terça-feira, fevereiro 14, 2017

Carta de amor a quem nos quer mal

E muito feliz dia de São Valentim - que aconteça todos os dias o dia especial de amar.



Queridos inimigos, eu quero amar-vos. Preciso de vos amar mesmo que a maior parte das vezes tal me pareça insensato e impossível. É que vos devo uma parte muito importante da aprendizagem nesta vida. As dores que me causais, ou causásteis, acordaram-me, puseram-me em marcha e levaram-me sempre ao mais assustador dos encontros. Comigo mesma. Com a minha sombra. Com o meu medo. Com a minha insegurança. Com a minha raiva. Sem vós, jamais teria empreendido semelhante viagem. E sempre que ultrapasso algum dos obstáculos que colocais diante de mim, sempre que arranco a mordaça e o véu com que me cobris, sempre que quebro as grilhetas com que me tentastéis aprisionar, em pequenas vitórias que até então julgava «impossíveis» e «intransponíveis», depois do alívio, depois da surpresa e do sobressalto da revolta, depois do descanso e antes de me pôr outra vez a caminho, aprendi que é a vós que devo o preito da minha silenciosa gratidão. Sois, muitas vezes, quase desconhecidos e desconhecidas. Ausentes e enevoados. Eventualmente próximos. Mas não preciso de vos ver o rosto nem necessito de saber o vosso nome. Preciso é de vos amar cada vez mais à medida que me aceito e amo cada vez melhor. É a minha liberdade, essa que se conquista palmo a palmo, passo a passo, que vos devo e assim sendo é como mestres que vos quero reverenciar, reverenciando a minha, a vossa e a nossa história de vida. Prouvera a Deus que tal consiga.

sexta-feira, janeiro 27, 2017

Novo livro - André e o Baile de Máscaras

Para muito breve, em Fevereiro de 2017, a saída de dois novo títulos meus, com chancela da Bertrand Editora:

André e a Esfera Mágica


Quando o circo visita a aldeia, André apaixona-se pela filha do mágico, uma menina enigmática, que lhe oferece um berlinde límpido como uma lágrima. Pouco depois, a família muda-se para Lisboa. André detesta a nova vida. Num dia particularmente infeliz, pega no berlinde e descobre-se num mundo desconhecido onde conhece Grionesa, o Senhor Leandro, com a sua mala mágica, a porta Portália… até que surge uma ameaça terrível… Só André e Grionesa podem salvar aquele mundo, mas o risco é imenso.

André e o Baile de Máscaras



Na escola, André faz uma nova amiga: a enigmática Formiga. Uma noite, ele recupera a Esfera Mágica e, mais uma vez, encontra-se num mundo desconhecido onde todos usam máscaras… animais misteriosos, pássaros gigantes, seres das grandes profundidades. No decorrer de um grande baile, Formiga aparece e salva-o. Mas ela tem uma missão secreta: com a ajuda de André, aceder à imensa Biblioteca, para encontrar a resposta que lhe pode mudar a vida.


As lindíssimas capas são do meu querido Gonçalo Jordão que é, para já, o único português com um Óscar de Hollywood! O pintor integrou a equipa do filme O Grande Hotel Budapeste, que em 2015 arrecadou 4 dourados galardoes, nomeadamente na categoria de Melhor Direcção de Arte. O magnifico loby daquele hotel, tem a sua assinatura. Mas sabem como nos conhecemos e ficámos amigos? Através dos nossos respectivos cães. 



Durante meses, no verão mágico alentejano, encontrávamo-nos junto ao Alqueva, a petiscar no Centro Náutico. Os apelidos nunca vieram à baila. Era a Raquel, o Gonçalo, o Dirk, a Manuela, e os nossos patudos que iam ao banho juntos. Um dia calhou falarmos do que fazíamos. Abreviando, o convite para o pintor mergulhar no mundo mágico do André foi tão espontâneo (bom, foi o nosso editor Eduardo Boavida que fez a ponte...) e a sua reacção foi tão boa, que só podia dar certo. As capas provam-no, traduzindo maravilhosamente toda a magia destes romances por onde entro em turbilhão criativo. Literalmente. 

