sexta-feira, janeiro 13, 2017

António Variações - cabeleireiro? não! barbeiro

Cabeleireiro? Não! Barbeiro. Era assim que ele queria ser chamado. O tão nosso António Variações. 
Ando com ele «ao colo», agora, pelos anos 70 e 80. De uma entrevista que lhe fiz, por essa altura, e que retomei na biografia, destaco: 


«É pro menino e pra menina», António na sua barbearia 



«Eu inaugurei o salão Imaviz, o [Baeta em] Alvalade, até que decidi afastar-me daquela escravatura e regressar às origens. Regressar à barbearia. Hoje, até os barbeiros querem ser chamados cabeleireiros. Pois eu não. Estou na barbearia que, para além de ser o meu meio de subsistência, um espaço que eu gosto, é onde vivo rodeado de amigos, os meus clientes de há anos. A vida é uma roda, a gente acaba por voltar ao ponto de partida. Eu dei a volta completa e a única saída, quando se ultrapassa tudo, é começar de novo. 

«Há quem diga, maldosamente, «aí está um tipo que lançou um disco para arranjar clientes lá para o salão». Acontece que eu tinha e tenho clientes mais do que suficientes para manter a barbearia a funcionar com lucro, e viver bem. Acontece que até nem tenho tempo para as pessoas novas que têm aparecido, só por curiosidade, para ver que tal é esse cabeleireiro que também canta. Além disso o tempo cada vez vai ser menos, porque, de facto, a música é a minha meta. A minha vocação. Espero ainda ser tão bem-sucedido na música como fui nos cabelos.» (Gonzaga, 1982:42-3).

quarta-feira, janeiro 04, 2017

Literatura, activismo e passagem de ano

Não foi a passagem de ano mais glamorosa das nossa vidas, mas será inesquecível. Cenário: uma casa minúscula, num monte lindíssimo, nosso lar nos últimos meses, enquanto a 'nossa' continua em obras de fundo. Em Fevereiro devemos mudar. 

Festa de Passagem de ano? Adiada. Quase sem darmos por isso, descobrimo-nos a tutelar uma «matilha» de cães desafortunados, esfaimados, abandonados, que nos entraram pela vida dentro. Dois, há anos, o Timóteo e a Maia. Os restantes, juntaram-se à família ao longo de 2016, aqui no Alentejo. 

O último membro é a Nina. Resgatámo-la de uma Casa dos Horrores, convocámos policia GNR (três viaturas com as luzes a piscarem e um bom aparato), veterinário municipal, tudo. Para trás, três cachorros mortos, de fome. Fechados dentro de uma jaula. O próprio vet municipal disse que, em 25 anos de actividade, nunca vira nada assim... 

Trouxémos ao colo e para nossa casa, uma rafeira alentejana com cerca de três anos de idade e 20 quilos de peso. Metade do que seria adequado e normal ao seu porte, raça, idade. Mais um dia, e não teria sobrevivido. Em menos de quatro dias, porém, a Nina nem parece a mesma. Já foi à primeira consulta e tudo está a evoluir bem com ela. Precisa é de aumentar de peso para poder ser vacinada. Dentro de duas semanas, esperamos. 

Agora, já brinca com os jnuvenis da matilha, Maria Pintor, Angélica e Mascarilha, dorme na sala sempre aquecida, come várias vezes por dia, pequenas porções, abana a cauda com frequência. Estava amarrada com uma corrente com cerca de um metro, agora tem espaço no campo à vontade e anda a descobri-lo, cheiro por cheiro. Textura por textura.

Portanto, a nossa passagem de ano foi com ela e a restante matilha, e um amigo humano que, entretanto, apareceu. 

A outra «festa», na casa velha que está a ficar 'nova', fica para breve. Afinal, o ano é novo todos os dias.

E, alegria das alegrias! o meu próximo romance juvenil está em fase de paginação e a capa vem a caminho. Tenho-me dividido entre estas tarefas e a escrita. Não tem sido fácil, mas tenho conseguido dar boa conta do recado em ambos os campos de actividade.


Nina, 3 anos, 20 quilos, três dias depois do resgate da Casa dos Horrores

A 'matilha' foi crescendo - e eu a acabar o meu próximo  livro juvenil neste cenário

Em breve, e com mais espaço, saudaremos 2017 com as quotas de humanos preenchidas
O resgate do Verão

Este foi atirado pela janela de um carro em andamento, apareceu-nos no jardim e nunca mais nos largou

Vivia num castelo - mas não tinha lar. Chegou-nos á quinta com as almofadas das patinhas descoladas... como podíamos mandà-lo embora?'

uma casa mesmo muito velha, a ficar nova sem deixar de ser velha 

domingo, dezembro 25, 2016

A impagável, inimitável, insuportável Porta Portália

A acabar de rever provas do meu romance juvenil André e a Esfera Mágica, que vai ser relançado em Fevereiro pela Bertrand juntamente com um novo título na mesma colecção, o IV volume, deixo-vos com a inimitável, a impagável, a insuportável Porta Portália. É figura recorrente nas aventuras do André. Até a mim me causa perplexidade.




