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quarta-feira, maio 25, 2022

Todo o fascínio da arena

     "Sabes, amor, porque caminhamos em círculos? Caminhamos em círculos porque somos cópias de um molde inicial, ou de muitos moldes iniciais, à procura do útero que nos deu origem. Vou-te dizer ainda mais. Todo o fascínio da arena enraíza aí. Foi quando percebemos, apesar da nossa cegueira e precisamente por causa da tragédia de sermos cegos, que o jogo sempre foi de vida, para os deuses, de morte, para nós. Foi também quando julgámos que através de um sem fim de cultos sacrificiais poderíamos apaziguar cóleras politeístas de raiz matricial comum, enganando a morte, a nossa, com a morte de muitas vítimas, num cenário perfeito.

    O círculo. 

[...]

 Teatro grego de Dodona (sec. III a.C.) no sítio arqueológico de Dodona, na vizinhança do monte Tomaros, onde se encontram  as ruínas o famoso santuário e oráculo de Zeus.

    Ora, não sendo o círculo de que a serpente guarda o registo, a encerrar em si a perfeição do indiferenciado, e não sendo esta a de um corpo de homem, a mais desejada das formas porque a mais rara do universo (e não me perguntes como o posso afirmar com tamanha convicção pois sobre esse conhecimento cai igualmente o véu do segredo), a forma perfeita é a do Andrógino. O molde perdido de uma completude paradisíaca que tentamos refazer, de vida em vida, de corpo em corpo, de amor em amor, para conseguirmos escapar da condenação ao círculo pela vertigem da espiral. Como tu e eu temos feito sempre, já nem sei desde quando, na nossa história de dois que foi sempre de tantos.

    Ora também sucede que, nesse caminhar, somos impelidos para a repetição de narrativas primordiais – sempre as mesmas. O jogo das mutações só aparece no momento em que irrompe a desconcertante, a enigmática, a apaixonante variável, que veio abanar até aos alicerces as relações entre o Céu e a Terra. O princípio da incerteza, golpe fatal na monótona repetição das sagas celestes, fomos nós, Criaturas, que o desferimos. Trouxemos a mistura – lembras-te? – o terrível, porque sempre imprevisível, jogo da mistura.

    Todos os tabus do sangue, todos os preconceitos de raça que se estendem aos preconceitos de casta, entroncam aí, no medo da mescla que começou quando "os filhos de Deus" se enamoraram pelas tão formosas "filhas dos homens", nelas gerando a amaldiçoada raça dos gigantes. Outros contam a mesma história com uma ligeira variante: naqueles dias, os filhos de deus conheceram as filhas dos homens – "as quais lhes deram filhos" – os Nefilins. E eram os «varões de renome da antiguidade» que andavam sobre a terra."


em Xerazade, a última noite, 2015, Bertrand editora, pp. 16-18.



 

quarta-feira, agosto 02, 2017

Roman initiatique et contes de fées

Os últimos meses têm sido férteis de acontecimentos. É que, para além de continuar na minha querida Bertrand Editora, passei a ser agenciada pela Agência das Letras, e integro o seu Conselho Editorial.  A somar, os meus livros continuam a dar-me muitas alegrias. Desta vez, é a lindíssima capa da autoria de Vincent Alta Sombra, para a segunda edição em francês de Xerazade - a Última Noite edição em papel com distribuição pelo catálogo da muito prestigiada Hachette Livre.


Sobre este meu romance, a editora/tradutora Laure Elisabeth Collet escreve: 


«Roman initiatique et contes de fées tout à la fois, comme son héroïne, il est l'Un et le tous. Chaque chapitre est une histoire, mythique, magique, drôle, ou triste, qui nous transporte ou nous ramène. Impossible de savoir si on est parti très loin ou resté tranquillement au point de départ. Chaque chapitre est une expérience, une vie, une pièce de puzzle; et dans cette image, cette sensation que l'on retient en refermant le livre, le tout est supérieur à la somme des parties. Nous sommes un, et nous sommes tous. Une merveille.» 

Agora a integrar o catálogo da Hachette Livre, que já distribui 12 obras da mesma editora, e vai alargar a mais autores que ali chegam pela mão de Laure Elisabeth Colletcom este já tenho três livros, os quais  já constavam no mercado francófono quer em edição e-book, quer em papel. Evidentemente, agora a sua presença ganhou um novo fôlego.  

-- Mozambique: Pour que ma mère se souvienne;
-- Isabel de Portugal: L'Impératrice: Le pouvoir au féminin au XVIème siècle (Biographie Historique)


Clicar para consultar a página de Le Poissont Volant
Clicar para a minha página de autor na Amazon França

terça-feira, abril 26, 2016

'Os livros são feitos de palavras vivas que se deixam capturar'

Desde o principio, quando comecei a escrevê-lo, até ao momento em que, das minhas mãos o livro passou para as do editor, soube que não era uma obra fácil. Em primeiro lugar porque, após três biografias bem sucedidas, saltava para o romance de uma forma «abrupta». E que romance!! Para começar, a fórmula narrativa que enforma o género não se encontra aqui aplicada na sua grelha mais singela. Os tempos são múltiplos, porque num simultâneo 'agora' onde dois se encontram, há múltiplos caminhos que levam a muitos 'antes'. Os próprios locais divergem. Quem é ela? Quem é ele? O que está a acontecer? Que realidades convergem e divergem nesta peregrinação que uma mulher inicia, despedindo-se do homem que ama, com beijos e histórias enroladas umas nas outras?




