sexta-feira, março 29, 2013

A biografia da imperatriz Isabel de Portugal

A grande, e talvez a única, diferença entre um trabalho biográfico científico e uma narrativa ficcional é o seu fundamento histórico. Há uma outra marca que distingue o relato historiográfico de outro. O historiador confronta factos na origem. Lê opiniões e relatos desencontrados. Estuda a história da época em muitas das suas declinações. Económicas, politica, religiosas, de mentalidades. Apoia-se num número apreciável de estudos de outros historiadores. Digere, propõe, teoriza e dá conta das fontes onde bebeu. Daí que uma biografia científica possa ser matriz de muitos outros trabalhos, e só isso justifica o trabalhão enorme que dá. O que não impede que seja de leitura acessível a todos, desde os interessados em investigar mais, aos que pretendem apenas em viajar no tempo e nos modos, e trazer as recordações fiáveis dessa viagem. No meu caso, o oficio da escrita - 30 anos de jornalismo -, ajuda sempre muito, sobretudo na fluidez da narrativa.

Foi nesta dupla disposição, construir um livro científico como um romance que qualquer pessoa conseguisse ler, que pesquisei rigorosamente e exaustivamente para escrever a história da Imperatriz Isabel de Portugal, procurando juntar a uma narrativa fluída, muito visual, e tanto quanto possível emocional, a natureza dos factos apurados como historiadora que também sou. O resultado é sempre uma incógnita e devo dizer que por fim já nem sabia bem o que esperar dos três anos de tamanho trabalho.

Por acaso, ou talvez não, este livro nas palavras insuspeitas do meu editor, foi e continua a ser um sucesso e fez «cross over», ou seja, chegou e chega às mais variadas pessoas. Fico particularmente feliz. A nossa tão esquecida infanta que foi imperatriz e rainha e mulher tão amada no país vizinho, bem merecia ser recordada por todos. Agora já não há desculpas para tanto disparate que se vê escrito por aí, como numa página dita «oficial», e relativamente recente, onde ela é descrita como uma beata constantemente ajoelhada no seu oratório a tomar conta dos «numerosos» filhos e das «numerosas» aias destes, totalmente desligada da política (!!!) vivendo e morrendo em Toledo, de onde nunca teria saído, a fazer fé na descrição que a tal página lhe dedica...

Os factos:

Isabel fez politica, Isabel governou os reinos nas frequentes e por vezes muito prolongadas ausências do marido. Isabel não estava sempre na «corte» em Toledo, dividida entre as idas ao oratório e a fiscalização das numerosas aias dos numerosos filhos (que nem foram assim tantos), porque a «corte» significava, nesses tempos, o local onde se encontrava o soberano, e nestes tempos o soberano viajava incessantemente, sobretudo no país vizinho, já que em Portugal e com D. Manuel I a corte fixou-se em Lisboa, embora o rei continuasse a priviligiar as idas a Sintra, ou a Évora ou Almeirim, onde tinha palácios e onde se sentia particularmente bem. 

Mas como rainha de Castela, Isabel viajou e de que maneira!! Só com Filipe II (I de Portugal), seu filho, se assistiu à fixação da corte castelhana em Madrid. Antes e por vários motivos que se explicam, andava-se de um lado para o outro, por caminhos incebíveis e em condições tremendas, como se descreve. Por outro lado, Isabel teve vários filhos sim, mas que lhe morreram na primeira infância para seu grande desgosto. Quando ela própria morreu, de mau parto ou parto prematura, as fontes não são coincidentes, estavam vivos três, Filipe, Maria e Joana.

Finalmente, Carlos, ao contrário do que ainda se lê em muitos lados, não se encontrava «longe dela e a caçar, juntamente com o primogénito», mas sim ao seu lado durante toda a agonia e até ao último suspiro da belíssima e muito amada mulher. E não foi para o mosteiro de Yuste, com o desgosto. Recolheu-se a um mosteiro, sim, durante quase um mês, incapaz até de acompanhar o corpo da mulher à sua última morada, que por acaso foi a penúltima.

