sexta-feira, agosto 30, 2013

Fui ao Inferno e gostei muito

A minha colaboração com o sítio mais feliz do ciberespaço -- Boas Noticias -- contina agora sob a forma de crónicas literárias. Dividi esta secção em duas. Uma, dedicada aos clássicos de todos os tempos, «Faróis da minha vida», onde comecei por Moby Dick, uma paixão.

A outra, trata de livros contemporâneos também nos mais diversos registos. São as minhas «Luzes de presença». Comecei por um thriler estupendo, daqueles que não conseguimos largar até à ultima página. O Inferno de Dan Brown.

Um pequeno extracto da crónica:

O mapa do Inferno' (c.1480-c.1495), de Sandro Botticelli, é um dos elementos chave deste novo livro de Dan Brown


«É literatura de diversão, sem dúvida, de modo que não encontramos densidade psicológica nesta montanha-russa onde o tempo conta ao micro segundo, e os bons, à maneira de James Bond mas sem os seus punhos nem os seus artefactos, lutam contra os maus, neste caso liderados pelo bilionário bioquímico suíço chamado Bertrand Zobris, numa acção vertiginosa que decorre em cidades como Florença, Veneza e Istanbul, sob o pano de fundo de cenários extraordinários, quase todos ligados à História de Arte.
 

A trama é ilusoriamente simples como todas as tramas bem congeminadas num thriler que se preze. Um homem tem de salvar o mundo de uma sinistra e maquiavélica congeminação que vai libertar a arma biológica destinada a ceifar vidas, de forma a repor estatisticamente o número de seres humanos num patamar compatível com os recursos do planeta...»
 
Para ler a crónica completa:

domingo, agosto 25, 2013

E as touradas? Pois, e as touradas.

A cultura da dor física, humana e animal, numa linha dicotómica em que homem é superior à besta e esta, por catarse, tem de ser vencida em combate público, vem de muito longe. Nessa dicotomia a 'besta' nem sequer tinha de ser necessariamente um animal. O inimigo era a 'besta'. O estrangeiro podia ser a 'besta'. O ser que adorava outro deus, não adorado na igreja local, veio, séculos mais tarde, a ser a 'besta', à luz da cultura católica, apostólica, romana.

Mas e acima de tudo, os combates de arena, cujo aparato quase todos conhecemos de ouvir falar, mas cujos bastidores naturalmente a maior parte desconhece, eram um grande negócio prodigiosos para várias partes. Para o poder, dispensá-los às massas era forma de afirmação e de prestigio. Para os intermediários, verdadeiras fortunas estavam em jogo.

Uma economia baseada na tortura e na dor, envolvendo quantidades prodigiosas de dinheiro, com a compra e venda, bem como com o negócio das apostas nas  criaturas vivas destinas ao espetáculo da morte, embora nem todo o espectáculo de circo romano tivesse que terminar num banho de sangue... para grande desgosto dos espectadores há que dizê-lo. Em todo o caso, os  gladiadores, ao entrar na arena, saudavam o imperador na sua tribuna, clamando:Salvé César, os que vão morrer saúdam-te. (Ave Caesar morituri te salutant).



Quem eram? Os derrotados em campos de batalha. Ou, à falta de matéria-prima, criminosos de vários delitos graves. Nomeadamente, gente arrestada pelo fisco, logo escravizada para vários fins, nomeadamente a arena. Para além dos humanos, consumiram-se milhões de criaturas nesta cultura de sacrifício, que ao prolongar-se por vários séculos ganhou direito ao honroso titulo de Tradição. 

De que se tratava? Homens e bestas a lutar entre si até à morte, eram espectáculos de pura diversão. Não serviam absolutamente para mais nada. A não ser para engrandecer o promotor dos mesmos - o imperador ou os seus legados nas terras do império -- e trazer as gentes felizes, ainda por cima quando cestos de pão eram distribuídos graciosamente pela assistência. 
A mentalidade mudou muito. Mas os atavismos enquistam e resistem. Para muitos e muitas, ainda é bom e exultante ver correr sangue vivo. As lutas de cães e de galos, acendem essa chama primitiva e bestial no sangue dos seus aficionados, por todo o mundo. Permitidas ou não. Acima de tudo, o mercado das apostas desse jogo clandestino é muito poderoso.

E as touradas? pois, e as touradas.

quarta-feira, agosto 21, 2013

Venham escrever as vossas memórias!

