sexta-feira, maio 06, 2011

A Lenda de Gaia no TEDx O'Porto 2011




Na casa da Música, a sensação inexprimível de ter chegado... a casa. O «meu» Porto onde nasci há tanto tempo.

quinta-feira, maio 05, 2011

Fábula das duas rãs

É uma história sobre a persistência dos que não desfalecem. E é, também, uma viagem ao tempo dos milagres. Acima de tudo, esta crónica permitiu-me, sem ter dado conta disso quando a escrevi, exorcizar de vez um velho fantasma. Com ela dou início à minha colaboração no mundo solar das Boas Notícias.
Pequeno extracto:
«Fiquei sem palavras, assombrada diante dele. Tinha 24 anos e ainda hoje recordo a sensação da minha cara em chamas como se tivesse sido brutalmente esbofeteada. A dor, porém, era muito pior e doeu durante muito, muito tempo. Em segundos, aquele desconhecido desvalorizava totalmente o meu adorado trabalho e arrasava a minha identidade cultural. Por puro preconceito. Pior, ao fazê-lo nos termos em que o fazia, acusava-me implicitamente, de a troco de favores –obviamente sexuais –, ter conseguido em Moçambique e em Angola quem escrevesse por mim os textos que eu assinava
Para ler mais: Boas Notícias.

quarta-feira, maio 04, 2011

Parábola do amor mudo

- Lembro-te tão bem da primeira vez que te vi. Estávamos na praia, tinhas acabado de sair da água, o sol tinha sido inventado nesse dia para te fazer brilhar, lembras-te?
- Eu...
- E eu tinha acabado de comprar um gelado, um picolé, como lhe chamávamos naqueles tempos, e ofereci-to, estava embrulhado e tudo e tu...
- E eu...
- começáste a rir, a rir, a rir, e respondeste que não me conhecias de lado nenhum, e eu...
- E tu...
- apresentei-me, nome, idade, número do bilhete de identidade, morada, nome do pai e da mãe...
- A tua mãe onde...?
-  e depois descobrimos que o toldo ao lado do teu, do vosso, era de uns nossos amigos desde sempre...
- Os pais do Carlos Filipe ia mesmo perguntar-te...
- ... e fomos todos juntos jantar ao chinês, recordo-me de tudo. De tudo! O que vestias, como andavas, as covinhas no teu rosto, o ar amuado, a cicatriz na palma da mão, estavas no 6º ano do liceu, e...
- Estava no sétimo ano, porque...
- ...e eu ia ter contigo à porta do colégio, vínhamos os dois de mota, as freiras torciam o nariz...
- Já não eram freiras, saí das freiras no sexto-ano qua...
- ... mas nós não ligávamos nenhuma. Oh, que saudades, o que é feito de ti?
- Agora trabalho em...
- Sabes onde vivo, certo? Que coincidência, estes anos todos e nunca nos encontrámos. Afinal, estamos praticamente a viver na mesma cidade, em que zona vives?
- Muito perto de...
- Eu fiquei sempre na zona onde os meus pais viveram, porque...
- Ainda são vivos?
- ... vagou uma casa ao lado do Lucas, lembras-te do Lucas?
- Aquele rapaz de cabelo rui...
- Pois eu fiquei com a casa dele. Para o meu trabalho é ideal, sabes que sou...
- Não, não sei, adeus, adeus.
- Já? Temos tantas coisas para dizer um ao outro!! Espera! Não vás! Para onde vais?

ah, meu grande idiota, vou para um sítio onde possa gritar tudo o que não me deixaste dizer, nem quiseste ouvir, para chorar a minha decepção, movi céus e terra quando soube onde estavas, arranjei este pretexto para nos encontrarmos como por acaso, para saber o quanto de ti ainda existe em mim, e o quanto de mim tu carregas, mas tapaste a minha voz, amordaçaste as minhas palavras, e agora só me apetece gritar e dar-te pontapés...

- Espera! Espera! Espera por mim!!