A PORTA PORTÁLIA 

               O ruído de uma porta a bater fê-lo olhar para o lado. Zás! Plás! E ali estava uma porta. Uma porta de carvalho maciço, com maçaneta de rodar em latão brilhante, fechadura sem chave, caixilho, gonzos. Tudo o que uma porta precisa para existir enquanto tal. Só que, ao contrário de todas as outras portas que André conhecera, esta não tinha paredes, nem teto a enquadrá-la.             «Que esquisito», pensou ele, dando a volta para ver o que havia do outro lado.
             Não havia nada. Quer dizer, havia tudo o que lá estava antes. Campo de ervinhas curtas e verdes, semeado de malmequeres brancos.
             — Que raio… — murmurou ele, espantado. — Uma porta que não dá para lado nenhum. Uma porta desnecessária. Uma porta completamente inútil.
             — Alto aí e para o baile! — A voz que disse isto parecia vir da porta. — Inútil porquê, se faz favor? E o que faz aqui um rapaz? Serve para quê, um miúdo neste campo? Não estou a ver utilidade na presença dele. Ai, não estou, não.
             André voltou a andar à roda da porta para tentar perceber de onde vinha o som. A voz era rouca, arranhava um bocadinho os erres, e acabava as frases com um silvo ligeiro. Dava a sensação que saía do buraco da fechadura.
             — Quem está aí? Está alguém escondido atrás desta porta? — perguntou o rapaz, convencido de que alguém estava a troçar dele. Alguém muito rápido, que passava de um para o outro lado, sempre que ele dava a volta para perceber o que significava aquilo.
             — Os seres humanos estão verdadeiramente a ficar mais estúpidos, de geração para geração — resmungou a voz. — Olha bem para mim. O que te parece? — A porta abriu-se. Não havia ninguém de um e do outro lado, a não ser, evidentemente, André. E a própria porta.
             — Tu falas?
             — Não. É aquela árvore ali que gosta de mandar bocas.
             — Qual árvore? — perguntou André olhando em volta, para o mesmo campo onde nada crescia, a não ser ervas e malmequeres.
             — Exato. Então… que te parece?
             — Uma porta que fala?
             — Olha que grande coisa. Por que raios e coriscos os humanos acham que só eles têm voz? Ah… Bons velhos tempos… — A voz da porta era irónica, como se estivesse a fazer um esforço enorme para não começar a rir às gargalhadas. — A propósito, o meu nome é Portália. Sou a Porta Portália. E tu?
             — André. O que está aqui a fazer?
             — O que faço sempre. Abro-me e fecho-me, permitindo, deste modo, que as criaturas possam entrar e sair. E tu, que fazes aqui?
             — Não sei bem, mas por enquanto nada. Num momento estava no meu quarto a olhar para dentro de um berlinde, e no outro estava aqui.
             — O costume. Não sabem o que andam a fazer na vida. Tipicamente humano. Bom, se isso te ajuda… queres entrar?
             — Para onde?
             — Para dentro. A não ser que prefiras sair.
             — Bolas! — resmungou o rapaz. — Sair para onde?
             — Para fora, evidentemente. Pronto, não insisto. Tenho mais que fazer. Olha. Vê se cresces. Cresce e aparece, ’tá bem? Pode ser que nessa altura possamos, realmente, ter uma conversa interessante. Eu e tu. Adeusinho, jovem André.
             E a porta desapareceu. 




 [André e a Esfera Mágica, Bertrand, Lisboa, em data a anunciar]

sexta-feira, dezembro 09, 2016

O anjo da guarda de Variações

O António Variações teve mesmo um grande 'anjo da guarda'. A rever, acrescentar, editar a sua biografia, que vai ser relançada para o ano com a chancela da Bertrand, não resisto em partilhar este pequeno trecho sobre os seus tempos de tropa, por Angola.