Ora, e para mim, os livros não se escrevem a pensar no «leitor» ou na «leitora». Os livros são feitos de palavras vivas que se deixam capturar. Palavras que são a música, a moldura e o molde onde tecemos as vidas da Vida, em suas infinitas mutações. Hoje, mais uma recensão veio encher-me de alegria. Um também escritor, Guilherme Valadão, diz:

«[...] Na breve cerimónia de apresentação de ‘Xerazade’, ouvi o Samuel Pimenta dizer algumas das suas passagens numa toada poética como se se dirigisse a uma multidão de jovens apaixonados, perdida na consciência de cada escritor desiludido. Tudo à minha volta se silenciou naquele instante e senti uma urgência arrebatadora de me entregar àquelas páginas como se me tivessem feito falta durante toda a minha vida!
Xerazade» é um poema vivo de um'«A Última Noite» que nos emociona e nos transporta para as latitudes mais misteriosas e inesperadas da alma humana. Na intimidade daqueles diálogos há mistérios que ninguém ainda decifrou, fechados nas arcas do tempo em torres que brilham longe demais para serem nossas.
«Amor, amo-te até ao fim da memória». «Eu sei. É por isso que tens de me deixar ir».«Xerazade» não é, simplesmente, um livro. Um livro excelente, aliás, nas suas páginas carregadas de um misticismo antigo, de interrogações tão velhas como a memória dos deuses de um Olimpo que o tempo não mudou. É muito mais um cúmplice do espírito rebelde e inquieto que sentimos em certos momentos da nossa vida.Uma tapeçaria, um colar de pérolas, um homem, uma mulher... num livro inesquecível![...]»

Em -  Guilherme Valadão's Reviews > Xerazade - a última noite

quinta-feira, abril 23, 2015

Do Teatro à Caverna, amor


«É que as histórias, no teatro, ganham o que mais próximo conseguimos atingir no caminho, a nós vedado, da imortalidade. E em certas actuações, amor, o palco é percorrido por um invisível adejar de muitas asas. Então, os actores deixam-se possuir pelo seu o anjo ou daimon, desculpa não traduzir por demónio porque não o é, e todo o teatro acorda, num despertar tão contagiante que até as sombras que durante eternidades viveram na sombra, emergem do seu torpor e, esfaimadas de aplausos, avançam à boca de cena para sorver a energia inconcebível que se derrama do palco para o público e retorna do público para o palco, acrescida de um milhão de vóltios de alvoroço, maravilha e êxtase.

E é desta maneira que o teatro nos devolve, em consciência, ao espaço da caverna do pequeno universo pessoal, cheio de equívocos e lamentos, de risos e absurdidades, amores e desamores, mortes e reencontros. Mas só poderás perceber a sua dimensão transcendente, amor, se esperares pelo fim e te deixares ficar numa plateia que se esvazia de gente. Ou num camarote de onde podes ver a multidão atropelando-se a caminho da saída. Ou mesmo num dos lugares mais modestos, de galeria ou galinheiro, de onde a visão do palco provoca vertigens aos mais sensíveis. A seguir, o que resta? O silêncio. O cheiro. O cheiro inconfundível de um teatro desabitado.

E tu. E o palco oculto pela cortina que oculta os engenhos mecânicos que fazem um palco ser tudo aquilo que nós queremos que ele seja. Uma casa, uma floresta, um oceano, um dormitório, uma prisão, um descampado, um cenário de guerra, uma escola, uma cidade, um templo, um quarto de hospital. Onde estão os actores, as personas que os habitaram, os adereços, a respiração sobressaltada ou indolente do público, o ponto, o contra-regra, enfim, todas as pessoas dos bastidores, ocultas e essenciais, a música, a história que te prendeu durante uma fracção da noite? As palavras mágicas do texto de um demiurgo, que outro demiurgo encenou? Dormem, é isso.

Até ao próximo espectáculo.» 

MG, em Xerazade - a última noite, pp.11-12



  
Summer Festival
Edinbourgh 


domingo, abril 19, 2015

Conselhos a uma jovem escritora?

