quinta-feira, outubro 31, 2013

Mamas grandes e leite em pó

A propósito da notícia tão obscena quanto aterradora de que a Nestlé tem estado a patentear os genes do leite humano - uma noticia que me chegou às mãos via PAN Lisboa - Partido dos Animais e da Natureza - a minha cabeça disparou noutras direções onde o protagonismo desta corporação foi igualmente obsceno. Convidando-vos a ler a notícia da patente dos genes humanos do leite, mas deixo aqui outra reflexão sobre o comportamento exemplar da «grande leiteira dos povos».

A Nestlé nos anos 50, 60, cito de cor, promoveu campanhas de fome no chamado terceiro mundo. Começava por oferecer leite às mães, para as poupar à 'trabalheira' e à 'falta de higiene' das suas próprias mamas, dizendo-lhes que o produto sintetizado era muito melhor, muito mais «limpo» e muito mais saudável. Depois, o leite secava e as mães não tinham como amamentar e nem como pagar o leite em pó.

Foi terrível e nunca se falou muito nisso porque era em África e era um problema de pretas e pretos. Funcionou nos países industrializados porque as mães tinham dinheiro para leite em pó, e ficavam com mais «tempo» para brincar com aspiradores e máquinas de lavar. Com os custos emocionais que talvez um dia possam ser equacionados. E por motivos exemplarmente elucidados em, por exemplo em How breastfeeding is undermined. Nos meios mais evoluídos e informados, porém, deu origem a muitas ações de denúncia e a uma campanha mundial que colheu os seus frutos, a qual apelava ao boicote à multinacional que a apanhou quase de surpresa obrigando-a encolher as garras.

Mas ninguém me tira da cabeça que a moda insana de promover como sensual e desejável a imagem de mulheres cujas mamas parecem rebentar com subidas de leite a despropósito - como se tivessem trigémeos aos gritos em quartos escondidos -, pode enraizar no imaginário de bebés feitos homens esfaimados e nostálgicos da mama que nunca tiveram. E estou a falar a sério.

Começou nos States com Pamela Andersen em Marés Vivas, creio, e no começo dos anos 90 já tinha saltado das paredes e das portas das casas de banho das oficinas e dos tabliers dos motoristas de longo curso para as clínicas ao serviço da beleza. Anos depois chegou a alguma Europa. Façam as contas à idade dos bebés e à idade dos homens, e à capacidade que as mulheres têm de se deixar levar, sobretudo elas, pela bruxaria à distância que é a publicidade no seu esplendor...

Nota: actrizes com mamas muito grandes já havia porque o corpo humano é rico na sua diversidade. Mas nunca a indústria tinha encontro o ponto de apoio certo para prover industrialmente o exageradíssimo  estereótipo de beleza cujo pilar são mamas de tamanho anormal ou claramente doentio, a que uma certa «moda» deu chão e tanta mulher deu eco. Et pour cause.

Para saber mais:
A Generation On: Baby milk marketing still putting children’s lives at risk
How breastfeeding is undermined




Créditos da imagem: «Como escolher o tamanho das próteses de silicone» em O Blogue de Plástico

quarta-feira, outubro 30, 2013

Bárbara Guimarães e José Maria Carrilho

A separação mais mediática do ano, por motivos de alegada violência física e psicológica exercida pelo homem da casa sobre a sua consorte, ao que o dito contrapõe com acusações de alcoolismo e outras, tem sido comentada nas redes de uma forma aterradora. Em primeiro lugar, pela violência exercida contra a língua portuguesa de que os comentadores e comentadoras dão abundante testemunho. Depois, pelo preconceito terrível e a indisfarçável inveja que enformam grande parte dos comentários quase todos a apelar ao «silêncio» da suposta vítima, a que já uma outra se lhe segue na pessoa da primeira esposa do suposto agressor que rompe um silêncio de décadas. Igualmente para denunciar a prática de violência a que foi sujeita durante anos pelo mesmo homem, de resto um político e um intelectual de créditos firmados, pelo menos, em Portugal.


