sábado, setembro 17, 2016

Malkut a arder, ou o Colibri na floresta em chamas

Dedicado a todas as pessoas grandes, que parecem muito pequeninas, mas que fazem tudo o que podem sem esperar ajuda, recompensa, incentivo para tornar a Terra um pouco melhor. Dedicado aos activistas sociais, ambientalistas e animalistas de todo o mundo. Aos defensores do Reino, este, que indiferentes à troça, ao desânimo, e a todos os fantasmas que rondam à nossa volta para se alimentarem dos nossos medos e fraquezas, persistem em fazer o que é «preciso». 


Era uma vez uma floresta a arder. E era uma vez um colibri que começou a ir e a voltar do rio mais próximo com o minúsculo bico cheio de gotas de água que vertia sobre a árvore mais próxima da orla do incêndio, mesmo sob risco de ser envolvido pelas chamas. Os outros animais olhavam. Assombrados de terror. Estáticos. 
Um deles, talvez o leão, disse assim: 'Colibri és tão tolo. Julgas que as tuas gotinhas de água vão dominar o fogo incontrolável? Ainda te queimas, mazé.' 
O Colibri, sempre de um lado para o outro, respondeu assim: 'Leão, sei perfeitamente que as minhas gotinhas de água não adiantam nada. Mas estou a fazer a minha parte que é tudo o que consigo fazer. Mas se todos fizessem o mesmo, do mais majestoso, ao mais insignificante de nós, este fogo incontrolável como está, poderia ser dominado'.

(baseado num conto budista)

sexta-feira, setembro 16, 2016

As crianças vêm isto?

Cruzando o céu cinzento ao morrer do dia, gaivotas parecem aviões e aviões parecem gaivotas e no ar pesado de chuva anunciada deslizam cardumes de sardinhas por entre quilhas e mastros de navios que emergem na tarde assombrada de naufrágios. As crianças vêm isto?

A história das duas irmãs

andam sempre de mãos dadas uma traz a outra no regaço beijam-se na boca são irmãs sem uma não existiria a outra nasceram com a invenção do tempo móvel chamamos-lhe vida e chamamos-lhe morte 

terça-feira, agosto 30, 2016

O novo livro da colecção O Mundo de André


Terminei ontem o meu novo livro. É um romance, o 4º, da colecção O Mundo de André. Destinada a um público juvenil, com o chancela do Plano Mais de Leitura, a colecção está presente em numerosas escolas do país, de Norte a Sul. Durante alguns anos, andei a falar com e para uma população estudantil de idades que variavam entre os 10 e os 15 anos. Foi extremamente estimulante.

Depois, interrompi. Outros projectos, outros livros. Em boa hora, a minha editora Bertrand ficou na posse dos três primeiros títulos - André e a Esfera Mágica; André e o Lago do Tempo; André e o Segredo dos Labirintos, que irá reeditar em simultaneo com o lançamento da nova aventura cujo título em breve se saberá.





Para quando? No início de 2017. Em breve, mais detalhes sobre este romance trepidante, assustador, comovente e inesperado. Até para mim própria. Houve alturas que pensei (e penso sempre isto nos livros do «André») e agora? Como é que ele se safa desta? Uma noite de sono e de sonhos trouxe-me sempre a solução.

Um extracto:
 [...]
—Tenho máscaras que me permitem passar pela mais ínfima das minhas servas. Pelo ajudante do ajudante dos jardins. Sei tudo o que se passa, em todo o Palácio e o Palácio é um reino de dimensões que não imaginas. Corro riscos. Uma vez, um guarda ia espancar-me, na presença de outros. Tive de deixar cair a máscara da serva para reaparecer diante deles em majestade. Caíram fulminados de terror, foi tão divertido. 
—Mandou-o prender?
—Não. Isso quebraria a cadeia de autoridade e submissão. Ele estava a cumprir o seu papel, apesar de não ter qualquer motivo – riu, como se recordasse um episódio agradável. — Apenas queria bater em alguém, e a serva, eu, era um bom alvo. 
—Mas podia dar-lhe uma lição para ele não voltar a fazer mesmo. 
—Não sabes nada sobre o Poder. Não se trata de justiça ou injustiça. Trata-se do equilíbrio, sempre incerto, entre os que mandam e os que obedecem. Se começamos a castigar os que mandam por exercerem o poder contra os que obedecem, é o caos. A crueldade é um efeito secundário.

