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quarta-feira, fevereiro 10, 2016

A noiva do rei enlouqueceu de vez

Nem ele é rei, nem ela foi jamais a sua noiva. Porém, há muito anos, meteu-se-lhe na cabeça que ia casar com o herdeiro da coroa portuguesa, ainda o senhor era solteiro. E desatou a persegui-lo sem clemência, insultando as companhias femininas com quem ele estivesse, e aparecendo-lhe nos mais inesperados locais e países. E eu com isto? Soube da história, pesquisei melhor, confirmei-a junto de quem de direito, e publiquei-a no jornal Independente, algures nos primeiros anos da década de 90. 
Devo dizer que, e como jornalista, este trabalho é dos que mais me orgulho. Não pelo que descobri, mas pelo que não escrevi: o nome da envolvida no disparate de um historial de perseguições implacáveis, que chegaram a tal ponto que D. Duarte já entrava no aeroporto da Portela por portas laterais, usando de muitos outros subterfúgios para conseguir alguma paz nos seus quotidianos e poupar as pessoas com quem se relacionava a situações muito desagradáveis. A ponto de num célebre baile em Queens, NY, onde ela apareceu de sopetão, os seguranças do evento de gala terem sido forçados a contê-la «numa salinha com sofás e uma pilha de revistas» onde a mantiveram fechada até ele sair. 
Com este e outros detalhes saborosos, confirmados pelo próprio D. Duarte e por mais fontes (cheguei a telefonar para Nova Iorque por causa da cena do baile e outras), escrevi o artigo e combinei pelo exclusivo um preço muito bom, na época em que um/uma jornalista com créditos firmados podia ganhar muito bem. Ora acontece que neste interim eu tinha ficado subitamente sem emprego (outra história que vale a pena, um dia, ser contada); e acontece que esse furo e o dinheiro que eu pedi por ele - e que foi aceite sem hesitação - me davam muitíssimo jeito. Mas o director do jornal queria, naturalmente, o nome da stalker que, imagine-se, era psicóloga clínica. Ora eu não tenho, nem tinha, o chamado killer instinct, e a única coisa que me passava pela cabeça era o inferno em que se ia transformar a vida daquela infeliz, que, apesar de tudo, não estava a colocar a segurança do país em causa, nem nada do género.
Por isso, disse que não avançava com essa informação, mas que compreendia que o Independente, nessas circunstâncias, não me comprasse o artigo. O director pediu-me, então, a morada ou o número de telefone da senhora de modo para a mandar fotografar, deixando-me fora do embróglio. Voltei a recusar. Seria autora moral... A história, felizmente, era boa e valia por si e tinha acima de tudo D. Duarte a confirmá-la. Portanto, e acrescentando dados de outras perseguições a outras figuras públicas, o artigo fez capa, pagaram-me o que tinha pedido e todos ficaram contentes.
Menos a psicóloga (com quem eu falara previamente ao telefone, no decorrer da investigação) que passou a telefonar para minha casa dizer aos meus filhos a péssima pessoa e a vergonha de jornalista que eu era. Até ao dia em que fui eu que atendi e o assunto morreu ali, no final deste singelo diálogo:
- Drª X, se a senhora tem alguma coisa a ver com a pessoa que refiro no artigo, vá de joelhos a Fátima de quem é tão devota, agradecer aos céus ter dado de caras com a jornalista mais tótó do universo, que, para poupar uma criatura que não conheço de lado nenhum, se recusou fornecer pistas sobre a sua pessoa. Entretanto, desampare-me a loja porque também tenho os meus limites. E estou a atingi-los.
Porque é que este episódio, com duas décadas, saltou agora para os meus quotidianos a ponto de vir parar a estes Diários do Irreal? Porque me cruzei com ela há poucos meses. Andava a pregar a Boa Nova e a falar de Jesus. Insistente,tresloucada, arrogantíssima, pobre criatura. As pessoas que estavam comigo ainda disseram, 'coitada, até é bem relacionada - amiga do dr. João Jardim, e de alguém da Casa Real...' Perguntei se não seria psicóloga... era, segundo os vizinhos. Aparentemente, porém, já não exercia. Avancei com o nome - e era a própria. Pasmei com aquilo que pensei ser o fecho de abóbada de um episódio tão marginal na minha vida, quando há poucas semanas soube o resto. A senhora acabara de ser posta na rua. Não pagava rendas sabe-se lá desde quando. Mas o pior foi o que se encontrou no apartamento. Gatos!!! Montanhas de gatos. Um cenário dantesco, conta quem viu. Para os felinos, foi a sorte grande pois uma grande parte deles foi logo acolhida. Os outros, foram alimentados pela Sandra Marques que ia vê-los todos os dias, até todos estarem entregues.
E ela? Sei lá, sabemos lá. Uma noiva fantasmagórica, uma casa de horrores, uma vida trágica. Que ficção tão real.


quinta-feira, setembro 24, 2015

«Esta barragem não deveria existir»

A minha crónica de hoje, no Comício Público, é dedicada ao Vale do Tua. Citando:
«E foi assim que hoje, a comitiva do PAN desceu do comboio na estação do Tua, em Carrazeda de Ansiães, e foi a pé até à zona da obra, onde se pode observar o paredão de betão a ser construído no rio, e as infraestruturas do estaleiro que se estende pelas encostas. Bem como a linha de caminhos-de-ferro desactivada por causa desta barragem que, a ser concretizada, irá arrasar um dos patrimónios mais selvagens que existem em Portugal, afetando espécies em vias de extinção, prejudicando o turismo, e destruindo “imensos terrenos agrícolas”.  Nas palavras de André Silva, porta-voz do PAN:
 “O que está aqui em causa é de facto todo um património cultural, ecológico, social e económico. Esta barragem não deveria existir, tal como outras que estão ser construídas no [no âmbito do] Plano Nacional de Barragens”. [em «Esta barragem não deveria existir», TVI notícias]»

Para ler na integra: «Esta barragem não deveria existir»

sábado, agosto 29, 2015

«Foi um livro difícil de escrever?»