Entre os avanços do meu novo livro já bem adiantado, e que, espero, fechará um determinado círculo; um «pôr os pés  na terra» de forma literal; o reencontro com amigos de longe que surgem nesta altura; e mais coisas da vida e da vidinha, a iminência das minhas Oficinas de Escrita toma-me o tempo quase a tempo inteiro. O modelo está testado, e por várias vezes. Mas para mim, como para os participantes, é sempre a primeira vez, como se os tivesse acabado de conceber e pôr em prática.

Mas de que tratam estas Oficinas de Escrita autobiográfica?


Aqui vai informação quente e efervescente.

«Venham revisitar memórias, aprender como se monta uma narrativa, discorrer sobre infâncias, verdadeiras ou míticas, reconstruir uma história de vida... e no fim, levem para casa um livro com o vosso nome na capa. Quem sabe, será este o primeiro livro do resto das vossas vidas. Começa já em Setembro» [do meu blogue Oficinas de Escrita]
 
 
Onde? Livraria Alêtheia Rua do Século, 13, 1200-433 Lisboa
(Estacionamento no silo da Calçada do Combro; Metro do Chiado; Elétrico 28)
Quando? De 3 de a 26 de Setembro
3.ª e 5.ª feiras – 18.30 h às 20 horas
Quanto? Preço: 40 €/módulo
(inclui oferta de livro antológico com os melhores textos da oficina)

Inscrições: por email aletheia@aletheia.pt, ou telefone 210939748.

Conceito
Palavra e memória na reconstrução da identidade
Da história pessoal para o registo literário, uma reflexão escrita sobre a própria identidade e desenvolvida ao longo de três módulos independentes, com um módulo adicional.

1. «Bilhete de Identidade»: quem sou eu?
3 e 5 de Setembro de 2013
Duração: 3 horas (90 minutos por sessão)

2. «Memórias de infância»
10 e 12 de Setembro de 2013
Duração: 3 horas (90 minutos por sessão)

3. «A minha vida dava um livro»
17 e 19 de Setembro de Setembro de 2013
Duração: 3 horas (90 minutos por sessão)

4. «Um escritor confessa-se»
24 e 26 de Setembro de 2013
Duração: 3 horas (90 minutos por sessão)

Horas de formação: 12 horas
N.º Sessões: 8

Para saber mais: Oficinas de escrita de Manuela Gonzaga na Livraria Alêtheia

 

quinta-feira, agosto 15, 2013

Era uma vez a tourada

A tourada juntamente com a caça ao urso, ao javali, ao gamo, ao lobo e à raposa, por exemplo, constituíam de forma exemplar os jogos de guerra no tempo em que não havia outros, quando a guerra era, em si, um valor absoluto. Numa sociedade de ordens - oratores, bellatores, laboratores - ser-se guerreiro era um estado altamente dignificante, porque era ser-se nobre, do mais ínfimo escalão da nobreza ao mais elevado, o rei à cabeça. Na guerra conquistava-se a eternidade possível - feitos gloriosos  evocados e grafados em crónica. E, muitas vezes, o direito a um nome brasonado, com a consequente ascensão social bafejada pelos ventos da fortuna. Filhos segundos tinham na guerra a oportunidade das suas vidas. Se morressem, assegurada que estivesse a linhagem pelo primogénito, não faziam falta.

O povo não conta? Sim, pela força de trabalho e pelo valioso peso do seu número, sendo  arrebanhado para as guerras pelos respectivos senhores da terra a que pertenciam. Por motivos óbvios, estas eram calendarizadas de acordo com as colheitas. Em tempo de paz e para não se perder a mão e a destreza, os touros eram o melhor adversário de que se podia dispor, consistindo estas refregas em excelente exercício físico. Pelos riscos e pelas manobras ousadas que implicava, rapidamente o confronto foi nobilitado, derivando para a arena numa época em que a dor infligida a adversários era considerado um exultante espectáculo a que todos, sem excepção, acorriam. Mas nesse tempo, as cabeças dos inimigos ornamentavam as ameias dos castelos, e os corpos apodreciam nas forcas para exemplo de todos.

Nesses tempos arcaicos, as guerras eram santas, os artefactos da morte eram abençoados e aspergidos de água benta, e o paraíso era prometido aos que caíssem em campo de batalha, pois os pecados eram lavados no sangue do inimigo. A valentia media-se pelas feridas tatuadas no corpo dos guerreiros, que certamente mereceram todos os seus epítetos. Mas eram tempos outros, quando a terra nem sequer era redonda e finita. Tanta coisa mudou, e ainda há quem veja beleza na carnificina? Tanto tempo passou, e ainda há quem não entenda que o que move a guerra é o ouro arrecadado por muito poucos, e regado com o sangue de todos de uma forma ou de outra?