—Sabe tudo o que se passa, e não corrige injustiças?
— Oh, o conhecimento que obtenho serve objectivos muito maiores!! Este episódio, muito antigo, instalou a dúvida em todos os súbditos – como imaginas, a história correu o Palácio. Desde então, nunca sabem se sou eu por detrás daquela touca, debaixo daquelas roupas, ou escondida naquela cara. Mesmo quando estão sozinhos, alguns, muitos, dos meus súbditos, têm sempre medo. Dos mais humildes aos mais poderosos. Ah, André… as máscaras são maravilhosas. Permitem o poder absoluto. Sabes em que assenta?
— No medo?

[...]




terça-feira, agosto 09, 2016

Let's fall in love

Apaixonemo-nos. 


Por ideias, por ideais, por causas, por pessoas. Nas mais variadas conjugações do amor e da paixão, sem freio, sem cálculo, sem precisarmos de ler os rótulos. Andemos na vida de peito aberto aos ventos de viver. Sejamos marinheiros, mesmo que nos espere o naufrágio. Pior do que naufragar vivendo, é não viver de todo. De que serve a vida se a guardarmos às escuras, no canto do medo como se o medo fosse um certificado de aforro sem garantia alguma? Navegar é preciso, mas sem olvidar toda a experiência que nos permite passar para o outro nível. 


terça-feira, julho 26, 2016

A nossa tão querida Ana Maria Metello Casimiro

Ela está presente nas memórias dos nossos dias de ontem. Em Tete, Moçambique, que foi quando nos conhecemos. Maravilhosa Ana Maria Metello Casimiro. Um Sol! Quando nos reencontrámos, por cá, a amizade estava inteira, embora a vida não tivesse permitido aquele retomar mais constante de laços, pelas distâncias.


Voltámos a encontar-nos numa daquelas celebrações a que quase nunca posso ir (neste caso o almoço anual dos Amigos de Tete), e foi mágico, por ela, por nós todos, por tudo. Muitos não se viam desde África. Mas, décadas depois, foi como se não se tivesse passado quase tempo nenhum. Na nossa mesa, adolescentes de 50 e 60 anos conversaram e riram e trocaram informações, telefones, registos de vida. Dançámos. Muito. O almoço, com sala e orquestra só para nós (à moçambicana, mesmo) prolongou-se para além da hora do jantar.

A partir daí a proximidade fez-se maior. E o meu irmão mantinha-me, mantinha-nos, ao corrente, pois estava frequentemente com eles. Quando lancei Moçambique para a Mãe se Lembrar como Foi, tive o gratíssimo prazer da sua luminosa presença, com outros amigos e amigas desses tempos. Que, aliás, estão nas páginas do livro e são mais do que memórias. São vidas e vivências que procurei eternizar pela magia da palavra escrita.

De tudo isso, que é muito mais do que consigo dizer, memórias, e imagens, num relance do fulgor que ela emanava.

Twist ou Yéyé? Ana Maria, João Nasi, Fernandinha e Manuel Anselmo, em Tete, Moçambique. anos 60 de um século ido
Serra da Caroeira, Tete, o piquenique das nossas vidas. Jorge Tomás Metello (Tojú), de guitarra e a irmã. Ana Maria; Zé Álvaro, Jorge Gonzaga, Micó e João Nasi Pereira, Mário Ladeira, Clarinha Oliveira, Lurdes Dias (Dicas), e Rajú Tulcidás
 Da esquerda da para a direita, Tojú, Ana Maria, José Álvaro,  Micó, João Marta, eu, Jorge Gonzaga, Fernanda Dias, Rajú Tulcidás, Lurdes Dias 