Tenho muita pena que ela não apareça em nenhuma das fotografias, mas mesmo que aparecesse não iria partilhar o seu rosto lindo e sério publicamente. Tinha uma pergunta seriíssima. «Que conselhos para uma jovem escritora?» Como ela. Intensa, tímida, curiosa, atenta. No final, trazia o meu livro para eu assinar. Aos 14 anos e vai ler Xerazade - a última noite. Já escreveu um livro que, penso, é também guião de filme. Foi na FNAC de Faro, quando ali esteve a falar com leitores, a encontrar e reencontrar amigos. Como a Elza Cunha e o marido, o Luís Bulha e a mulher, a Helena Ralha e a filha, e outros que não conhecia e tive tanto prazer em conhecer.
Foi muito bom.
Em Faro, FNAC

O que lhe aconselhei? Segredo. Silêncio. Porque os sonhos despertam mágoas - em que não consegue sonhar tão longe. E as mágoas despertam rancores. E os rancores acordam a ironia da inveja, essa lamazinha pegajosa que macula as asas e prende os pés no chão da incertezas. É preciso crescer o suficiente para que tal não nos macule, nem magoe... pelo menos tanto. O que lhe aconselhei? Trabalho. Muito muito trabalho. Ser escritor é fazer um pacto com a palavra. Esse pacto é a tempo inteiro. Esse pacto é implacável.

Impossível viver sonhos destes sem compromissos totais.

Ela percebeu tudo.


quarta-feira, abril 15, 2015

Romance iniciático e contos de fadas

A opinião de Laure Collet, que já traduziu alguns dos meus livros para francês, sobre  Xerazade:

Fin de la traduction de Shéhérazade: la dernière nuit. de Manuela Gonzaga.

Encore une fois cette sensation à double tranchant: excitation et exaltation du travail fini et prêt à être publié, et saudade immense de ce livre qu'il faut laisser derrière soi.
Roman initiatique et contes de fées tout à la fois, comme son héroïne, il est l'Un et le tous. Chaque chapitre est une histoire, mythique, magique, drôle, ou triste, qui nous transporte ou ramène. Impossible de savoir si on est parti très loin ou resté tranquillement au point de départ. Chaque chapitre est une expérience, une vie, une pièce d'un puzzle; et dans cette image, cette sensation que l'on retient en refermant le livre, le tout est supérieur à la somme des parties. Nous sommes un, et nous sommes tous. Une merveille.


sexta-feira, abril 03, 2015

Opinião - «como um coro de tragédia grega»

Sobre Xerazade - a última noite, partilho , evidentemente autorizada, o texto de opinião de um leitor que me acompanha há vários livros. Agradeço profundamente a Manuel Carlos Marques Pinto o entusiasmo, a grande generosidade e o trabalho a que se deu, para comentar tão aprofundadamente a obra. MG. 


Europa e o Touro



Leimotiv

Não fiquei com quaisquer dúvidas, após a leitura entusiasta de “Xerazade”, que estamos perante um “Leimotiv” de ardor humano (talvez paixão), com tudo de grandioso e sublime que lhe é intrínseco, mas, igualmente, misterioso e sedutor. A paixão entre esses dois amantes, dois amigos, tornou-se no centro da narrativa, do romance funcionando como “um coro de tragédia grega, sublinhando a acção e sugerindo interpretações e propósitos onde as personagens os não encontram.”

Na realidade, julgo ter percebido bem este jogo de xadrez que aqui se vai desenrolando e que, no fundo, é a vida, onde muitas vezes somos peões ou outras vezes rainhas e reis montados em cavalos brancos, mesmo que sejamos apanhados em xeque-mate nas voltas que o jogo dessa vida nos apresenta.

Não foi, com toda a certeza por acaso, que o romance tem o nome da princesa das Mil Uma Noites, Xerazade, pois julgo entender que é uma homenagem muito sincera a todas as mulheres que sempre desejaram e desejam serem felizes e independentes. Haverá mesmo um certo feminismo, mas muito delicado e discreto (sem necessidade de queimar objectos…) que atravessa, aliás, todo o romance."

Começo por comentar como cruza tão bem, com palavras tão sublimes o que paira além de nós, ou até ainda está entre nós, da mitologia (da pré-clássica ou clássica) que nos deslumbra, dos deuses mais cativantes que nos cercam e que , mesmo involuntariamente nos conduzem, por vezes, mais do que as amarras dos factos históricos! Como são bonitas as lendas, os mitos e como ultrapassam, em tantas ocasiões, em densidade interior, a própria História? “Dos deuses vem todo o engenho que dá as qualidades aos mortais. Eles nos criam artistas, fortes de braços , ou eloquentes”, como diziam os gregos, na procura incessante da virtude, excelência ou conhecimento. Como teve a lucidez de valorizar esse nosso passado mítico tão rico (com exemplos tão variados que enriquecem substancialmente toda a trama narrativa) sabendo que temos sangue de tantos cruzamentos e que bebemos directamente de tantas heranças culturais!

Orfeu trazendo Euridice dos infernos


Gostei, igualmente, da forma como integra o tempo (que por vezes pode ser algoz da fantasia) que liga todos os episódios nesta sucessão de quadros vivos ou sonhados, mas nunca tendo deixado que o próprio tempo enchesse de amargos e desenganos o percurso da existência/vivência daqueles dois seres. Corre devagar, corre ao sabor de um presente e de um passado, mas corre… como um fluir de um rio para o mar! “Nada é permanente, salvo a mudança”( Heráclito).

