quarta-feira, março 13, 2013

Entretanto, amo

Os meus ideais de bem, de bom e de belo estão sujeitos aos parâmetros do meu eu. São limitados ao tempo e ao modo em que me desloco. São circunstanciais. 

O meu ideal de Amor não tem fronteiras e nele se integram tudo e todos os seres num tempo para lá do tempo. Nessa radiância dissolve-se tudo aquilo que considero o eu. 

O meu ideal de Amor é assim uma infinita e inacessível e nostálgica miragem. Entretanto, amo.

terça-feira, março 12, 2013

Se eu fosse uma abelha

Se eu fosse uma abelha via o mundo com os olhos das abelhas. Se eu fosse uma andorinha, via o mundo com os olhos das andorinhas. Se eu fosse um cão, um golfinho, uma formiga, uma tartaruga, um micróbio ou um robalo, a minha percepção da vida seria adequada a cada uma destas naturezas.
Mas como sou um ser humano, vejo o mundo e os outros com olhar de gente.
A diferença, entre outras, é que como criatura pensante, ocupo o meu cérebro a reflectir sobre estas e outras ninharias o que não me confere qualquer direito de pensar que a minha percepção de realidade é a única, e a única verdadeira. A fatia que me cabe apreender, através dos meus orgãos sensoriais e do meu intelecto, deixa de fora uma gama infinita de percepções. Há cores, sons, sabores, que jamais apreenderei, a menos que máquinas que o meu génio humano sonha e concretiza,me permitam aceder, de forma naturalmente parcial, a essas plataformas de outros sentires.

A minha realidade é um mero fractal da realidade, seja o que for que o conceito implique. Qualquer pretensão à supremacia da Verdade é, neste jogo de ilusões, uma muito perigosa e muito patética ilusão.

créditos da imagem:  http://dalantech.deviantart.com/art/Miner-Bee-Head-On-II-101531317

sexta-feira, março 08, 2013

Só de pensar nela



Abre os braços pediu ela.
Ele abriu os braços, subitamente consciente do corpo deitado junto do seu.
Respira fundo pediu ela. Tinha uma voz quente, rouca, e falava muito baixo.
Ele respirou fundo, extasiado pela onda de um desejo avassalador que o submergiu, e teve vontade de gritar. Estavam deitados numa cama larga, num quarto escuríssimo. Havia uma espécie de ameaça, no ar. Nada que pudesse diminuir um átimo que fosse da intensidade do seu desejo pelo corpo que tocava no seu.
Volta-te para mim ordenou ela.
E ele voltou-se a tempo de ver, na escuridão, os olhos cor de avelã que brilhavam como sóis furando o negrume que os amortalhava.
Agora cobre-me. Crucifica-me em ti pediu ela, num gemido que o electrizou.
Ele rodou, e foi então que ele reconheceu a natureza da ameaça que se erguera contra os dois. Numa urgência agónica, ainda conseguiu sentir o calor húmido do beijo que o orvalhou de um prazer tão intenso que o seu sabor permaneceria nele para o resto dos seus dias. Não pode, porém, permanecer junto dela. Perdeu-a no exacto momento em que a cobriu, sentindo, para seu infinito desgosto, a respiração dela na sua boca, os seios duros, as pernas fortes a enrolarem-se à volta de si.

Acordou com vontade de chorar e de rir. Um homem muito velho, com uma gloriosa ereção de quarenta anos, deitado junto de uma mulher idosa que ressonava baixinho. Ergueu-se em silêncio para não a acordar. Não estava a sonhar com ela. Nunca sonhava com ela. Viviam juntos, eis tudo. Há tantos anos feitos de dias tão iguais, que tocar-lhe ou imaginar-se a tocar-lhe por prazer e com desejo, ter-lhe-ia parecido obsceno. Lentamente, dirigiu-se `janela e espreitou o dia que começara a nascer. 
«Obrigada», mumurou a boca quase encostada à vidraça que, imeditamente, ficou embaciada. Depois aclarou a garganta e limpou os olhos húmidos. Quem sabe se voltaria a encontrá-la? 
Só de pensar nela, só de pensar nela.

