domingo, junho 20, 2010

Terra

Somos filhas da Mãe Antiga
Erguemo-nos do pó dos seus braços negros
e dançamos
Cobertas de flores e de frutos
Dançamos
Com os sonhos do mundo e a recordação
Das Eras e a estrelas de seis pontas
A brilhar
Na ponta de varinhas de condão

Filhas do escuro ventre
Com os nossos cães de prata e sinos
E lobos recortados no perfil dos montes
Acordamos a noite nas encruzilhadas
E dançamos
Com a Lua Nova
Filhas da Negra
Com as nossas éguas mansas
Atravessamos campos de lírios
E abrimos os braços
No regaço da Mãe

sábado, junho 19, 2010

José Saramago

A notícia da sua morte corre o mundo inteiro. As cinzas vêm a caminho de Portugal. Morreu um Escritor. E há uma incontornável tristeza que nos toca a todos, a uns mais do que a outros. A sua obra deixa marca indelével no mundo, e honra-nos particularmente a todos nós, da Portuguesa Língua, nas suas diferentes sonoridades e declinações. Inevitavelmente, nesta hora, recordam-se também as suas polémicas. Mas para lá da poeira dos dias onde flutuam pequenos rancores destinados ao olvido, e acima de tudo «morreu o último intelectual do povo», como disse o Rui, ontem à noite, quando falávamos dele. Ficam os livros, que não morrem. E a memória depurada do único Nobel português de literatura. Caramba, não é pouco.

sexta-feira, junho 18, 2010

Livro, procura-se

Era um livro grande e muito antigo. Séculos de pó cobriam-lhe a capa e as lombadas. Quando desfolhava as suas páginas, as palavras cresciam no ar à nossa volta, tomavam forma e vida e acompanhavam-me até adormecer. Acho que, de algum modo, me acompanhavam também durante uma parte do sono, mas isso não posso garantir, porque me não lembro.
Era um livro que, de tanto o folhear, se transformou num hábito e numa presença imprescindível. Eu bebia-lhe as palavras e ele alimentava-se de mim.
Era intenso e acompanhava-me há quase dois anos.
Só faltava mesmo escrevê-lo.
Entretanto perdi-o. Não se se o perdi para sempre, ou se, pelo contrário, a nossa separação é transitória.
Mas enquanto não souber, tenho de continuar a procurá-lo, sem descanso. Nessa procura, encontrei outro que dormia há oito anos num ficheiro escondido numa antiga memória de computador. Sobreviveu, escondido, à morte de três laps. Agora, leio e releio as suas 100 e muitas páginas e não sei por onde ele me queria levar. Trabalho às apalpadelas, abrindo caminho entre frases e capítulos, sem descortinar o caminho que deveriam seguir, a tentar decifrar a sua alma secreta, com sentimentos contraditórios de encanto, espanto e melancolia.
Os livros são muito misteriosos.

domingo, junho 06, 2010

Baby blues, ou mais uma aventura do André terminada

Já sei o que está acontecer. O nome em inglês é mais bonito do que em português: baby blues. Acontece sempre que acabo um livro. Esta madrugada acordei e bingo!! Aí está a explicação para esta recente onda de nostalgia que os meus escassos posts ilustram minimamente. Tenho de acrescentar a estas manifestações, uma irritação latente (oh, que falta de paciência para quem não sabe ouvir!!), e uma necessidade enorme de estar sozinha. A remoer em coisa nenhuma, enquanto trato de arrumações e trocas de roupas, o Inverno a ceder o lugar ao Verão nos armários.
Pois é, acabei mais uma aventura do André. Andei a correr atrás deste puto durante os últimos quatro meses. Houve alturas em que pensei «e agora? Como é que ele se livra desta embrulhada toda?». Deitava-me, dormia, acordava e a solução lá estava. Contudo, por muito remota que fosse, a ideia de ter de «reescrever» a trama da história chegou a passar-me pela cabeça, de tal forna me parecia improvavel, por vezes, que o André (e todos os outros envolvidos na história) conseguissem chegar a bom porto.
E agora, acabou. Quero dizer, a parte da escrita. Começa outra. Um livro tem muito que se lhe diga.

sábado, junho 05, 2010

Andorinha


Não foi uma época feliz. Estava, uma vez mais, em trânsito. Num porto de abrigo. No Porto. A canção habitou esses longuíssimos dias, que agora, revendo o calendário, pouco mais foram do que uma Primavera e um Verão. Houve muito sol e bastante calor durante o exílio. Alguns ombros amigos. Pequenos, grandes reencontros.
E andorinhas.
O tempo assentou dores e poeiras, e esculpiu as memórias, escavando-as até ao recorte álgido de umas antiquíssimas paredes de granito, emolduradas por limoeiros e laranjeiras, com o Douro em frente.

quarta-feira, junho 02, 2010

Bishop says Hell was invented by the Church Video

Bishop says Hell was invented by the Church Video.
Curioso, partindo do núcleo duro. Em todo o caso, e tal como em relação ao Purgatório, é historicamente possível, e humanamente muito esclarecedor, traçar a génese do conceito, e a sua evolução ao longo dos milénios. A geografia é vector a tomar em linha de conta. E, obviamente, as migrações.
O facto é que o «inferno» tem mudado muito conforme as épocas e as instituições políticas e sociais que o enquadram.

segunda-feira, maio 31, 2010

Já sei porque te foste embora

No mundo que percorro na tua ausência, encontro muitas vezes a marca dos teus passos de quando atravessavas dias resplandecentes como quem cruza ondas de incerta luz, o corpo gotejante a sair do mar do tempo.
Depois vieram as sombras.
Os silêncios.
As ausências.
O braço que empunhava a lança, perdeu o alento e passou a apontar o pó dos caminhos, sempre enredados e tão iguais. Também costumavas referir o barco encalhado numa praia do Sul, as velas rasgadas numa longuíssima tempestade. Mas o teu corpo moreno e gasto não era da natureza daqueles que jazem, abandonados pela areia à espera de correntes que os prendam ou dissolvam.
Nesses tempos, falavas de uma Viagem que perdera o encanto breve. E usavas a palavra saudade para falar de outras coisas.
Mas o que sei é que te foste embora porque não eras de cá. Tu, e todos os Estrangeiros, sabem muito bem do que falo.
Por isso nos reconhecemos desde a primeira hora. Também gostavas de dizer que o nosso fora um encontro agendado num rodapé da eternidade. Mas dessas coisas eu nada sei.