sexta-feira, março 30, 2012

O tempo e suas armadilhas. A memória e seus alçapões.

há pedaços de mim, há pedaços de nós agarrados aos fragmentos desta música que ouço como se me chegasse de um universo paralelo onde uma de mim viveu e se calhar ainda vive. O tempo e as suas armadilhas. A memória e os seus alçapões. Era uma vez. Era.

Pink Floyd, Meddle.

quarta-feira, março 28, 2012

Temer a Deus sobre todas as coisas

Um pequeno extrato do meu próximo livro, a aproximar-se do fim:

Nessa altura, a rainha pediu-lhes que viessem os três à sua presença a beijar-lhe a mão, para desta forma lhes conhecer «o asseio exterior do corpo» e também «a composição interior de humores, que se manifestam pela respiração». Dos três saiu vencedor o mais intolerante e o menos ilustrado, Martin Silíceo, que ensinou o princpe a ler e a escrever, e a temer a Deus sobre todas as coisas, inculcando-lhe gota a gota o veneno da intolerância e do pavor. Com tamanha eficiência que, dois anos mais tarde, já se podia dizer que

«O temor a Deus nele é tão natural que, na sua idade, nunca vi tão grande.»


Que o rei tenha percebido as insuficiências deste professor, atribuindo-lhe apenas uma única qualidade, a de ser um «bom homem», e mesmo assim o tivesse mantido, é surpreendente. Respeito pelas decisões da rainha? Incapacidade de entender o domínio que o clérigo impunha de forma indelével no espírito da criança que tutelou sem barreiras, moldando-a ao sabor dos próprios medos e intransigências, ao mesmo tempo que na disciplina e nos estudos era de uma brandura excessiva?

Jamais o saberemos.








terça-feira, fevereiro 28, 2012

Ma cousine, si tu savais comme tu me manques

Isso era o que ele pensava, mas não lho dizia. Pelo menos desta maneira, embora a tratasse por «minha mui querida e amada mulher» em todas as cartas. Ás vezes, chegava a adoecer e os próprios médicos diziam que quando voltasse aos braços da amantíssima rainha sua esposa, todos os seus males, gota inclusive, desapareceriam. Mas o que ele lhe escrevia era muito diferente: havia tanta coisa a tratar, antes de poder pensar em regressos. Que coisas? Oh, o costume. Os negócios da fé, a guerra em várias frentes, as fragilidades do império sem unidade religiosa...
Era sempre a mesma desculpa. Ainda por cima, era verdadeira.

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Eu, Cláudio

Há regressos que se saúdam com a maior das alegrias. Como este livro que a Bertrand reeditou em boa hora. Lê, relê-se, de um folêgo. Apetece riscá-lo, sublinhar muitas das suas passagens, para saborear mais tarde. Leva-nos para dentro da Roma imperial da decadência, com a serenidade e a objectividade do grande historiador, e fá-lo através de uma das mais gentis figuras que a época produziu no seio da família reinante. O pobre Cláudio. O coxo, o gago, o tolo detestado pelos seus, a começar pela própria mãe, a quem as deformidades físicas horrorizam. Afinal, o culto, o inteligente Cláudio que poucos conseguem ver e que numa prodigiosa sucessão de crimes e acidentes vai ascender ao único lugar onde não queria estar. O império.

Num relato cerebral e extremamente bem fundamentado, somos conduzidos por entre o sopro das intrigas, o hálito do veneno, e a brutalidade do punhal, da espada, do chicote, enquanto assistimos à hecatombe que produz novos Césares e os diviniza. Todos os meios são lícitos. Por exemplo, o culto dos deuses e todos os rituais religiosos são excelentes instrumentos de manipulação. Mesmo os mais sagrados como os perpetrados pelas vestais. Através da Boa Deusa, a confissão permitia dominar a consciência das pecadoras e transformá-las em instrumentos perfeitos, levando-as até a matar para aliviar a sua consciência ignorando que esses crimes eram outros tantos serviços prestados às estratégias do poder.

Colocando-os à frente dos exércitos, atiravam-se para as fronteiras do império os heróis indesejados, aos quais e sem qualquer escrúpulo, se tirava a vida se acaso a sua glória ensombrasse quem manda. Através da intriga, da adulação, do medo, da corrupção, do assassínio, perpetrados de acordo com um plano inteligente e implacável, servido por uma total ausência de escrúpulos: eis os alicerces do Império, em cuja origem encontramos a mão firme de uma mulher. A mulher de César. Lívia.
A estrada da glória, que leva a Roma, é um cemitério de famílias. E o seu palácio um covil de feras.
Atento, o intelectual bobo da cesareia família, tudo vê, tudo anota e sobre tudo reflecte.
Admirável.
Robert Grave (2012) -- Eu, Cláudio, Lisboa, Bertrand Editora.


O autor, Robert Graves (1895-1985), é, em língua inglesa, um dos grandes vultos das letras do século XX. Magnífico e controverso poeta, mitógrafo, critico, editor, romancista, tradutor, permanece um peso pesado das letras e da cultura a que deu contributos imorredouros. Entre varias das suas obras, tenho cá em casa, gastos de tanto os manusear, os dois volumes da sua Mitologia Grega, ainda hoje uma referência académica, mas tão maravilhosamente acessíveis, como tudo o que escreve, numa torrencial pluralidade de registos. Para saber mais:
http://europeanhistory.about.com/od/poetrysongsofww1/a/biorgraves.htm

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

A Floresta dos lilazes

O caminho de volta da floresta dos lilazes deve cumprir-se num silêncio imaculado sobre o dorso de uma tartaruga que o cumpre passo a passo, na medida do nem mais, nem menos.
É uma estrada que cruza a solidão de meses sem nome de tempo, de horas sem medida que as defina, e de instantes que pesam eternidades, quando o destino já está tão próximo que é preciso fechar os olhos e algemar vontade para não ceder ao desejo de uma prematura e desafortunada libertação.
Da floresta dos lilazes deve regressar-se com todo o cuidado para podermos voltar sempre que nos chame.

créditos imagem: Malmequer



terça-feira, fevereiro 21, 2012

Lua Vaga II


- Conta-me de novo - pediu ele.
- É só o que te disse. Não me lembro de mais nada.
- Mesmo assim.