Mostra ainda que a vida só é bem vivida torneando o sofrimento, mesmo que , por vezes, seja bem complicado alterar o tal destino que só os deuses do Olimpo conseguem escapar! Por isso, os sonhos e as memórias que se vão expressando em forma de diálogo dos seres humanos protagonistas da narrativa, assentam em raízes bem ancestrais, mas tornam-na lógica e encadeada com a passagem até pelo mais trivial e mais terreno: “Sorris. É um sorriso um pouco triste, mas mesmo assim é um sorriso e é tão bom levar essa memória comigo” (pág.69); ou quando se tem um coração que sofre, lamenta, mas compreende sem críticas a fraqueza humana na hora derradeira (”na vizinhança da morte pediu ao amante que lhe cortasse o cabelo bem curto, risca ao lado, à homem”(…) (pág.70).

E, no desenvolvimento deste cruzamento de mitos e realidades ali está com uma marca muito subtil a referência à sua África nas imagens das madrugadas quando os javalis “vêm beber ao lago “( pág.64) ou  “(…) depois, quando morremos, todos desejaríamos ter uma árvore africana , a mais maternal de todas as árvores , o baobá, por túmulo(…) (pág.79) , provando bem que o cordão umbilical que há muito se transformou em saudade continua presente, tecendo um corolário intenso de nostalgias inesquecíveis!

Depois é todo um romance, onde estão bem patentes tantas referências ao nosso imaginário de um passado tão rico, mas também de tantos enigmas , venham eles através da História , dos mitos, ou das nossas memórias : “O rei vai nu”, Ulisses” Inana e Ereshkigal, A História começa na Suméria”, “Dos amores de Afrodite por Marte”, como a sugerir toda a simbologia (”Que verdades se ocultam no mito?”pág.21) que daí decorre , onde se entrelaçam paixão, mistério, fantasia, ódio, presentes , tantas vezes, entre os terrenos! Ou “Da riqueza dos livros”, porque vivem connosco… Mas também a música, tão enaltecida em páginas, todas elas, por sua vez tão musicais, fica a pairar nos nossos sentidos, com uma vibração muito especial:“a música mora em tudo e em todos. E está presente até no silêncio. E, como é sublime esse remate: “É a assinatura da vida” (pág.94); só é pena agora acrescento eu que haja uns tantos que não saibam assinar.

E da vida passada então fica esse belo conto “O Flautista de Hamelin”, conto folclórico, reescrito pela primeira vez pelos Irmãos Grimm e que narra um desastre incomum acontecido na cidade de Hamelin, na Alemanha, em 26 de junho de 1284, e que encantou tantas crianças quando os avós ainda tinham tempo e sabedoria para encantar os netos! Bela e sentida homenagem! Autêntico vale mágico!

E as histórias, as evocações, os diálogos sucedem-se em quadros que vão do onírico ao real, com base também numa espécie de improvisação quase oral e quase homérica, de modo que explica o conhecimento de pessoas e coisas que, quase de  certeza,  já  existiam nas memórias passadas. Por outro lado, consegue, mesmo tratando-se de um romance, não confundir a particularidade do que vai descrevendo seja na História, na lenda ou no mito com o essencial da narrativa, dando assim veracidade e vivacidade com o que cruza na sua escrita.

E surgem as admirações por Creta, “Creta é um lugar de infância e voltar à ilha é uma ideia muito tentadora”(pág.105), pela sumptuosidade de Cnossos , como num apelo à História , mas sem se enredar  na sua trama mais complexa.

Ou o mistério da Torre de Babel (págs.130 e 131) e ambição humana desmedida que nunca mais teve fim segundo o Antigo Testamento (Gênesis 11,1-9), construída na Babilônia pelos descendentes de Noé, com a intenção de eternizar seus nomes. A decisão era fazê-la tão alta que alcançasse o céu. Esta soberba que continua tão presente na nossa sociedade provocou a ira de Deus que, para castigá-los, confundiu-lhes as línguas e os espalhou por toda a Terra.
E depois com o mesmo entusiasmo e com a mesma cadência de introduzir mais lendas e mitos no corpo do romance, “somos deuses” (pág.141), aí estão os bárbaros (págs.136 e 137) e a postura altiva dos clássicos, neste caso, Roma a não entenderem a mão civilizacional que trouxeram e não apenas o nefasto ; eram aqueles que falavam bar-bar-bar.

No capítulo “O Regresso” (págs. 142 a 148) como  revela muito bem a intensidade do diálogo , mas com a simplicidade de uma  abertura ao bom entendimento , afinal tão simples, mas, por vezes tão complicado: “Enfim, também só as crianças, os loucos ou os miraculosos se conseguem abstrair tão absolutamente do mundo em redor que não pensam na transitoriedade dos milagres, esquecendo que a vida continua com o seu pequeno cortejo de misérias” (pág.143).

E que bom foi recordar Hans Christian Andersen esse fabuloso mágico da palavra, filho de gente bem humilde, mas que com a sua nobre escrita foi um autêntico aristocrata e cativou tantas gerações de meninas e meninos! E não tenha dúvidas como é bom voltar à infância, tenha ela acontecido no frio, no calor, na montanha ou na cidade! Os nossos partiram, mas os nossos ficaram; estão ali, estão aqui como disse Saint Exupéry (outro mágico da palavra eterna): “Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.
E então os Anjinhos (pág.156) como foram eles importantes nas nossas vidas!