Já houve quem me dissesse «se não te conhecesse, a ler este livro (André e o Baile de Máscaras) ia pensar que andavas a tomar cogumelos». São o efeitos colaterais da escrita - provocam estados alternativos de consciência :) Já tinha ,muitas saudades.

sexta-feira, janeiro 13, 2017

António Variações - cabeleireiro? não! barbeiro

Cabeleireiro? Não! Barbeiro. Era assim que ele queria ser chamado. O tão nosso António Variações. 
Ando com ele «ao colo», agora, pelos anos 70 e 80. De uma entrevista que lhe fiz, por essa altura, e que retomei na biografia, destaco: 


«É pro menino e pra menina», António na sua barbearia 



«Eu inaugurei o salão Imaviz, o [Baeta em] Alvalade, até que decidi afastar-me daquela escravatura e regressar às origens. Regressar à barbearia. Hoje, até os barbeiros querem ser chamados cabeleireiros. Pois eu não. Estou na barbearia que, para além de ser o meu meio de subsistência, um espaço que eu gosto, é onde vivo rodeado de amigos, os meus clientes de há anos. A vida é uma roda, a gente acaba por voltar ao ponto de partida. Eu dei a volta completa e a única saída, quando se ultrapassa tudo, é começar de novo. 

«Há quem diga, maldosamente, «aí está um tipo que lançou um disco para arranjar clientes lá para o salão». Acontece que eu tinha e tenho clientes mais do que suficientes para manter a barbearia a funcionar com lucro, e viver bem. Acontece que até nem tenho tempo para as pessoas novas que têm aparecido, só por curiosidade, para ver que tal é esse cabeleireiro que também canta. Além disso o tempo cada vez vai ser menos, porque, de facto, a música é a minha meta. A minha vocação. Espero ainda ser tão bem-sucedido na música como fui nos cabelos.» (Gonzaga, 1982:42-3).

quarta-feira, janeiro 04, 2017

Literatura, activismo e passagem de ano

Não foi a passagem de ano mais glamorosa das nossa vidas, mas será inesquecível. Cenário: uma casa minúscula, num monte lindíssimo, nosso lar nos últimos meses, enquanto a 'nossa' continua em obras de fundo. Em Fevereiro devemos mudar. 

Festa de Passagem de ano? Adiada. Quase sem darmos por isso, descobrimo-nos a tutelar uma «matilha» de cães desafortunados, esfaimados, abandonados, que nos entraram pela vida dentro. Dois, há anos, o Timóteo e a Maia. Os restantes, juntaram-se à família ao longo de 2016, aqui no Alentejo. 

O último membro é a Nina. Resgatámo-la de uma Casa dos Horrores, convocámos policia GNR (três viaturas com as luzes a piscarem e um bom aparato), veterinário municipal, tudo. Para trás, três cachorros mortos, de fome. Fechados dentro de uma jaula. O próprio vet municipal disse que, em 25 anos de actividade, nunca vira nada assim... 

Trouxémos ao colo e para nossa casa, uma rafeira alentejana com cerca de três anos de idade e 20 quilos de peso. Metade do que seria adequado e normal ao seu porte, raça, idade. Mais um dia, e não teria sobrevivido. Em menos de quatro dias, porém, a Nina nem parece a mesma. Já foi à primeira consulta e tudo está a evoluir bem com ela. Precisa é de aumentar de peso para poder ser vacinada. Dentro de duas semanas, esperamos. 

Agora, já brinca com os jnuvenis da matilha, Maria Pintor, Angélica e Mascarilha, dorme na sala sempre aquecida, come várias vezes por dia, pequenas porções, abana a cauda com frequência. Estava amarrada com uma corrente com cerca de um metro, agora tem espaço no campo à vontade e anda a descobri-lo, cheiro por cheiro. Textura por textura.

Portanto, a nossa passagem de ano foi com ela e a restante matilha, e um amigo humano que, entretanto, apareceu. 

A outra «festa», na casa velha que está a ficar 'nova', fica para breve. Afinal, o ano é novo todos os dias.

E, alegria das alegrias! o meu próximo romance juvenil está em fase de paginação e a capa vem a caminho. Tenho-me dividido entre estas tarefas e a escrita. Não tem sido fácil, mas tenho conseguido dar boa conta do recado em ambos os campos de actividade.


Nina, 3 anos, 20 quilos, três dias depois do resgate da Casa dos Horrores

A 'matilha' foi crescendo - e eu a acabar o meu próximo  livro juvenil neste cenário

Em breve, e com mais espaço, saudaremos 2017 com as quotas de humanos preenchidas
O resgate do Verão

Este foi atirado pela janela de um carro em andamento, apareceu-nos no jardim e nunca mais nos largou

Vivia num castelo - mas não tinha lar. Chegou-nos á quinta com as almofadas das patinhas descoladas... como podíamos mandà-lo embora?'

uma casa mesmo muito velha, a ficar nova sem deixar de ser velha 

domingo, dezembro 25, 2016

A impagável, inimitável, insuportável Porta Portália

A acabar de rever provas do meu romance juvenil André e a Esfera Mágica, que vai ser relançado em Fevereiro pela Bertrand juntamente com um novo título na mesma colecção, o IV volume, deixo-vos com a inimitável, a impagável, a insuportável Porta Portália. É figura recorrente nas aventuras do André. Até a mim me causa perplexidade.