 Eu não sei o que há de verdade ou de fantasia nestas acusações. A procissão vai no adro. O que sei é que o silêncio, que tantos apregoam como virtude, é o pior inimigo das vitimas, sejam elas quais forem e seja qual for o seu escalão social. Em nome desse mesmo tipo de silêncio tão estupidamente valorizado, prerrogativas de género, de estatuto, social e etário, têm sido mantidas ao longo dos séculos.

Se uma mulher, que por acaso até é linda que se farta, e socialmente bem sucedida, vem por cobro a um casamento e invoca violência domestica, o que emerge de grande parte dos comentários às notícias desta separação trágica, é um estendal de frases mal construídas, cheias de pontapés na gramática e erros de ortografia, e, pior ainda, eivadas de inveja e despeito. «Querias ser famosa? Come e cala!», e por aí fora...

Ora eu penso que se alguém tem a coragem e o desassombro de trazer um drama doméstico destes para a praça pública, vai contribuir com mais um sinal de alerta aos agressores e de apoio a vítimas silenciosas. A ser verdade o que ela alega, Bárbara Guimarães agiu muito bem e era muito bom que mais mulheres com autonomia financeira e no escalão social em que ela se encontra, pudessem e tivessem a coragem de fazer o mesmo. Porque a violência doméstica não mora só nas barracas, nos subúrbios e nas aldeias do interior.
 

A violência domestica, caros cidadãos e cidadãs, nem sequer, pela sua trágica dimensão, é um problema de casal, e trazê-la a lume não é lavar roupa suja. É denunciar um CRIME PÚBLICO que todos os anos leva para a cova muitos milhares de mulheres no mundo inteiro. Mulheres que morrem em silêncio com a cumplicidade de todos. Mulheres cujos gritos só são ouvidos quando as suas vozes se calam para sempre.

Denunciar este crime, falsamente qualificado do foro privado, é sinal de coragem, desassombro e civismo. 
Créditos da imagem: Palco do Andrew 

terça-feira, outubro 29, 2013

Cavalo à solta


Poema de José Carlos Ary dos Santos 
Música de Fernando Tordo.
Arranjo e direcção de orquestra de Dennis Farnon.

Minha laranja amarga e doce
Meu poema, feito de gomos de saudade
Minha pena, pesada e leve,
Secreta e pura,
Minha passagem para o breve,
Breve instante da loucura.
Minha ousadia, meu galope, minha rédia,
Meu potro doido, minha chama,
Minha réstia de luz intensa, de voz aberta
Minha denúncia do que pensa,
Do que sente a gente certa.
Em ti respiro, em ti eu provo,
Por ti consigo esta força que de novo,
Em ti persigo, em ti percorro,
Cavalo à solta pela margem do teu corpo.
Minha alegria, minha amargura,
Minha coragem de correr contra a ternura.
Minha laranja amarga e doce
Minha espada, poema feito de dois gumes
Tudo ou nada.
Por ti renego, por ti aceito,
Este corcel que não sossego
À desfilada no meu peito.
Por isso digo canção castigo,
Amêndoa, travo, corpo, alma,
Amante, amigo.
Por isso canto, por isso digo,
Alpendre, casa, cama, arca do meu trigo.
Minha alegria, minha amargura,
Minha coragem de correr contra a ternura.
Minha ousadia, minha aventura,
Minha coragem de correr contra a ternura

segunda-feira, outubro 28, 2013

Brincos de pérolas

Ontem a minha amiga ia perdendo uma parte do brinco, aquela que o prende à orelha. Estávamos sentadas numa esplanada, na Trindade, a beber chás exóticos e os últimos raios de um esplendoroso e muito lisboeta sol de Outono. Quatro mulheres de gatas à procura de uma pecinha microscópica, que finalmente o homem que estava connosco veio a encontrar debaixo de outra mesa.

