sexta-feira, junho 20, 2014

Moçambique, o livro, a festa





























Foi tão bonita a festa. A Bicaense a deitar por fora. A rua animada. Os múltiplos reencontros e encontros. Amigos e Amigas de sempre, de há tanto tempo, de há menos tempo, de coração sem tempo. As apresentações, a cargo de João Craveirinha e João Paulo Oliveira e Costa. E de Eduardo Boavida, as always. O envolvimento caloroso e generoso de toda a equipa da Bertrand desde que o livro, em formato final, chegou à editora, até ao seu lançamento. A presença ausente de a Mãe. A rua cheia. E o restaurante em frente, o Matchik Tchik de onde vieram os belos petiscos moçambicanos e onde acabámos a noite.

Mesmo quem não apareceu e era importante que aparecesse, esteve presente. A distancia não conta, quando se está perto.

domingo, junho 15, 2014

O Jorge foi para o Furancungo

O meu irmão mais velho ainda era tão novo que não tinha medo das minas, das emboscadas, dos tiros, da estrada esfarrapada, uma tira estreita e traiçoeira estendida em ziguezague pelos precipícios da Angónia. Viajava sem arma - «se me apanham com uma é que estou feito!» - e, em Tete, fazia-se anunciar pelo ronco da sua Susuki 50, que surgia inesperadamente pela rua calma, irrompendo pelo quintal da casa a cuspir matope (lama) ou poeira pelo tubo de escape, consoante as estações do ano, e abraçava-nos mesmo assim.


O Jorge nos tempos do Furancungo (1968)


Vinha tão sujo que mais parecia um alegre demónio quando saltava da mota e tirava os óculos, deixando bem visível a marca branca em torno dos olhos, a contrastar com o tom vermelho escuro da cara, das mãos, e até do corpo, porque a terra entranhava-se-lhe pela roupa e metia-se-lhe pela pele. O Jó não usava capacete, nem fatos de couro, nem nada que remotamente se assemelhasse a uma protecção. Ninguém usava. E depois, à mesa, como se habituara na solidão do mato, num automatismo estimulado pela companhia de vários gatos que o tinham adoptado, fazendo-lhe o favor de invadirem a sua casa naquele Limes do império português, deitava para o chão as sobras do prato, perante o olhar estarrecido da nossa mãe.

Vinha sempre muito bem-disposto, muito sujo e muito esfomeado depois de cumprir os quase duzentos quilómetros de ‘estrada’, cujo perigo maior porém, era o seu imponderável piso de lama na época das chuvas, ou de cratera lunar no tempo seco, eventualmente e por então semeado de minas.
Era por esse o motivo, e não por ser doido varrido como parecia, que o Jó nunca integrava as colunas militares, preferindo viajar sozinho do Furancungo para Tete ou de Tete para o Furancungo. Quatro, cinco horas, a cavalo naquela motinha, cujo branco inicial desaparecia ao fim de uns poucos quilómetros de estrada, e sem uma arma sequer. A mãe perguntava-lhe, numa angustia, porque é que não viajavam em coluna militar «como toda a gente», e ele respondia, invariavelmente que

– É sobre as colunas que que eles atiram, mãe. 

E que, de mota, vinha «nas bermas ou pelo meio da estrada, onde ninguém põe minas. As minas são colocadas no sítio do rodado das viaturas».

– Mas … os precipícios…

– Ah, mas eu sou muitabom e já conheço o caminho de ginjeira. 

Este fragmento de um diálogo recorrente, pelo menos nos primeiros meses em que o Jorge foi para o Furancungo, sede de conselho, muito próximo das fronteira do Malawi, ficou-me gravado na memória, assim como alguns episódios, quase caricatos, das suas idas e vindas, mau grado a angustiante incerteza em que nos deixava quando, tão de repente como aparecia se punha outra vez a caminho, prometendo logo que chegasse, comunicar por rádio com o operador central em Tete, o qual nos fazia chegar a sua mensagem tranquilizadora. Mas por vezes, esta confirmação tardava o que levava a nossa mãe a precipitar-se para o Governo Civil a pedir, com carácter de urgência, informações sobre o seu rico filho. Nós, ainda fomos visitá-lo algumas vezes - de «táxi aéreo». Vinte minutos Tete-Furancungo.

