Vila Cabral, 1963-1964. As ruas eram de terra batida. Por vezes, muitas vezes, o piso tornava-se tremendamente irregular. Mesmo assim, andávamos por ali, à maluca, de bicicleta. Aos doze anos, a caminho dos treze, apesar das aulas de dança de salão com o professor que a minha mãe me arranjou, e do colarzinho de pérolas rente ao pescoço para as ocasiões especiais, eu era, ainda, a criança que saltava ao eixo nos cogumelos de metal do jardim da Pousada e a quem a atenção masculina deixava terrivelmente embaraçada.
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Vila Cabral, desfile de tropas junto ao quartel
(início da década de 60) |
Os soldados, por exemplo. Passavam em grupo, a falarem entre si, rindo abertamente enquanto atiravam piropos, no ir e vir do quartel. Uma vez, um deles, numa voz de urgência aflita, gritou-me quando eu passei pelo grupo, a pedalar cheia de energia:
- Ó menina, ó menina!! Olhe a roda de trás a andar para a frente!!
Sem deixar de pedalar, olhei instintivamente para trás, para perceber o que se passava com a roda, perdendo de vista o buraco que se apresentava à minha frente, onde nós, eu e a bicicleta, nos enfiámos num grande aparato, saudado pelas gargalhadas dos rapazes do camuflado.
A roda entortou, os joelhos ficaram esfolados, e a minha dignidade cobriu-se de matope. A pé, com a bicicleta à rédea, que é como quem diz, voltei para casa por aquela rua interminável, seguida pelo risos deles, a engolir a minha raiva, juntamente com lágrimas que jamais deixaria aflorarem o meu rosto em chamas. Naquele momento, odiei-os. O facto é que só gostava mesmo dos soldados em abstracto. Como quando os víamos passar em coluna rumo aos matos da guerra, para tratarem do assunto da nossa paz.
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Esta pequeno episódio não consta do livro, porque se fosse a contar tudo o que me lembro, nem mil páginas não chegavam e nenhum leitor merece).