sábado, abril 19, 2014

A vida secreta dos livros

Por mim, punha-as quase todas. Mas de seleção em seleção, chegámos por consenso a um apuramento, que depois, na editora, foi ultimado. Ainda não sei quantas serão, nem quantas páginas. Aguardo, na próxima semana as maquetes finais do extratexto para legendar.

Assim, o livro já fora das minhas mãos e ao cuidado de muitas outras, atentas e dedicadas, toma cada vez mais corpo e forma, mas continuo presa a ele. Até ao momento em que me chegar a encomenda dos exemplares a que tenho direito, e que eu recebo como sempre: corto o fio da embalagem, ou a fita adesiva da caixa, considerando que se trata de uma espécie de fio umbilical, e peso um dos exemplares, tomando nota da hora e do minuto a que me chega às mãos.

Se fosse uma pessoa muito organizada - e sou, mas de acordo com as omnipresentes leis do Caos - eu teria esses ficheiros organizados. De vez em quando, ao azar das arrumações encontro um. Nos sítios mais ou menos improváveis. Por exemplo, dentro das páginas de outro livro. E esse encontro com a certidão secreta da obra, quase com tema astrológico!, faz-me sorrir. E recordar que aquele momento fora uma espécie de marco da nossa separação. Na verdade, quando os livros entram nos circuitos de distribuição, e chegam as livrarias, já não são nossos. São dos leitores que eventualmente os adquirem.

A sua, dos leitores, leitura, é todo um outro filme. O filme pessoal e intransmissível que ocorre no escurinho do cinema mental de cada um. E aí, nós escritores já não mandamos nada. São os leitores que escolhem a definição maior ou menor dos cenários, os rostos e os corpos dos intérpretes, as cenas que lhes merecem mais atenção e que irão recordar. Da mesma forma que são os leitores que escolhem ler ou não ler mais, interromper a leitura, fazer intervalos grandes ou pequenos. Eventualmente, reler.  O facto deste livro vir acompanhado de fotografias, suportando aqui e além o que escrevi, não retira um átimo ao que disse.

Ler, torna-nos parte activa do processo de escrita de outrem. Ler é uma forma de criação. E nesse processo, sem sofisma, os nossos livros quando vão à vidinha deles, passam a ser de algum modo, escritos ou reescritos pelos leitores que lhes prestam atenção. Mas dessa escrita tão pessoal e singular, nunca viremos a saber nada.

Algures, no Niassa, entre Vila Cabral e o Lago, na mais remota província da então Província Ultramarina de Moçambique

 

sexta-feira, abril 18, 2014

Gabriel Garcia Márquez

Houve uma época em que li tantas vezes O Outono do Patriarca que o esfrangalhei literalmente em cadernos mal colados que ainda hoje conservo e releio com paixão. Numa forma de escrever completamente nova, pelo menos para mim, Gabriel García Márquez leva-nos ao universo fantástico de um ditador senil. Podia ser qualquer um dos ditadores que conhecíamos ou poderíamos ter conhecido porque o universo destes seres é matricial na sua alucinante solidão. É sempre uma realidade irreal, povoada de espelhos áulicos onde tudo parece orbitar à volta de «quem tudo pode e tudo manda». Mas o Patriarca de Márquez, que acabava por vender o mar do Caribe aos americanos, e que mandara reescrever toda a história de forma a divinizar a sua pobre mãe, que o gerara de um estranho a quem o ditador nunca pode chamar pai, é um ser produzido numa paisagem singular. E num momento histórico muito especifico. Realidade ficcionada, ficção real. Prodigiosa alquimia verbal. Uma obra prima.

Pouco antes, e estamos a falar dos anos 80, com Cem Anos de Solidão eu entrara em êxtase. É um romance fundador. Um pilar da literatura, que já foi considerada a mais importante obra escrita em língua hispânica depois de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Um sucesso absoluto com mais de 50 milhões de exemplares vendidos. Um clássico da literatura mundial. Uma epifania literária.

Li todos os livros dele, mas estes são, para mim, os imortais do imortal que Gabriel Garcia Márquez. Releio-os sempre, como se fosse a primeira vez. Venerando-os, palavra por palavra, palavra de honra. Por outro lado, o homem é quase tão grande quanto a sua obra. Jornalista, escritor, activista político, Gabriel García Márquez, um pisciano de 6 de Março de 1927 nasceu na Colômbia, em Aracata e bebeu na infância o riquíssimo leite mágico da literatura oral. O seu avó, veterano da Guerra dos Mil Dias, contou-lhe as histórias que tanto influenciaram suas obras literárias a par da paisagem exuberante das terras onde nasceu e cresceu.

