sábado, outubro 12, 2013

«Não é preciso ser-se perto para se estar junto»

Participantes das minhas últimas Oficinas têm deixado comentários em vários suportes, sobre a experiência literária e as expectativas sobre o próximo curso, que começa já segunda-feira (primeiro grupo) ou no sábado (segundo grupo).  Retirados da página da Alêtheia, aqui ficam três depoimentos que agradeço do coração à Clara, à Sónia e ao Zé:

Comentários [retirados da página da Alêtheia]
 
Clara Ferrão:
Estou ansiosa por ir fazer este curso!!! Tendo como experiência o curso anterior de oficinas de escrita, não posso estar mais entusiasmada!
Mais do que um mero exercício para nos pôr a escrever, é um mergulho às nossas entranhas, com um efeito catártico nas nossas vidas.
Muito obrigada Manuela pelo teu maravilhoso trabalho e generosidade com que te empenhas.
October 09 2013 at 12:10 PM
                          
Sónia Alves:          
Gostei muito de ter participado do curso anterior de oficinas de escrita! Concordo com a Clara , alem de um exercício que nos convida a escrita tem tb um efeito muito terapêutico. Um abraço grande Manuela e obrigada por tudo!
October 09 2013 at 05:10 PM
                          
José Saraiva:          
De África, de olho arregalado à escrita, mas circunspecto quanto à «profundidade» que este curso exigirá. Encher as palavras com emoções e memórias, será um «intenso desafio», a subscrever, na íntegra, a última frase da Clara. Lá estarei, até porque não é preciso ser-se perto para se estar junto. Z.
 

Amores do outro lado do Tempo

Quanto tempo é preciso para amar alguém? Não pode ser de repente?
Acho que sim. Tenho a certeza que sim. Há encontros que valem por uma ou por várias vidas. Há algumas, muito poucas pessoas, que encontrei uma única vez e amei para sempre. Homens e mulheres. Como quem se reencontra e reconhece.

Por exemplo.

Tenho um amigo que conheci há vários anos numa viagem de avião. Quando o avião aterrou, conhecíamo-nos do tempo sem tempo. É muito mais novo do que eu, podia ser meu filho. Desde então, nunca mais nos vimos, tirando uma vez em que ele apareceu no lançamento de um dos meus livros. Fora isso, trocamos muito eventualmente, mensagens de facebook, sobretudo quando na vida dele, ou na minha, acontece alguma coisa suficientemente boa para merecer um grande like e um grande abraço. Ou muito triste, a merecer um abraço remoto ainda maior. Tratamo-nos mutuamente por «amigo do céu» e «amiga do céu». Não nos conhecemos nos quotidianos, e nunca nos iremos conhecer. Conhecemo-nos de outros lados sem lado nenhum.

Tenho outro amor que vi duas vezes. A primeira, há mais de 30 anos, quando eu percorria atordoada os corredores e as filas de uma repartição pública, a braços com documentação colonial insuficiente para o registo em Portugal dos meus filhos nascido nas ex-colónias. Ela tomou-me pelo braço e ensinou-me a ultrapassar a teia insolúvel da burocracia. Era moçambicana. Tínhamos vivido sob o mesmo céu e sobre a mesma terra. Ela ia para o Brasil. Era mulata, muito mais velha do que eu, e o abraço dela quando se despediu de mim, foi o abraço de uma mãe. Estávamos juntas há horas,a conversar numa pastelaria perto. Virei-lhe as costas para ela não ver que eu estava a chorar. 

Dois ou três anos depois, inesperadamente e noutro lado completamente diferente da cidade, reencontrámo-nos e caímos nos braços uma da outra. Fomos lanchar, fomos falar, trocámos cromos - telefones e moradas. Ela tinha vindo a Portugal tratar de mais qualquer coisa, para não voltar aqui nunca mais. A sua casa, no Brasil, era minha - disse-me e estava a falar a sério. Perdi todas essas referências. Até o seu nome. Menos a minha memória dela. Agora, só a recordar o seu rosto difuso, o seu riso deslumbrante e bom, volto a comover-me.

É possível? Vou perguntar outra vez ao meu coração, a ver se não me enganei. É. Ele diz que sim.

O coração nunca se engana.
 

quinta-feira, outubro 10, 2013

O teu inimigo

Não trates mal o teu inimigo. Recorda que ele foi talhado à tua medida.