O afastamento da vida pública e consequente abandono do poder por parte do rei e imperador Carlos V, aconteceu muitos anos depois da morte de Isabel de Portugal.

Estas coisas serem verdade ou serem mentiras e efabulações, fazem muito diferença.



quarta-feira, março 13, 2013

Entretanto, amo

Os meus ideais de bem, de bom e de belo estão sujeitos aos parâmetros do meu eu. São limitados ao tempo e ao modo em que me desloco. São circunstanciais. 

O meu ideal de Amor não tem fronteiras e nele se integram tudo e todos os seres num tempo para lá do tempo. Nessa radiância dissolve-se tudo aquilo que considero o eu. 

O meu ideal de Amor é assim uma infinita e inacessível e nostálgica miragem. Entretanto, amo.

terça-feira, março 12, 2013

Se eu fosse uma abelha

Se eu fosse uma abelha via o mundo com os olhos das abelhas. Se eu fosse uma andorinha, via o mundo com os olhos das andorinhas. Se eu fosse um cão, um golfinho, uma formiga, uma tartaruga, um micróbio ou um robalo, a minha percepção da vida seria adequada a cada uma destas naturezas.
Mas como sou um ser humano, vejo o mundo e os outros com olhar de gente.
A diferença, entre outras, é que como criatura pensante, ocupo o meu cérebro a reflectir sobre estas e outras ninharias o que não me confere qualquer direito de pensar que a minha percepção de realidade é a única, e a única verdadeira. A fatia que me cabe apreender, através dos meus orgãos sensoriais e do meu intelecto, deixa de fora uma gama infinita de percepções. Há cores, sons, sabores, que jamais apreenderei, a menos que máquinas que o meu génio humano sonha e concretiza,me permitam aceder, de forma naturalmente parcial, a essas plataformas de outros sentires.

A minha realidade é um mero fractal da realidade, seja o que for que o conceito implique. Qualquer pretensão à supremacia da Verdade é, neste jogo de ilusões, uma muito perigosa e muito patética ilusão.

créditos da imagem:  http://dalantech.deviantart.com/art/Miner-Bee-Head-On-II-101531317

sexta-feira, março 08, 2013

Só de pensar nela



Abre os braços pediu ela.
Ele abriu os braços, subitamente consciente do corpo deitado junto do seu.
Respira fundo pediu ela. Tinha uma voz quente, rouca, e falava muito baixo.
Ele respirou fundo, extasiado pela onda de um desejo avassalador que o submergiu, e teve vontade de gritar. Estavam deitados numa cama larga, num quarto escuríssimo. Havia uma espécie de ameaça, no ar. Nada que pudesse diminuir um átimo que fosse da intensidade do seu desejo pelo corpo que tocava no seu.
Volta-te para mim ordenou ela.
E ele voltou-se a tempo de ver, na escuridão, os olhos cor de avelã que brilhavam como sóis furando o negrume que os amortalhava.
Agora cobre-me. Crucifica-me em ti pediu ela, num gemido que o electrizou.
Ele rodou, e foi então que ele reconheceu a natureza da ameaça que se erguera contra os dois. Numa urgência agónica, ainda conseguiu sentir o calor húmido do beijo que o orvalhou de um prazer tão intenso que o seu sabor permaneceria nele para o resto dos seus dias. Não pode, porém, permanecer junto dela. Perdeu-a no exacto momento em que a cobriu, sentindo, para seu infinito desgosto, a respiração dela na sua boca, os seios duros, as pernas fortes a enrolarem-se à volta de si.

Acordou com vontade de chorar e de rir. Um homem muito velho, com uma gloriosa ereção de quarenta anos, deitado junto de uma mulher idosa que ressonava baixinho. Ergueu-se em silêncio para não a acordar. Não estava a sonhar com ela. Nunca sonhava com ela. Viviam juntos, eis tudo. Há tantos anos feitos de dias tão iguais, que tocar-lhe ou imaginar-se a tocar-lhe por prazer e com desejo, ter-lhe-ia parecido obsceno. Lentamente, dirigiu-se `janela e espreitou o dia que começara a nascer. 
«Obrigada», mumurou a boca quase encostada à vidraça que, imeditamente, ficou embaciada. Depois aclarou a garganta e limpou os olhos húmidos. Quem sabe se voltaria a encontrá-la? 
Só de pensar nela, só de pensar nela.