Com os “Portais” ( págs.165 a 172) encontro aqui um texto muito rico psicologicamente (sobretudo na descrição daquela protagonista) com afirmações muito realistas que ficarão na memória de todos aqueles que irão ler Xerazade: “A mulher: loura, olhos cor de avelã, talvez excessivamente magra, branca, queixo duro, pele de camélia, era de uma vivacidade que enchia um estádio de futebol vazio, ou transformava um velório numa festa.
Era daquelas pessoas que só, só com a sua presença , acendia as luzes de Natal , sem ser preciso liga-las  à corrente, e que com a sua inconcebível energia, era capaz de organizar  em menos de duas horas  e na mais soturna das casas uma festa de arromba , com jantar de vários pratos, música adequada e decoração a preceito” (págs.168 e 169).

Há também grande sensualidade, mas também sensibilidade ao falar dos sentimentos humanos que podem ser nobres, mas também obscuros ou misteriosos.

Alguma vez chegamos a conhecer alguém?” (pág.172).

No capítulo “A Realidade” (a partir da pág.173) enquadra muito bem o que é a vida, e o que é a ilusão a que muitas vezes ela nos conduz; somos realmente, em tantas ocasiões, cegos de tudo, mesmo que tenhamos todos os sentidos a funcionarem. “Então todos os cegos começaram a discutir, tentando prevalecer a sua verdade , e não chegaram a acordo” ( pág.174). Por isso, o que é real, muitas vezes nos parece irreal e vice-versa: “ Há histórias a emergir à nossa volta, aproveitando a escuridão e a tranquilidade para viverem as suas existências bidimensionais. Simulacros de vidas? Variações em torno das vidas que nós próprios deixámos para trás? Memórias perdidas que não se resignam ao olvido?” (pág.176).

E ao abordar uma página dedicada à literatura infantil (pág.176) com a história da Princesa Magalona, soube avivar , mais uma vez, os sonhos de todos nós  e revolver saudades , mesmo que sobressaiam algumas amarguras  nesse sonhar acordado. E ao passar para as “aventuras e hilariantes de Dom Roberto, do Diabo, o Barbeiro, o Padre, o Polícia, forcados, bandarilheiros, o Barbeiro, o Padre, o Polícia, os forcados, bandarilheiros e touros, mais a Princesa Magalona, a Imperatriz Porcina e a Donzela Teodora, atinge em cheio a juventude de muitos de nós. Inolvidáveis momentos sempre presentes nas nossas recordações! Acho que me ainda escuto a rir, rodeado de olhares tão carinhosos e tão cúmplices. Afinal, onde estão? Por mim, continuo lá, porque a realidade  é mesmo “aquilo em que acreditamos”(pág.184).

Finalmente leio o capítulo “Não Me Deixes” (a partir da pág.186). E o que leio e medito? Percebo que quer fechar o círculo maiêutico como começou, para não se escapar da razão do seu romance: A procura incessante que o seu interlocutor estivesse sempre presente em toda a narrativa, tornando-se ele, igualmente, um porta-voz das suas histórias/mitos/mitos/histórias tivessem elas as formas que tivessem mas também das suas angústias, dos seus sonhos, das suas memórias, do seu acerto com uns salpicos autobiográficos, de um certo erotismo como ritual pacificador, do alcance máximo das relações homem /mulher/mulher/homem, umas vezes conseguidas, outras nem por isso, da lógica do mito O mito é o nada que é tudo”( Fernando Pessoa) e da forma melhor do amor, fonte perene da humanidade.

Assim, não pretendendo com estas palavras um pouco soltas e nunca exaustivas, assumir qualquer tipo de crítica literária e muito menos de recensão crítica (para as quais nem sequer estou habilitado), não poderei de expressar aqui os meus mais sinceros parabéns por esta obra tão bem conseguida: é um romance muito bem estruturado que facilita a leitura e é revelador de grande imaginação, fantasia, sensibilidade, cultura e um sentido estético muito apurado.
Lhe auguro, por isso, triunfante caminho…
Com estima e consideração,

Manuel Carlos Marques Pinto
 Em 23/03/2015
Texto escrito de acordo com a antiga ortografia



segunda-feira, março 30, 2015

Do palco à caverna

«Já o teatro propõe-nos o caminho inverso – o regresso ao útero da história. A cortina só se abre quando o público mergulha na escuridão. É então que tem início o ofício sagrado, já que o que se passa no palco, iluminado por velas, tochas, reflectores, holofotes ou luminárias, é sempre um exercício que busca religar a humana transcendência à sua fugidia existência.» 