Durante o lançamento de Moçambique para a Mãe se Lembrar Como Foi, no Bicaense (de Moçambicanos), uma festa com marrabentas e sabores de lá. Ana Maria, maravilhosa, e outros punhado de amigos de sempre. O António Pinheiro,que nunca falta!, o Quim, O Mário e a Cila Ladeira, o Manel Casimiro, e tantos e tantas mais.
[...] quando voltei da Beira, comecei a recusar praticamente todos os convites para festas, bailes e outro tipo de convívios. Quem me queria ver, que fosse a minha casa. Então, um belo dia, a minha querida Ana Maria Metello bateu-me à porta para me convidar para a sua festa de anos ou outra festa qualquer. [...] Estava acompanhada pelo seu amigo Armando, cujos olhos não desfitavam os meus, enquanto eu tentava arranjar desculpas para recusar o convite, rapidamente atalhadas pela minha mãe que adorava a Ana Maria, «a miúda mais chique desta terra, parece uma lisboeta de gema»: – Evidentemente que ela vai. Vêm buscá-la e trazê-la?[...]
– Mas eu não quero ir a porcaria de festa nenhuma.
A minha mãe levantou os olhos ao céu:– Na tua idade, o que eu não teria dado para me deixaram sair e conviver, por pouco tempo que fosse. Mas andava sempre de chaperon, com uma ou duas tias atrás a verem e a ouvirem tudo o que eu fazia e dizia, e com quem e quando. Sabem lá vocês a sorte que têm.»  
[...] 
 Voltando a Tete. Algumas das minhas amigas tinham casamento agendado num horizonte próximo. Como a Mimi Teixeira, que um dia, em Tete, no pátio de recreio do colégio de São José no final do nosso 5º ano, correra para o meu lado, com os olhos a brilhar comoção e felicidade, e, metendo a mão no bolso da bata, extraiu um envelope: Ele escreveu-me!!! 
[...]Quem também namorava naquela altura para casar e serem felizes para sempre, era a minha querida Ana Maria Metello, cujo namorado, o alferes Casimiro, se transformara rapidamente em seu noivo e um ou dois anos mais tarde, não sei quando, em marido. Reencontrei-os também por cá, ao fim de tantos anos. Maravilhosamente juntos.» 
(em Moçambique para a Mãe se Lembrar como Foi) 

Uma pessoa não se esgota nos fragmentos de memórias que cada um cultiva, para, em última análise, se perpetuar a si mesmo. Portanto, na incompletude de um registo que precisa de muito mais contributos, os contributos de toda a gente e todos os seres a quem ela tocou, acrescento: da Ana Maria, tudo o que há para dizer é bom. Uma mulher adorada pelo marido que ela amou também ao primeiro olhar; um extraordinária mãe de família; um pilar para todos os seus; uma acérrima defensora de animais errantes e abandonados. Uma amiga inesquecível. E tanto, tantíssimo mais.

A nossa tão querida Ana Maria Metello Casimiro.

A nossa tão querida Ana Maria Metello Casimiro

Ela está presente nas memórias dos nossos dias de ontem. Em Tete, Moçambique, que foi quando nos conhecemos. Maravilhosa Ana Maria Metello Casimiro. Um Sol! Quando nos reencontrámos, por cá, a amizade estava inteira, embora a vida não tivesse permitido aquele retomar mais constante de laços, pelas distâncias.


Voltámos a encontar-nos numa daquelas celebrações a que quase nunca posso ir (neste caso o almoço anual dos Amigos de Tete), e foi mágico, por ela, por nós todos, por tudo. Muitos não se viam desde África. Mas, décadas depois, foi como se não se tivesse passado quase tempo nenhum. Na nossa mesa, adolescentes de 50 e 60 anos conversaram e riram e trocaram informações, telefones, registos de vida. Dançámos. Muito. O almoço, com sala e orquestra só para nós (à moçambicana, mesmo) prolongou-se para além da hora do jantar.