Viajante, menino, adolescente e velho em todas as suas idades, o criador do realismo mágico viveu intensamente os seus dias e deixa um testemunho imorredoiro. Comove-me particularmente, esta sua partida. A mim e a milhões de leitores seus. Avessa a prosas fúnebres, a elogios tumulares, acho que lhe fizemos durante a vida a única homenagem a que um autor é sensível. Lemo-lo.


Acrescento uma nota muito pessoal. Este último Verão ele ajudou-me tanto. Eu estava uma pilha de nervos por causa de uma obra que começara por ser uma coletânea de memórias para ajudar a memória da minha mãe às voltas com os tormentos do olvido. A pedido dela e depois com a total concordância e incentivo do meu editor, essas pequenas narrativas sem pretensões tinham acabado por ser transformadas no livro que, ora com entusiasmo, ora com muito medo, eu estava a escrever.

E foi então que numa casa de campo com tudo o que o uma casa de campo tem para sermos felizes, livros por exemplo, encontrei Viver para Contá-la. É, evidentemente, uma obra maior, o «romance de uma vida» como lhe chamam, um guia de viagem ao universo fabuloso da vida e da obra de Garcia Márquez. Deslumbrada, segui-o em leitura compulsiva até aos confins da memória, da dele.  A sua narrativa acalmou os meus medos. Não por termo de comparação, ou por uma pretensão qualquer desse género. Mas pela serenidade, pela modéstia, pela generosidade com que o escritor partilhou a sua singularíssima história de vida, alicerce de toda uma obra e que me serviu de farol e estrela guia. Não reli, para não me colar à sua escrita única. Irei, mais tarde, fazê-lo, para saborear uma obra que devorei e merece a pura fruição.

Entretanto, recomecei a minha escrita com novo alento.

Agora, dizer da alegria, da riqueza, que este homem, este escritor, prémio Nobel da Literatura 1982, trouxe às nossas vidas, é tarefa impossível.  Amemo-lo, honremo-lo e saudemo-lo à nossa maneira. Lendo os seus livros e fazendo com que os seus livros sejam lidos pelas gerações mais jovens. É a maneira de nunca o deixarmos morrer.

Deixo o link para um artigo que me sensibilizou particularmente. Primeiro porque é muito bem escrito. Depois porque é muito rico, na sua abordagem. E depois porque é muito completo. E tem magnificas ilustrações. Na excelente Revista Bula, assinado pelo escritor Salatiel Soares Carreira, uma imperdível homenagem: Cem Anos de Solidao, o livro que criou uma geração de leitores.




 

terça-feira, abril 01, 2014

Moçambique o regresso

Quando me perguntam se tenho saudades, respondo sempre que não. Alias, o conceito é-me bastante estranho. Mas guardo e guardarei sempre, enquanto a memória me assistir, o calor e a beleza desmedida dos momentos privilegiados que ali vivi. Foram bons, todos eles, mesmo quando foram menos bons. Dito de outra maneira. Moçambique ficou-me na alma, entranhou-se-me no corpo, está no meu respirar. A gratidão por ter conhecido e por amar aquela Terra Mãe é o sentimento que prevalece. Como prevalece o meu amor, a minha paixão por Angola, outro privilégio do meu viver.
 
Esta nota, é um detalhe. Um mero detalhe: não fui rica, não ganhei fortunas quando ali vivi, quando ali vivemos. Ganhei, ganhámos muito mais do que isso. O quê? Não têm preço, nem rótulo, nem nome.
 
Há muitas coisas que dinheiro algum consegue comprar. Chamam-se Vida, e a vida  tem muitas declinações. Ás vezes até dói. Ás vezes é bom que magoe. É sinal que.
É sinal.
 
O meu novo livro, é para lá que me leva. Para Moçambique.
 
 
 

sábado, março 15, 2014

A persistência da memória

O passado é um baú de momentos, todos à mesma distância. O passado é um monte de fotografias cronologicamente desordenadas, onde crianças e velhos, vivos e mortos, jovens apaixonados, casais tranquilos e pessoas com sorrisos efémeros coexistem sem se tocarem testemunhando a passagem pelos seus tempos múltiplos. Umas não nos dizem nada outras dizem-nos tanto. Depois vêm as legendas, ou a ausência delas. A memória é um baú de histórias à espera de serem contadas.

