sábado, agosto 02, 2014

Repórter de guerra - Coluna em Marcha

Em mensagens privadas, Henrique Salles Fonseca, amigo recente das redes sociais, cuja escrita muito aprecio, tem-me dado conta do maravilhamento com que leu e releu vários trechos do meu livro Moçambique para a mãe se lembrar como foi. que publicou no seu blogue. Como este:





«Lourenço Marques! A cidade das acácias e dos jacarandás, das palmeiras e das casuarinas debruçadas sobre a baía do Espírito Santo, enfeitada de luzes, geométrica e febril, a explodir de vitalidade e a crescer todo0s os dias, cuja visão, quando o avião começava a sobrevoá-la, me enchia os olhos de lágrimas. A perspectiva de irmos viver para lá era tão exultante que me tirava o ar. Não me lembro sequer dos últimos tempos na cidade do Zambeze.

Na expectativa da mudança, tornara-me até indiferente à beleza singular de uma paisagem que, julgava eu, esqueceria para sempre no momento em que lhe virasse as costas sem poder imaginar que, anos depois, a sua ausência se transformaria numa presença irredutível, calorosa e comovedora. E sem poder imaginar também que pessoas que nunca esqueci jamais me esqueceriam também e que me viriam ajudar muitos anos depois com a sua presença cálida e a sua amizade incólume, a refazer o puzzle da minha vida partida em pedaços, a cada mudança de lugar.

Por essa altura, havia um homem novo na minha vida. Dele sabia tudo, embora o tudo que sabia dele fosse muito pouco. Acima de tudo, tocou-me a sua alma marcada pela varíola da guerra e da solidão. Tinha histórias para contar e começou a conta-las nas páginas de um jornal de Lourenço Marques, angariando rapidamente uma legião de fãs cujas cartas aguardavam no Notícias de Lourenço Marques, ao cuidado do director do suplemento literário, que o anónimo oficial português a quem eram dirigidas as fosse levantar. Um volume de missivas que crescia à medida que as crónicas, que foram poucas, iam sendo publicadas nas páginas da Coluna em Marcha, um suplemento concebido e dirigido por Guilherme de Melo, na sequência das suas famosas reportagens de guerra, ainda em 1968.

Se eu amava aquele homem? Que pergunta tão estranha. Ainda hoje não sei responder. Enquanto existiu, a nossa foi uma relação secreta, constante e de uma intimidade total. Nesses tempos, pensava nele horas sem fim, sabendo que mesmo a dormir ele estava comigo. É curioso: ainda hoje não consigo descrevê-lo fisicamente. Recordo, porém, como as mãos me tremiam quando lia as suas crónicas publicadas. Crónicas que não discutia com ninguém, embora e mesmo em minha casa, todos o lessem, falassem dele e se especulasse posteriormente em torno da sua previsível morte, quando, tão de repente como apareceu, deixou de publicar. Sem nenhuma justificação. Desaparecendo, pura e simplesmente. Em todo o caso e enquanto durou, a nossa foi uma relação de corpo e alma.

Na verdade, aquele homem era…»
 
NOTA:
Se o leitor quiser saber quem era o homem, terá que ler o livro. Tem na bibliografia a referência da página.
Agosto de 2014
Henrique Salles da Fonseca
 
BIBLIOGRAFIA: «Moçambique – Para a mãe saber como foi», Bertrand Editora, 1ª edição, Junho de 2014, pág. 233 e seg.
 
 
Retirado de «Repórter de guerra»: http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/reporter-de-guerra-1248368 - extracto publicado no blogue A Bem da Nação

A Cama do Gato

Quero um lençol de espuma do mar nas areias da praias da Aguda ou de Moledo, para brincarmos à cama do gato feita com os cordéis dos pacotinhos de bolachas da confeitaria Arcádia a saltarem das minhas mãos para as tuas, mudando de forma a cada um das figuras a que chamamos redes e pé de galo e outras cujo nome esqueci, e vence não sei quem e já nem me lembro como.

quarta-feira, julho 23, 2014

Liberdade

As maiores feridas são as que causamos a nós próprios. Mas há feridas inevitáveis, necessárias. A adaga do conhecimento causa dores brutais. Revolve as nossas entranhas mais entranhadas e atinge-nos até ao país dos sonhos. Mas não mata. Pelo contrário, os seus sulcos sangrentos abrem-nos o caminho para a liberdade - que só se conquista com os pés em ferida e o peito a arder. E muita solidão.