Isso recordou-me o brinco que perdi há pouco tempo. Tinha uma história gira. As pérolas comprei-as no primeiro andar de uma loja/armazém escura, cheia de bricabraques, em Malé, capital das Maldivas, no final de umas férias de sonho. Nesses tempos, não muito remotos, viajávamos com uma regularidade hoje impensável. Eram umas pérolas lindas, foram bastante baratas, mas estavam encastoadas toscamente. Andaram comigo, até que as levei ao Brasil, e em Abadiânia, mais ou menos em 2010, as entreguei ao cuidado de um jovem joalheiro, que ficou de lhes dar o escrínio perfeito. Paguei de avanço e tudo e vim-me embora, com a certeza absoluta de que mas enviaria,

Enviou. Discretas, as minhas pérolas orientais, trabalhadas no interior do Brasil, foram os brincos mais bonitos que tive. Se calhar exagero, mas não muito.

Entretanto, numa destas tardes - lançamento do livro de um amigo que muito prezo - levei-as. A livraria fica muito próximo do metro, e o metro em Lisboa é fantástico e muito próximo de mim. Foi no regresso, a folhear o livro novo, que, já dentro da estação, percebi que tinha perdido um deles. Voltei atrás, pedi ao funcionário que me deixasse espreitar na estação, fui até à rua, fiz o percurso entre a livraria e o metro, sempre de nariz no chão, regressei, e dou com o funcionário ainda a vasculhar o átrio da estação. Depois, abriu-me a porta para eu não pagar outro bilhete, que amor de pessoa foi comigo, sondar o cais, ajudando-me na minha busca. Em vão. A minha pérola sumiu de vez.

Ficou a outra. Então, entreguei-a à Ana Cardim que vai extrair daquela matéria-prima um anel lindíssimo. É uma grande joalheira e uma grande artista. Isso conforta-me de algum modo.

Mas ainda não ultrapassei a mágoa. Sou tão desligada de coisas, mas com algumas... é mesmo difícil. Será coisa de gaja?

 

domingo, outubro 27, 2013

Amosse Mucavele, o poeta

Vou citar de uma página onde, no espartilho do CV, se resume o irresumível. Uma vida. De um grande poeta moçambicano, que para minha alegria conheci há pouco. Porque? Porque as suas palavras, como as de outros poetas vivos, transfiguram os meus dias. São meu alimento. 
Bebo-as e como-as para me defender do Caos. Sem estas luzes, sem faróis como estes, a Vida, a de nós todos, é só caminho para o olvido ou para o naufrágio. Por mais confortável que seja a nossa ilha de realidade. E nunca é. Só se formos surdos e cegos e indiferentes ao que se passa ao nosso redor, e o nosso redor é o mundo inteiro. Se formos, se estivermos, é porque já morremos e ainda não demos por isso. 
O poema não morre.

«Amosse Eugenio Mucavele nasceu aos 8 de julho de 1987 em Maputo, Moçambique. Membro fundador do Movimento Literário Kuphaluxa, sonha em ser poeta, cronista e contador de sonhos. Faz parte da equipe editorial da Revista Literatas - Revista de literatura moçambicana e lusófona, colabora no Pavilhão Literário Singrando Horizontes – Academia de Letras do Paraná, ricardoriso.blogspot.com, Jornal Coruja (Cida Sepúlveda). organizou a antologia da nova poesia moçambicana publicada na Revista Zunái (Claudio Daniel), tem poemas publicados na Revista Eutomia e Linguística da Universidade Federal de Pernambuco, e em outros blogs. É membro Correspondente da Academia de letras Teófilo Otoni, Minas Gerais» [em Revista Mallarmargens, por Laura Amaral]

Desta mesma revista, trouxe para aqui um texto dele:


 

