligira tudo o que dizia respeito à mulher que mandara interditar. Era impossível ignorar todo este riquíssimo manancial que vinha assim ter comigo. Foi um trabalho árduo, intensíssimo, um ano e meio a tempo inteiro, mas que me deu uma grande alegria. E não é um romance. É uma biografia, devidamente suportada por factos e por documentação e por testemunhos orais.

O livro reflete uma época?
Necessariamente. Pois se tudo se passa a partir de 1918, era importante equacionar os tempos em que a historia se desenrola. Sem esse pano de fundo, uma biografia perde a sua força, e um pouco até da sua credibilidade, creio. Repare-se neste detalhe: é uma época em que não há censura, portanto Maria Adelaide escreve no jornal A Capital, onde conta a sua odisseia. E Alfredo da Cunha, por interpostas pessoas, responde-lhe no Diário de Notícias, que fora dela, fundado pelo seu pai e pelo seu padrinho. Depois de 1926, a censura volta a vigorar e com toda força, e esta história não poderia ter sido conhecida deste modo. Logo, o desfecho teria sido inevitavelmente outro. Qual? Nunca saberemos.

doida_naoComo define Maria Adelaide?
É uma «Mulher Bandeira» como recentemente Júlia Pinheiro a definiu de forma exemplar. Tudo o que ela quis foi largar uma vida que nada lhe dizia, para viver um grande amor. Mas foi tão acossada, tão maltratada, e sofreu tanto por esse passo que, a partir de certa altura, teve de se defender em público. E fê-lo de uma forma digníssima, mas feroz. A caminho dos 50 anos, sem fortuna, sem nada de seu – nem o nome -, já que os psiquiatras, à cabeça dos quais Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid, a tinham declarado «Louca Lúcida», interditando-a, ela consegue vencer tudo e todos.

Esta história revela o poder da imprensa, em que sentido?
Sem uma imprensa livre, a história de Maria Adelaide e Manuel Coelho nunca teria chegado ao grande público. Sem as entrevistas e as reportagens dos jornalistas de A Capital, as pessoas ignorariam que, por exemplo, muitas outras mulheres, donas de grandes fortunas, estavam igualmente sequestradas nos manicómios por… «castigos de família». Ora o conhecimento liberta-nos. E perante o clamor da opinião pública, o exercício da prepotência do poder e dos poderosos teve de encolher as garras. Acrescente-se que os tais castigos exemplares terminavam quase sempre com a castigada a ficar sem os seus bens, que, legalmente, ficavam na posse da mesma família que as tinha confiado àquelas instituições. Tudo com o aval dos cientistas… Falava-se disso, mas era preciso haver um grande movimento que desse a conhecer os meandros destas teias. Também se prenderam homens pelo mesmo motivo (as fortunas), mas em número muito mais reduzido. Isto continuou, depois, mas nada se soube. A censura vigorou – e com muita eficácia – até 1974. Só mais tarde pudemos saber que, por exemplo, presos políticos ou homossexuais eram igualmente confinados às casas de loucos, onde ficavam aos bons cuidados de psiquiatras sem escrúpulos. Em Portugal e em muito mais países, é bom que se saiba.

Para ler o artigo na fonte: https://viva-porto.pt/manuela-gonzaga/ 



segunda-feira, março 09, 2026

Jardins secrets de Lisbonne no Prix européen du roman d’amour

Há notícias que nos devolvem, quase com uma espécie de sobressalto, a certeza de que a literatura continua a atravessar fronteiras.  E que o amor continua a ser um dos grandes motores da literatura 

Onze romances, vindos de onze países europeus, foram seleccionados e anunciados publicamente em Estrasburgo, no decorrer de uma multiplicidade de eventos culturais. 
Desses, sairá o vencedor final. 

Como? o prémio prevê um “grand jury” (novembro de 2026) com base tripartida: votos online do público + votos de parceiros institucionais + votos do “jury populaire” (leitores independentes).




O Prix européen du roman d’amour regressou para a sua 4.ª edição (2026–2027), reunindo onze romances de onze países membros do Conselho da Europa. Entre os títulos seleccionados, Portugal está representado por Jardins secrets de Lisbonne, de Manuela Gonzaga.

Os romances seleccionados (11 países)

Lançamento oficial e voto do público

O lançamento oficial desta edição teve lugar  a 31 de Janeiro de 2026, na Bibliothèque nationale et universitaire de Strasbourg (BNU/BNUS), no âmbito das Bibliothèques idéales d’hiver.

O voto do público decorre do fim de Janeiro até ao fim de Outubro de 2026, sendo acompanhado por encontros e eventos que colocam os romances e os seus autores/autoras em diálogo com leitores.

Entre esses momentos, destaca-se a 12.ª edição do festival “Ces pages d’Amour”, organizada pela associação Book1, que decorreu de 6 a 15 de Fevereiro de 2026 em Estrasburgo.


Links — votação do público e “júri”


Voto do público (online) – Strasbourg.eu (formulário oficial)
https://demarches.strasbourg.eu/culture-loisirs/prix-roman-amour-2026/

Página do prémio no portal Myriades (agenda/actualizações)
https://myriades.strasbourg.eu (é o link indicado na própria página de voto)

Rede de bibliotecas (onde o “jury populaire” se organiza/acompanha eventos)
https://www.mediatheques.strasbourg.eu

Brochura oficial da selecçao
https://www.calameo.com/read/001821919051fee6254aa