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Tempo dos Milagres : O Jardim dos Desafectos

A minha nova nova crónica no nosso Boas Notícias:

 «Sufocada de espanto, olhava para aquele rosto de olhos fechados, as mãos cruzadas sobre o peito, o cabelo branco a emoldurar o rosto sereno, percebendo que de repente já não existia nada nem ninguém para habitar o memorial de desafetos que construíra em sua homenagem com todas as fibras do meu ressentimento. Afinal, e tal como suspeitara, eu gostava tanto dela e agora era tarde demais para colher uma gota que fosse do amor que lhe tinha. Um abraço sincero, um beijo de alma naquelas mãos quando ainda estavam quentes, teria bastado.»

 http://boasnoticias.clix.pt/noticias_Tempo-dos-Milagres-O-Jardim-dos-desafectos_14679.html

sábado, fevereiro 09, 2013

Sonho que sonho que sonho

Quando sonho que sonho sinto-me acordada. E esse é um momento de alegria indizivel. Depois, preciso fazer um esforço consciente para não acordar de vez ou não adormecer de todo, de forma a conseguir permanecer tanto tempo quanto possível nesse território inexplorado e sempre diferente, onde tempo e espaço jogam com cores e formas e densidades de uma fluidez pasmosa. Andar por ali, sabendo que se anda por ali, é da experiências mais exultantes e intrigantes que me, que nos, é dado experimentar.
É a aventura em estado puro, acordar no sonho sabendo que se está a dormir. 

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

O meu primeiro livro publicado

Normalmente, a maravilhosa aventura de vermos o nosso primeiro livro editado e publicado, redunda na mais completa frustração. O jovem autor - mesmo que não seja tão jovem assim - está totalmente «verde» em relação aos meandros de uma indústria sobre a qual tem uma ideia muito romântica. Tudo isso, somado à gratidão que experimenta ao assinar o primeiro contacto de edição, «gostam do meu livro, vão publicar-me! Iupiii», conduz a uma relação sem futuro que terminará como terminam todas as relações desiguais.

É quase curricular que «O meu primeiro livro publicado» coincida com o primeiro grande desgosto no cursus honorum de um autor. As histórias que se ouvem e partilham neste campo davam para muitos outros livros. São lições que se colhem e, nesse sentido, têm uma grande utilidade. Mas aceitem este conselho do coração: não paguem, jamais e em circunstância alguma, para serem editados, a menos que se abalancem a uma edição de autor. Se um editor vos pedir dinheiro para publicar o vosso livro, não confiem nele nem na sua máquina de fazer dinheiro à vossa custa.Imaginam um merceeiro a exigir dinheiro ao agricultor para lhe vender as maçãs ou as batatas da sua produção? Mas escrever não é menos trabalhoso do que plantar batatas ou apanhar maçãs. Assim, se um editor invoca os dramas económicos da existência para não arriscar um eurito que seja na vossa obra, virem-lhe as costas. Na verdade, se ele paga à gráfica, à distribuidora, e a toda a máquina que envolve a indústria do livro, porque raios e coriscos o quer fazer a expensas do coração e do seu sangue que fazem girar a dita máquina, ou seja, a nossa escrita?

Em síntese, uma das primeiras lições que o autor aprende, e quando mais depressa a aprender melhor, é a dizer não. E a perceber que um contracto de edição, tal como todos os outros contractos, tem de ser favorável a ambas as partes. Leiam-no com todo o cuidado, e levem-no a um advogado que perceba de direitos de autor. Jamais assinem de cruz, na embriaguez de gratidão e alegria em que todos começamos por cair, nós os autores.

E em seguida, procurem um bom, um honesto, um empenhado e aguerrido editor/a. Acreditem que tal personagem existe e não desistam de o/a encontrar. Essa é, pode e deve ser, uma relação para a vida. Merece o nosso maior empenho.





Uma bela síntese de «Imperatriz Isabel de Portugal»

Acabo de ler, num blogue mais ou menos vizinho, uma bela síntese do meu último livro, com referências que só a biografia que escrevi disponibilizou «em bloco», digamos assim, e em linguagem acessível a todos, sem deixar de ser um livro académico.
Fiquei, naturalmente, contente. Gosto muito que esta ilustre «desconhecida» do grande público seja por este cada vez mais conhecida. O que achei menos correcto, mas não acredito que fosse por mal, foi o seu autor não referir a obra onde se baseou. Todos nós, todos nós repito, nos apoiamos uns nos outros quando acumulamos conhecimento ou quando o procaramos. Quando este não é do domínio geral, público portanto, só nos enobreve referirmos as fontes onde nos apoiámos. E uma vez que o autor do blogue em questão se diz interessado em História, deve seguramente saber que esta prática é um dos seus pilares.
Perdoem-me repeti-lo: Imperatriz Isabel de Portugal é em português, a primeira biografia da nossa infanta que foi rainha de Castela. E mesmo em espanhol as obras mais genéricas que ilustram a sua vida são muito poucas. Que eu conheça, houve uma biografia recente, e que refiro no livro, mas que deixa de fora muitos dos aspectos que iluminei. De resto, há ensaios, monografias, e muito, e bom!, trabalho académico em torno desta mulher exemplar. Mas, repito, contar a sua vida, como eu o fiz, cruzando tantas e tantas fontes e referências, não tinha sido feito ainda.