domingo, julho 20, 2014

Fátima Lopes entrevista Manuela Gonzaga em A Tarde é Sua


Foi um momento televisivo comovedor. Anos depois, quando todos estavam a voltar, Fátima Lopes , então com oito anos de idade, foi com os pais para Maputo onde também viveu por dentro a realidade moçambicana que não esquecerá jamais. Essa partilha, descontados tempos e modos, acaba por estar subtilmente presente na forma como a jornalista e apresentadora do programa conduziu a nossa conversa. Destaco, da apresentação do meu livro, as frases:

Este livro é «Um recordar de histórias que fizeram dela a mulher que é, o reviver de momentos que ainda hoje a fazer sorrir. [...]; uma viagem no tempo e no espaço. É uma homenagem aos pais e ao passado familiar. [...] uma ode ao amor. À família. À vida. E a África.»

Para ver a entrevista na íntegra: - http://www.tvi.iol.pt/programa/a-tarde-e-sua/4140/videos/133829/video/14167670/1
 

Já lá vai Pedro Soldado


 
 
A primeira vez que ouvi este poema de Manuel Alegre cantado, não me lembro se por Manuel Freire se por Adriano Correia de Oliveira, foi em Vila Cabral. Era uma música proibida, que toda a gente ouvia e sabia de cor. Dava muita vontade de chorar - nós estávamos rodeados de 'Pedros soldados' que viviam no quartel da cidade e nos múltiplos e improvisados quartéis do mato para onde iam e de onde voltavam em colunas militares. Nas grandes cidades como a Beira e Lourenço Marques, e até quase ao final da década (68-69), eram muito desvalorizados. Foi preciso o jornalista Guilherme de Melo... com o fotógrafo Carlos Alberto começarem a correr as zonas de guerra relatando e ilustrando quotidianos tremendos num conjunto de grandes reportagens publicadas no Noticias de LM, para as populações citadinas acordarem para o sacrifício de sangue que estava a ser exigido àqueles miúdos de Trás-os-Montes, Beiras, Alentejo e Algarve. Jovens que dos becos de Alfama e das ruelas da Mouraria, e do cais da Afurada, e das ruelas da Sé do Porto, enfim, de Portugal Metropolitano inteiro, que desaguavam nas desconhecidas Províncias Ultramarinas para estancarem, nos matos da guerra, a imparável muralha da guerrilha. 

Para nós, os que vivíamos lá onde tudo se passava - Niassa, Tete, Cabo Delgado - nada do que as reportagens traziam era surpresa. Mas foi reconfortante ver estabelecida a justiça. Afinal os «pretos», os «turras», não eram tão burros e incompetentes que só por cobardia e indolência não tínhamos resolvido o 'assunto'. Afinal, a guerrilha era um assunto seríssimo. Afinal, os soldados não morriam todos de acidentes nas viaturas que mal sabiam conduzir. Afinal o inferno existia e eles estavam lá. Os 'Pedros Soldados' de olhar vidrado de solidão e dor de quem viu morrer camaradas, de quem recebeu de raspão o beijo da morte, de quem estourava de sede, de fome, de medo nas longuras de um território desconhecido e hostil. E onde, mesmo assim, eles aguentavam. Heroicamente, sim. Não tenhamos medo das palavras. 

Julgo que ainda hoje, pelo menos aos olhos dos antigos guerrilheiros e reconhecidos heróis moçambicanos, os soldados portugueses da Guerra do Ultramar são mais respeitados do que pelas nossas autoridades de há décadas. Até porque a medida do herói é a medida do seu inimigo. Desde o rescaldo da mítica Guerra de Tróia que esse respeito misturado com veneração entre antigos inimigos mortais que se guerrearam até à morte, foi estabelecido no cânone da literatura imortal.


