quinta-feira, junho 07, 2012

Em nome da bola amén

Na Ucrânia, por causa do futebol, animais abandonados são queimados vivos, cães basicamente, e foguetes com substâncias altamente tóxicas são disparados para manter o céu sem nuvens. Ambas as ações decorrem da mesma alarvidade demoníaca. Robert Heinlein escreveu, num das suas obras de ficção científica, que quando num planeta se começava a exigir bilhete de identidade, era altura  partir para o espaço à procura de outro. Eu digo que quando num mundo se atinge tanta maldade, de que este exemplo é a ponta do icebergue de horror, é altura de ir embora sem saudades.

Mas...

Eu digo: quando num mundo o horror e o intolerável são tolerados e decretados, é preciso juntar todas as vozes e todas as forças do mundo dos vivos que vivem realmente, para pôr cobro a este inferno decretado pelos sem alma e de coração morto.


Contributos:
 http://sinfoniaesol.wordpress.com/2012/06/06/na-ucrania-o-euro-nao-tem-chuva/
 http://pt.euronews.com/2012/01/26/morte-de-animais-da-origem-a-manifestacao/
 https://www.facebook.com/nunomarkl/posts/10151006908177387

sábado, junho 02, 2012

O caçador de fantasmas

Ver, ver, ele não vê. Ele sente, detecta, encurrala e expulsa fantasmas. Basicamente, fareja-os num raio de muitos metros. Por exemplo, estamos a jantar, a conversar, a rir - porque ele é muitíssimo divertido - e de repente faz uma pausa e diz, hum hum, e saca do pêndulo, ou nem isso, e afirma com uma total convição:
- Vocês têm aqui um espectro.
A seguir passeia pela casa, que ainda é grande, e encontra-o. Normalmente acaba por descobrir mais um ou dois aninhados em cantos junto de tomadas de corrente - «por causa da energia», explica - e depois faz a cena dele. Que é como quem diz, manda-os dar uma curva. Ninguém, além dele, vê, sente, pressente, seja o que for. Nem o cão. Mas é irresistível segui-lo, não muito perto, porque ele não deixa, enquanto abre janelas, estala os dedos, fala com o invisível, e limpa o nosso lar.
- Não é por nada - explica - é por tudo. Os espectros sacam uma data de energia às pessoas. Aí por volta das três, quatro da manhã, acordam da letargia, e colam-se à malta, a sugar o mais que podem. Muitos pesadelos que as pessoas têm é por causa disso.

A princípio, sentíamos uma espécie de medo. Não por causa do invisível, mas pelo visível deste aparato. Olhávamos um para o outro, ou uns para os outros, ou tentávamos nem olhar de todo, a fazer de conta que é  tudo muito normal, apesar do friozinho no estômago, ou do desconforto da antevisão de grades nas janelas e camisas de força... «estamos todos doidos, é isso?».
- Eu estou, de certeza absoluta - responde ele.

Tem um maravilhoso sentido de humor, um belo apetite e um enorme coração. E uma incrivel acutilância em áreas de acesso restrito. Nas últimas vezes tem falado de algumas das suas viagens que são tão extraordinárias como tudo o resto. Mas agora,  nada do que diz ou faz nos perturba. Gostamos dele. Gostamos mesmo muito dele. Ele é como é, e aceitamo-lo inteiramente assim. Com o seu universo de invisibilidades e probabilidades e outras singularidades, entrou no nosso pequeno mundo, abencoou-nos com a sua amizade, e alargou decididamente o meu, o nosso, irreal quotidiano.

sexta-feira, junho 01, 2012

Lisbon stories by Lapin Géant

Nunca estivemos muito afastados, porque há a internet e assim. Mas aquelas conversas intermináveis, no átrio da Nova, na cafetaria da Gulbenkian, na TT, e na Bijou do Calhariz, e depois na Flower Power, foram arquivadas pelas imperativos da vida transcontinental do Lapin Géant. A Rita, que entrava sempre, ou quase sempre, nesses filmes, também me faz uma falta de todo o tamanho, mas agora está enfiada atrás das montanhas, numa paisagem de cortar a respiração, com uma casa cheia de quartos à espera que os amigos apareçam, enquanto prossegue nas suas arqueologias. 

O Edilson também está longe. Ainda por cima éramos vizinhos e tnhamos a nossa agenda de biquinhas e cervejinhas, pelo menos uma ou duas vezes por semana, mais as conferências a que estava sempre atento, não me deixando escapar às mais estimulantes. Também estava muito presente nos longos serões e tardes e manhãs em que o tempo se enrolava em torno dos seus múltiplos eixos. Um historiador de palavra cheia, e um compincha divertidíssimo. É verdade que continua a insistir que estamos à distância de 50 euros e duas horas de avião, descrevendo-me a sua casa diante do lago Genebra com as cores mais apetitosas que se possa imaginar.

