sexta-feira, maio 23, 2014

Moçambique para a mãe se lembrar como foi

Entrei no quarto, ela estava a sair ao meu encontro. Linda, como sempre. Casaquinho encarnado, cabelo brilhante de tão branco, um branco que há muito dispensa tintas e outros cuidados para além do bom corte. Abraçou-me radiante. «Hoje estava cá com uma neura» - disse, manifestando a alegria que sempre manifesta quando nos vê. Estendi-lhe o livro. Ela voltou para trás, eu abri a persiana, o quarto dela dá para um pátio grande, há árvores e tudo, e ela olhou-o deslumbrada:
- Isto parece-me um milagre.

Depois sentou-se na cama, e eu, dispensando o sofá, sentei-me em frente dela. O livro tinha acabado de me chegar às mãos, exemplar único por enquanto, mas não tive tempo para o olhar em detalhe, na urgência de lho ir entregar. E de repente, também a mim me parecia um sonho que aquelas páginas de historias soltas que desde há um ano e meio fui escrevendo para ela, com as histórias dos nossos dias de há muito tempo, estivessem agora concluídas em livro, com a capa maravilhosa que ela não se cansava de olhar.

Depois, mostrei-lhes as fotografias que conseguimos reunir e que acompanham estes registos. «Ah, que bom, tem fotografias e tudo!!» E então, nomes de pessoas - às vezes só pelo apelido, ou pelo diminutivo - e nomes lugares começaram a fazer-se presentes na memória esquiva dela.
- Mas é um livro enorme! Quanto tempo demoraste a escrevê-lo?
Fez-me esta pergunta varias vezes, e de todas as vezes respondi-lhe como se fosse a primeira:
- Um ano e meio, mãe.


Quando, ao fim de um bom bocado me vim embora - aulas de escrita à minha espera, leituras urgentes que tenho de terminar e outros afazeres - ela não se importou nada. Estava agarrada ao livro.
- Tenho muito com que me entreter! Foi a melhor coisa que me podias ter dado. Parece-me um milagre.

Os olhos dela riam, a cara toda aberta num sorriso. Parecia uma criança. Voltei para casa a flutuar numa nuvem de indizível melancolia e ternura e felicidade.


A mãe aos 28 anos, pouco antes de casar
 

domingo, maio 18, 2014

À Mãe que nos deu África

 
Maria Leonor Vieira Paixão Gonzaga aos 44 anos quando fomos para África
O meu novo livro nasceu para e por causa da minha mãe. Nem era bem para ser um livro, A sua vocação, pensava eu, resumia-se ao registo de memórias impressas em folhas A4 onde passei a fixar a história da nossa ida do Porto para Moçambique - a começar pela inesquecível viagem de barco a bordo do paquete Império que levantou ferro em Lisboa.

Desta forma, tentava com os meus recursos, mitigar a solidão da sua existência sem memória, ao verificar o poder dos nomes, maior, muito maior ainda do que o poder que os cheiros têm de acordar o passado. Nesse verificar o poder que os nomes tinham e têm de concitar tempos pretéritos surgiu-me a ideia: se eu escrevesse as histórias que lhe conto todas as vezes que estamos juntas, a Mãe teria ao alcance da mão, histórias, suas, nossas, para ler sempre que quisesse. E ao lê-las, de todas as vezes como se fosse a primeira, alguma água ficaria retida no areal infindo e desolado onde se inscrevem os seus dias todos iguais. Porque todos os seus dias são tecidos de esquecimento.

A alegria que ela sentiu e sente em torno destes registos, a sua imposição - «isto não pode ser só para mim, despacha-te que quero ver estas páginas em livro antes de morrer» - e o apoio convicto do meu amigo e editor, Eduardo Boavida, impulsionaram o passo seguinte. Os passos seguintes. Um ano e meio depois de «Moçambique para a mãe se lembrar como foi» em folhas soltas A4, surge o livro que, também ele, de certa forma fugiu ao meu controlo, porque os livros têm vida própria e também eles traçam os seus rumos. Digo isto, porque ele cresceu para além do que imaginei que deveria ter crescido. De certa forma, obrigando-me a revisitar os nossos esplendorosos lugares pretéritos, com a bagagem mental, emocional, cultural, que entretanto fui adquirindo. Lugares, pessoas, episódios felizes, estranhos ou delirantes, uns, dolorosos, outros, cheios de plenitude quase todos, tomaram vida. Como se tudo tivesse acontecido anteontem e não há décadas.

Sem nunca deixar que essas valências ou estes pesos se sobrepusessem à voz, à emoção, aos sentimentos da menina e da jovem que outrora fui, acordei o que nunca esteve adormecido. O amor e a sensação iniludível de pertença àquela Terra bem-amada, Moçambique e àquela geografia mãe, África.


