sexta-feira, outubro 08, 2010

O Sérgio cortou o cabelo

O Sérgio foi à loja para buscar a sua bisamanal semanada, que o Dirk lhe instituíu há que tempos num acordo tácito e sem palavras. Nós de férias, o Helder deu-lhe o dinheiro e comentou:
- Cortáste o cabelo, Sérgio. Estás com bom aspecto.
- Vai caralho - respondeu o Sérgio, virando-lhe as costas.
O Sérgio é vagabundo, dorme na rua, vive na rua, mas não admite confianças. Provavelmente porque tresandam a paternalismo e ele é uma criatura cheia de dignidade.
Um dia, a Marta cumprimento-o e ele respondeu, desabridamente:
- Conhece-me de algum lado?
Ela pediu desculpa, e nunca mais o fez.
O Sérgio não fala com ninguém. A única pessoa a quem o Sérgio permite um arremedo intimidade é o Dirk. Nos curtos diálogos que travam, responde-lhe com uma  voz estranhamente baixa e cava. Uma voz que parece vir de muito, muito longe.
Do mundo remoto onde ele se perdeu de nós, de si próprio?

O Sérgio dói. Dói-nos ainda mais no tempo frio e nas noites de chuva. É uma dor toda feita de impotência. Aliás, é uma pré-dor, como uma leve moínha nos queixais a avisar que um dente se prepara para nos dar problemas sérios.
Sabemos o seu nome, graças ao André que o conheceu na noite dos tempos em que ele falava e vivia no bairro, numa casa como toda a gente. E andava pelos bares, bebendo nada. Parece que quando a mãe morreu, ele ficou sem casa e sem capacidade de se reger pelas nossas regras de vida. Há cerca de dez anos.
Nos tempos em que falava era um homem altivo, grande e bem constituído, bonito e assustador. Uma espécie de vicking de cabelo louro desalinhado, que já olhava o mundo com bastante desprezo.
A rua transformou-o, ano após ano, num vagabundo enorme, gordo, silencioso, uma figura apocalítpica de cabelos emaranhados, barba cerrada, que vê televisão diante das montras do Cancela, na Calçada do Combro.
Não pede esmola. Nunca.
Às vezes encontro-o sentado nos degraus da igreja dos Italianos, no Chiado. Nessas alturas, parece-me o Hóspede Desconhecido, esse deus oculto num farrapo humano, que vigia a nossa humanidade ou a falta dela, pela forma como nos comportamos uns com os outros.
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