terça-feira, setembro 09, 2008

Por uma carroça de livros

Este cavalo tem oito anos e está a puxar uma carroça no meio do trânsito. A carroça tem caixotes e mais caixotes. Cheios de livros. O homem insensível está a carregar a carroça, sem contemplações. Ele tem um sorriso mau. O pequeno cavalo olha-me assustado. Meto-me no trânsito e desato a berrar contra o homem, mas o homem ri-se e puxa a carroça para sitios da estrada onde não consigo chegar, e eu no meio de riquexós e porshes, quase fico esborrachadinha. "Vocês não podem permitir isto!", grito para os condutores e para os transeuntes. Acordo a discutir, em inglês, com um casal de turistas, esparramados num riqxó, que olham embevecidos, e dizem que é tudo tão deliciosamente typical. Inclusivé uma mulher, eu, aos berros no meio do trânsito de uma cidade que parece um cruzamento entre o Rio de Janeiro e Nova Iorque, com um toque de Bombaim, por causa de um cavalo assustado a puxar uma carroça cheia de caixotes cheios de livros.
Resultado: larguei tudo e vim apanhar sol e dormir, e passear no campo. Estamos no Algarve, perto de Aljezur.
Mas na primeira noite:Martinhal. Fomos os últimos hóspedes. Em poucos dias vão demolir os pequenos apartamentos em frente da praia. Em dois anos, naquela paisagem de sonho, vai surgir um hotel pequeno. O projecto é muito bonito. Sagres é que não. É uma terra desolada.

terça-feira, agosto 12, 2008

Era uma vez muita gente

Era uma vez muita gente que emergiu do ilimitado mar das probabilidades, lá onde mora o gato na sua caixa com dois furos, para o esquisso de uma sala que o pintor ele encontrou, resgatando assim criaturas espantadas e hirtas, sangrando amarelos, encarnados, azuis e ocres, por cadeiras, sofás e longos reposteiros, um tapete grande, sim, e um lustre de cristal pendurado no tecto. Muita gente estava calada, no silêncio atroz da música opaca das suas pequenas conversas, a que três holoférnicas cabeças prestavam atenção discreta, enquanto o rato-pessoa e a pequena raposa-babu, muito bem vestidos, olhavam para o pintor ele. Tinham vindo todos agarrados ao esboço dos móveis Olaio e chegaram à tela quase ao mesmo tempo. Havia tantos. Um deles ainda jorrava pequenas cabeças da sua própria grande cabeça. Era o pancreator. Ao lado, a sua estática consorte. Depois, o pintor ele fechou o portal. Em todo o caso, derramou muitas cores para que muita gente ficasse viva. Os animais também. As cabeças cortadas também. Um dia chamou o escritor ela para que os visse. “Para mim, isto é o salão. Não é uma festa, é um encontro.” Explicou. O escritor ela respondeu: “muita gente está aqui”. Depois perguntou-lhe pelas cabeças sobre a bandeja. Depois quis saber do rato-pessoa e da raposa-babu, porque lhe pareceu que estes últimos eram o ponto de partida do jogo, e as três primeiras, as testemunhas do drama. Não por terem sido cortadas – pareciam bem tranquilas em relação a esse facto – mas porque muita gente não conseguia sair. Depois disse-lhe: este salão é uma armadilha. Muita gente ficou presa nela.
Se o pintor ele já o sabia, calou-se. É que depois houve um cavalo. O cavalo. Tinha asas. Também estava preso no último andar, mesmo por cima do salão. Muita gente o ouvia a bater os cascos de ouro no chão de madeira corrida. Impaciente e desesperado. Mas ninguém ousava abrir-lhe a porta. A quimera alada traz a maldição do interdito. Arrasta o seu ousado libertador para lugares onde a realidade muda a todos os instantes, rasgando no seu voo abrupto o delicado equilíbrio entre as onze dimensões. O pintor ele disse: é preciso uma alma forte? É que eu não tenho medo do escuro, mas o escritor ela respondeu: o mais importante é uma atenção sem falhas na fluidez desses espaços onde o tempo deixa de existir, deus sabe como isso pode ser cansativo. Se não o quê? O cavalo larga o cavaleiro e o cavaleiro perde-se. Ah, sim? Sim. E depois? Depois, como encontrar o caminho de volta num mundo sempre a mudar de forma, e onde o tempo não conta para nada? Pois é exactamente por isso – disse o pintor ele – que abri a porta ao cavalo. E depois? Só tive tempo de dizer I want to go with you. A seguir, a chave caiu-lhe da mão, toda manchada de verde, num campo de flores, mas o formidável coice que recebeu nos rins doeu-lhe muito menos do que todos aqueles beijos que lhe partiram o coração. Isso foi o que disse o pintor ele. De modo que em tudo isto há uma viagem e um desígnio muito misteriosos. O tecido da realidade foi rasgado e estas telas provam-no. Há outros testemunhos, mas são do reino do indizível. Como as cordas vibrantes e sonoras, filamentos neuronais do cosmos, que manifestamente ligam todos os seres em Constelações. Ou como estes peixes que nadam sob montanhas cor-de-rosa – onde emerge a árvore – sobre as quais voam os pássaros em que aqueles se vão transformar. Ou será ao contrário? No fim, todos se encontram no mesmo delírio de uma meditação búdica, ela própria a divagação da mente atenta, acordada e lúcida. Algo a que andy and evelyne before eating an apple pie, na floresta edénica, com pássaros voando sobre os seus rostos estáticos, não são alheios: muita gente rodeia-os. É o friso fatal das descendências. No fim da viagem, o pintor ele soube reconhecer que estava perdido. O cavalo fora-se. Em todo o caso, já não precisavam um do outro. Como é evidente, os registos tinham mudado. Já não havia salão, mas uma sala de banquete. Muita gente tinha-se ido embora. Só restavam os animais. Lewis Carroll conhece alguns deles. E não se falava de corações partidos, mas de ressacas pós românticas, um eufemismo para “euforia disfarçada”. Tudo podia acontecer. De novo. O pintor ele cavalgara a imensa flecha do êxtase.
Manuela Gonzaga,
texto do catálogo de Ivo Moreira, Agosto 2008