Em Luanda, Delfim era taxista e vivia no Bairro da Cuca, perto do cinema Aviz. Casara. Foi então que recebeu uma carta com as seguintes notícias: António, seu irmão, perguntava-lhe pela sua saúde e dava-lhe novas da sua vida. Estava em Angola, no Depósito de Adidos, em trânsito para um qualquer teatro de guerra. Queria saber se e quando poderiam encontrar-se, antes de partir de novo:
– Eu não via o António há 14 anos e notei-lhe uma diferença enorme. Ele tinha uma personalidade forte, era muito senhor do seu nariz. Tinha crescido. Though guy – diz Delfim, textualmente, evocando o reencontro com o irmão que deixara menino em Portugal.
Acontece que Delfim era um homem mais poderoso do que se imaginaria. Ele diz, simplesmente, que “tinha várias influências” e que ele e o comandante, o senhor major Camisão, se davam “como irmãos”. O major tinha sido presidente da Câmara em Sá da Bandeira, onde estivera ligado ao Angola Sport Benfica do Lubango, equipa basquetebol, no início dos anos 60. Delfim, que à época andava pelo mato, chegou a fazer mais de uma centena de quilómetros para assistir aos treinos.
-- Agora, ambos em Luanda, ele no Depósito de Adidos, víamo-nos muitas vezes. Pedi para o chamarem e expus-lhe a situação.
Contado assim, parece de uma simplicidade imaculada. Dois amigos a olharem para o mapa da então província ultramarina portuguesa, e, de comum acordo, a decidirem destinos traçando mudanças no papel. Uma troca de nomes, em suma. Na guia de marcha, o nome do quartel e localidade a que o soldado António Joaquim Ribeiro estava adido, foi rasurado.
– O meu irmão estava para ir para Cabinda, onde a guerra estava bem acesa. E nós pusemo-lo em Sá da Bandeira, [actual Lubango], na Província da Huíla.
Meses mais tarde, um telegrama de António, ainda em Sá da Bandeira, dirigido ao seu irmão Delfim, dava conta de nova transferência iminente, para uma das zonas mais problemáticas da guerra colonial, Quitexe, no Huíge. Este foi imediatamente procurar o seu grande amigo e major do Depósito dos Adidos para lhe contar que “o rapaz agora vai para uma das zonas mais perigosas!”
– Vai daí, diz-me o comandante, “onde queres que o ponha agora?” Ah, digo eu, pode ser lá para o Sul. E o meu irmão foi colocado em Vila Roçadas (actual Xangongo). Depois foi para Pereira d’Eça (actual Ondjiva), no Cunene, onde não havia guerra nenhuma. E a seguir em Caconda, onde até formou um conjunto militar – conta Delfim Ribeiro. (Manuela Gonzaga, biografia de António Variações (em progresso), baseada em António Variações Entre Braga e Nova Iorque, Ancora, Lisboa, 2006).


sexta-feira, dezembro 02, 2016

Efemérides - há um ano eu era (pré)candidata às Presidenciais

Durante quase dois anos -- a entrega à política activa foi muito grande -- não tive espaço mental para a literatura. Por fim, dei um pequeno contributo muito pessoal às Causas que me norteiam. O PAN precisava de um deputado (pelo menos!!) no Parlamento. Só para começar. Mas entretanto, era necessário romper as barreiras mentais que reduziam um partido de grandes causas a uma associação de «tontos e tontas» ao serviço de «cãezinhos e gatinhos». Ainda por cima, com uma dolorosa rotura interna recente. Basicamente, com uma imprensa muito distraída, era assim que nos viam. O trabalho, imenso!, feito nas fileiras e nas rectaguardas, quase sem meios, era desconhecido. Logo desvalorizado e reduzido a estereótipos. 

Todos, no ainda tão pequeno partido, tivemos que dar o máximo em tempo, modos, disponibilidades. E demos. A prova está aí - no Parlamento há uma Voz como nunca se tinha ouvido. Agora, longe e perto, recordo com orgulho, confesso, este pequeno passo, tão gigantesco para as minhas possibilidades. Aterrador, sim. Mas estimulante. Recordo também com uma imensa gratidão o que vi, ouvi, conheci e aprendi. E as pessoas maravilhosas que estiveram connosco, apoiando-me, apoiando-nos com entusiasmo. 

Tudo começou, publicamente, em Agosto de 2015 e terminou a 21 de Dezembro do mesmo ano. Com muitas viagens pelo país fora. Meios reduzidíssimos. Empenho total. E muita alegria. O que me moveu e move?Dar Voz a quem não a tem. Olhar a economia com outros olhos, transformando-a numa ferramenta ao serviço das pessoas, de modo a que todos juntos possamos cortar o ciclo de escravatura económica para o qual estamos a ser arrastados. Todos, sem dó nem piedade, sem fronteiras nem barreiras. Não tenhamos ilusões.  