Não desprezes o teu inimigo. Ao fazê-lo, diminuis-te a ti próprio. Ele foi talhado à tua medida.

Não odeies o teu inimigo, para não lhe conferires autoridade sobre o teu próprio coração.

Não fujas do teu inimigo, para não ser ele a encontrar-te e a surpreender-te no teu repouso.

Quando quiseres derrotar o teu inimigo, mas só quando estiveres pronto, ama-o. Sem reservas.

Só então irás perceber a razão da vossa inexistente inimizade.

Ah, perguntas, mas e se o meu inimigo não me amar a mim?

Que isso não te dê cuidado. Esse é o problema do teu inimigo.



 

quarta-feira, outubro 09, 2013

Reciclar palavras: quiçá, todavia, caramba

Gosto de reciclar palavras. Não tenho medo de ir busca-las às prateleiras do esquecimento e, se for caso disso, voltar a pô-las a uso.

«Todavia»: por exemplo. Estava esquecida e negligenciada num canto da minha memória. Tinha prescindido dela desde que passei a achar que cheirava a sala de professores ou a escritório de advogados dos tempos de há muito tempo. Era uma palavra da qual se evolava um indefectível aroma a bafio. Até ao dia, não muito distante, em que a olhar para ela, a tomar-lhe o peso, a saboreá-la lentamente

to-da-via

pareceu-me tão rejuvenescida que voltei a usá-la sem reticências.

 Há pouco, dei por mim a escrever «caramba». Há que séculos que não dizia ou escrevia caramba. E é ou não é uma palavra toda catita? Ah, se ainda ontem eu escrevesse uma frase onde a palavra catita figurasse, até ficaria com vómitos. E agora, dou por mim a sorrir. Caramba! É catita, todavia.

As palavras têm todo o tempo do mundo. Nós é que não. Elas sobrevivem-nos. Ela raramente envelhecem mal. A não ser, talvez, a palavra quiçá. Essa... hum. Não. Não mesmo. Espera... em textos académicos quiçá pode entrar sem fazer má figura. 

As palavras têm moradas de preferência. E lugares cativos em espaços próprios. É isso.
 

segunda-feira, outubro 07, 2013

Matar o tempo

Por vezes resolvemos que temos de «matar tempo». Raras vezes, ou nunca, reflectimos sobre como o tempo nos vai matar a nós. Tanta curso, tanta conversa, tanto organigrama sobre gestão económica, quase sempre ficcionada, e tão pouco sobre o tempo que temos e que não sabemos nunca a quanto monta. É por isso que fico muito incomodada quando me pedem «um minutinho da sua atenção» que é sempre mais do que isso, ou quando me ligam para casa a pedir o mesmo, como se a minha vida, mesmo em fraçõezinhas, não valesse nada. E contudo, gastar tempo em ócio é das melhores coisas que podemos conceder-nos. É aliás uma obrigação porque o ócio é sempre tempo de qualidade. Para brincar, olhar, conversar, comer, beber, divertirmo-nos com os nossos amores e com os nossos amigos que são também amores nossos. E até com gente que não conhecemos de lado nenhum. Ou em muy rica solidão, de preferência junto de árvores e com os pés na terra. A pensar em muita coisa. A pensar em nada.


[retirado dos meus pensamentos matinais que costumo colocar no Facebook]

É o voto, pá! Percebes?

O carismático líder parlamentar  do partido holandês 50Plus, Henricus Cornelis Maria Krol abdicou recentissimamente do seu lugar. Em causa, a denúncia publicitada na imprensa, de que há onze anos, nos seus tempos de director do jornal Gay Krant, H. Krol não pagou durante algum tempo a segurança social dos empregados, aparentemente de acordo com estes, para assegurar a viabilização daquele órgão de comunicação. No mesmo dia em que a denúncia sobre o caso foi tornada pública, o líder parlamentar demitiu-se.

Consequências? Várias. Para além da renúncia de H. Krol ao cargo público, mesmo sabendo-se que aquele dinheiro não foi desviado para contas privadas mas para a recapitalização do jornal, assistiu-se também junto do eleitorado, a uma queda na intenção de voto no ascendente partido de muito recente formação: de 6% para 3% numa só semana. Para metade, portanto.