Fontes para aprofundar o tema (citadas em Moçambique para a mãe se lembrar como foi)

Guerra Colonial 1961-174 –
Centro de Documentação 25 de Abril/Universidade de Coimbra
 
Alguns blogues
 
Dos Veteranos da Guerra do Ultramar – Angola-Guiné-Moçambique-Cabo-Verde-Índia-Macau-São Tomé e Príncipe-Timor 1959-1975 http://ultramar.terraweb.biz/index.htm
– NUNES, Eduardo Maria Batalhão de Caçadores 598, http://batalhaodecacadores598.blogspot.pt/
– GIL, Fernando, Moçambique para todos,
– GIL, Fernando, Macua de Moçambique,
– MARTINS, José Batalhão de Caçadores 1891,
http://bcac1891.blogspot.com/ (requer permissão para consulta).
– TEIXEIRA, José et alia, ma-schamba,
SANTOS, Joaquim Olhar o Passado
 

 

sexta-feira, julho 18, 2014

Moçambique e os nossos universos paralelos

Uma não leitora - a quem muito agradeço os comentários - fez-me repensar sobre este refazer de memórias escondidas, que muitos de nós nunca partilharam até por não terem sequer com quem.
 
Miducha Duarte Silva Eu ainda não comprei o livro, embora tenha muita curiosidade, nasci na ilha, o meu bisavô, está lá enterrado e o meu Avô, também, e ouvia imensas histórias do meu pai sobre o mato, que nunca conheci, ou muito pouco, e da nossa família que também dava um livro, especialmente a do meu bisavô, Luciano Ignácio Félix (nome dado ao meu pai) que muita obra social fez em Maputo..hoje só temos uma Tia sobrevivente, mas está doente, tem 88 anos, e as memórias vão-se perder.. restam fotos, da Inhaca (em tempos do meu bisavô) parte dela, e da Ilha também as minha memórias da Ilha são bonitas mas poucas. Vivi sempre em Maputo.
 
Miducha Duarte Silva Apesar de já lá ter voltado 38 anos depois, achei que tinha vivido noutra dimensão, mas que era a minha terra na mesma!! o que foi e é muito estranho! e Adorei tudo e o ter lá estado.(ainda tenho família lá) Isto tudo para dizer que me é ainda extremamente doloroso ler, ou ouvir contar histórias sobre Moçambique ..não sei ainda porquê!!
 
 
 
As palavras desta não-leitora tocaram-me particularmente., Também para mim,  e desde que aqui cheguei há tantos anos, a nossa vida em Africa entrou numa espécie de universo paralelo mental, a que só eu tinha acesso. E era como se tivesse sido, toda ela, uma vida inventada por mim - ninguém conhecia os lugares onde eu vivera. Ninguém conhecia as pessoas que eu recordava. Ninguém sabia nada sobre o acordar e adormecer sob outros céus, sob outras estrelas iluminados por um Sol e uma Lua tão próximos da Terra. Aliás, ninguém ao meu redor mostrava ou mostrou jamais qualquer interesse por esses mundos de aquém e além mar, já que o rótulo que colectivamente nos embalava, arrumava num grande e cinzento armazém da Historia as nossas histórias da vida que ali definharam por falta de ar.
Pelos motivos que apontei, comecei a escrever Moçambique literalmente para a minha mãe se lembrar como foi. E depois, pelos motivos que também já expliquei, percebi a certa altura que aquelas crónicas avulsas, impressas em folhas A4 iam entrar no caminho da escrita, que é um caminho sem retorno. Então, esqueci-me, melhor, larguei o «eu» de agora, para evocar a vida de todos nós, sem descurar as minhas próprias mutações e a nossa vivencia mais pessoal. 
 
É assim que, neste momento, os meus próximos sabem finalmente de coisas, de lugares, de pessoas, de montanhas e rios e árvores e cidades e vilas e lugarejos, e historias de guerras e de paz, de que nem sonhavam a existência. Eles, tão alheios ao universo africano, estão em plena Viagem e estão a gostar de uma forma que nunca imaginei que gostariam.  Mais do que isso, comecei a perceber que este livro devolve foros de cidadania à minha, à nossa vida escondida, de modo que, através dele, e nada estava mais longe das minhas intenções!, exorcizei eu própria os fantasmas do olvido. A todos os que me louvam a «coragem» de me expor desta maneira, tenho de desiludir. Não foi preciso coragem. O processo tomou conta de mim - e eu esqueci-me do resto.
 
Na verdade, esta é uma historia colectiva. África está-nos no sangue e na memória, evocada ou escondida. Dos que partiram e voltaram. E dos que não tendo partido, logo achando que o assunto não lhes diz respeito, a transportam nas misteriosas estradas do sangue. Sim. No código genético português.