Mas o que sabe mesmo bem são  estes encontros inesperados, no calor lisboeta deste Verão, onde sem ninguem combinar grande coisa, apanhámos o Dk o Timóteo, e acábamos a conversar e a trocar os cromos dos últimos acontecimentos das nossas vidas e das nossas vidinhas. Desta vez, com direito a uma inesperada performance de bailado aqui mesmo na rua, no lindíssimo Largo do Século. Trabalho de alunos finalistas da escola superior de dança. Momentos mágicos.
«As saudades que tinha de Lisboa» - diz o Lapin, que no domingo vai para o Brasil e a seguir voa para os States onde prossegue o doutoramento. Entretanto a sua Joana chega hoje de Paris, também ela radiante por rever esta Lisboa onde viveu anos importantíssimos e reencontrar o seu amor que por imperativos académicos, tem estado longe.
Que belo abraço, finalmente!

quinta-feira, maio 31, 2012

os virus são muito inteligentes

Disse o meu amigo, acabado de chegar de Machu Pichu. Não foi durante esta viagem que chegou a semelhante conclusão. Em Janeiro, já mo tinha dito com todas as letras:
- Os virus são intelegentíssimos. Têm o mesmo ADN que nós. Entendem a nossa linguagem e tudo. Mudam, adaptam-se, transfiguram-se. Retirá-los é obra porque eles são uns sonsos, fazem de conta que sim, que desapareceram, e vão alojar-se noutro lado, com outras formas. E tornam-se, por assim dizer, invisíveis. Se não sabes onde procurar, nem como, não vês, certo?

A seguir confirmou que sim, falava com eles. Melhor, dá-lhes ordens. Que é como quem diz, manda-os embora. Lá com a técnica dele. Quanto às bactérias, fungos, e outros seres igualmente muito mais do que liliputianos, não vale a pena dirigir-lhes a palavra. Não entendem seja o que for. É acabar com eles, ou seja, retirá-los do sistema. Lá com a técnica dele.
Depois, falou-me de Cuzcu e Machu Pichu. Não lhe disse nada, mas andei por ali, há uns meses, por livro de crónicas com alguns séculos. Não dizendo directamente respeito à história que estava a escrever, tinham ponto de contacto com a vida da rainha que eu biografei, e que, como é evidente, nunca lá pôs os pés. Nem ela nem o rei. Dali só queriam o ouro que lhes chegou em toneladas.
Não lhe disse nada, porque só queria era ouvir o que o meu amigo tinha e tem para dizer. É sempre tão fantástico.
A minha imaginação que é uma doida, perante pessoas assim fica de boca aberta.

créditos imagem: http://www.livescience.com/3338-protective-shell-virus-imaged.html

terça-feira, maio 29, 2012

os meus sonhos

Há anos que não lhes presto a atenção que merecem e por isso estão confusos e tão fragmentados, pelo menos quando acordo, que não é possivel, ao fim de uns minutos, reconstruí-los com o mínimo de lógica.
Destas noites longas onde o sono me cobra os atrasos às 10 e 11 horas de cada vez, recordo um homem muito triste, e outro homem muito sério. Como foi em sonhos distintos não sei se são o mesmo. Uma porta que muita gente estranha quer arrombar. Um cão negro que parece muito mais ameaçador do que se revela ser. Tem uma coleira de picos. Uma pistola que não dispara tiro nenhum. Uma viagem por um território estranho, que me deveria ser familiar, porque no sonho é ali que vivo.
Entre o adormecer e o acordar, uma muito quente e obcessiva assombração.
Chama-se África.

segunda-feira, maio 28, 2012

Metamorfoses

Tanto tempo a sonhar com este momento. Depois, fica-se à espera da imensa sensação de alívio. Mas só aparece o vazio.
Este vazio é um vazio estranho.
O alívio só chega depois, e sempre com atraso. Entretanto, vai ter expulsar o desconforto. É que nunca, mas nunca, ficamos absolutamente convictos de que a última palavra foi escrita. Não numa biografia. Neste momento, umas quantas ideias gemem de desgosto por não terem tido tempo de antena. Umas chatas, que me esforço por ignorar.

sexta-feira, maio 18, 2012

Depois da meia-noite, quando «eles» acordam

É preciso ter muito cuidado com o que se diz. E o tom em que se fala. Sobretudo, dentro de casa. E mais ainda, quando a televisão está desligada. Porquê? Oh - respondeu ele, como se estivesse a repetir uma verdade axiomática, daquelas que se aprendem nos bancos da escola - porque «eles» acordam.
«Eles?» - na sala pouco iluminada,  com a lua a entrar pela janelas, um vento frio desalinhou as vogais e consoantes do diálogo tornando-o bastante absurdo. 
«Eles. Os espectros.»
«Ah. Oh. Bom...»
«É verdade. Adoram o som da voz humana. Sobretudo alguns timbres. Não me perguntes quais nem porquê.»
Eu não perguntei nada. Eu não queria perguntar nada. Ou por outra, queria mas nem sabia bem por onde começar. Às vezes, quando estou com ele,  volto à infância das maravilhas e dos pavores. Descontando o efeito contos-de-fadas, há sempre a possibilidade de algumas destas  informações míticas, psicadélicas ou surreais, me aparecerem depois nos sonhos, a fazerem de conta que são de verdade.
E esses sonhos, ai, são pesadelos.