Edinburgo - durante o Festival. 
Mas sempre que entro num teatro, seja qual for a sua dimensão, sinto um frémito de reverência. Não pelo espaço em si, mas pelo que ele comporta, guarda e permite transpor. Sentia exactamente o mesmo no tempo em que trupes de saltimbancos, palmilhando o mundo de terra em terra, levavam esta magia no bojo das suas miseráveis carroças de mulas, que, num desdobrar de tendas, numa fanfarra de músicas, e num artifício de corpos e adereços, pelo poder sagrado da palavra, devolviam à vida enredos de comédia ou tragédia, que ignorados demiurgos haviam engendrado. Quem eram eles? Nunca sabíamos. Não queríamos realmente saber. Não eram os autores das histórias que nos importavam.» - p. 10, Xerazade - a última noite.

domingo, março 29, 2015

Cinco estrelas para Xerazade



Em Goodreads, a opinião de Sofia Teixeira, autora do Blogue Bran Morrighan, considerado de forma consensual um dos mais interessantes blogues literários, sobre Xerazade - a última noite, a que dá cinco estrelas: «Tendo lido apenas um único livro, que poderei esperar deste novo num formato diferente? Lido este segundo, Xerazade - A Última Noite, tenho a certeza que não podia estar mais certa quanto à minha opinião e que Manuela Gonzaga é das melhores escritoras que alguma vez li.»


Transcrevo o seu texto na íntegra aqui: 

Opinião: O meu primeiro contacto com a escrita da autora Manuela Gonzaga deu-se com a sua obra Moçambique - Para a Mãe Lembrar Como Foi, escrito em honra e memória da sua mãe. Mesmo sendo autobiográfico, houve algo na sua forma de expressão que me conquistou, um sentido de personalidade e força, mesmo no meio das fraquezas, que rapidamente humanizou aquela imagem de escritor que muitas vezes temos tida como distante e fria. Não foi surpresa para mim quando, fazendo o balanço das leituras de 2014, não tive dúvidas que aquele era um dos livros do ano, não havia outra hipótese dada a sua qualidade. Quando elevamos assim a consideração e o gosto por um escritor, pegar em algo novo seu causa sempre aquele formigueiro de expectativa. Irei gostar tanto como o outro? Tendo lido apenas um único livro, que poderei esperar deste novo num formato diferente? Lido este segundo, Xerazade - A Última Noite, tenho a certeza que não podia estar mais certa quanto à minha opinião e que Manuela Gonzaga é das melhores escritoras que alguma vez li. 


«Não tenhas medo. Não é para sempre. Se nunca nos perdemos até agora, não será desta que tal acontecerá. Temos de aprender a aceitar as separações com a serenidade que nos for possível. Sabendo que todas elas escondem a alegria dos reencontros que nunca nos falham


Ao contrário do que nos tem habituado, Xerazade até pode ter algo de auto-biográfico, mas pegamos nele enquanto romance, enquanto universo que nos engole e nos consome à medida que percorremos cada página. Tal como a própria narrativa o vai demonstrando, também a leitura se torna febril capítulo após capítulo. "Não me deixes.", desejo sentido pelos protagonistas, mas também pelo leitor, que se vê vazio quando tem que pousar o livro. 


«Nunca devemos mostrar tudo o que temos, quando o que temos é mais do que quase toda a gente tem. Não são luxos, mas passam por isso. São mais do que isso, até. São frutos de muito amor e muito labor. Mas as pessoas só vêm o resultado final e então provam o mais ácido dos venenos. A inveja.»


Quem é que não conhece as Mil e Uma Noites? Em que Xerazade empreende num plano arriscado para salvar a vida das mulheres que o sultão insiste matar todos os dias? É com estórias, as mais belas e aterradoras, em que a eloquência e a sagacidade com que desenrola cada fio narrador lhe concede mais algum tempo de vida. É num formato parecido que viajamos por uma estória que é de dois, mas de muitos mais, uma trama apaixonada que não se prende a estereótipos e que expele as mais diversas emoções inerentes ao ser humano - paixão, amor, dor, ódio, rancor, lealdade e traição, entre tantos outros.


«A dor tem muitos rostos e muitas formas de se fazer sentir.»


Existe uma genialidade nesta narrativa que está ao alcance de muito poucos, ou de mais ninguém. Não é algo que se compare, é certamente belo e fascinante, mas penso que acima de tudo único e, mais uma vez, Manuela Gonzaga mostra a fibra de que é feita. Flexível, sem quebrar, forte sem deixar de ser sensível, e uma capacidade de projectar os cenários mais simples de forma tão intensa. Existe uma estética e uma imagética tão sedutores quanto torturantes, no bom sentido, pois queremos rapidamente chegar ao fim sem que na verdade toda esta musicalidade mitológica, real, filosófica e paisagística termine. 


«No princípio de todos os princípios, foi o som. Depois, a palavra. Por fim, a música. A trindade primeva da criação. A sua emergência em espírito, alma e corpo. Um corpo de glória, cuja pauta são os números sagrados. É por isso, que a música está em todo o lado — desde os confins do espaço e do fundo dos tempos, à incerta e delicada estrutura atómica. Cada estrela, cada planeta, cada galáxia, cada cometa e cada asteróide cantam na sua própria vibração. Assim como cantam todos e cada um dos corpos — da célula ao átomo e seus componentes até à plataforma fantasmática da preexistência quântica. A música mora em tudo e em todos. E está presente até no silêncio. É a assinatura da vida.»


