"Sabes, amor, porque caminhamos em círculos? Caminhamos em círculos porque somos cópias de um molde inicial, ou de muitos moldes iniciais, à procura do útero que nos deu origem. Vou-te dizer ainda mais. Todo o fascínio da arena enraíza aí. Foi quando percebemos, apesar da nossa cegueira e precisamente por causa da tragédia de sermos cegos, que o jogo sempre foi de vida, para os deuses, de morte, para nós. Foi também quando julgámos que através de um sem fim de cultos sacrificiais poderíamos apaziguar cóleras politeístas de raiz matricial comum, enganando a morte, a nossa, com a morte de muitas vítimas, num cenário perfeito.
O círculo.
[...]
Teatro grego de Dodona (sec. III a.C.) no sítio arqueológico de Dodona, na vizinhança do monte Tomaros, onde se encontram as ruínas o famoso santuário e oráculo de Zeus.
Ora, não sendo o círculo de que a serpente guarda o registo, a encerrar em si a perfeição do indiferenciado, e não sendo esta a de um corpo de
homem, a mais desejada das formas porque a mais rara do universo (e não me
perguntes como o posso afirmar com tamanha convicção pois sobre esse
conhecimento cai igualmente o véu do segredo), a forma perfeita é a do
Andrógino. O molde perdido de uma completude paradisíaca que tentamos refazer,
de vida em vida, de corpo em corpo, de amor em amor, para conseguirmos escapar da
condenação ao círculo pela vertigem da espiral. Como tu e eu temos feito
sempre, já nem sei desde quando, na nossa história de dois que foi sempre de
tantos.
Ora também sucede que, nesse caminhar, somos impelidos para a repetição de narrativas primordiais – sempre as mesmas. O jogo das mutações só aparece no momento em que irrompe a desconcertante, a enigmática, a apaixonante variável, que veio abanar até aos alicerces as relações entre o Céu e a Terra. O princípio da incerteza, golpe fatal na monótona repetição das sagas celestes, fomos nós, Criaturas, que o desferimos. Trouxemos a mistura – lembras-te? – o terrível, porque sempre imprevisível, jogo da mistura.
Todos os tabus do sangue, todos os preconceitos de raça que
se estendem aos preconceitos de casta, entroncam aí, no medo da mescla que começou
quando "os filhos de Deus" se enamoraram pelas tão formosas "filhas dos homens",
nelas gerando a amaldiçoada raça dos gigantes. Outros contam a mesma história
com uma ligeira variante: naqueles dias, os filhos de deus conheceram as filhas
dos homens – "as quais lhes deram filhos" – os Nefilins. E eram os «varões de
renome da antiguidade» que andavam sobre a terra."
em Xerazade, a última noite, 2015, Bertrand editora, pp. 16-18.
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