 


 

sexta-feira, maio 16, 2014

Sentir-te na pele até às entranhas

A propósito do meu envolvimento com o PAN - na medida do que me é possível, deixo aqui um memo sobre as razões que levam pessoas tão diversas como as que para minha e nossa alegria vamos conhecendo neste percurso. É uma espécie de maior denominador comum, o que nos move

Ao contrário do que muita gente pensa e não diz, ou diz e nem pensa, a empatia é uma qualidade humana muito abrangente que não se detém em fronteiras. Pode ser desenvolvida pela educação e pelo meio em que se está inserido, mas é fortemente inata. Em maior ou menor grau. Estou convencida que tem a ver com a imaginação. Quando conseguimos sentir na pele o que outro poderá estar a sentir, deixamos o pequeno mundo onde vivemos acobertados pela entidade esquiva e instável a que chamamos «eu» e descobrimos o infinito mundo dos outros. Para o melhor mas também para o pior. Assim, defender quem não tem voz, torna-se inevitável. Não é por se ser «bonzinho» ou «boazinha». É por não se ter escolha. Num mundo onde se considera a crueldade sempre gratuita como natural, indispensável, e até de bom gosto, estar do lado dos que são vitimas dessa mentalidade é inevitável. Para não se enlouquecer de impotência e de desgosto.



 

quinta-feira, maio 08, 2014

Guardaste-me tão bem

Guardaste-me tão bem, mas tão bem, que já nem eu própria acedo à memória de mim, a essa que cultuas no segredo dos teus pensamentos. Às vezes, deixas escapar uma frase, um poema, para que eu partilhe as migalhas do teu culto. No incêndio que traçam, essas palavras só me acordam uma breve melancolia. Por instantes, olho de frente a vertigem do passado. Nesses momentos invejo-te. Não nos fui tão fiel. Não te construi catedrais ou mausoléus. Os meus braços estão demasiado cheios de nada, os meus pés estão demasiado impacientes pelo seu insone caminhar. Onde guardo as formas de tudo o que fomos e somos? Num palácio semelhante ao que nos dedicaste. Mas depois perdi a chave e o mapa. Para lá chegar, só em sonhos que, creio bem, me envias para me acordar.

sábado, abril 19, 2014

A vida secreta dos livros

Por mim, punha-as quase todas. Mas de seleção em seleção, chegámos por consenso a um apuramento, que depois, na editora, foi ultimado. Ainda não sei quantas serão, nem quantas páginas. Aguardo, na próxima semana as maquetes finais do extratexto para legendar.

Assim, o livro já fora das minhas mãos e ao cuidado de muitas outras, atentas e dedicadas, toma cada vez mais corpo e forma, mas continuo presa a ele. Até ao momento em que me chegar a encomenda dos exemplares a que tenho direito, e que eu recebo como sempre: corto o fio da embalagem, ou a fita adesiva da caixa, considerando que se trata de uma espécie de fio umbilical, e peso um dos exemplares, tomando nota da hora e do minuto a que me chega às mãos.

Se fosse uma pessoa muito organizada - e sou, mas de acordo com as omnipresentes leis do Caos - eu teria esses ficheiros organizados. De vez em quando, ao azar das arrumações encontro um. Nos sítios mais ou menos improváveis. Por exemplo, dentro das páginas de outro livro. E esse encontro com a certidão secreta da obra, quase com tema astrológico!, faz-me sorrir. E recordar que aquele momento fora uma espécie de marco da nossa separação. Na verdade, quando os livros entram nos circuitos de distribuição, e chegam as livrarias, já não são nossos. São dos leitores que eventualmente os adquirem.

A sua, dos leitores, leitura, é todo um outro filme. O filme pessoal e intransmissível que ocorre no escurinho do cinema mental de cada um. E aí, nós escritores já não mandamos nada. São os leitores que escolhem a definição maior ou menor dos cenários, os rostos e os corpos dos intérpretes, as cenas que lhes merecem mais atenção e que irão recordar. Da mesma forma que são os leitores que escolhem ler ou não ler mais, interromper a leitura, fazer intervalos grandes ou pequenos. Eventualmente, reler.  O facto deste livro vir acompanhado de fotografias, suportando aqui e além o que escrevi, não retira um átimo ao que disse.

Ler, torna-nos parte activa do processo de escrita de outrem. Ler é uma forma de criação. E nesse processo, sem sofisma, os nossos livros quando vão à vidinha deles, passam a ser de algum modo, escritos ou reescritos pelos leitores que lhes prestam atenção. Mas dessa escrita tão pessoal e singular, nunca viremos a saber nada.

Algures, no Niassa, entre Vila Cabral e o Lago, na mais remota província da então Província Ultramarina de Moçambique

 

sexta-feira, abril 18, 2014

Gabriel Garcia Márquez

Houve uma época em que li tantas vezes O Outono do Patriarca que o esfrangalhei literalmente em cadernos mal colados que ainda hoje conservo e releio com paixão. Numa forma de escrever completamente nova, pelo menos para mim, Gabriel García Márquez leva-nos ao universo fantástico de um ditador senil. Podia ser qualquer um dos ditadores que conhecíamos ou poderíamos ter conhecido porque o universo destes seres é matricial na sua alucinante solidão. É sempre uma realidade irreal, povoada de espelhos áulicos onde tudo parece orbitar à volta de «quem tudo pode e tudo manda». Mas o Patriarca de Márquez, que acabava por vender o mar do Caribe aos americanos, e que mandara reescrever toda a história de forma a divinizar a sua pobre mãe, que o gerara de um estranho a quem o ditador nunca pode chamar pai, é um ser produzido numa paisagem singular. E num momento histórico muito especifico. Realidade ficcionada, ficção real. Prodigiosa alquimia verbal. Uma obra prima.

