domingo, março 01, 2009

Nós e os outros, a propósito dos casamentos gay

Até agora, os argumentos do «Não» ao casamento gay deixam-me abismada. Um pouco mais e recorrer-se-ia ao Génesis. Espera: já se recorreu! Pela parte que me toca, nunca consegui descobrir se alguém era inteligente ou burro, decente ou canalha, solidário ou egoísta, através da sua cor de pele, religião, clube, sexo, ou orientação de género. Na verdade, já sou muito velha, e tenho uma imensa memória. A memória dos escritores. Por exemplo:
-- Cresci a ouvir chamar terroristas a pessoas que trinta anos mais tarde foram saudadas como nossos irmãos de luta e como heróis. Eram combatentes pela liberdade das suas pátrias, que eram a «nossa»: Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Principe, Timor.
-- Cresci a ouvir defender, por gente mais ou menos próxima, mais ou menos remota, a superioridade de uma raça -- qual? tanto faz, mas no caso era aquela -- em deterimento da fatalidade genética da outra. Pois se deus tinha dado tanto sol e tantas bananas aos povos daquela região do globo, na verdade dispensara-os de trabalharem os seus cérebros. Aí chegaram os outros, os da «civilização», para equilibrar as coisas. Por acaso até foi deus que os enviou.
-- Cresci a assistir à submissão de grande parte das criaturas do sexo feminino ao paradigma bíblico. Pois se até eramos o subproduto de uma parte do corpo deles!
-- Cresci a ouvir dizer que a «nossa» era a única, a melhor, a total religião. Cresci a ver, com o olhar intenso da infância, com o olhar feroz da adolescência, e com o olhar espantado da juventude, gente muito boa, gente muito má, e gente banal ou excepcional, ao leme dos seus destinos.
-- Cresci ainda mais e, mergulhando no rio do tempo, percebi linhas de força aterradoras a nortear o poder subjacente aos destinos da casa de deus. E vi que Deus, o «meu» Deus, que aprendi a amar e tento guardar nos caminhos de cá, não morava ali.
-- Cresci cresci cresci e na tentativa de me manter criança, procuro guardar a inocência do olhar que não julga, nao mede, não fecha o coração ao coração dos outros. E depois, cansada de não encontrar deus em clubes restrictos povoados de hipócritas, encontrei este lema na essência das religiões quase todas. Não digo todas, porque não as conheço. Mas também vi que quase todas o perderam na estrutura temporal da sua vaidade e obsessão de poder.
-- Cresci a ouvir falar de decência e moral. Os pregadores -- de todos os sexos e de vários credos -- gritam muito alto, e cobrem-se de véus que facilmente se rasgam. Por baixo deles, estão invariavelmente nus. E cheios de feridas indecentes.
Cresci tanto que abandonei o «rebanho. Pensei: se deus quisesse que fossemos ovelhas ou vacas, ou animais que precisam de pastores, não nos dava cordas vocais sofisticadas -- para dizer muuuuuuuuu ou béeeeeeeeee -- intelecto, e um cerebro poderosíssimo do qual usamos uma minúscula parte. Além de que pastores e rebanhos é a velha história que termina no matadouro municipal ou na matança da aldeia. Não é uma relação em pé de igualdade.
Cresci ainda mais, e começei a navegar no rio do tempo.
Muitos mais véus se rasgaram. Senti-me muito só.
Mas muito muito livre. Graças a Deus.
--

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

terça-feira, fevereiro 24, 2009

«Doida não e não!»