Todos conhecemos a lei da atracção e da unicidade da matéria que nos faz reflectir, que nos leva a questionar o que nos rodeia. Neste contexto, mais do que um livro que dá respostas, através de Xerazade a escritora levanta várias questões, confronta o leitor com a sensação do todo, mas também com a inevitabilidade da perda, do que fica no fim. Era capaz de esgotar elogios no que a este livro diz respeito e mais, tenho a certeza que esta obra se vai tornar num Clássico da Literatura Portuguesa. 

Sofia Teixeira, 22 de Março de 2015»




domingo, março 15, 2015

Enquanto isso, eu penso no meu Touro do Céu

Um extracto de Xerazade - a última noite - um romance que quase se foi escrevendo a si próprio, num deslindar de memórias, aforismos e lendas que uma mulher, em jeito de despedida, vai contando ao seu amante que, inconformado, se recusa deixá-la partir.

Europa e o Touro, Museu de Tarquínia, c. 480 AC
 
Enquanto isso, eu penso no meu Touro do Céu
[...]
O que sucede às palavras quando o som foge delas? O que sucede à luz quando todas as suas partículas escolhem ondular pelo infinito mar do devir? E nesse vaguear marinho, em que matriz encaixar os nossos desejos e apegos? Gostava de certezas, neste momento em que a única certeza é o incerto acontecer. O pior é que só me veem à memória toadas infantis, cantilenas de embalar e histórias do tempo em que os animais falavam e só crianças ou tolos entendiam o que eles diziam. Caminhámos tanto, e afinal o que nos resta é um punhado de canas, um punhado de histórias e um punhado de pérolas soltas?

Diz-me se isto faz algum sentido.

Sou de um tempo em que fadas e anjos eram quase da mesma família. Sou de um tempo em que, entre fadas e anjos, se estendia uma muralha de fogo e um redemoinho de anátemas. Sou do tempo em que fadas e anjos jaziam, lado a lado, num sepulcrário, o mesmo, atulhado de fantasias quebradas e arrumadas a eito. Podíamos visitá-los como quem percorre um museu, ou a cave de um teatro barroco, precioso mas entretanto abandonado, atulhada de adereços inúteis, sem uma única referência de como, quando e para quê foram usados. Sou de um tempo em que já nem se falava de fadas, nem de anjos. Sou de um tempo em que inventámos uns e outros, à medida que eles próprios nos inventavam também.

É a memória um jogo?

O meu Touro abriu as asas. Céus, como ele ri! Amor, muito antes de Creta, entre mulheres e touros existe uma aliança. As mulheres não ferem o touro, brincam com ele. As mulheres não matam o touro. Amam-no. Que algumas reclamem para si a arena, a espada, a verónica, o cavalo e as bandarilhas, prova apenas o quanto nos afastamos da essência. Do fruto, sobraram as cascas. A semente perdeu-se há muito. Do gesto, secreto, resta, em mímica adulterada, a profanação de um mistério transformado espectáculo, e sem sentido algum. A não ser o mais primário de todos os sentidos. O prazer de cheirar e ver correr sangue. Muito sangue.

Desde que não seja o nosso.

Lembra-te do tauróbolo. Estivemos juntos em São Clemente, Roma, só que dessa vez nenhum de nós se lembrava. As imagens que guardamos desses dias, tiradas com uma câmara de plástico comprada numa loja de souvenires perto da Fontana de Trevi, mostram-nos de mão dada diante da basílica erigida sobre a primitiva igreja que, nos primórdios do Cristianismo veio encapsular um Mithraeum[1]. Imagina: Cristo e Mitra reunidos no mesmo espaço. Religião e arqueologia, camada por camada, século após século, andar por andar. Descemos até às entranhas.

Vimos tudo – e não vimos nada.

Mas o mistério persiste na cave outrora vedada a mulheres. Amor, desta viagem tens de te lembrar, foi tão recente. Nós os dois, como se nada fosse, rindo de tudo, até das tuas máquinas fotográficas que as crianças nos roubaram, estivemos num dos teatros do deus oriental que nasceu há milhares de anos a 25 de Dezembro para salvar a humanidade. Trezentos anos antes do nascimento do Menino, já Mitra era adorado desde a Índia ao mundo mediterrâneo. Matara o touro por amor da humanidade e o rito repetia o misterioso ciclo. Às ocultas, na sacralidade do espaço iniciático onde o touro era degolado para o seu sangue cair sobre o neófito. No Mithraeum de São Clemente não rimos.

Mas também não entendemos.