A PORTA PORTÁLIA 

               O ruído de uma porta a bater fê-lo olhar para o lado. Zás! Plás! E ali estava uma porta. Uma porta de carvalho maciço, com maçaneta de rodar em latão brilhante, fechadura sem chave, caixilho, gonzos. Tudo o que uma porta precisa para existir enquanto tal. Só que, ao contrário de todas as outras portas que André conhecera, esta não tinha paredes, nem teto a enquadrá-la.             «Que esquisito», pensou ele, dando a volta para ver o que havia do outro lado.
             Não havia nada. Quer dizer, havia tudo o que lá estava antes. Campo de ervinhas curtas e verdes, semeado de malmequeres brancos.
             — Que raio… — murmurou ele, espantado. — Uma porta que não dá para lado nenhum. Uma porta desnecessária. Uma porta completamente inútil.
             — Alto aí e para o baile! — A voz que disse isto parecia vir da porta. — Inútil porquê, se faz favor? E o que faz aqui um rapaz? Serve para quê, um miúdo neste campo? Não estou a ver utilidade na presença dele. Ai, não estou, não.
             André voltou a andar à roda da porta para tentar perceber de onde vinha o som. A voz era rouca, arranhava um bocadinho os erres, e acabava as frases com um silvo ligeiro. Dava a sensação que saía do buraco da fechadura.
             — Quem está aí? Está alguém escondido atrás desta porta? — perguntou o rapaz, convencido de que alguém estava a troçar dele. Alguém muito rápido, que passava de um para o outro lado, sempre que ele dava a volta para perceber o que significava aquilo.
             — Os seres humanos estão verdadeiramente a ficar mais estúpidos, de geração para geração — resmungou a voz. — Olha bem para mim. O que te parece? — A porta abriu-se. Não havia ninguém de um e do outro lado, a não ser, evidentemente, André. E a própria porta.
             — Tu falas?
             — Não. É aquela árvore ali que gosta de mandar bocas.
             — Qual árvore? — perguntou André olhando em volta, para o mesmo campo onde nada crescia, a não ser ervas e malmequeres.
             — Exato. Então… que te parece?
             — Uma porta que fala?
             — Olha que grande coisa. Por que raios e coriscos os humanos acham que só eles têm voz? Ah… Bons velhos tempos… — A voz da porta era irónica, como se estivesse a fazer um esforço enorme para não começar a rir às gargalhadas. — A propósito, o meu nome é Portália. Sou a Porta Portália. E tu?
             — André. O que está aqui a fazer?
             — O que faço sempre. Abro-me e fecho-me, permitindo, deste modo, que as criaturas possam entrar e sair. E tu, que fazes aqui?
             — Não sei bem, mas por enquanto nada. Num momento estava no meu quarto a olhar para dentro de um berlinde, e no outro estava aqui.
             — O costume. Não sabem o que andam a fazer na vida. Tipicamente humano. Bom, se isso te ajuda… queres entrar?
             — Para onde?
             — Para dentro. A não ser que prefiras sair.
             — Bolas! — resmungou o rapaz. — Sair para onde?
             — Para fora, evidentemente. Pronto, não insisto. Tenho mais que fazer. Olha. Vê se cresces. Cresce e aparece, ’tá bem? Pode ser que nessa altura possamos, realmente, ter uma conversa interessante. Eu e tu. Adeusinho, jovem André.
             E a porta desapareceu. 




 [André e a Esfera Mágica, Bertrand, Lisboa, em data a anunciar]

sexta-feira, dezembro 09, 2016

O anjo da guarda de Variações

O António Variações teve mesmo um grande 'anjo da guarda'. A rever, acrescentar, editar a sua biografia, que vai ser relançada para o ano com a chancela da Bertrand, não resisto em partilhar este pequeno trecho sobre os seus tempos de tropa, por Angola.