Hoje, um ano depois desta entrevista, onde abordo as razões desta minha candidatura apoiada pelo PAN, Pessoas, Animais, Natureza,  a minha vida é novamente tão outra. Dois livros a caminho, outro na cabeça à espera de vez para ser escrito, e mais em fila de espera. E Causas, muitas, e sempre. Se todos fizermos a nossa pequeníssima parte, o mundo muda e de que maneira.

Grata, sempre. Muito. 



segunda-feira, novembro 28, 2016

De volta à biografia de António Variações

Está a saber-me tão bem reescrever, acrescentar e preparar a biografia que a editora Bertrand vai relançar em 2017. Agendadas, novas entrevistas com pessoas que também o conheceram e que, na altura da primeira biografia, eu não tive acesso ou conhecimento. Cito: 
«António Variações: “Venho de uma altura em que me chamavam todos os nomes, as pessoas abriam alas para me verem passar e, ou achavam piada, ou massacravam-me com comentários. Sentia-me perfeitamente só, ao ponto de não ter amigos porque se recusavam a estar ao pé de mim. No entanto nunca abdiquei de ser o que sou, e só comecei a ser recompensado por essa atitude quando, há sete ou oito anos atrás houve pessoas que vieram ter comigo e me disseram ter sido eu o ponto de partida para uma estética que eles gostavam mas não eram capazes de assumir. Foi depois de abrir o cabeleireiro no Imaviz, o primeiro misto que existiu em Portugal. Mas é bom, agora, saber que há cada vez mais pessoas a aceitarem-se a si próprias sem estarem condicionadas por fachadas ou puritanismos. […] Há quinze anos que faço virar os púdicos pescoços portugueses. Divido as pessoas, que abriam alas quando eu passava, com a minha maneira de estar na vida. Hoje passo despercebido.” (Monteiro, 1983:36). (em Manuela Gonzaga, António Variações, Entre Braga e Nova Iorque, Lisboa, Ancora, 2006). 
Foto Teresa Couto Pinto 

sábado, novembro 19, 2016

Farewell sweet Poeta

O Poeta chegou a casa. O Poeta está em casa. Tem uma família humana maravilhosa, uma praia inteira para brincar, gaivotas atrás de quem corre em vão, cascas de mexilhões que atira ao ar não sei porquê, e dúzias de outros cães tão felizes quanto ele, que correm pela areia gelada das manhãs do outono escocês com a alegria de quem traz o sol sempre consigo. O meu colo vazio recorda-se do peso dele, da maciez do seu corpo de infante, da inteligência feliz do seu olhar. E de tanta coisa mais. E voltamos a Calais, onde estivemos há quase três semanas, estupefactos de frustração, por não podermos embarcar com ele. As vacinas não tinham ainda cumprido o prazo todo, e o passaporte meio destruído pelos dentes de piranha dos cachorros da sua ninhada, na madrugada da partida, alteraram as regras do jogo.

Mas conseguimos, agora estamos de volta, e de algum modo ele está presente, aqui no nosso quarto de passagem, em Calais. embora tenha ficado lá longe, em PortoBello. Quase três semanas, milhares e milhares de quilómetros uma viagem cheia de imprevistos a sensação é de «Missão Cumprida». Missão quase impossível, que resultou em bem. Querido cachorrinho. Querido bebé que (quase) vimos nascer e para quem conseguimos um futuro.
Farewell sweet Poeta you've reached your realm

Já me perguntaram se ia escrever um livro sobre esta viagem. Já me perguntaram se ia escrever um livro sobre os meus, nossos, cães. E gatos. Nunca considerei essa hipótese, para dizer a verdade. Não são histórias excepcionais. São histórias, todas elas, de amor e de resgate como milhares de outras. Nesta fase da minha vida, tudo começou há seis anos e meio com o Timóteo: 4,5 anos de cão grande, aterrorizado e perdido a subir a calçada do Combro, Lisboa, num verão escaldante.

Hipóteses? Chamar a Câmara era condená-lo à morte certa num canil tristíssimo. Ele era demasiadamente grande e adulto para apaixonar por impulso as pessoas que, por impulso, compram ou aceitam cães. Saltando por cima de muitas peripécias, entre as quais um jipe destruído (por dentro) quando ficou uns vinte minutos lá dentro, numa noite em que, de férias em Aljezur, fomos a um café a alguns quilómetros, e ficámos um bocado a pasmar diante da televisão; ultrapassando o nosso pânico inicial quando percebemos que ele nunca, mas nunca, poderia ficar sozinho porque esse é o único trauma que não ultrapassou, tornámo-nos todos estupidamente felizes juntos.