Ao Cláudio Daniel

A memória é um inferno provisório onde os nossos dias visitam constantemente. na penumbra de um mar de esquecimento ladeado de flores que brilham ao som do silêncio. e ao entardecer. a neve embarca no murmúrio da água que bate nas pálpebras das pedras na solene viagem do nada. e para além do sal derramado nas margens, não via-se mais nada, pois o cinzento abocanhou a melancolia do céu que outrora fora azul. e difícil é, descortinar este lado invisível da distância que nos assiste. A ilha que nos espera é feita de papel que baloiça livremente nos olhos do mar-mil umas visões espalhadas no útero do passado, uma música embalada de presentes toca incansavelmente na febre do navio-onde é minha casa?
E no colo do futuro procuraremos acender as nossas identidades com o anzol que perdeu-se nas ondas da tempestade.


Da sua página no Facebook, este
Mafalala 
Os sinos da munhuana estão velhos
Tocam nas rugosas horas da esperança murcha
O cansaço das lembranças estampadas nas casas de madeira e zinco
E no chão cimentado por pântanos
As rãs fazem ajuste de contas com a dor das vozes sem voz
 
Amosse Mucavele

 

quinta-feira, outubro 24, 2013

Toda a vida em cada bater de coração

Tenho dois livros entre mãos. Um, é uma colectânea de textos dos participantes da última oficina de escrita A minha vida dá um livro. Nesta fase, os textos estão a ser lidos, relidos, editados, mas respeitando integralmente o espírito e a palavra dos seus autores. Um pouco mais e  passaremos à  paginação. Depois, à  impressão. Não tarda nada, temo-lo na mão. Felizmente, ninguém está com pressa, porque todos querem o melhor resultado possível. Afinal será o primeiro livro do resto das suas vidas.

Esta antologia comove-me por vários motivos. Nela, várias pessoas abrem o coração e partilham episódios das suas vidas. São pessoas que confiaram em mim o suficiente para me confiarem a chave das suas memórias. Além disso, aprenderam, comigo, a confiar em si próprias. Num espaço tão curto, cerca de um mês e meio, deram  o mais difícil dos passos. E agora avançam com alegria e expectativa  para a exposição pública que todo o livro dado ao prelo presume.

Por outro lado, estou de volta do meu próximo livro, o qual também presume vários exercícios, sendo o da memória um deles.

Refazer os caminhos do passado não é completamente possível, nem totalmente impossível. Acima de tudo, é uma viagem onírica com as suas armadilhas, entre as quais a da saudade, sentimento que mal conheço. Mas de repente, dou por mim diante de uma árvore que me recorda um elefante vegetal a perfilar-se diante dos meus sentidos com tão profunda nitidez que é como se estivéssemos, de novo, no mesmo espaço e no mesmo tempo, de tal forma que quase consigo aspirar o seu cheiro denso, sombrio e reconfortante. Então, sim, sinto uma comoção indizível e quedo fulminada de espanto.

Percebo que a saudade é uma alga no fundo de um lago escuro que me enreda  nos seus dedos filiformes e me puxa para si numa envolvência entorpecedora e tão reconfortante.  E percebo também, numa lucidez de afogada, como é fácil adormecermos dentro de sonhos que nunca chegámos realmente a sonhar,

É esse torpor que me desperta, e que me recorda que as minhas saudades são todas feitas de futuro. Regresso como quem se liberta. A respirar o ar da minha gratidão à vida, toda a vida que vivi. E mais ainda, toda a vida que me resta viver.

Que nem sei a quanto monta. Não é isso também tão extraordinário? Não é isso também que nos devia levar a privilegiar cada momento presente, cada bater do coração como se fosse o último?

 

quarta-feira, outubro 23, 2013

Estrela da Tarde

José Carlos Ary dos Santos na voz de Carlos do Carmo
 
 
Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

  José Carlos Ary dos Santos