Em Luanda, Delfim era taxista e vivia no Bairro da Cuca, perto do cinema Aviz. Casara. Foi então que recebeu uma carta com as seguintes notícias: António, seu irmão, perguntava-lhe pela sua saúde e dava-lhe novas da sua vida. Estava em Angola, no Depósito de Adidos, em trânsito para um qualquer teatro de guerra. Queria saber se e quando poderiam encontrar-se, antes de partir de novo:
– Eu não via o António há 14 anos e notei-lhe uma diferença enorme. Ele tinha uma personalidade forte, era muito senhor do seu nariz. Tinha crescido. Though guy – diz Delfim, textualmente, evocando o reencontro com o irmão que deixara menino em Portugal.
Acontece que Delfim era um homem mais poderoso do que se imaginaria. Ele diz, simplesmente, que “tinha várias influências” e que ele e o comandante, o senhor major Camisão, se davam “como irmãos”. O major tinha sido presidente da Câmara em Sá da Bandeira, onde estivera ligado ao Angola Sport Benfica do Lubango, equipa basquetebol, no início dos anos 60. Delfim, que à época andava pelo mato, chegou a fazer mais de uma centena de quilómetros para assistir aos treinos.
-- Agora, ambos em Luanda, ele no Depósito de Adidos, víamo-nos muitas vezes. Pedi para o chamarem e expus-lhe a situação.
Contado assim, parece de uma simplicidade imaculada. Dois amigos a olharem para o mapa da então província ultramarina portuguesa, e, de comum acordo, a decidirem destinos traçando mudanças no papel. Uma troca de nomes, em suma. Na guia de marcha, o nome do quartel e localidade a que o soldado António Joaquim Ribeiro estava adido, foi rasurado.
– O meu irmão estava para ir para Cabinda, onde a guerra estava bem acesa. E nós pusemo-lo em Sá da Bandeira, [actual Lubango], na Província da Huíla.
Meses mais tarde, um telegrama de António, ainda em Sá da Bandeira, dirigido ao seu irmão Delfim, dava conta de nova transferência iminente, para uma das zonas mais problemáticas da guerra colonial, Quitexe, no Huíge. Este foi imediatamente procurar o seu grande amigo e major do Depósito dos Adidos para lhe contar que “o rapaz agora vai para uma das zonas mais perigosas!”
– Vai daí, diz-me o comandante, “onde queres que o ponha agora?” Ah, digo eu, pode ser lá para o Sul. E o meu irmão foi colocado em Vila Roçadas (actual Xangongo). Depois foi para Pereira d’Eça (actual Ondjiva), no Cunene, onde não havia guerra nenhuma. E a seguir em Caconda, onde até formou um conjunto militar – conta Delfim Ribeiro. (Manuela Gonzaga, biografia de António Variações (em progresso), baseada em António Variações Entre Braga e Nova Iorque, Ancora, Lisboa, 2006).


sexta-feira, dezembro 02, 2016

Efemérides - há um ano eu era (pré)candidata às Presidenciais

Durante quase dois anos -- a entrega à política activa foi muito grande -- não tive espaço mental para a literatura. Por fim, dei um pequeno contributo muito pessoal às Causas que me norteiam. O PAN precisava de um deputado (pelo menos!!) no Parlamento. Só para começar. Mas entretanto, era necessário romper as barreiras mentais que reduziam um partido de grandes causas a uma associação de «tontos e tontas» ao serviço de «cãezinhos e gatinhos». Ainda por cima, com uma dolorosa rotura interna recente. Basicamente, com uma imprensa muito distraída, era assim que nos viam. O trabalho, imenso!, feito nas fileiras e nas rectaguardas, quase sem meios, era desconhecido. Logo desvalorizado e reduzido a estereótipos. 

Todos, no ainda tão pequeno partido, tivemos que dar o máximo em tempo, modos, disponibilidades. E demos. A prova está aí - no Parlamento há uma Voz como nunca se tinha ouvido. Agora, longe e perto, recordo com orgulho, confesso, este pequeno passo, tão gigantesco para as minhas possibilidades. Aterrador, sim. Mas estimulante. Recordo também com uma imensa gratidão o que vi, ouvi, conheci e aprendi. E as pessoas maravilhosas que estiveram connosco, apoiando-me, apoiando-nos com entusiasmo. 

Tudo começou, publicamente, em Agosto de 2015 e terminou a 21 de Dezembro do mesmo ano. Com muitas viagens pelo país fora. Meios reduzidíssimos. Empenho total. E muita alegria. O que me moveu e move?Dar Voz a quem não a tem. Olhar a economia com outros olhos, transformando-a numa ferramenta ao serviço das pessoas, de modo a que todos juntos possamos cortar o ciclo de escravatura económica para o qual estamos a ser arrastados. Todos, sem dó nem piedade, sem fronteiras nem barreiras. Não tenhamos ilusões.  



Hoje, um ano depois desta entrevista, onde abordo as razões desta minha candidatura apoiada pelo PAN, Pessoas, Animais, Natureza,  a minha vida é novamente tão outra. Dois livros a caminho, outro na cabeça à espera de vez para ser escrito, e mais em fila de espera. E Causas, muitas, e sempre. Se todos fizermos a nossa pequeníssima parte, o mundo muda e de que maneira.

Grata, sempre. Muito.