Ainda há quem não perceba a grande puta que a guerra é?
s
Paolo Uccello (1397-1475) -  São Jorge e o dragão, óleo sobre tela
Musée Jacquemart André (Paris, France


O grande guerreiro hoje, é o que se transcende de puro amor. Para isso, não são precisas arenas, nem holocaustos de animais. Para isso só é preciso o coração indómito de quem enfrenta o mais cruel e implacável dos inimigos. O primeiro que temos de aprender a amar. A nossa própria sombra.

Por isso, o grande guerreiro, o que vence o dragão, chama-se Martin Luther King ou Nelson Mandela. Ou Aristides de Sousa Mendes. Há toda uma humana mitografia a escrever, urgentemente.

segunda-feira, agosto 12, 2013

Entretanto, vou ver coelhos

Se eu fosse disciplinada este blogue estaria actualizado quase diariamente.

Mas a minha forma de organização mental e temporal deve mais às leis do caos do que às da mecânica clássica. Assim, entre o ler, o escrever, o pensar e o viver a vidinha, há linhas de convergência e linhas de divergência que me impedem, por exemplo, de ter a mesa onde escrevo sempre arrumada, aliás, as mesas por onde se espalha o meu ofício. Ou as tarefas a que me proponho sempre em dia.

Isso não acontece sempre. E sempre que isso não acontece, há uma pequena perturbação, um sobressaltado bater de assas de borboleta a cruzar os meus pensamentos,  que eventualmente poderá semear sabe-se lá que furacão algures pelos vastos universos que todos atravessamos, e por onde todos andamos, mesmo que não os possamos captar, ou sequer imaginá-los a todos na sua glória, para nosso próprio descanso e sanidade mental.

Que registo é o meu, então? É um registo de marés. Nos últimos dias andei atrás de uma baleia. Foram quase duas semanas. E de repente, somei a essa viagem uma outra, ao Inferno. Agora, é só deixar assentar, e escrever sobre essas viagens tão diferentes e nem sequer complementares. A baleia continuará a ser um farol a que voltarei como quem vai a casa para retemperar forças e ganhar alento e maravilha. Já ao Inferno, que me catapultou num alucinante périplo de ida e volta, não penso voltar, pelo menos de forma recorrente. Mas que fabulosa viagem me proporcionou ele!!!!

Entretanto, hoje vou conhecer coelhos. Muitos coelhos. Provavelmente não os vamos ver, porque se escondem quando chegamos. Mas já sabemos como iniciar uma convivência pacífica entre as nossas duas espécies, a qual convivência não passará por trazer nenhum deles para a nossa mesa, e muito menos ainda para os nossos pratos. Para alem disso, estou a recuperar vários anos de uma outra viagem cujo fim não está à vista.

Mas hoje, ao acordar, o nome de uma mulher tomou-me de assalto, e fiquei longos minutos a recordar, por palavras minhas, a sua história prodigiosa. A escrita, o oficio da palavra, puxa-me pelos cabelos nos mais variados momentos do dia, envolvendo-me nas suas marés inesperadas até a raiz do pensamento.


Créditos da imagem: Lewis Carrol (1832–1898) - Alice no País das Maravilhas, cap. I.
retirado de : http://pt.wikisource.org/wiki/Ficheiro:De_Alice%27s_Abenteuer_im_Wunderland_Carroll_pic_02.jpg

quarta-feira, junho 26, 2013

Em África com o Negro Linga

O conto que transcrevo foi publicado na "Revista Literatas - Revista de Literatura Moçambicana e Lusófona", edição n.º 59 de Junho 2013.
 A revista é um baluarte  um baluarte de cultura africana e universal, impulsionada e dirigida pelo Poeta Amosse Mucavele a quem saúdo com todo o amor, gratíssima pelo convite e pela honra.  