-

segunda-feira, maio 02, 2011

Parábola do amor surdo

- Amo-te
- Muito?
- Nem tu sabes quanto.
- Dá-me uma medida de grandeza, para poder avaliar.
- Hã? Sabes que te adoro! Não chega? Amor não tem fita métrica, amor.
- Eras capaz de me dar um rim?
- Para que queres um rim?
- Sei lá, se eu precisasse. Eras?
- Passa-se  alguma coisa? Estás doente, amor?
- Não.
- Diz a verdade. Agora deixaste-me muito preocupado. Sabes que podes contar comigo para tudo, o que se passa?
- Nada, já disse. Era só para saber. 
- Tás a gozar comigo?
- Não. Estou a falar a sério.
- O que se passa? Deixaste de gostar de mim, é isso?
- Não, adoro-te seu tonto.
- Se gostasses de mim não te punhas com essas conversas parvas. Quem é o outro?
- O outro? Tás a viajar. Bolas, és insuportável.
- Desculpa, tu é que és. Se não estás a mangar comigo, estás no limite do irracional. Onde é que queres chegar?
- A lado nenhum. Agora nem me apetece falar mais contigo.
- Não ouviste nada do que eu disse, pois não?
- E tu?
- Hã???
- Nem respondeste se me davas a merda do rim. Que raio de amor é o teu?

quinta-feira, abril 28, 2011

O jardim real de todos os príncipes e princesas

O corpo esguio e tão branco, a brilhar sob a luz da manhã nova, ela dormia serena na impossível posição dos amantes. As pernas, longas e desnudas, numa geometria fetal, os braços tombando-lhe sobre o peito, a cabeça no colo dele, a cara escondida pelo cabelo solto, louro, desalinhado. Ele, muito acordado, envolvia-a num abraço. Os dois no banco estreito, de frente para o sol que nascera há pouco e os pintava de ouro. A cabeça dele inclinava-se sobre a dela, as mãos dele fechavam o círculo em redor do peito dela. Os dois respiravam o mesmo ar. Um pequeno milagre de amor, no jardim real de todos os príncipes e princesas.

quarta-feira, abril 27, 2011

Águaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!


Tântalo e seu suplício
 Os gritos. Os gritos. «Quero águaaaaaaaaaaaaa». Na rua estreita e íngreme não havia como lhes escapar. Ela gritava, ululava, como se a tivessem a estripar. Havia um homem grande, de avental branco, à porta do restaurante.  O seu rosto não tinha qualquer expressão:
- Não lhe dou mais água nenhuma.
Tentei escapar ao torpedo que vinha direito a mim, bramindo e agitando os braços.
Estremeci. O cão estremeceu. Ela apanhou-nos a descer a rua bem junto à parede, e gritou:
- Queroooooo águaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
parada à nossa frente, gigantesca e pavorosa, consumida por invisíveis labaredas. Escapei àquela onda de pavor, atravessando a rua em direcção ao homem de avental. Olhei para ele, ele olhou para mim. Abanou a cabeça:
- Não dou mais água nenhuma.
- Chamamos a ambulância? Polícia?
Ela estava a dois passos de nós, com os seus gritos roucos, os braços a esgrimir contra o ar da tarde toda.
- Nã - disse ele, abanando a cabeça e voltando a entrar para o restaurante.
A mulher afastou-se, sempre a gritar o mesmo refrão.
Na escuridão do seu cérebro doente, o holograma da realidade é um pavor sem limites. Com ela, o inferno passou por nós, com um hálito de fogo e indizível sofrimento.
Ela podia estar mergulhada no Tejo que continuaria não ver mais do que sede e chamas.
Por isso gritava com o desespero dos condenados, como quem chama por um deus ausente.
E nós sem podermos valer-lhe.

Autor da imagem: Jeffrey Heft.

segunda-feira, abril 18, 2011

Dead people alive

I'm writing a new biography. I'm connected in a daily basis with someone who died five centuries ago. So I'm in a middle of something like "I can see/listen dead people".