Mais tarde, viemos a saber que era um Pirinéus. O pelo cresceu, glorioso, e aspirar, limpar a casa, tornou-se uma tarefa mais do que diária. Pensámos em iniciar uma pequena industria caseira de tapetes com os tufos que emergiam de todo o lado, mas desistimos.

Este verão, somaram-se mais animais à matilha, que entretanto e desde há dois anos incluíra uma rafeirota velhinha, meia surda ou demasiado teimosa para ligar ao que dizemos, e um pouco cega, ou demasiado obstinada para olhar para onde não quer. A Maia dos Anjos. Onze anos de cadelinha toda torta, magra de meter dó, e com todos os tiques de quem deu à luz em risco, permanente de vida própria e dos seus bebés. Não estava esterilizada... e escondida os brinquedos e a comida sob o colchão do seu cestinho.
Finalmente a salvo

Pois estávamos muito bem na nossa tranquilidade, com estes dois seres maravilhosos que nos deram e dão tanto que não cabe aqui contabilizar, quando uma espécie de loba branca, com um pedaço de corrente pendurada do pescoço passou a aparecer de manhã no jardim da casa que alugámos numa aldeia alentejana perto do Alqueva. Alimentámo-la - estava pele e osso. Mas também estava grávida, como viemos a descobrir quando desapareceu um ou dois dias e fomos visitá-la na casa onde ficara ao abandono, com um balde de ração que nem os ratos cobiçavam e um pote de água erverdeada para lhe matar a sede. Aliás, tinho dado à  luz cinco cachorrinhos minusculos, um morreu quase de imediato, para os quais, no calor de um Agosto inclemente, ela raspara uma parede para os proteger das temperaturas insustentáveis, Um banco de ferro que queimava só de lhe tocarmos, servia de abrigo...

A primeira ida ao veterinário

Na quinta, com o burro Tonico que é muito territorial
Numa noite de chuva (Alentejo) a minúscula casa onde estamos a viver provisoriamente abrigou todos


On the road. Holanda, um desvio de coração 

Num restaurante perto de Bordéus

A primeira vez que se viu ao espelho, num hotel em Calais (Ibis)

Durante a viagem começou a sobrar cão e a faltar colo... uma almofada resolveu o assunto

Portobello Edinburgo

Meadows, Edinburgo
Veio connosco quando saímos daquela casa para outra. Aliás, saltou para dentro do carro, num desespero a que não fomos indiferentes. Mas depois... que fazer com tantos cães? Ainda por cima, um outro veio ter connosco à quinta onde estamos. Enorme, mas cachorro (oito meses) focinho de Rafeiro Alentejano, corpo de podengo e galgo, uma grande misturada. O Mascarilha, de patas desfeitas... mal conseguia andar. O fogo de artificio enlouquecera-o de medo... acontece todos os anos e não se percebe porque não se hão-de mudar os festejos...

Bom. O Poeta. O mais contemplativo de toda a ninhada. O maior deles todos (não o mais pesado porém). Já andavam todos a brincar cá fora e ele ainda se mantinha teimosamente dentro do buraco que a mãe lhes arranjou, descartando o belo espaço sob as árvores, com uma mesa, panos a servir de toldo, etc., onde os colocámos quando os trouxemos para a quinta. O primeiro a correr para dentro do abrigo ao menor sinal de «perigo» que não existe ali. Já todos brincavam de um lado para o outro, e o Poeta deixava-se estar debaixo da amendoeira no nosso alpendre a seguir com atenção o movimento das folhas sob a brisa quase imperceptível.

Um lar? Foi fácil. Família, mesmo. Conheceram-no no Verão e quiseram-no. A ele ou a outro, tanto fazia. Mas um Poeta... é a companhia ideal para um bebé que vai nascer. Em Porbello, Edinburgo, diante do mar. Foi fácil, para nós? Não. Foi uma missão quase impossível. Mas cumpriu-se.  Teve tantas peripécias que talvez ainda volte à narrativa que acaba, agora à distância, por ser hilariante.

E a transição entre os braços de uns para o colo de outros está a ser tão suave e tão imperceptível, que não vai sentir a nossa falta. Ou quase nada. Ou durante quase tempo nenhum. Aqui, os dias começam com brincadeiras junto do mar. As pessoas adoram cães. Os cães podem entrar em quase todo o lado. O espaço é muito e há sorrisos na cara de quase toda a gente. Amanhã vamos voltar, e vamos felizes. Vai ser muito bom reencontrar o resto da matilha.

Além disso, o frio no Alentejo nunca é tão frio como nesta Europa do Norte.