quinta-feira, julho 10, 2014

'A roda de trás a andar p'rá frente!'

Vila Cabral, 1963-1964. As ruas eram de terra batida. Por vezes, muitas vezes, o piso tornava-se tremendamente irregular. Mesmo assim, andávamos por ali, à maluca, de bicicleta. Aos doze anos, a caminho dos treze, apesar das aulas de dança de salão com o professor que a minha mãe me arranjou, e do colarzinho de pérolas rente ao pescoço para as ocasiões especiais, eu era, ainda, a criança que saltava ao eixo nos cogumelos de metal do jardim da Pousada e a quem a atenção masculina deixava terrivelmente embaraçada.

Vila Cabral, desfile de tropas junto ao quartel
(início da década de 60)

Os soldados, por exemplo. Passavam em grupo, a falarem entre si, rindo abertamente enquanto atiravam piropos, no ir e vir do quartel. Uma vez, um deles, numa voz de urgência aflita, gritou-me quando eu passei pelo grupo, a pedalar cheia de energia:

- Ó menina, ó menina!! Olhe a roda de trás a andar para a frente!!

Sem deixar de pedalar, olhei instintivamente para trás, para perceber o que se passava com a roda, perdendo de vista o buraco que se apresentava à minha frente, onde nós, eu e a bicicleta, nos enfiámos num grande aparato, saudado pelas gargalhadas dos rapazes do camuflado.

A roda entortou, os joelhos ficaram esfolados, e a minha dignidade cobriu-se de matope. A pé, com a bicicleta à rédea, que é como quem diz, voltei para casa por aquela rua interminável, seguida pelo risos deles, a engolir a minha raiva, juntamente com lágrimas que jamais deixaria aflorarem o meu rosto em chamas. Naquele momento, odiei-os. O facto é que só gostava mesmo dos soldados em abstracto. Como quando os víamos passar em coluna rumo aos matos da guerra, para tratarem do assunto da nossa paz.

(Esta pequeno episódio não consta do livro, porque se fosse a contar tudo o que me lembro, nem mil páginas não chegavam e nenhum leitor merece).
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