sexta-feira, maio 31, 2013

O bater de coração parado

Ele disse isto à minha amiga,e ela disse-mo a mim. Não foi em português pelo que é quase intraduzível. Mesmo assim, aqui vai:
- A vida não é o tempo em que coração bate, mas as vezes em que ele pára.
Dito por um cardiologista, só pode ser uma declaração de amor.
- Não sei - diz ela - podem ser só palavras.
- Ele estava a falar de operações?
- Ele estava a falar de sentimentos.
- Então é isso. O bater de coração parado é paixão fulminante.
Vamos esperar para ver.

 

terça-feira, maio 28, 2013

Gosto muito das terças-feiras

Gosto muito das terças-feiras, e das quartas-feiras, e das quintas-feiras e mesmo das sextas-feiras. Dos sábados já nem tanto. Dos domingos, não gosto nada. Das segundas-feiras não tenho grande opinião. Umas vezes gosto, outras nem por isso. Mas quando estou fora do tempo, e os dias se tornam iguais mesmo com as suas diferenças, aí gosto de todos.
Em qualquer das circunstâncias, não me apanham com relógios. Há muitos e muitos anos. Entretanto sou extremamente pontual. O tempo é um estado de espirito. Convém termos nós as rédeas da sua abstração.

Inspiração sobre este devaneio. A belíssima instalação do Carlos Filipe na Flower Power do nosso encantamento: «Num abrir de gaveta o tempo passa por nós».

domingo, maio 26, 2013

o tempo deste amor que me morreu

Quando ele se foi embora, ela pensou vou chorar até esgotar todas as lágrimas, vou chorar até apagar a luz dos meus olhos, porque o dia se fez noite e a noite ficou eterna. Oh, que insanidade tamanha, disse-lhe a mãe, que ouviu os seus pensamentos, e lhe falou com a sabedoria das mães antigas, pois não sabes que a ferida de um grande amor só se cura com a ferida de um amor maior ainda? Que lágrimas, que cegueira, que noite, que nada. Solta os teus cabelos, solta os teus cuidados, solta o teu caminhar de gazela, e abre os braço para aquele rapaz tão belo que não tira os olhos de ti.

Oh, mãe, se eu curar a ferida de um amor tamanho com a ferida de um amor maior ainda, não mereço o dom de amar ninguém nem por ninguém ser amada. Deixa-me com as lágrimas da minha cegueira, deixa-me com o meu coração trespassado, e com a noite dos meus dias, porque só assim mantenho vivo, e a sangrar, este amor que me morreu.

E a mãe, com a sabedoria das mães muito antigas, não disse nada. Mas pensou:
Minha donzela afogada. Vive o adeus, vive a morte, vive a dor. Eu cá sei do tempo e do rapaz tão bonito que não tira os olhos de ti. O tempo cura tudo. O tempo seca tudo. Até o rio da dor. O tempo.
 

segunda-feira, maio 20, 2013

A triunfante claridade

Como é que ainda há quem pense que a oculta acção, e todos os véus da mentira que a protegem, sobrevive à triunfante claridade? 
Como é que ainda há quem pense que o retorno, para o melhor e para o pior, só existe nos aforismos dos contos de encantar? 
Ouçam a música. Leiam os sinais. Vejam com olhos de ver. 
Está tudo a céu aberto.
 
créditos da imagem: «Os quatro véus» em Síntese, um blogue que visitei agora.

terça-feira, abril 30, 2013

livros e ilhas desertas

Eu nao quero levar livros para uma ilha deserta. Eu quero criar uma ilha deserta, no meio da floresta dos meus livros, escritos e por escrever, lidos e por ler. Um lugar de reencontros profundos onde a solidão se faz plenitude. Um lugar de alma.

terça-feira, abril 02, 2013

Good fellows

Andam atrás de mim. Pessoalmente acho que falam uns com os outros quando não estou a olhar, tal como as crianças que vêm cá a casa afirmam. Pelo menos até aos sete anos. O que muda, são os livros que levam à cabeça. Se estou a ler todos? Claro que sim. A ler e a reler. Quando não vemos televisão, o dia e a noite têm muito espaço para o prazer imenso que é a leitura. E a re-leitura, porque um livro, quando é bom, ou quando é útil, ou quando é as duas coisas, é um amigo cuja companhia solicitamos muitas vezes.

segunda-feira, abril 01, 2013

Um abraço, apenas um abraço

 A minha nova crónica em «Tempo dos Milagres» no Boas Notícias:

«Ela pediu-me um lenço. Estava sentada no banco de um jardim, perto de um canteiro de rosas a florirem na Primavera de há um ano atrás. Procurei, mas não tinha. Andava a passear o Timóteo, pouco mais levava do que a trela e os inevitáveis saquinhos de plástico, mas houve qualquer coisa na voz dela que me fez parar para acrescentar que no quiosque, ali a dois passos, lhe dariam um guardanapo. Então, percebi que tinha os olhos cheios de lágrimas. Era tão nova. Quinze, dezasseis anos? E estava desesperada.[...]»

Para ler o resto:
Um abraço, apenas um abraço