E um abraço apertado e sem fim.


O célebre Morro do Elefante
 

Um monumento estranhíssimo - à saída ou entrada do Furancungo


Pará nós, a única alternativa viável era ir pelo ar

 

sexta-feira, junho 13, 2014

1963: de Quelimane para o Porto

A primeira vez que conheci alguém que vivia mesmo em África, tirando o frade capuchinho amigo de infância da nossa mãe que era missionário e por vezes nos visitava, foi no liceu Carolina Michaelis, no Porto, aonde chegou, em meados de 1963 uma nova condiscípula que vinha de Moçambique, onde vivia com os pais em Quelimane. Não me lembro do nome dela, mas uma vez que estávamos em vésperas de partir para lá, crivei-a de perguntas.

Vista da cidade da Beira, com anúncio do famoso refrigerante na época proibido na metrópole mas autorizado nos territórios coloniais (cortesia de CCAV 2414)
Era uma menina loura, de cabelo curto, e ar empinado, que se  destacava de todas nós porque, no calor de maio e de junho, era a única que chegava ao liceu de sapatos fechados e meias de lã, embrulhada num casaco comprido de fazenda verde, queixando-se do frio e mostrando-se profundamente espantada por conseguirmos andar de sandálias e em manga curta com aquelas temperaturas tão inclementes. Recordo bem que usava um irritante tom de superioridade para contrapor às delícias da vida de «lá» a sensaboria da vida de «cá». Para começar, em África os liceus eram muito mais divertidos. E como nalgumas cidades pequenas o ensino secundário, sobretudo a partir do segundo ciclo, estava a cargo de instituições privadas, normalmente colégios de padres ou de freiras, as aulas eram mistas, rapazes e raparigas nas mesmas turmas, o que não acontecia nos estabelecimentos metropolitanos já que a separação de sexos era a regra, só mudada quando se entrava na universidade.
Por todo o Ultramar havia Coca-Cola, proibida na metrópole, e praias esplendorosas como não havia em mais lugar nenhum do mundo. Depois, a vida era completamente «diferente», porque havia sempre festas e faziam-se regularmente viagens de centenas de quilómetros descritas displicentemente como «passeios». Ouvindo-a discorrer sobre os quotidianos em Quelimane, e por todo o Moçambique, ficava-se com a ideia de que a principal ocupação das gentes ultramarinas, e reportamo-nos naturalmente à minoria que iriamos integrar, era a de andarem sempre a viajar, banqueteando-se nas casas uns dos outros, e nadando em mares de turquesa ou rios de cristal como se as férias grandes, que na metrópole duravam três meses, se cumprissem ali, para adultos e crianças, ao longo do ano inteiro. A realidade não era bem esta, mas alimentou o sonho.

Quanto à guerra - o problema nem se colocava:

— A guerra foi em Angola e nem sequer em todo o lado. Em Moçambique está tudo em paz.

Isto era tão absolutamente verdadeiro que, em março de 1963, o governador-geral da província, contra-almirante
Sarmento Rodrigues, viajara centenas de quilómetros pelo distrito de Cabo Delgado, passando por locais como Palma, Mueda, Mocímboa do Rovuma e Chomba, acompanhado simplesmente por meia dúzia de jornalistas estrangeiros, e dispensando os serviços de uma coluna militar.[1] O futuro do ultramar português, em geral, era tão radioso que, e pela primeira vez, o governo da metrópole concedia facilidades para a fixação de militares de todas as patentes que por lá tivessem prestado serviço, depois da sua passagem à disponibilidade, pagando-lhes todas as despesas de transporte para o local onde fixassem domicílio[2], simplificando assim um sistema até então moroso e cheio de entraves.

