quarta-feira, outubro 23, 2013

Sonhos de acordada

No fundo, somos um sonho que se renova a cada instante.
Percebi isso hoje, mal acabei de acordar.






 

segunda-feira, outubro 21, 2013

E tudo por causa de um Zigurate.

O grupo de investigação a que estou associada entronca nas civilizações pré-clássicas, e tem a Mesopotâmia como foco. Sendo a minha área de mestrado a História da expansão portuguesa, eu própria percebo a interrogação muda que já me foi levantada, porque também eu me coloco  a mesma questão, com alguma frequência.

Que ando a fazer pela Mesopotâmia?

Pieter Bruegel o Velho, A Torre de Babel, 1563, (Kunsthistorisches Museum,Viena)

Porque raio, entre os vários grupos de investigação possíveis do Centro de Historia de Além-Mar da FCSH da Universidade Nova de Lisboa, escolhi este? Foi do coração e do instinto. Senti que tinha de voltar, 'concretamente' se é que se podem colocar assim as coisas, à Suméria. Senti mesmo. Não é o caminho mais fácil, porque o mais fácil seria aprofundar campos onde, por todos os motivos e mais alguns, estava mais à vontade e francamente mais 'encarreirada'.

Mesopotâmia porquê? Tenho de perguntar à minha cabeça, mas sei que a resposta não virá tão cedo.

Alice, Alice, lá vais  tu outra vez a cair para dentro do poço tão fundo. E tudo por causa de um Zigurate.



 

sábado, outubro 19, 2013

Meu inimigo e minha sombra, meu amor e minha luz

Meu inimigo, minha sombra, minha luz e meu amor.
As «Elegias do amor e do ódio» vão arrancar daqui a poucas horas - o segundo grupo. Basicamente, e neste primeiro passo, o desafio é procurar uma pessoa, especificamente uma pessoa, que nos marcou. Pode ter sido 'alguém que passou por cá e deixou ao deus-dará os olhos presos nos meus', como na letra do fado. Pode ter sido alguém que nos impressionou pelos melhores ou piores motivos.

Marc Chagall, A queda do anjo, 1923-1947 (detalhe),
 
Pode ser alguém sobre o qual se queira efabular um registo literário, mas que, em boa verdade, só existe no nosso pensamento. Pode ser alguém a quem não temos ou não tivemos coragem de nos dirigir. Um amor esquecido? Uma paixão escondida? Um raiva que não tem por onde sair? Uma dor? Uma injustiça a ser reparada? Uma fantasia? Quem sabe o que se passa na camara de tesouros do nosso passado, todo ele e porque passou, já revertido em imaginação? Só nós, se a tal nos dispusermos. Porque é de Viagem que se trata.

Em todo o caso, vamos chamar uma pessoa. E essa evocação provocará um recrudescimento de lembranças e destas, trabalhadas pela palavra viva, vai emergir uma carta. Uma carta que funcionará como um acerto de contas com o passado, real ou imaginário. É igual, vai dar ao mesmo. Tudo somos nós.

Destacamos, do primeiro módulo, o respectivo briefing: «Ao longo da vida há muitas pessoas que nos marcam. Aqui costumamos acrescentar a frase que é uma espécie de dogma: 'para o melhor e para o pior'. Este aforismo, porém, é desprovido de sentido. Todos os que nos ensinam, e portanto todos os que nos fazem crescer, com ou sem dor, surgem na nossa vida por algum motivo, um motivo muito forte. Fomos nós que os/as chamámos. Vamos então invocar, descobrir, desentocar, alguém muito particular, e trazê-lo à luz do momento presente. Vamos recordá-lo com todos os detalhes. Vamos chamá-lo pelo nome.»

Queridas pessoas: mesmo sem fazerem parte destas Oficinas, porque não tentam escrever também esta carta, seguindo os passos aqui muito sucintamente explanados? Façam-no e, se quiserem, deixem-nos saber como foi. É um processo comovedor e fascinante ver emergir, pela magia da palavra, a reconfiguração das nossas vidas.
 
O seu sentido a tomar forma diante dos nossos olhos.

quinta-feira, outubro 17, 2013

A vida deles, a vida delas, dá livros

O que têm em comum um gestor da alta finança, uma artista plástica, uma cozinheira, um actor desempregado, uma empresária, uma fotógrafa cheia de silêncios e poesia, uma jovem de boas famílias que andou pelos cantos escuros da vida, foi sem abrigo e assaltante, e por fim, tendo emergido do fundo do poço, iniciou, a pulso e em carne viva, uma vida nova?
 
O que têm em comum uma psiquiatra, uma professora universitária, uma escritora em começo de carreira, uma assistente de bordo, uma antiga glória do travesti, uma mãe de família, que subitamente viúva, entrou para o incerto mercado de trabalho onde teve de encontrar novos caminhos com a bagagem de uma vida rica de tudo mas também de contradições,  o peso das memórias, a alegria de viver? 
 