Em África com o Negro Linga


Vivi em Moçambique dos doze aos vinte anos. Cheguei em 1963 e parti em 1971. Depois disso, voltei várias vezes à terra que ainda hoje amo profundamente. Em sonhos. Resolvi então, em vez de um conto, ou outra narrativa mais tradicional, escolher um deles, entre tantos e tantos outros de um diário que mantenho com intermitências há bastante tempo. Porquê este? Porque a sua carga onírica ainda hoje me comove e perturba. Porque a força do que senti e vivi e que, ao acordar fixei por palavras, continua bastante misteriosa e sedutora. Podemos falar de arquétipos, podemos evocar união de opostos, equacionar a guerra como o conflito latente que visita todas as nossas almas e coração de viventes. Mas mesmo assim, acho que há mais do que isso, neste meu mágico encontro com o Negro Linga. Afinal, e no sonho, a que é sempre uma antecâmara de realidades, tivemos uma filha. Que fruto virá a ser esse? Entretanto, continuo e continuarei sempre a sonhar com Moçambique.  

Noite de 20 para 21 de Março de 1998
Regresso a África. Viajo entre duas secções do Tempo. No passado e no presente. Estou no mato, é noite, e estou a viver um episódio de guerra. Há sombras. Há homens negros em camuflado. Vai começar um tiroteio. Estamos no Norte de Moçambique.
Estou com um negro. Ele conhece os caminhos. Ele sabe por onde devemos fugir. Ele leva-me consigo. Corremos, embrenhamo-nos na selva e passamos uma noite inteira, os dois. Escondidos.
Agora, e em tempos de paz, estou a recordar aquela noite no mesmo lugar onde tudo aconteceu, e digo à pessoa que está comigo:

“Entendes porque fiquei com a filha que tive dele?”

E de novo, encontro-me junto do negro, que está também a contar o que se passou há tantos anos, aos muitos que o rodeiam. E esta transposição de momentos parece-me perfeitamente natural, porque é como se o tempo fosse um cristal de muitas faces, as quais podemos, nesta circunstância tão particular, cruzar livremente, como quem desfolha o livro de todos os instantes.  

O negro diz:
“Vocês gastam muita energia a fugir. É preciso simplificar. Traçar as metas”.
E demonstra, desenhando no pó do chão, o semicírculo perfeito que efectua, no mato, para se esconder. E demonstra, também, a série de curvas aleatórias que outros percorrem, sem lógica porque meramente instigados pelo medo, e que não os leva a lado algum. Está deitado no chão, estendido e apoiado de lado, sobre os cotovelos. Eu também estou deitada na mesma posição, mas ao contrário. As minhas pernas estendem-se ao longo das suas costas. Afago-o, numa carícia que é, também, um gesto de cumplicidade. Ele retrai-se. Percebo que não posso expressar o meu amor por ele. É como se ele fosse um princípio activo masculino em estado puro: simplesmente, não posso agir assim com ele. E contudo somos íntimos, embora eu não guarde qualquer memória da nossa intimidade.
E então, regressamos ao mato, à noite em que fugimos juntos. Ele diz-me:
“Não percebes, mulher, que nunca me posso perder. Mesmo que morra. Mesmo que o meu corpo fique pulverizado em mil pedaços. Se isso acontecer, serei recolhido, inteiramente, e todos os meus bocados serão entregues ao meu Pai, porque eu sou um Linga.”
E acrescenta:

“Aqui, todos sabem, sempre, onde estou. Aqui, todas as tribos conhecem o meu Pai, e conhecem-me a mim, porque sou um Linga.”
Eu não sei o que é um Linga, mas não quero parecer ignorante. De modo que faço um comentário, a ver se provoco nele uma reacção que me dê um indicador sobre a sua origem. Vejo umas palavras escritas, em letras grandes. Consigo decifrar a raiz do vocábulo. É SOMALI.
Volto a dizer à pessoa que está comigo:

“Percebes agora porque tinha de ter a filha deste homem? Não podia fazer de outra maneira.”

 
[Do meu Diário de Sonhos ]

 


segunda-feira, junho 10, 2013

Por pensamentos, palavras e obras

Foi a minha frase de ontem, no FB. É a minha oração de hoje, aqui nos Diários.

Gosto do cheiro das palavras logo pela manhã. E da sua consistência, e sabor e formas. Puxo-lhes os cabelos filiformes, brinco com elas, contemplo-as, afago-as e deixo que me submergam no seu fragor. Também não me importo que me bebam o sangue e se alimentem das minhas memórias. Em troca, dão-me histórias. E vida à minha vida que não seria vida sem a vida delas.

obs: imagem Lista dos reis sumérios, escrita cuneiforme, sec. XXIV a.C.