Uma vez que nunca vivemos em Quelimane, nunca mais a encontrei, mas recordá-la-ei sempre como o primeiro testemunho directo de quotidianos que, de algum modo representavam a vida lá - evidentemente uma parte da vida de uma minoria. Na verdade, a literatura ou o cinema ,  as noticias dos jornais e os blocos noticiosos que antecediam a projecção dos filmes, constituíam  a nossa única fonte de informação, oscilando entre a lenda, a mitificação religiosa, o disparate total ou a doutrinação entediante e soporífera. Em todo o caso, a paz revelou-se, pouco depois de chegarmos ao distrito do Niassa, uma miragem. Em breve, a guerra a Norte viria a eclodir, progressivamente com uma violência e uma persistência tais que, à luz do nosso desconhecimento total da realidade, nos encheu de assombro.

(adaptado de Moçambique para a mãe se lembrar como foi)




[1] O Primeiro de Janeiro, 11/03/1963, pp. 1–5.
[2] Diário do Governo, 14/03/1963.


 

quarta-feira, junho 11, 2014

Vila Cabral, Meponda, Niassa

Não havia termo de comparação. Nem para a paisagem, nem para as vilas ou pequenas cidades do interior do vastíssimo território. Para começar, era tudo novo. A cidade tinha nascido anteontem. Depois era tudo longe. Por fim, os tempos estavam trocados. Um pinheirinho lânguido, enlaçado por gambiarras de luzes estridentes, de onde pendiam lânguidos pedaços de algodão, permanece com uma espécie de marco de lonjuras, estranhezas, melancolia e exultação, a ilustrar o nosso primeiro Natal em África, em Meponda junto ao lago Niassa. na Pousada onde ceámos, ouvimos musica e até dançamos ao som dos Platters e de mornas de Cabo Verde.

A beleza do lugar era avassaladora, a noite cálida, o luar perfeito. Mas as minhas jovens amigas do Porto da minha infância, com quem poderia falar horas sem fim sobre o que se estava a passar, tinham ficado tão longe, que quando nos voltássemos a ver nada disto teria qualquer importância. Aos doze anos, estas são feridas que ardem sem se ver.


Junto a uma pequena barragem perto de Vila Cabral, actual Lichinga


Meponda ficava a cerca de 60 quilómetros de Vila Cabral  - actual Lichinga -  capital do Niassa, que ficava e fica a cerca de 2800 km de Lourenço Marques, actual Maputo. Mesmo para os padrões africanos onde as distâncias são genericamente reduzidas a um «é já ali» - era muito quilómetro.

Para nós, acabados de chegar, era um fim do mundo. E o recomeçar de outro. Nenhum livro de aventuras, nenhum bloco noticioso, nenhuma aula de geografia, me preparara para ele. Era preciso descobrir dentro de mim, toda uma nova paisagem. De afectos.

Vila Cabral, actual Lichinga, vista aérea anos 60

[Adaptado de Moçambique para a mãe se lembrar como foi de Manuela Gonzaga]


[1] A povoação, fundada em 1931, foi elevada a cidade em 23 de Setembro de 1962. O seu nome era uma homenagem ao ex-Governador José Cabral na Índia e em Moçambique durante 20 anos. Depois da independência foi renomeada Lichinga.


 

segunda-feira, junho 09, 2014

Quem é essa menina?

Eu estava a planar. A massagem pusera-me num estado quase onírico. Não havia imagens, memórias, sons, emoções. Não havia nada. As mãos da Leonice - ela chama-se Leonice - acordam os mais diversos estados, nomeadamente este, o da tranquilidade total. Curiosamente, o tipo de massagem que ela pratica dispensa o toque. As mãos estão sempre ligeiramente afastadas do nosso corpo vestido. É pura energia, o que se passa nessa troca, e eu, e todas e todos os que fazemos com ela uma «sacro-craniana» dizemos, de uma forma ou de outra, que as mãos dela têm olhos.