Nada. Tudo. 
 
Começaram a escrever. São alguns dos alunos que passaram pelas minhas oficinas de escrita ou que vão iniciá-las. As suas memórias, as suas emoções, andam à solta. A voar com os pássaros e as borboletas dos seus jardins secretos.
 
A vida deles, a vida delas, dá livros.
 
 

quarta-feira, outubro 16, 2013

A sorte que eu tenho

Toda a gente devia escrever. Toda a gente devia ter um caderninho, pelo menos, para apontar pensamentos soltos, palavras vadias, letras de fados, canções de amor e desamor, de escárnio e mal dizer, prantos fúnebres, elegias, hinos. Ou então, um blogue, mesmo que sob pseudónimo. Não importa se nos leem ou não. Não importa o tamanho da fila de fãs - embora nos conforte como um abraço quente, a ligação neuronal e basicamente anónima que acende luzes em mapas mundos, assinalando que, mesmo em terras onde nunca estivemos, alguém segue, por acidente ou por vontade, aquilo que vamos transmitindo.

Não sei se se passa o mesmo com os pintores, ou com os músicos, ou com os encenadores e actores. Se calhar, sim. Quando amamos intensamente aquilo que fazemos, a vontade que dá é partilhar com toda a gente, com as crianças que, por muito entretidas que estejam a brincar sozinhas, têm sempre um espaço no coração para acolher outros no seu jardim encantado.

É por isso que gosto tanto, mas tanto, das minhas Oficinas de Escrita. Ver gente que nunca pensou passar para a palavra escrita registos de alma e histórias de vida, e sonhos e fantasias, abrir essa porta e crescer nessa floresta sem fim.

Hoje, ao publicar o texto voluntarioso da Clara, que até se queria chamar Teresa, fiquei com um sorriso que dura há horas. Como ontem de volta da prosa fascinante do José, um narrador torrencial, que nos prende e surpreende sempre, e não raro nos faz rir. Ou no belo relato minimal da Carla, tão poético. Ou da Maria Teresa, tão avassalador e tão mágico. Ou da Emar, que com grande elegância, desferre murros com as palavras e mostra a força de que é feita uma mulher que aprende a gostar de si e a libertar-se de grilhetas. Ou da Sónia... uma pungente reflexão que mergulha nas raízes do nome e do bairro onde nasceu...

Que sorte tenho eu, em pessoas assim virem ter comigo.



 

segunda-feira, outubro 14, 2013

A impúdica verdade

Quem tem medo da verdade? Conheço, pelo menos, dois tipos de pessoas. Os muito, muito hipócritas e os muito, muito cobardes. E ainda, os muito, muito estúpidos que não distinguem uma coisa da outra e preferem seguir em bandos, ruminando verdades prontas a servir. O resto de nós, um bocadinho hipócritas ou um bocadinho cobardes de vez em quando - falo por mim - recebe-a de braços abertos. Porque liberta. Porque esclarece. Porque nos torna tão mais leves. Claro que falo da verdade de cada um. A nossa verdade interior e sagrada. Aquela que muitas vezes nos querem obrigar a cobrir de véus como se fosse impúdica. Aquela que assusta, porque tem tamanha luz que à luz da sua luz, toda a falsidade emerge.

Essa mesma.

domingo, outubro 13, 2013

Poderes Invisíveis

Durante cerca de dois anos, mantive uma crónica no espaço cibernético mais feliz, Boas Notícias, intitulada Tempo dos Milagres. Depois fiz um intervalo 'sabático' e regressei com livros. Em duas vertentes. A uns chamo Faróis da minha vida. A outros, Luzes de presença. Os primeiros são inalienáveis. Os segundos, até os posso emprestar. Com condições.

Desta vez, e para os Faróis da minha vida, escrevi sobre uma colectânea de ensaios ligados por um maior denominador comum, e assinados por José Mattoso, um nome que dispensa apresentações. Um extracto:

 "Que crenças, que pavores, que arrimos, alimentavam os nossos antepassados acerca dos omnipresentes seres invisíveis que povoavam o Céu, o Inferno e outros lugares do Além? Que lugares outros eram esses, que originaram cartografia de género, permitindo "visualizar" o Outro Mundo, e daí deduzir as suas interferências no universo visível? Que "estratégias de defesa ou captação de poderes alheios” esse topos inspirou? E, consequentemente, como se formou e evoluiu todo um sistema de crenças na vida para além da morte, com as suas coerências e as suas incoerências, e as suas práticas e cultos e crenças, muitas das quais enraizadas noutros tantos atavismos de raiz pagã, que sobreviveram às tentativas de controlo e de reformulação por parte das autoridades religiosas e políticas? Em suma, nos tempos medievais, de que se fala quando se fala em mortos, morte, e respectivo culto?"

Para ler TUDO: Poderes Invisíveis