O que sobrou do velho culto? Um arremedo. O touro, a arena e um virtuoso. O Matador que demanda assistência e bebe aplausos, na encenação de uma morte precedida por uma espécie de bailado em pontas, gestos largos, ondular de capote, e muitos ferros cravados num corpo palpitante, perante uma assistência que respira o cheiro do medo e rejubila com a agonia, e reclama a estocada final. Mas antes, é preciso provocar, magoar, perseguir sem descanso. No lugar do círculo, sob a claridade estonteante do meio-dia, o toureiro encomenda-se à Virgem, cujo filho se ofereceu em holocausto, tomai o meu corpo, tomai o meu sangue, como símbolo de Redenção e aliança. Que ironia. Sob a pretensa invocação de um arquétipo do herói, a larva transmuta-se em pequeno tiranos enfeitados de sangue e joias falsas.

Pensa: porque motivo, na arena, o macho se traveste, meneando as ancas, as pernas desenhadas nos collants cor-de-rosa, as nádegas evidenciadas no fato brilhante, justíssimo, resplandecente de luces, citando o outro macho, em trejeitos de mulher dama, chamando-lhe bonito, chamando-lhe belo? É para juntar mais um engano ao enredo de enganos. O touro confia na mulher. A mulher ama o touro. Deixa-se levar por ele, sobre as águas.

Portanto, o segredo da arena já não é segredo nenhum. São estes homens bamboleando-se como fêmeas que incitam o touro para o magoar, e para serem aplaudidos pela sua morte a que chamam gloriosa para se distinguirem do magarefe que não quer palmas para nada, porque sabe que matar o touro é apenas um trabalho sujo pelo qual lhe pagam. Porque o fazem? Porque já esqueceram. Pensa nas dançarinas em Creta e nos curetes. Recorda Zeus e Europa. Reflecte sobre o crime de Minos, ele próprio filho de um touro, o Touro sagrado. E a vergonhosa maldição de Pasífae que gerou o touro, o Minotauro. Recorda Indra, o que fez do trovão seu aliado. Tu sabes. Eu sei. Alguns ainda recordam. Só eles não sabem nada.

Enquanto isso, eu penso no meu Touro do Céu.


―Estás a delirar. Abre os olhos, querida.

Naqueles dias, sabíamos que é preciso nascer para vencer a morte.

― Não quero saber de grutas, nem de touros, nem de mortes. Estou aqui, ao teu lado. Não te esqueças disso.


 [...] em Manuela Gonzaga, 2015, Xerazade - a última noite, Lisboa, Bertrand, pp. 106-109.



[1] Originalmente, um santuário ao deus Mitra, cujo culto vindo da Ásia Central, se veio a tornar um dos mais importantes no império romano, até ser abolido em 391 DC.
 

domingo, novembro 09, 2014

Muitas vozes, muitas vidas

Mais um extracto do meu próximo livro. MG



Pântano
Cortesia de Portal Badra


«Mas seríamos mesmo nós? É que agora já não sei de nada. Creio bem que trouxe, presas a mim, as histórias da beira do pântano que as canas sussurraram aos meus ouvidos. Eram muitas vozes, amor. Quase todas de mulheres. Eram muitas histórias, amor. E quase todas de desamores, desencontros, infortúnios. Senti tanta ansiedade, tanta tristeza, e nalguns casos tamanho remorso nestes relatos incompletos. E tanta força. Se calhar é por causa dessa força que tais histórias transcendem o tempo e o espaço e nos assombram a todos, sem darmos por isso, a ponto de tomarmos, por vezes, como nossas as memórias dos que já partiram.

De modo que já não sei se aquela emparedada, aquela fugitiva, aquele frade proscrito, aquela violada, aquele violador, aquela amorosa, aquele apaixonado, aquele rei sem trono, aquela rainha sem reino, cujas vozes me perseguem até aqui, são pedaços daquilo que fomos, tu e eu na nossa história de muitos, ou vidas distintas à procura de uma voz que dê eco aos seus relatos.»
Manuela Gonzaga, em Xerazade - a Última Noite, Lisboa, Bertrand, 2015. 

quinta-feira, outubro 30, 2014

Os sinais


Mais um trecho do meu livro Xerazade - a última noite  MG
«Presta atenção aos sinais. Vou escrever-te cartas, vou mandar-te mensagens, vou cantar para ti enquanto estivermos longe um do outro. Não será por muito tempo, prometo-te. Entretanto, usarei os mais improváveis mensageiros, de modo que tens de estar atento. Aquela abelha, aquela formiga, aquele voo de pássaro, aquela nuvem, aquele cintilar de estrelas, podem trazer-te as minhas palavras, o meu riso cruel, o meu choro inconsolável, os meus gemidos de gata assanhada de amor. Fizemos esse jogo tantas vezes, lembras-te? E aprendemos a dominar as suas regras, porquanto a porta do caos é o portal de uma ordem secreta patente aos olhos de todos os que quiserem ver. É a partir de agora que vamos estar verdadeiramente juntos. Se ao menos percebesses quanto.


―Não posso viver sem ti, querida.
―Sabes que não posso ficar contigo.

― És a minha alma. Como se pode viver sem a  alma?
― Não te iludas, amor. Já nos despedimos tantas vezes. É só mais uma
[...]»

Manuela Gonzaga, em Xerazade - a última noite, Lisboa, Bertrand, 2015