Salvador Dalí (1904-1989), A Persistência da Memória, 1931. Óleo sobre tela
Museu de Arte Moderna , Nova Iorqye
 

quinta-feira, março 13, 2014

O meu novo livro vai ser lançado em Junho

Entreguei ontem ao meu editor e amigo, Eduardo Boavida, o documento do novo livro. Não se pode falar em manuscrito, porque não é escrito à mão. Aliás,  nem sequer é entregue em mão - seguiu por email. Felizmente! Se tivesse de escrevê-lo à moda antiga, com as leituras, releituras, emendas e acrescentos que todos os meus trabalhos registam, precisava de, pelo menos, o triplo do tempo para concluir cada um deles.

E isto coloca-me na doce situação de férias mentais. Nunca duram muito tempo. Os meus livros em fila de espera já estão de braço no ar tipo «me! me! me!». Tenho várias ideias e estou curiosa por saber qual deles se vai sobrepor aos outros. Desisti de fazer planos nessa direcção. Quando acabei de escrever a biografia de António Variações - Entre Braga e Nova Iorque, jurei para mim mesma que «biografias nunca mais».

Foi então que Maria Adelaide Coelho da Cunha entrou na minha vida: dois anos de trabalho intenso que me deu muito prazer, mas que, no final me levou a jurar: «biografias, nunca mais!».

E então apareceu Imperatriz Isabel de Portugal. Cinco séculos de silêncio quase total à sua volta e um grande fascínio por esta figura já me tinham levado ao longo dos anos, oito, a  muita recolha bibliográfica. Mas era «um projecto para daqui muito tempo». Pensava eu. Ela não quis. Ela atropelou todos os outros livros e foram três anos a viver para e com ela. No fim, repeti: «biografias? Nunca mais!!».

O que me leva ao próximo livro, que vai ser lançado em Junho e de que em breve darei mais detalhes. Não é uma biografia, mas anda por lá muito perto. Mas agora afirmo mais convicta do que nunca: «Acabou!!».

Adorei todos estes livros e tudo o que eles me deram. Mas também sei que não me deram alternativa: a minha agenda foi marcada por eles. São os livros que mandam em mim e confirmo-o a todo o momento. Desta vez, estou segura, vou levar a minha avante. O próximo, der por onde der, vai ser romance. Quero correr atrás de personagens que correm mais do que eu. Quer ser surpreendida. Quero voar sem amarras. Como tenho dois ou três projectos destes, embrionariamente a puxarem-me para os seus mágicos territórios, um deles será.



 Nota: no meio destas biografias, houve vários voos maravilhosos. Estão todos na coleção 'O Mundo de André'. Três livros - André e a Esfera Mágica; André e o Lago do Tempo; André e o Segredo dos Labirintos; onde a aventura foi total, plena e sempre surpreendente para mim, como autora. Um novo André está na calha. Ele também não quer esperar mais.  

sábado, março 08, 2014

Dia da mulher

Todos os dias são meus e  todas as noites são o que eu for a dormir porque o tempo do sonho e o tempo da vigília são o tempo nosso. Ao segundo, ao instante. Sempre que acordamos.


Feliz o dia das pessoas que são pessoas todos os dias.


segunda-feira, fevereiro 17, 2014

Os nossos dias de ontem

To my mummy who forgot all about yesterday.

A memória é uma mala desarrumada, uma arca de tesouros à mistura com muita tralha e pesos úteis, inúteis e todas todas todas as roupas e as máscaras das emoções usadas e gravadas nos sentidos, com sabor aos dias de ontem.

A memória é esse perfume projectado como uma aura no espelho do agora. A memória é uma arca onde, às vezes, os pequenos roedores do tempo fazem tanto dano que inexoravelmente o seu lastro se perde.

É então que a vemos flutuar à nossa volta como uma mortalha esfarrapada por onde as palavras, ao passarem, assobiam velhas canções e histórias de era uma vez com as cronologias todas trocadas numa música que acorda um infinito cansaço vestido com as roupas da tristeza.


H. Bullock Webster, Old memories - Longbeach -- Canterbury (1881)