É que há países e povos que aprenderam há muito tempo a utilizar o voto a seu favor. É há que há povos para os quais a «fidelidade» politica não faz qualquer sentido, já que entendem que fiéis às suas promessas e à ética que se apregoa, devem ser os representantes das mesmas forças partidárias que eles, com o seu voto, ajudam a eleger. Ou a derrubar.
Quando as próprias mulheres votavam... contra o direito de voto das mulheres.
[em Sexismo e Misoginia]
 

Depois há outros países, e outro género de votantes, onde se inscreve uma larga franja de gente que fica em casa a ver espectáculos de «vidas reais» e outras insanidades, quando não vai para a praia, para o campo, ou para o centro comercial, mas que orgulhosamente proclama que «não dá o seu voto a nenhum porque são todos iguais». Ou pior, num exercício de pura estupidez, denuncia essa mesma prática, o acto eleitoral, como um disparate, uma perca de tempo e outros mimos semelhantes.

É por isso que chegámos a isto.

Obs. A imagem escolhida ilustra o artigo «As anti-feministas opunham-se ao direito de voto para as mulheres! Porquê?» no blogue referenciado na legenda. Vale a pena ler esta reflexão.


 

quinta-feira, outubro 03, 2013

Elegias do Amor e do Ódio

Regresso, em breve, às minhas Oficinas de Escrita, desta vez com um propósito (ainda) mais xamânico. O de soltar gritos, libertando palavras «entaladas na garganta», para se poder seguir em frente, sem mais pesos do que os que, quotidianamente, temos de carregar. Para minha alegria, os frequentadores/as de anteriores Oficinas já se estão a inscrever nesta, o que para mim, quer dizer muito. E para minha, nossa alegria, pelo menos três já estão a escrever o livro das suas vidas, que começaram no decorrer de uma das nossas Oficinas de escrita autobiográfica, A minha vida dá um livro.

O que se passará então no decorrer das Elegias do Amor e do Ódio?
Marc Chagall, A queda do anjo, 1923-1947 (detalhe), óleo sobre tela, Basiléia, Kunstmuseum

O conceito

É muito simples. Transcrevo-o tal e qual, da página da Alêtheia Editores, uma das nossas parceiras no projecto:

«Há por aí gritos presos, palavras entaladas no peito ou na garganta? Alguma dor antiga ou recente que teima em não desaparecer? Retalhos de amores impossíveis, ódios congelados e febris que persistem em assombrar-nos?
Quem carrega afectos nunca assumidos ou injustiças por reparar?
Quem é que sente uma raiva do tamanho do mundo que não tem por onde sair? E uma ternura a transbordar por todos os poros, feita de lágrimas dissimuladas e de silêncios contidos? Quem é que já sabe tudo sobre ‘fogos que ardem sem se ver’ e está mesmo a precisar do corpo da mensagem para dar luz tanta chama?
É tempo de soltar as Elegias do Amor e do Ódio. De se abrirem portas, rasgarem janelas, destaparem alçapões, para descer pelo fio do tempo e ascender por ele. As portas proibidas só são proibidas enquanto não ousarmos abri-las.
Com as nossas próprias chaves.»


Estrutura da Oficina

Três módulos presenciais, duas aulas cada
I – Meu inimigo, minha sombra, meu amor.
II – Vou contar-te como foi.
III – As palavras que sempre te quis dizer.

Ao longo dos três módulos, o objectivo é destacar uma pessoa, uma memória, um registo em suma, através do qual, revisitando circunstâncias particulares, se possa deslocar o eixo do passado para o presente para reescrevermos a nossa história pessoal. Eventualmente, sob a forma de carta onde se soltarão as palavras que ficaram por dizer.
Cada módulo tem a duração de três horas, divididas por duas aulas presenciais.
Os trabalhos produzidos nas Oficinas e em casa são acompanhados, orientados e revistos com propostas de correção a fim de que os participantes possam interiorizar melhor as ferramentas do registo literário.
Preço cada módulo de duas aulas: 40 €/participante.
Para edição completa [por parte da orientadora], dos textos produzidos na presente Oficina pela orientadora, preço para o conjunto: 30 €/participante.

Para saber mais: O método, par e passo.

Contactos: oficinasdescrita@gmail.com ou manuela_gonzaga@yahoo.com

Siga-nos no facebook em Oficinas de Escrita


E tenham muito Boas Palavras!!



Com os apoios de:
Alêtheia Editores
Várzea da Rainha Impressores
Boas Notícias
Blogue Oficinas de Escrita