terça-feira, janeiro 17, 2012

no meu coraçao há mundos paralelos

e eu amo pessoas que nunca vi. Gente que não é do meu espaço-tempo e nem sabe o amor que lhe tenho. Como poderia contar as suas vidas se não fosse assim? Amo mesmo os que detesto, porque incomodam ou desgostam ou traem os outros de quem me ocupo, mas são parte do seu todo. Para mim, ainda vivem, nessas narrativas que de outra forma seriam vazias de densidade e tão limitadas na sua geografia de acção e emoção e conteúdos.

Amo pessoas que vi uma vez só e nem lhes conheço o nome ou se o soube, esqueci-me dele. Homens e mulheres que reconheci à primeira vista, no fulgor do olhar que trocámos e nos breves diálogos que a memória, mesmo quando falha detalhes, eterniza na essência.

Amo sempre para sempre a quem amo, e desse Amor retiro pretéritos sejam eles perfeitos ou imperfeitos.

Amo o amor mesmo quando me esqueço de que esse é o caminho. E depois tu vens e lembras-me como é. Tu lembras-me sempre como é. Por pensamentos e por palavras que são obras de secreto labor.

segunda-feira, janeiro 16, 2012

Pobre Catarina

que nem vem muito ao caso, mas tropeça nele a cada momento, porque a sua vida e a vida da minha rainha são troncos da mesma raiz.

Pobre Catarina. Repudiada, mas tão forte e digna na sua coragem. Sem coroa, sem trono, sem a presença do rei, sem certezas quanto ao futuro e muito menos quanto ao futuro da criança assustada que lhe chama mãe e que é sua filha. E que alimenta no peito infantil as víboras do ódio contra a mulher cujo riso, lá longe na corte, atravessa os ares e fura as paredes da fortaleza remota onde se encontram as duas. Mais afastadas do rei do que presas à ordem dele. Em todo caso, ambas entrincheiradas na fé cega e num orgulho todo feito de honra.

Os rios de sangue que brotam da cabeça da menina, nunca conseguirão lavar tanto medo. Se ela soubesse que já foi forjada a espada que vai decepar o pescoço branco da rival da sua mãe, dormiria tão melhor. É uma espada belíssima. Tem lâmina de Toledo e punho francês. O homem que a vai empunhar  nem conhece a sacrificada. Mas também não vem ao caso.

domingo, janeiro 15, 2012

Cartas de amor


Já que não te vejo amor e faz tanto tempo escreve-me, escreve-me todos os dias, responde às cartas que te mando, diz-me dos teus anseios e alegrias e desgostos, conta-me tudo de ti,  como dormes o que comes, da tua saúde que Deus guarde, com quem falas, onde pousas e como és recebido e tudo e tudo e tudo e acima de tudo, quando chegas?,

Se fosse hoje, a minha rainha escreveria assim ao seu rei.

Mas como esta história se passa há muitos séculos, sob o manto de uma ritualidade sufocante e obsessiva, ela trata-o por Majestade e por despedida escreve 

beijo as mãos de vossa majestade

assinando la Reyna. Acima de tudo, na sua correspondência, o que se destaca vigorosamente é o desejo expresso em todas as cartas e em todos os tons, pelo regresso do rei. Por si própria - diz ela -  mas também pelo bem do reino que tanto precisa dele. Por outras palavras, tudo quanto lhe importa é saber:

Quando voltas, amor, quando voltas para nós?Eu e os nossos filhos aguardamos-te com toda a saudade do mundo.

Como se os filhos se importassem com esse pai que nem conhecem e nunca estava presente enquanto eles cresciam...

domingo, janeiro 08, 2012

Lua vaga


Olhares cruzados, mas seria o mesmo luar? o de hoje não o de ontem.
De madrugada, os javalis vêm beber ao lago. Quem os ouve, quem os sente? Muitos dormem. Muitos nunca chegam a acordar. Não os invejo nem temo. É em outros que procuro inspiração. Os de mente vigilante. Os do coração em paz. Dito assim, amor, parece tão fácil. Mas não é. Ocultas e insones marés guiam nossos passos e também se diz que é a lua que as comanda.

sábado, janeiro 07, 2012

Om Namah Shivaya

Acabo de me juntar, por palavras, à manifestação promovida pelo PAN a favor da ética na política e contra a venda da EDP, num texto que enviei a Paulo Borges para ser lido durante o evento e que já se encontra publicado blogue do Partido pelos Animais e pela Natureza. Na impossibilidade de estar presente, é esse o meu contributo de coração.
Por aqui e em contagem decrescente, os dias são luminosos e as noites magníficas. Sonhos sonhos e mais sonhos, uns a deixar memória, outros a diluir-se nos primeiros momentos do acordar.

E a minha rainha a chegar perto do fim da sua vida.
E eu a chegar perto do fim do próximo livro. Que alivio será escrever a palavra FIM nesta biografia.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

2012 versão solar



se houve chuva de estrelas, não as vi cair.
o sol continua a brilhar durante o dia todo.
à noite um passeio breve junto do lago, tão misterioso e tão escuro. As estrelas que andam pelo céu parecem firmemente pregadas no veludo negro do firmamento. Gosto de as situar no desenho perfeito das constelações.
quando estou longe daqui, é dos perfumes da serra e do mar e dos silèncios musicais que sinto mais falta.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

2012 sessão inaugural




Como contas os dias? Pelo calendário gregoriano, pelo calendário maia, pelos batimentos cardíacos, pelas cruzes no papel da parede gasta, pelo relógio digital, pela memória de outros dias?

Oh, eu não conto essas coisa, disse ele. Os dias bebo-os e como-os. Deixo que se dissolvam na boca e na pele, mastigo-os segundo a segundo. E depois  embriago-me da vida que me trazem.

Dizes isso porque és louco, certo?, perguntou ela.

Claro. De outro modo, como poderia estar aqui a falar contigo, se tu não existes?

Ohoh! - o riso dela lembrava sinos de prata em pescoço de cabras selvagens - se fosse a ti não estava tão seguro. Além disso, combinámos que desta vez era eu que te inventava a ti.

Depois o mar cresceu muito depressa e engoliu-os aos dois.
E esta era uma história que se contava às crianças, nas noites sem lua, para lhes ensinar que coisa era  o medo. Acontece que a maior parte delas adormecia a rir.