domingo, dezembro 05, 2010

Envelhecer


Aquele jovem no meio de dois senhores idosos, era o pai. Dias de Verão no Douro, na pequena quinta dos meus avós.


O avô, a bondade em pessoa. Os jovens são o  pai e o tio Rogério. 


Um dia, o tio Rogério disse, a propósito de um livro* que deixei com ele para podermos comentá-lo juntos:
- Não tenho dúvidas acerca da seriedade desta obra. É científica e parece-me, para além de muito credível, muito bem construída. Mas, no meu edifício mental, já não tenho espaço para ela. Não me interessa nada, portanto, aprofundar os meus conhecimentos nessa direcção. Compreendes, construí-me tijolo a tijolo. Sem frinchas. Sem desvios. Com muito trabalho.
- Mas não tem interesse por coisas diferentes? - perguntei.
- Na minha idade, seguir por caminhos tão novos, obrigar-me-ia a abrir frinchas meu edifício. Isso é perigoso. São traves mestras, aquilo de que estamos a falar, entendes?
Percebi que o que me estava a dizer era: «estou velho». Teria, na altura, oitentas e muitos, mas eu nunca pensara nele nesses termos. A lucidez, a clareza com que mo disse, e que não consigo reproduzir por inteiro, não desmentiam essa noção de que o tempo cravara nele as suas garras. E doeu-me muito para além do que ele poderia imaginar. O tio Rogério morreria poucos anos depois.

Lembro-me regularmente desta conversa. Quando o meu entusiasmo esmorece. Quando tenho preguiça para ouvir os outros, quando esses «outros» têm tesouros para partilhar com o mundo. Felizmente, os meus filhos, os meus amores, os meus amigos, o mundo que me rodeia, ajudam-me a estar atenta, a permanecer acordada. Com escolhas, selectivas que implicam, muito naturalmente, exclusões.
Saberei, porém, que envelheci irremediavelmente, no dia em que deixar de me interessar, genuinamente, por aquilo que pensam, fazem, ou amam, os que me são próximos.
E agora, a olhar para fotografias velhas, descubro o jovem que o meu pai foi. Conheci-o sempre tão adulto, tão encerrado num mundo onde, de uma forma misteriosa, não fazíamos parte. Uma muralha sonora separou-o de nós, ao longo de toda a infância. Fechado no escritório, a ouvir música clássica, durante os Domingos inteiros que o tínhamos perto de nós, o pai era um adulto muito velho. Agora, imagens e histórias, devolvem-me parte do puzzle humano que ele foi. Aquele puto bonito, com roupa tão gira, podia ser um dos nossos amigos.

*O livro em questão era o Dicionário dos Símbolos, da Robert Lafont, uma obra de referência que me acompanha há quase 30 anos.
Enviar um comentário