quarta-feira, janeiro 04, 2012

2012 versão solar



se houve chuva de estrelas, não as vi cair.
o sol continua a brilhar durante o dia todo.
à noite um passeio breve junto do lago, tão misterioso e tão escuro. As estrelas que andam pelo céu parecem firmemente pregadas no veludo negro do firmamento. Gosto de as situar no desenho perfeito das constelações.
quando estou longe daqui, é dos perfumes da serra e do mar e dos silèncios musicais que sinto mais falta.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

2012 sessão inaugural




Como contas os dias? Pelo calendário gregoriano, pelo calendário maia, pelos batimentos cardíacos, pelas cruzes no papel da parede gasta, pelo relógio digital, pela memória de outros dias?

Oh, eu não conto essas coisa, disse ele. Os dias bebo-os e como-os. Deixo que se dissolvam na boca e na pele, mastigo-os segundo a segundo. E depois  embriago-me da vida que me trazem.

Dizes isso porque és louco, certo?, perguntou ela.

Claro. De outro modo, como poderia estar aqui a falar contigo, se tu não existes?

Ohoh! - o riso dela lembrava sinos de prata em pescoço de cabras selvagens - se fosse a ti não estava tão seguro. Além disso, combinámos que desta vez era eu que te inventava a ti.

Depois o mar cresceu muito depressa e engoliu-os aos dois.
E esta era uma história que se contava às crianças, nas noites sem lua, para lhes ensinar que coisa era  o medo. Acontece que a maior parte delas adormecia a rir.

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Petição Legislação para os animais de companhia

Do corpo da lei para a vida real. Do papel para o terreno. A legislação é um passo fundamental. A mudança de mentalidades leva mais tempo. Por isso a nossa voz, o nosso rosto, os testemunhos, são tão importantes nesta fase.


Petição Legislação para os animais de companhia

quarta-feira, dezembro 14, 2011

A minha rainha

aproxima-se do fim do seu curto tempo de vida. Procuro acima de tudo ser-lhe fiel, seguindo-a por palácios ou casarões, caminhos de lama ou de pó, e entender tempos e modos que nos são tão estranhos. Nela admiro a fortaleza com que cumpre tarefas que nunca desejou para si, mesmo quando estas implicam o reforço da sua majestade, e o aumento desmedido do seu poder. Esse poder que ela nunca quis, mas que encara como uma obrigação. O que ela sempre quis, foi o marido a seu lado mas teve-o tão pouco tempo junto de si ela que o amava antes de o conhecer, e levou essa adoração para a tumba. Em essência, amar no século XVI não é diferente de amar noutro tempo qualquer.

domingo, dezembro 11, 2011

Os reféns

Numa biografia histórica, em que a margem de liberdade de escrita é tão exigua, há outros recreios. Como por exemplo este, de ver chegado ao fim o cativeiro de duas crianças, filhas de um rei, reféns de outro. Um pequeno extracto relativo ao fim do seu cativeiro:

«Vordin descrevia-lhe que encontrara o delfim de França e o duque de Orleães andrajosamente vestidos, sentados nuns banquinhos de pedra, junto de uma janela gradeada, por dentro e por fora, por grossas barras de ferro. Não havia um único tapete no chão, uma única tapeçaria nas paredes, a criar um certo conforto, naturalmente negado a grandes criminosos que seguramente os meninos não eram, e os infantes passavam os dias fechados nessa masmorra gelada, de paredes grossíssimas, onde a pouca luz do dia entrava pela janela alta, que apenas deixava ver uma nesga do céu.»

quarta-feira, dezembro 07, 2011

eu sei que eu vou-te amar

por toda a minha vida e para além da vida de nós dois mesmo que me esqueça de ti mesmo que não te recordes de mim porque amar é na sua essência uma plenitude feita de abraços de luz e a luz comunga a mesma existência essencial no aqui agora da eternidade.

Disse ela.

Ele abanou a cabeça incrédulo e maravilhado. Perdera o sentido da frase aí por volta da sétima palavra, mas deixara-se, como de costume, embalar na cabala fonética das suas lengalengas. Respirou fundo, e tocou-lhe a face com a boca e respirou pela boca dela até os dois ficarem sem ar. Então percebeu que ela aguardava uma resposta e murmurou também te amo, na luz e na forma e no desejo. Quero-te tanto. Tanto.

Disse ele.

Depois percebeu que estava a acordar e segurou-lhe na mão. Depressa. Diz-me onde te posso encontrar. E quando. E como saberei que és tu.

Disse ela.

Mas nessa altura percebeu que estava só. Tinha acordado. Mais uma vez.