quarta-feira, outubro 19, 2011

Um novo projecto

de escrita está a caminho... e é plural. Sem contar com o livro que estou a terminar, e que é individual.
No fim deste mês de Outubro, detalhes.

sábado, outubro 15, 2011

Obrigada, meu inimigo

Nos meus sonhos, foste sempre o pesadelo. Sei que és um, e sei que és muitos. Fazias o papel do lobo. Um lobo enredado em matilha de hienas.  Em tempos, usavas vários rostos, vários corpos e múltiplos gestos. Eras quase sempre homem, mas também te encontrei como mulher. Soube sempre que eras tu por esse olhar tão dissimulado a negar a doçura mentirosa das palavras que saíam da tua boca.

Obrigada, meu inimigo.

Se soubesses o que me fizeste aprender. Se soubesses como cresci a fugir-te até conseguir olhar de frente o teu rosto mau. Agora és tu quem se esconde, mas ainda preciso que me ensines a superar o mais difícil de todos os desafios. Aquele em te abraço e te faço meu. Mas o veneno das tuas palavras e a maldade dos teus gestos inumanos, ainda me doem. Dores antigas, dos tempos em que precisava de me defender de ti. Agora já não preciso. Mas ainda é muito cedo para dizer que te amo.

A minha gratidão, porém, é sincera.

quinta-feira, outubro 13, 2011

a solidão do cão abandonado

a solidão do cão abandonado é uma mistura pungente de puro medo, tristeza sem fim e uma perplexidade sem medida porque o cão foi concebido por pequenos deuses da natureza em comunhão com os homens do principio do Tempo dos Homens, que misturaram as sementes múltiplas dos primeiros cães de onde nasceram todos os outros, sem nunca lhe retirarem a marca genética que é amar a humana criatura de forma incondicional. Seja qual for a sua forma.
Um cachoro abandonado é uma traição à natureza do ser cão e um insulto à natureza do ser homem.
É uma vilania que esventra o transgressor onde não lhe dói, porque não o tem. O coração.
A solidão do cão abandonado é uma tatuagem infamante no rosto do transgressor. Só ele parece não a ver porque nasceu humano por acidente.
É muito possivel que tal não lhe volte a acontecer.

terça-feira, outubro 11, 2011

Ao amor para sempre

Fazes-me chorar. Faço-te chorar? Sim. Se soubesses a alegria que sinto por me dizeres isso. É que também eu choro, sem lágrimas, a dor da nossa ausência sem remédio. Guarda-me contigo, meu amor, aí onde estás, como eu te conservo na memória do meu sangue, na memória do meu ar, na memória de todas as memórias de ti porque sem elas perdia-me, tão perdido fiquei em tua ausência.

A resposta dela chegou-lhe num suspiro. Quando abriu os olhos, apenas o jovem pajem se encontrava na sua companhia. Olhando-o em silêncio.Tantos anos depois, e ainda se perdia na contemplação do retrato dela, que velava na presença de estranhos. E das recordações infinitas e cheias de luz, que acompanhavam os seus últimos dias. Isso e os ofícios divinos que da cama, no seu quarto de varandim rasgado sobre a capela do mosteiro, seguia com devoção acrescida.
Ao amor para sempre, não o travam fronteiras irreais como tempos e espaços e ausências.
Era esse o seu conforto.

terça-feira, outubro 04, 2011

A mulher que ocupa os meus dias

É ibérica. É belíssima. Procuro-a nas memórias que lhe sobreviveram tantos séculos, e tento ser-lhe fiel. Não me dá descanso, mas gosto disso, embora sonhe já com o dia em que escreverei a última palavra da sua biografia. Está próximo. Da sua época, e sem lhe dizer directamente respeito, este pequeníssimo extracto:



"As versões, coincidentes, revelaram cento e cinquenta bruxos e bruxas, «notoriamente comprovados», pois à identificação das crianças somaram-se as confissões dos culposos. Tinham, sim, comércio com o demónio, a quem todos tinham jurado fidelidade e que surgia perante as mulheres sob a forma, alternada, de gentil-homem ou de bode. Os detalhes da ímpia aliança seguiam os relatos de género, inventariados, sobretudo, desde o final da Idade Média, numa obra basilar, o Malleus Maleficarum[1]. As confissões foram assim enriquecidas por um caudal descrições de sabats, comércio carnal com os respectivos bodes, capacidade para concitar pragas e cometer muitos crimes, assassinando sem deixar rasto graças ao dom de invisibilidade, e outros poderes, que senhor das trevas lhes concedera, induzindo-as, com palavras «horríveis», a renegar da santa fé católica.