A partir daí a proximidade fez-se maior. E o meu irmão mantinha-me, mantinha-nos, ao corrente, pois estava frequentemente com eles. Quando lancei Moçambique para a Mãe se Lembrar como Foi, tive o gratíssimo prazer da sua luminosa presença, com outros amigos e amigas desses tempos. Que, aliás, estão nas páginas do livro e são mais do que memórias. São vidas e vivências que procurei eternizar pela magia da palavra escrita.

De tudo isso, que é muito mais do que consigo dizer, memórias, e imagens, num relance do fulgor que ela emanava.

Twist ou Yéyé? Ana Maria, João Nasi, Fernandinha e Manuel Anselmo, em Tete, Moçambique. anos 60 de um século ido
Serra da Caroeira, Tete, o piquenique das nossas vidas. Jorge Tomás Metello (Tojú), de guitarra e a irmã. Ana Maria; Zé Álvaro, Jorge Gonzaga, Micó e João Nasi Pereira, Clarinha Oliveira, Lurdes Dias (Dicas), e Rajú Tulcidás
 Abaixo, da esquerda da para a direita, Tojú, Ana Maria, José Álvaro,  Micó, João Marta, eu, Jorge Gonzaga, Fernanda Dias, Raju, Lurdes Dias 


Durante o lançamento de Moçambique para a Mãe se Lembrar Como Foi, no Bicaense (de Moçambicanos), uma festa com marrabentas e sabores de lá. Ana Maria, maravilhosa, e outros punhado de amigos de sempre.  
[...] quando voltei da Beira, comecei a recusar praticamente todos os convites para festas, bailes e outro tipo de convívios. Quem me queria ver, que fosse a minha casa. Então, um belo dia, a minha querida Ana Maria Metello bateu-me à porta para me convidar para a sua festa de anos ou outra festa qualquer. [...] Estava acompanhada pelo seu amigo Armando, cujos olhos não desfitavam os meus, enquanto eu tentava arranjar desculpas para recusar o convite, rapidamente atalhadas pela minha mãe que adorava a Ana Maria, «a miúda mais chique desta terra, parece uma lisboeta de gema»: – Evidentemente que ela vai. Vêm buscá-la e trazê-la?[...]
– Mas eu não quero ir a porcaria de festa nenhuma.
A minha mãe levantou os olhos ao céu:– Na tua idade, o que eu não teria dado para me deixaram sair e conviver, por pouco tempo que fosse. Mas andava sempre de chaperon, com uma ou duas tias atrás a verem e a ouvirem tudo o que eu fazia e dizia, e com quem e quando. Sabem lá vocês a sorte que têm.»  
[...] 
 Voltando a Tete. Algumas das minhas amigas tinham casamento agendado num horizonte próximo. Como a Mimi Teixeira, que um dia, em Tete, no pátio de recreio do colégio de São José no final do nosso 5º ano, correra para o meu lado, com os olhos a brilhar comoção e felicidade, e, metendo a mão no bolso da bata, extraiu um envelope: Ele escreveu-me!!! 
[...]Quem também namorava naquela altura para casar e serem felizes para sempre, era a minha querida Ana Maria Metello, cujo namorado, o alferes Casimiro, se transformara rapidamente em seu noivo e um ou dois anos mais tarde, não sei quando, em marido. Reencontrei-os também por cá, ao fim de tantos anos. Maravilhosamente juntos.» 
(em Moçambique para a Mãe se Lembrar como Foi) 

Uma pessoa não se esgota nos fragmentos de memórias que cada um cultiva, para, em ultima análise, se perpetuar a si mesmo. Portanto, na incompletude de um registo que precisa de muito mais contributos, os contributos de toda a gente e todos os seres a quem ela tocou, acrescento: da Ana Maria, tudo o que há para dizer é bom. Uma mulher adorada pelo marido que ela amou também ao primeiro olhar; um extraordinária mãe de família; um pilar para todos os seus; uma acérrima defensora de animais errantes e abandonados. Uma amiga inesquecível. E tanto, tantíssimo mais.

A nossa tão querida Ana Maria Metello Casimiro.