segunda-feira, agosto 11, 2008

I WANT TO GO WITH YOU

Nova exposição do Ivo Moreira. Descrevo-a, nas palavras do pintor:
"[...] selecção de nove pinturas de grande formato, a acrílico e a óleo, executadas
ao longo de três anos ( 2006-2008 ).
Estas telas reflectem diferentes vibrações, lugares, estados de espírito, estando unidas por um mesmo fio condutor: a procura, a predisposição para partilhar as vivências do mundo com uma alma gémea não identificada; um convite para partir à aventura por paisagens ora mundanas, ora celestiais, oníricas, ou até mesmo humorísticas, mas todas elas parte de um mesmo caminho. Um caminho que é sempre solitário, tortuoso, pleno de dúvidas, mas também de paz, satisfação e encantamento e que, desta vez, culmina finalmente nesta mostra, encerrando um ciclo, tornando-se
público." Ivo Moreira

Para download do catalogo:
http://www.yousendit.com/download/Q01IZGVaQk5WRDljR0E9PQ
A inauguração dia 12 de Agosto, pelas 21 horas na Sala do Veado do Museu Nacional de História Natural.

quinta-feira, julho 24, 2008

Sunrise, Sunset

Is this the little girl I carried?
Is this the little boy at play?
I don't remember growing older
When did they?
When did she get to be a beauty?
When did he get to be so tall?
Wasn't it yesterday
When they were small?


As palavras desta canção que ouvi a primeira vez em UmViolino no Telhado, vieram-me tantas vezes à cabeça! E as lágrimas e os risos! Que carrossel, que montanha russa de emoções. Que alegria. Oh, meu Deus, como eles são lindos!!!

Love is a Many Splendored Thing

Bernardo & Marta, 21/12/08, Poland

quarta-feira, julho 23, 2008

Que saudades do velho Til! Ou maleficios dos Acordos ortográficos

[…] um colégio de meninas estabelecido na rua de Miguel Bombarda, 79, da cidade do Pôrto. Sito num belo local, instalado com higiene, confôrto e elegância, e orientado no seu ensino, pelas condições da moderna pedagogia, reúne êste colégio predicados […]
Ooooooooooh que saudades do til!!

Os "maleficios" do Acordo Ortográfico

O meu próximo livro, a biografia de uma mulher portuguesa da primeira metade do século passado, tem-me feito mergulhar em mil e um textos de diversa proveniência. Cartas, processos de tribunal, autos de interdição, artigos de jornais, livros publicados sobre o caso, etc. etc. Quando transcrevo algum desses documentos, o computador corrige automaticamente a grafia. Lisbôa por Lisboa, êle por ele, collega por colega, etc. etc. Para a prosa não ficar muito pesada, reduzo estas transcrições. Algumas, no entanto, constituem peças documentais, pelo que irei manter a sua grafia original em pequenos trechos. Exemplo:
"A doença do espírito desenvolveu-se no campo da affectividade e do instincto sexual, traduzindo-se pela inversão do sentimento e do affecto e pelo recrudescimento da vida sexual, como em diverso campo se poderia ter revelado arrastanto á pratica de outros actos que seriam egualmente de natureza pathologica"
Seriamos todos mais felizes se tivessemos continuado a escrever assim? A lingua estaria egualmente mais rica? O nosso affecto por ela seria maior? Hum.