A voz de Maria Adelaide Coelho está de novo a fazer-se ouvir pelo país todo. O DN publicou um artigo da Fernanda Câncio, que na sua «mesa de montagem» mental cruzou a leitura atentíssima do livro com a conversa de quase duas horas que tivemos. Fica um extracto e link para o artigo completo:
"Quis fazer justiça a uma mulher extraordinária" FERNANDA CÂNCIO
«Manuela Gonzaga. Jornalista grande parte da vida, 'passou-se' há nove anos para o lado dos livros. A apaixonante (e apaixonada) história de Maria Adelaide é o seu sétimo livro. Uma biografia apaixonante e apaixonada que revela uma heroína portuguesa A narração desta vida é também a da condição da mulher há cem anos [...]»
http://dn.sapo.pt/2009/02/21/dngente/quis_fazer_justica_a_mulher_extraord.html
Entretanto, ontem, segunda-feira, entrevista à Antena 1, programa de Ana Aranha, «À volta dos livros». Cinco minutos de grande síntese. Gosto muito da forma como ela organiza o tempo, fazendo acontecer tanta coisa em escassos minutos. Amanhã, entrevista com Dina Gusmão, Correio da Manhã. Quinta-feira, no Porto para uma agenda já bem preenchida...
Équase comovente a força desta mulher, Maria Adelaide Coelho, que nasceu no século XIX, em Lisboa, morreu a meio do século XX, no Porto, protagonizando um escandalo de enormes dimensões, e que ainda desperta tanto interesse à sua volta...

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

A capa do meu novo livro

Está finalmente na gráfica o meu novo livro que por volta de dia 20 de Fevereiro vai para as livrarias. Mais um. E de cada vez é mais dificil... Quero dizer, nesta fase em que a sua imaterialidade toma corpo e forma e nos sai das mãos, para ir fazer companhia a milhões de outros tão belos, tao decisivos, tão importantes, tão fundamentais (para quem os escreveu) como o nosso.
Pois é. Em todo o caso, é sempre e também uma alegria. Ele aí está!

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Biografia de Maria Adelaide Coelho

O meu próximo livro está quase a sair. É biografia de Maria Adelaide Coelho, filha mais velha e herdeira de Eduardo Coelho, fundador e co-proprietário do Diário de Notícias.
A história, tal como lhe peguei, começa a meio, mas este «meio» é um principio: aos 48 anos de idade, Maria Adelaide abandona uma vida luxuosa e muito cosmopolita, um marido a quem já não ama, e que, segundo ela, mostrava pagar-lhe na mesma moeda, e ...foge com o motorista de 26 anos. Troca assim um magnífico palácio -- São Vicente -- por um primeiro andar alugado em Santa Comba Dão. Peles, sedas, cetins, jóias, por uma saia de chita, coberta com um avental e um lenço na cabeça, «à espanhola». Um marido poeta, escritor, jornalista, por um «chauffeur».
Está apaixonada, e farta do que chama o «teatro da vida». Corre o ano de 1918... Em breve, o idílio é interrompido e Maria Adelaide é internada no Hospital Conde de Ferreira, uma instituição para alienados, no Porto...
E isto é só o começo.

domingo, janeiro 04, 2009

Homem-mouton desculpa, mas o nosso ADN está a mudar

A tentar moderar os comentários do post sobre entrevista que a Teresa de Sousa fez ao Jaime Nogueira Pinto a propósito do livro que este acabou de lançar, e do link para o artigo sobre os chineses em Angola, que também me interessa muitíssimo, acabei por mandar tudo para o lixo. E não consegui recuperar a informação. Além disso, o artigo dos chineses em Angola, desaparecia mal se linkava o blog onde ele estava. Desaparecia literalmente!
Assim, e enquanto nao recupero os links, deixo um atalho para «contos de fadas» do século XXI: O nosso DNA está a mudar. E isto é mais emocionante, ou pelo menos tanto, acho, do que os imperialismos New Age. Ora vê:
http://www.luisprada.com/Protected/dna_changes.htm
Pssst: na verdade nem percebo quase nada de ADN...

sábado, janeiro 03, 2009

Quinta do Lago Silencioso


2009 não podia começar melhor: voltámos a Aljezur. À Quinta do Lago Silencioso, agora cheio de patos mergulhões, e com as carpas escondidas no fundo do lago, à espera de dias mais quentes. Tão perto desta praia belíssima em qualquer parte do ano.