sexta-feira, setembro 26, 2008

Quand vient la fin de l'été




O calor fica diferente, a luz fica diferente, o cheiro é outro, os pássaros têm novas canções, o dia acaba mais depressa, muito mais depressa, as formigas organizam-se em exércitos e levam os dias a carregar sementes enormes para dentro das suas secretas cidades, o telefone chama de outra maneira, as conversas começam ou acabam sempre com "quando é que voltas?", os emails do poderoso e mágico círculo dos afectos vêm enfeitados de cintilantes solicitações, mesmo que não nos digam respeito, há noticias que furam a campânula dourada que nos preservou durante três semanas dos ecos estridentes das tragédias todas, próximas e remotas, dos medos colectivos e da ameaça brutal do fim do mundo das economias podres, e os pés já sabem que vão voltar à escravidão do sapato.
Essa é que é essa.

sexta-feira, setembro 12, 2008

Os pés no chão em terra viva

Leio. E releio, por exemplo, Oliver Twist, que comprei numa Loja de Caridade aqui em Aljezur de onde também trouxe Shark Dialogues, de Kiana Davenport. Não sei quem é, mas chamou-me a atenção. Ou As Palavras e as Coisas, de Foucault. Céus, é denso de cortar a respiração. Precisamos de capacete e picareta para conseguir entrar, como nas obras, mas compensa. Até porque faz parte da minha "dieta" académica por vários motivos. Além disso, leio e releio as memórias da "minha" Adelaide, cuja biografia vai bem avançada, bem como uma porção de documentos e processos que lhe estão associados e que vieram comigo dentro de num grande cesto de plástico, com asas. Enfim, um belo sortido de géneros. Sem contar com jornais. E, uma vez por outra, as inevitáveis revistas do coração.
Entretanto há peixes no lago. Damos-lhes as sobras de pão do pequeno almoço. As grandes carpas vêm das águas escuras do fundo, e saltam agitando a superficie do lago, disputando entre si as codeas. Os minusculos peixes das margens, que comem as larvas dos mosquitos, organizam-se em constelações frenéticas em torno de migalhas. Ultimamente uma familia de patos mergulhões veio viver para aqui em carácter permanente. Ficam a nadar, no meio do lago. Se viermos embora aproximam-se e também disputam este festim. Pode-se ficar muito tempo nesta actividade, sem dar pelo tempo a passar. Há três semanas que não vemos televisão. Zero, nikles. Só uma vez em Monchique, porque o restaurante onde almoçámos tinha écrans por todo o lado. Muitas pessoas mastigavam em silêncio, olhando por cima dos ombros dos parceiros, para o que acontecia no mundo. Fazia muita impressão.

Tempo para ler... The Company

Ele lê. Um tijolão de um livro de mil e tal páginas. Deve ser muito interessante, porque o "tijolo" anda connosco para todo o lado. A saber, Robert Littell, The Company. Esta obra está para a CIA como O Padrinho, de Mario Puzzo está para a Mafia. Muito bem escrita, muito bem documentada, e muito absorvente... Diz ele. Acredito. Em meia dúzia de dias já vai a meio da obra. É obra.

quarta-feira, setembro 10, 2008

Quinta do Lago Silencioso

O lago fica em frente deste terraço. Tem peixes, sim. O som deste silêncio é uma música feita de conversas de pássaros, zumbido de insectos, aragem nos canaviais. O cavalo de oito anos, mais a sua carroça e os caixotes de livros, desapareceu dos meus sonhos. As noites são densas, de repouso total. Este é provavelmente o local mais zen onde estive nos últimos tempos alargados. Começamos a habituar-nos a respirar esta paz. Praias a poucos quilómetros.
O lago é silencioso. O tempo parou.
http://www.quintadolagosilencioso.com/quinta.html

terça-feira, setembro 09, 2008

Por uma carroça de livros

Este cavalo tem oito anos e está a puxar uma carroça no meio do trânsito. A carroça tem caixotes e mais caixotes. Cheios de livros. O homem insensível está a carregar a carroça, sem contemplações. Ele tem um sorriso mau. O pequeno cavalo olha-me assustado. Meto-me no trânsito e desato a berrar contra o homem, mas o homem ri-se e puxa a carroça para sitios da estrada onde não consigo chegar, e eu no meio de riquexós e porshes, quase fico esborrachadinha. "Vocês não podem permitir isto!", grito para os condutores e para os transeuntes. Acordo a discutir, em inglês, com um casal de turistas, esparramados num riqxó, que olham embevecidos, e dizem que é tudo tão deliciosamente typical. Inclusivé uma mulher, eu, aos berros no meio do trânsito de uma cidade que parece um cruzamento entre o Rio de Janeiro e Nova Iorque, com um toque de Bombaim, por causa de um cavalo assustado a puxar uma carroça cheia de caixotes cheios de livros.
Resultado: larguei tudo e vim apanhar sol e dormir, e passear no campo. Estamos no Algarve, perto de Aljezur.
Mas na primeira noite:Martinhal. Fomos os últimos hóspedes. Em poucos dias vão demolir os pequenos apartamentos em frente da praia. Em dois anos, naquela paisagem de sonho, vai surgir um hotel pequeno. O projecto é muito bonito. Sagres é que não. É uma terra desolada.