Pouco antes, e estamos a falar dos anos 80, com Cem Anos de Solidão eu entrara em êxtase. É um romance fundador. Um pilar da literatura, que já foi considerada a mais importante obra escrita em língua hispânica depois de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Um sucesso absoluto com mais de 50 milhões de exemplares vendidos. Um clássico da literatura mundial. Uma epifania literária.

Li todos os livros dele, mas estes são, para mim, os imortais do imortal que Gabriel Garcia Márquez. Releio-os sempre, como se fosse a primeira vez. Venerando-os, palavra por palavra, palavra de honra. Por outro lado, o homem é quase tão grande quanto a sua obra. Jornalista, escritor, activista político, Gabriel García Márquez, um pisciano de 6 de Março de 1927 nasceu na Colômbia, em Aracata e bebeu na infância o riquíssimo leite mágico da literatura oral. O seu avó, veterano da Guerra dos Mil Dias, contou-lhe as histórias que tanto influenciaram suas obras literárias a par da paisagem exuberante das terras onde nasceu e cresceu.

Viajante, menino, adolescente e velho em todas as suas idades, o criador do realismo mágico viveu intensamente os seus dias e deixa um testemunho imorredoiro. Comove-me particularmente, esta sua partida. A mim e a milhões de leitores seus. Avessa a prosas fúnebres, a elogios tumulares, acho que lhe fizemos durante a vida a única homenagem a que um autor é sensível. Lemo-lo.


Acrescento uma nota muito pessoal. Este último Verão ele ajudou-me tanto. Eu estava uma pilha de nervos por causa de uma obra que começara por ser uma coletânea de memórias para ajudar a memória da minha mãe às voltas com os tormentos do olvido. A pedido dela e depois com a total concordância e incentivo do meu editor, essas pequenas narrativas sem pretensões tinham acabado por ser transformadas no livro que, ora com entusiasmo, ora com muito medo, eu estava a escrever.

E foi então que numa casa de campo com tudo o que o uma casa de campo tem para sermos felizes, livros por exemplo, encontrei Viver para Contá-la. É, evidentemente, uma obra maior, o «romance de uma vida» como lhe chamam, um guia de viagem ao universo fabuloso da vida e da obra de Garcia Márquez. Deslumbrada, segui-o em leitura compulsiva até aos confins da memória, da dele.  A sua narrativa acalmou os meus medos. Não por termo de comparação, ou por uma pretensão qualquer desse género. Mas pela serenidade, pela modéstia, pela generosidade com que o escritor partilhou a sua singularíssima história de vida, alicerce de toda uma obra e que me serviu de farol e estrela guia. Não reli, para não me colar à sua escrita única. Irei, mais tarde, fazê-lo, para saborear uma obra que devorei e merece a pura fruição.

Entretanto, recomecei a minha escrita com novo alento.

Agora, dizer da alegria, da riqueza, que este homem, este escritor, prémio Nobel da Literatura 1982, trouxe às nossas vidas, é tarefa impossível.  Amemo-lo, honremo-lo e saudemo-lo à nossa maneira. Lendo os seus livros e fazendo com que os seus livros sejam lidos pelas gerações mais jovens. É a maneira de nunca o deixarmos morrer.

Deixo o link para um artigo que me sensibilizou particularmente. Primeiro porque é muito bem escrito. Depois porque é muito rico, na sua abordagem. E depois porque é muito completo. E tem magnificas ilustrações. Na excelente Revista Bula, assinado pelo escritor Salatiel Soares Carreira, uma imperdível homenagem: Cem Anos de Solidao, o livro que criou uma geração de leitores.




 

terça-feira, abril 01, 2014

Moçambique o regresso

Quando me perguntam se tenho saudades, respondo sempre que não. Alias, o conceito é-me bastante estranho. Mas guardo e guardarei sempre, enquanto a memória me assistir, o calor e a beleza desmedida dos momentos privilegiados que ali vivi. Foram bons, todos eles, mesmo quando foram menos bons. Dito de outra maneira. Moçambique ficou-me na alma, entranhou-se-me no corpo, está no meu respirar. A gratidão por ter conhecido e por amar aquela Terra Mãe é o sentimento que prevalece. Como prevalece o meu amor, a minha paixão por Angola, outro privilégio do meu viver.
 
Esta nota, é um detalhe. Um mero detalhe: não fui rica, não ganhei fortunas quando ali vivi, quando ali vivemos. Ganhei, ganhámos muito mais do que isso. O quê? Não têm preço, nem rótulo, nem nome.
 
Há muitas coisas que dinheiro algum consegue comprar. Chamam-se Vida, e a vida  tem muitas declinações. Ás vezes até dói. Ás vezes é bom que magoe. É sinal que.
É sinal.
 
O meu novo livro, é para lá que me leva. Para Moçambique.