Em Junho, dei uma entrevista à Confraria Vermelha, intitulada «Xerazade - a última noite de Manuela Gonzaga», que foi publicada recentemente, a 26/08/2015. Na altura, à pergunta, inevitável, sobre os «novos projectos» respondi com reticências. Agora, a notícia da minha candidatura, que, entretanto e desde o 10 de Agosto deste ano deixou de ser novidade, já é referida no texto.

Voltando à entrevista, fica um extracto, que me tocou particularmente reler:

«ENTÃO, “MOÇAMBIQUE, PARA A MÃE LEMBRAR COMO FOI” É, TALVEZ, O LIVRO MAIS ÍNTIMO, NO SENTIDO EM QUE FOI ESCRITO QUANDO TINHA A SUA MÃE MUITO DOENTE. FOI UM LIVRO DIFÍCIL DE ESCREVER?
Foi muito difícil, mas, ao mesmo tempo, muito útil e esclarecedor… ajudou-me, finalmente, a reconstruir o puzzle da minha e das nossas vidas. Porque se ia para África? Quem ia? Como eram os quotidianos ultramarinos, à luz das memórias da menina e da jovem que fui, e do enquadramento que a historiadora que sou ajudou a completar? Além disso, este livro levou-me a memórias que me encheram de alegria, mas também de angústia. Voltei à guerra. Às pequenas guerras pessoais. E, de relance, ao regresso quando tudo era tão diferente que percebi que Portugal se tornara terra estrangeira e foram precisos muitos anos para reconquistar a minha cidadania interior.» 
Para visitarConfraria Vermelha

quinta-feira, agosto 27, 2015

Ainda se lembram quem matou Laura Palmer?

A propósito de algumas das minhas afirmações; a propósito de alguns dos meus textos; a propósito de defesas de causas que eu tomo ou não; a propósito de diferenças e semelhanças. Tenho recebido mensagens em privado e trocado opiniões com pessoas que seguem a minha candidatura presidencial e que são suficientemente gentis para considerarem que sou bem intencionada - e assim, discordando frontalmente com algumas das minhas tomadas de posição, alertam-me para a contabilidade eleitoral. Para o ganha perde dos votos.

E eu fico gratíssima e em grande aflição. Não por perder ou ganhar votos. Mas porque no mundo onde me movo, o mundo que eu vejo é tudo menos normal. 

Quem matou Laura Palmer, lembram-se?

- Não há qualquer espécie de normalidade na guerra. 

- Não há qualquer espécie de normalidade na fome.

- Não há qualquer espécie de normalidade na violência exercida pelos mais fortes sobre os mais frágeis, os mais vulneráveis, os mais indefesos. 

- Não há qualquer espécie de normalidade na apropriação dos bens de todos por parte de alguns, muito poucos. E por bens, entenda-se tudo, desde o que é necessário à vida, a começar pela água; pelo chão que se pisa; pelo tecto que nos abriga; pelo alimento que nos alenta, pelo manto que nos cobre. 

- Não há qualquer normalidade na forma como tratamos a Natureza, como se fosse uma «coisa» com que se brinca até se lhe retirar tudo o que nela vive, matando-a, floresta após floresta; montanha após montanha; rio após rio; mar após mar. 

- Não há qualquer normalidade na forma como usamos e abusamos dos animais que partilham connosco o planeta. A crueldade que exercemos sobre eles é indizível. E porém, toleramo-la. 

- Não há qualquer espécie de normalidade no desamor que leva a que se mate ou se abuse de uma criança. E quantas vezes essa morte em vida que é o abuso, é perpetrado no seio do lar?

- Não há qualquer normalidade nos chamados «crimes de amor» que ao amor nada devem, porque é apenas o egoísmo, a ignorância e a prepotência que leva agressores/as a agirem contra agredidas/os. Isso e a noção de impunidade com que agem. 

- Não há qualquer normalidade em tanta coisa que achamos normal, ou que toleramos como se o fosse: o roubo, a calúnia, a desfaçatez, a injustiça, a indiferença de muitos que levam tantos ao desespero e à ruína. A inconcebível tolerância do mal. 

Depois, querem que eu volte sobre os meus passos e retire as minhas palavras de apoio, quando a questão é meramente do foro íntimo de cada um, como por exemplo, duas pessoas do mesmo sexo amarem-se como se amam pessoas de sexos opostos e assinarem um documento em conservatória do registo civil, que as consigna como parceiros com direitos adquiridos e etc., vulgo casamento? Num mundo onde o ódio é considerado «normal», e por vezes até aceitável e legítimo, o amor, por ter um rosto diferente, é abominado como uma abominação. 

E isto é que não é normal. 

Já agora, ainda se lembram quem matou Laura Palmer?