terça-feira, agosto 12, 2008

Era uma vez muita gente

Era uma vez muita gente que emergiu do ilimitado mar das probabilidades, lá onde mora o gato na sua caixa com dois furos, para o esquisso de uma sala que o pintor ele encontrou, resgatando assim criaturas espantadas e hirtas, sangrando amarelos, encarnados, azuis e ocres, por cadeiras, sofás e longos reposteiros, um tapete grande, sim, e um lustre de cristal pendurado no tecto. Muita gente estava calada, no silêncio atroz da música opaca das suas pequenas conversas, a que três holoférnicas cabeças prestavam atenção discreta, enquanto o rato-pessoa e a pequena raposa-babu, muito bem vestidos, olhavam para o pintor ele. Tinham vindo todos agarrados ao esboço dos móveis Olaio e chegaram à tela quase ao mesmo tempo. Havia tantos. Um deles ainda jorrava pequenas cabeças da sua própria grande cabeça. Era o pancreator. Ao lado, a sua estática consorte. Depois, o pintor ele fechou o portal. Em todo o caso, derramou muitas cores para que muita gente ficasse viva. Os animais também. As cabeças cortadas também. Um dia chamou o escritor ela para que os visse. “Para mim, isto é o salão. Não é uma festa, é um encontro.” Explicou. O escritor ela respondeu: “muita gente está aqui”. Depois perguntou-lhe pelas cabeças sobre a bandeja. Depois quis saber do rato-pessoa e da raposa-babu, porque lhe pareceu que estes últimos eram o ponto de partida do jogo, e as três primeiras, as testemunhas do drama. Não por terem sido cortadas – pareciam bem tranquilas em relação a esse facto – mas porque muita gente não conseguia sair. Depois disse-lhe: este salão é uma armadilha. Muita gente ficou presa nela.
Se o pintor ele já o sabia, calou-se. É que depois houve um cavalo. O cavalo. Tinha asas. Também estava preso no último andar, mesmo por cima do salão. Muita gente o ouvia a bater os cascos de ouro no chão de madeira corrida. Impaciente e desesperado. Mas ninguém ousava abrir-lhe a porta. A quimera alada traz a maldição do interdito. Arrasta o seu ousado libertador para lugares onde a realidade muda a todos os instantes, rasgando no seu voo abrupto o delicado equilíbrio entre as onze dimensões. O pintor ele disse: é preciso uma alma forte? É que eu não tenho medo do escuro, mas o escritor ela respondeu: o mais importante é uma atenção sem falhas na fluidez desses espaços onde o tempo deixa de existir, deus sabe como isso pode ser cansativo. Se não o quê? O cavalo larga o cavaleiro e o cavaleiro perde-se. Ah, sim? Sim. E depois? Depois, como encontrar o caminho de volta num mundo sempre a mudar de forma, e onde o tempo não conta para nada? Pois é exactamente por isso – disse o pintor ele – que abri a porta ao cavalo. E depois? Só tive tempo de dizer I want to go with you. A seguir, a chave caiu-lhe da mão, toda manchada de verde, num campo de flores, mas o formidável coice que recebeu nos rins doeu-lhe muito menos do que todos aqueles beijos que lhe partiram o coração. Isso foi o que disse o pintor ele. De modo que em tudo isto há uma viagem e um desígnio muito misteriosos. O tecido da realidade foi rasgado e estas telas provam-no. Há outros testemunhos, mas são do reino do indizível. Como as cordas vibrantes e sonoras, filamentos neuronais do cosmos, que manifestamente ligam todos os seres em Constelações. Ou como estes peixes que nadam sob montanhas cor-de-rosa – onde emerge a árvore – sobre as quais voam os pássaros em que aqueles se vão transformar. Ou será ao contrário? No fim, todos se encontram no mesmo delírio de uma meditação búdica, ela própria a divagação da mente atenta, acordada e lúcida. Algo a que andy and evelyne before eating an apple pie, na floresta edénica, com pássaros voando sobre os seus rostos estáticos, não são alheios: muita gente rodeia-os. É o friso fatal das descendências. No fim da viagem, o pintor ele soube reconhecer que estava perdido. O cavalo fora-se. Em todo o caso, já não precisavam um do outro. Como é evidente, os registos tinham mudado. Já não havia salão, mas uma sala de banquete. Muita gente tinha-se ido embora. Só restavam os animais. Lewis Carroll conhece alguns deles. E não se falava de corações partidos, mas de ressacas pós românticas, um eufemismo para “euforia disfarçada”. Tudo podia acontecer. De novo. O pintor ele cavalgara a imensa flecha do êxtase.
Manuela Gonzaga,
texto do catálogo de Ivo Moreira, Agosto 2008

segunda-feira, agosto 11, 2008

I WANT TO GO WITH YOU

Nova exposição do Ivo Moreira. Descrevo-a, nas palavras do pintor:
"[...] selecção de nove pinturas de grande formato, a acrílico e a óleo, executadas
ao longo de três anos ( 2006-2008 ).
Estas telas reflectem diferentes vibrações, lugares, estados de espírito, estando unidas por um mesmo fio condutor: a procura, a predisposição para partilhar as vivências do mundo com uma alma gémea não identificada; um convite para partir à aventura por paisagens ora mundanas, ora celestiais, oníricas, ou até mesmo humorísticas, mas todas elas parte de um mesmo caminho. Um caminho que é sempre solitário, tortuoso, pleno de dúvidas, mas também de paz, satisfação e encantamento e que, desta vez, culmina finalmente nesta mostra, encerrando um ciclo, tornando-se
público." Ivo Moreira

Para download do catalogo:
http://www.yousendit.com/download/Q01IZGVaQk5WRDljR0E9PQ
A inauguração dia 12 de Agosto, pelas 21 horas na Sala do Veado do Museu Nacional de História Natural.