A História reserva por vezes, à sombra das grandes figuras que ocuparam o centro do poder, destinos igualmente extraordinários. É o caso de Catarina de Áustria, filha de Joana de Castela, que a posteridade consagrou como Joana, a Louca, e de Filipe, o Belo.
Nascida no coração de uma das mais perturbadoras tragédias da realeza europeia, Catarina passou a infância e a juventude em Tordesilhas, junto da mãe, antes de se tornar rainha de Portugal pelo casamento com D. João III.
Conservo as notas de rodapé, necessárias à compreensão do texto, mas dispenso as referências bibliográficas, que o leitor poderá encontrar no livro.
CATARINA, INFANTA DE TORDESILHAS, RAINHA DE PORTUGAL
Isabel aprendera a amar Catarina, esta sua duplamente cunhada e prima*, que chegara a Portugal para desposar D. João III em 1525, precedida pela história assombrosa da sua vida em Tordesilhas ao lado da mãe, Joana, a Louca. A muito loura e muito branca mulher do rei de Portugal era a filha póstuma de Filipe, o Belo, arquiduque da Áustria, senhor dos Países Baixos e monarca consorte de Castela, que, ao morrer subitamente «na flor da vida», a 25 de setembro de 1507, arrastara para o túmulo o siso e a alegria da mais bela de todas as filhas de Isabel e Fernando, os Reis Católicos.
O casal encontrava-se em Burgos, Espanha, para receber a herança de Joana**, que o arquiduque Filipe partilharia ou, tal como tudo indicava, acabaria por usurpar, tornando-se o verdadeiro soberano de Castela, graças ao poder que tinha sobre a sua apaixonada mulher e o favoritismo muito evidente de que gozava por parte da nobreza e do clero castelhanos. Dezoito dias de triunfo, de festas, de celebrações a que umas calenturas, umas febres, puseram cobro. Ou o excesso de exercício, depois de uma lauta refeição. Ou demasiada água fresca, após um animado jogo de pelota. Quando Joana, que por amor ao marido já cometera várias loucuras, se viu viúva aos vinte e seis anos, pura e simplesmente enlouqueceu. Nas palavras de Prudêncio de Sandoval, «esta suprema dor e as contínuas lágrimas lhe estragam o juízo mais do que ela já o tinha alterado».
Filipe, a quem os seus servidores flamengos tinham embalsamado, jazia na Cartuxa de Miraflores, em Burgos, quando a rainha, que parecera aceitar, se não a morte, pelo menos o repouso sagrado do seu amor, mandou desenterrar o corpo. De repente, lembrava-se do desejo manifestado pelo jovem arquiduque de ser enterrado em Granada. Contra tudo e contra todos, iniciou então uma macabra viagem. Insone, presidindo um cortejo fúnebre que só se deslocava durante a noite, à luz bruxuleante de infindáveis velas e tochas, e ao som de um incessante ofício de defuntos que uma legião de clérigos entoava, Joana arrastou o cadáver insepulto do marido pelos caminhos de Castela a Velha durante os meses de um inverno rigorosíssimo, enquanto lhe germinava no ventre a última semente de Filipe, o Belo.
Só viajará de noite — explica — porque perdeu o sol da sua vida.
Viúva, órfã de mãe, com o pai, Fernando, o Católico, muito longe, por Nápoles, os filhos mais velhos em Bruxelas, grávida de Catarina, e com o pequenino D. Fernando de quatro anos junto de si — o último filho que Filipe, o Belo, chegou a conhecer —, a nova rainha de Castela estava entregue aos seus fantasmas, arrastando nesta vertigem uma corte assombrada. Quatro meses depois da morte do marido, a 14 de janeiro de 1507, em Torquemada, Joana deu à luz o sexto filho. Uma menina, batizada com o nome de Catarina (1507-1578), em memória da sua irmã preferida, Catarina de Aragão, a filha mais nova dos Reis Católicos.*
Para a jovem rainha viúva, esta é a única filha da sua vasta prole que vai crescer a seu lado.E que, primeiro no ventre da mãe, depois criança de mama, integra, juntamente com o irmão, D. Fernando (1503-1564), o préstito da mãe, que prossegue a desvairada peregrinação atrás do corpo encerrado num féretro coberto a seda e ouro, colocado numa carruagem puxada por quatro cavalos da Frísia e guardado por soldados armados até aos dentes. Sobretudo para que nenhuma mulher, nem mesmo religiosa de clausura, se pudesse aproximar dele. «Devoram-na os mesmos ciúmes que a atormentavam enquanto vivia o marido», constata melancolicamente Pedro Mártir de Anglería, bispo de Málaga, a 24 de dezembro de 1506.
[pp. 37.37]
*D.Catarina, mulher de D. João III, irmão de D. Isabel, é irmã de Carlos V, marido da imperatriz. Os quatro, D. João, D. Isabel, D. Catarina e Carlos V são filhos de irmãs, e netos de Isabel e Fernando, os Reis Católicos.
** A 26 de novembro de 1504, por morte de sua mãe, Isabel, a Católica, Joana herda a coroa de Castela
[Por morte de Fernando, o Católico, Joana virá a herdar as duas coroas, de Castela e Aragão. Carlos, que seria governador, exige o título de rei, não o retirando porém, à mãe. A partir de então, passam os dois a assinar conjuntamente os documentos oficiais, segundo ordem emitida de Bruxelas, a 21 de março de 1516. O reinado de Joana será um dos mais longos da história, pois a rainha viveu ainda mais 30 anos na clausura de Tordesilhas — mas também, sem dúvida, um dos mais patéticos. (Ver, para toda a sua biografia, Manuel Fernández Álvarez, Juana la Loca...)]


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