Estávamos a nadar num mar  tão transparente que se via a areia dourada no fundo. Não havia peixes, não havia nada. Só nós, naquelas águas profundíssimas. A certa altura pensei que voávamos. Depois percebi que estávamos a voltar à superfície.

- Diz-me mais.
- Não houve mais. Espera, lembro-me de ver o mar cá de cima como se estivesse num avião. Duas coisas me impressionaram de novo. A sua incrível transparência e a sua inconcebível profundidade.
- E nós?
- Ali não havia nós. Desculpa, é só um sonho a mudar, como as formas das nuvens.

Depois percebeu que estava, de novo, junto do Lago. Arrefecera muito, o silêncio do amanhecer encheu-se de sons, e o céu cor de anil foi cruzado pelo voo das garças. «Se ao menos soubesse qual o portal que cruzo quando te encontro» - pensou, o rosto dele a dissolver-se nos primeiros raios da manhã.

Do outro lado do tempo, ele pousou a arma na mesa baixa ao seu lado. Esperara toda a noite uma fera que nunca chegara aparecer. Era um monstro que assombrava a região. Dizia-se que comia gente. Dizia-se que era um homem que se transformava em lobo por causa de uma maldição. «Adormeci outra vez» - pensou. E tentou reter um pouco mais o calor das imagens dela, a diluirem-se no  sopro glacial do amanhecer.  Sorriu. Se dissesse a alguém que a mulher que amava vivia dentro da sua cabeça e só lhe aparecia em sonhos, não faltaria quem dissesse que a floresta o tinha efeitiçado. Depois, talvez lhe fizessem coisas piores.

Mas aqueles não eram tempos de partilhar segredos. Que sabe? Talvez um dia chegasse a descobrir onde ela vivia, se é que viviam no mesmo espaço e  no mesmo tempo.

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

O que aconteceu às revistas-cor-rosa?

A minha alma está parva. O último reduto do lalalande nacional, o paradigma da perpétua silly season, o recreio dos humildes e dos menos humildes, e dos não humildes de todo, está, também ele, tarjado de negro. O escaparate das revistas no quisque o Principe Real é um murro: a tragédia da actriz que desceu ao inferno da droga. O abuso e a violência de um rapaz que não conheço (mas deve ser porque não tenho televisão, e há anos e anos que não papo espectáculos da «vida real»). A tentativa de suicídio da filha de uma cantora célebre que morreu na flor da idade, depois de uma vida de dores inconfessadas. A ruína de um actor, e o fim de um império da moda. Eis as manchetes.  Todas, todas sem excepção, falam de dramas: mortes, abusos, violências, ruínas, fim traumático de relações, suicídios ou tentativas de, acidentes esventrados até às suas próprias autópsias. E coroam este horror com imagens em capa de gente com o ar desolado de quem está na iminência de um despejo.

A coisa vem detrás. Durante anos, uma actriz de cinema, teatro e televisão, devorada literalmente por esta última, prestou-se a uma carnificina publica que a mostrou e esgotou enquanto figura pública, ilustrando-a exaustiva e sistemáticamente, no palco de uma vida pessoal feita de dramas, tragédias, dores e psicoses. Por causa da idade, das separações, das re-ligações e novas separações. Por causa dos problemas com filhos. Por causa das separações. E da vontade de ter novos filhos. E do drama do fim dos romances. E de já não poder ter filhos por causa do drama da menopausa. E era, e é uma grande actriz, só que já não se nota. Por acaso, o drama verdadeiro é esse de que ninguém fala.

Eu penso que as pessoas que fazem essas revistas devem ter todas enlouquecido.
Ou então anda toda a gente a pensar que pode pegar na receita do Correio da Manhã (em Portugal um dos diários mais bem sucedidos em termos de vendas e implantação) e adaptá-la ao seu pequeno mundo. Mas os que gostam do género, preferem, naturalmente, o original. Para quê ficar com a cópia?

Recapitulando. As revistas cor-de-rosa deviam ser, obrigatoriamente, cor-de-rosa. Choque, sim, com laivos de lilás, e outras cores do arco-íris. Nunca com formato de uma carreta funerária empurrada por séquitos de gatos-pingados. Mas pelos vistos a psicose colectiva inundou aquele universo e não houve tempo para tomar vacinas.

Mas pensem, por amor da santinha. Para quem tem o telejornal, que importa uma mini reportagem de tragédia humana e circunscrita com fotografias desactualizadas ao fim de meia hora - é que existe uma coisa chamada internet? E que modelos de pessoas são esses que nasceram em estúdio, cresceram durante umas semanas diante de todos, num exercício de voyarismo consensual e nem sequer inocente, e cujas vidas agora se pretende transformar em paradigma? É nisto que desembocam as revistas cor-de-rosa de Portugal? Valha-nos santo Entrudo de bigodes e peruca azul.

A minha alma está para lá de parva.