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Tempo dos Milagres : O Jardim dos Desafectos

A minha nova nova crónica no nosso Boas Notícias:

 «Sufocada de espanto, olhava para aquele rosto de olhos fechados, as mãos cruzadas sobre o peito, o cabelo branco a emoldurar o rosto sereno, percebendo que de repente já não existia nada nem ninguém para habitar o memorial de desafetos que construíra em sua homenagem com todas as fibras do meu ressentimento. Afinal, e tal como suspeitara, eu gostava tanto dela e agora era tarde demais para colher uma gota que fosse do amor que lhe tinha. Um abraço sincero, um beijo de alma naquelas mãos quando ainda estavam quentes, teria bastado.»

 http://boasnoticias.clix.pt/noticias_Tempo-dos-Milagres-O-Jardim-dos-desafectos_14679.html

sábado, fevereiro 09, 2013

Sonho que sonho que sonho

Quando sonho que sonho sinto-me acordada. E esse é um momento de alegria indizivel. Depois, preciso fazer um esforço consciente para não acordar de vez ou não adormecer de todo, de forma a conseguir permanecer tanto tempo quanto possível nesse território inexplorado e sempre diferente, onde tempo e espaço jogam com cores e formas e densidades de uma fluidez pasmosa. Andar por ali, sabendo que se anda por ali, é da experiências mais exultantes e intrigantes que me, que nos, é dado experimentar.
É a aventura em estado puro, acordar no sonho sabendo que se está a dormir. 

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

O meu primeiro livro publicado

Normalmente, a maravilhosa aventura de vermos o nosso primeiro livro editado e publicado, redunda na mais completa frustração. O jovem autor - mesmo que não seja tão jovem assim - está totalmente «verde» em relação aos meandros de uma indústria sobre a qual tem uma ideia muito romântica. Tudo isso, somado à gratidão que experimenta ao assinar o primeiro contacto de edição, «gostam do meu livro, vão publicar-me! Iupiii», conduz a uma relação sem futuro que terminará como terminam todas as relações desiguais.

É quase curricular que «O meu primeiro livro publicado» coincida com o primeiro grande desgosto no cursus honorum de um autor. As histórias que se ouvem e partilham neste campo davam para muitos outros livros. São lições que se colhem e, nesse sentido, têm uma grande utilidade. Mas aceitem este conselho do coração: não paguem, jamais e em circunstância alguma, para serem editados, a menos que se abalancem a uma edição de autor. Se um editor vos pedir dinheiro para publicar o vosso livro, não confiem nele nem na sua máquina de fazer dinheiro à vossa custa.Imaginam um merceeiro a exigir dinheiro ao agricultor para lhe vender as maçãs ou as batatas da sua produção? Mas escrever não é menos trabalhoso do que plantar batatas ou apanhar maçãs. Assim, se um editor invoca os dramas económicos da existência para não arriscar um eurito que seja na vossa obra, virem-lhe as costas. Na verdade, se ele paga à gráfica, à distribuidora, e a toda a máquina que envolve a indústria do livro, porque raios e coriscos o quer fazer a expensas do coração e do seu sangue que fazem girar a dita máquina, ou seja, a nossa escrita?

Em síntese, uma das primeiras lições que o autor aprende, e quando mais depressa a aprender melhor, é a dizer não. E a perceber que um contracto de edição, tal como todos os outros contractos, tem de ser favorável a ambas as partes. Leiam-no com todo o cuidado, e levem-no a um advogado que perceba de direitos de autor. Jamais assinem de cruz, na embriaguez de gratidão e alegria em que todos começamos por cair, nós os autores.

E em seguida, procurem um bom, um honesto, um empenhado e aguerrido editor/a. Acreditem que tal personagem existe e não desistam de o/a encontrar. Essa é, pode e deve ser, uma relação para a vida. Merece o nosso maior empenho.