Disso mesmo se procuravam penitenciar, com aquela torrencial soma de pormenores, a que acrescentaram a receita prodigiosa, oferecida pelo Senhor das Trevas, de um unguento mágico, feito com muitas sevandijas, graças ao qual conseguiam cobrir grandes distâncias, pelo ar. Sozinhas ou sobre os seus bodes."










[1] O Martelo das Feiticeiras é uma obra de dois frades dominicanos inquisidores, Heinrich Kramer, James Sprenger, que a escreveram em 1486, na Alemanha, mas a cruzada contra a feitiçaria não é apanágio do Cristianismo. Egípcios, Judeus, Romanos e Bárbaros (pluralidade de nações não helenizadas ou romanizadas) produziram legislação duríssima contra a bruxaria desde tempos muito mais remotos. O auge do processo conhecido genericamente como a «caça às bruxas», implicando um ainda incalculável número de mortos – há quem refira as centenas de milhar –, a maior parte dos quais mulheres, foi durante a Idade Moderna e não na Idade Média como frequentemente se afirma. Estes processos incidiram, maioritariamente, nos países da Reforma, sobretudo Calvinistas.

terça-feira, setembro 20, 2011

Nós, os homens

não perdemos tempo com essas coisas - disse ele. Estava tão triste que até a roupa que trazia sobre o seu corpo curvado parecia chorar.
- Porquê? - perguntou ela.
- Porque as coisas são como são. Começam, duram o que têm de durar e acabam.
- Mas podemos falar sobre isso, ou não?
- Para quê? Acabou, está acabado. Adeus, e felicidades. Segues a tua vida, eu vou à minha.
Ela estava vermelha de aflição e, provavelmente, de raiva. Uma raiva contida pelo ténue fio da esperança que ele quebrou num ápice:
- Já o meu pai dizia que as coisas, quando quebram, não adianta consertá-las.
- Ai é? Então porque te tornaste técnico de computadores, quando o teu pai, raios o partam, te pediu mil vezes que entrasses para a Carris, onde ele e o pai dele trabalharam toda a vida a picar bilhetes?
Ele encolheu os ombros, agarrado ao medo de ceder à fome que já sentia dela, e ainda a tinha à frente.
- As coisas acabam. Vai à tua vida que eu vou à minha.
- Pois acabam, seu estúpido parvalhão - ela não tinha medo algum de ceder à fúria e à dor - por isso é que comemos todos os dias, e dormimos todos os dias, e temos de refazer tudo, todos os dias.
Ele olhou-a com olhos de fome, e virou-lhe as costas num andar de vagabundo.
Uma separação tão idiota, e não era capaz de voltar atrás.
- Porquê? - perguntei-lhe eu, um dia à conversa, espantada com os cabelos brancos que lhe nasceram de repente.
- Nós homens somos mesmo assim.
Não são nada, e todos sabemos disso. Mas ele não quer ouvir. Também agora já não adianta nada. Um ucraniano que ia a passar, reparou nela e nunca mais a largou até lhe colocar uma aliança de casada no dedo. Consta que são muito felizes.

domingo, setembro 18, 2011

O fogo, o fígado de Prometeu e a águia do pai dos deuses


Ele queria tanto ajudá-los. Depois, tinha medo e deixava-os sozinhos, a tremer nas noites intermináveis. Perguntou aos outros se não queriam juntar-se a ele, na partilha do conhecimento proibido. Uns fugiram. Outros riram-se. Outros ainda, apontaram para o alto da montanha onde a águia planava: «Queres alimentá-la do teu fígado, todos os dias, até ao fim dos tempos?». Por fim, ele desceu ao povoado e mostrou aos aflitos seres humanos, que dormiam e viviam entre rochedos ou nas copas das árvores para fugir às feras, que havia luz para além das trevas. Nenhum dos deuses ou dos semi-deuses o acompanhou, mas todos o acusaram:

- Prometeu partilhou com os homens a interdita dádiva do fogo.

Divinamente irado, o deus supremo pregou-o nas montanhas do Cáucaso e entregou-o à sua águia. Desde então, ela continua, todas as noites, a devorar-lhe o fígado que cresce todos os dias. Uns dizem que Hércules, compadecido, o soltou durante o tempo dos heróis. Será verdade? A escuridão ainda é tanta. E o medo de a rasgar maior ainda. Muitos, que sabem tão pouco pouco, negoceiam o conhecimento gota a gota, e sentem-se poderosos. Poucos, que sabem muito, partilham o saber. De graça e por amor. Esses, quase todos, morrem pregados na cruz, queimados em fogueiras, varados de balas, torturados, ou em acidentes que nunca ninguém consegue explicar.

O fogo, porém, cresce. A luz que o acompanha é uma imparável maré.