O  maravilhoso navio Império onde vivemos quase um mês entre Lisboa e Nacala

Às vezes, há pessoas completamente tensas, que desatam a rir durante a sessão. E depois voltam e voltam para deitar fora o peso, e o colete de forças emocional que as esmaga e quase não as deixa respirar. Outras e outros dormem, ou choram, ou falam, ou sentem ou purgam porque muita gente faz com ela a recuperação de pós operatórios complicados. E há as pessoas que, por vezes e aparentemente, não sentem nada, que era o que eu estava a sentir quando ela me perguntou se eu tinha vontade de chorar ou se estava comovida. Eu não tinha. Eu não estava. Mas fiquei alerta:

- Porquê?

Ela disfarçou mas eu não a larguei mais. Então, e com muito pudor, e algum rodeio, a Leonice disse que estava a sentir uma «menina bem sentadinha no meu peito». Bem no «chakra do coração». Eu pensei, pensei, e continuei a não sentir nada. Depois lembrei-me.

- Ah, Leonice, é verdade!  Eu ando com uma menina às voltas na cabeça. A menina que eu era aos doze anos, quando sai de Portugal e fui para África - aqui hesitei, não tinha ainda contado a quase ninguém, mas depois disse-lhe: - É que comecei a escrever as minhas, as nossas memórias dessa altura. Mas esse processo está na cabeça.  Neste momento entrámos no navio Império e a viagem está a começar.

A massagem tinha acabado, mas ela insistiu:

- É no coração mesmo, que essa menina está sentadinha. Eu senti-a. Bem forte, bem firme. Uma energia tão adolescente e ainda tão infantil. Não tem nada a ver com a cabeça. Cabeça tem outras coisas.

Nessa altura é que eu ia quase chorando. A Leonice nem sequer sabia que eu era escritora. A Leonice não podia saber sequer o que eu estava a escrever, porque só a minha mãe, que tem Alzheimer e se esquece de tudo ao fim de cinco minutos, é que sabia. E então percebi que aquela menina que eu fui e estava a acordar, página a página, continuava viva! Profundamente viva. Não era só uma lembrança.



Aos 12 anos numa fazenda algures no Niassa com uma senhora que já não sei quem é e um cão que não recordo o nome

Tão viva que se pôs a crescer ao longo do processo da escrita destas memórias, ajudando-me a desenrolar o fio dos tempos. Foi ela também que me trouxe tanta gente nova e miúda dos tempos antigos, que vieram celebrar o nascimento de mais um livro. Somos todos e todas avós, ou tias, tios avós, mas somos todos e todas ainda tão jovens e crianças.

Como as mãos da Leonice sabiam muitíssimo bem.

 

sexta-feira, junho 06, 2014

Manuela Gonzaga no Colégio D. António Barroso



*A Amizade intemporal, sempre vivenciada pelas "meninas" do Colégio D. António Barroso continua presente nas diferentes gerações!* 

A frase é de uma querida condiscípula, a Carla Câmara, que ontem foi uma das muitas «meninas» do nosso inesquecível colégio D. António Barroso a aparecer no Bicaense para o lançamento do meu novo livro - Moçambique para a Mãe se lembrar como foi. E que hoje, no seu mural de facebook tinha este presente feito de instantâneos unidos no agora de um reencontro de adolescentes avós. Um pequeno filme que colige imagens desde o antes muito antes até ontem, dando-lhes o ritmo de um poema visual legendado com uma música perfeita a contar uma estória.

A nossa.

 

quarta-feira, junho 04, 2014

Manuela Gonzaga na Praça da Alegria



Uma entrevista conduzida com a inteligência e a sensibilidade de Tânia Ribas de Oliveira a antecipar o livro que a partir de amanhã já vai estar nas livrarias.