domingo, agosto 02, 2015

«Com uma história para contar depois...»

Todas as vidas ocorrem em ciclos. Quase todos, anunciados. Neste caso, não houve sequer pré-aviso. O próprio tempo que precisei para digerir e aceitar a mudança, ora me pareceu muito longo, ora decorreu num ápice.

Em finais de Julho, a decisão tomada dois meses antes, partilhei-a com João Paulo Oliveira e Costa, amigo, professor, director do Centro de História d’Aquém e d’Além-Mar e romancista. E, desde então, companheiro dos novos percursos. Connosco, a nossa querida Laure Collet, tradutora e editora que já publicou em francês vários livros nossos. E o discreto jantar acabou por se tornar um evento avant-la-lettre.

Amanhã segunda-feira o jornal Público vai contar o que se passa.

Do mural de João Paulo Costa a 31 de Julho de 2015: «Hoje jantar com a Manuela Gonzaga .... Com uma história para contar depois smile emoticon
»

quinta-feira, julho 16, 2015

«c’est un livre qui s’adresse à tout le monde»

Da edição em francês de Moçambique para a mãe se lembrar como foi, duas recensões criticas em Anazon:

«Mozambique: pour que ma mère se souvienne» de Manuela Gonzaga, correspond à une vague très récente d’écrivains qui cherchent à poser un nouveau regard sur le passé colonial portugais récent, et sur le processus de décolonisation qu’ils ont connu. C’est un regard neuf car il ne s’agit pas seulement de «souvenirs», cela va bien au-delà: c’est une fenêtre sur les contradictions de l’auteure qui réfléchit dans le moment présent à une époque vécue dans des circonstances sociales et idéologiques très différentes. C’est cette tension qui se révèle dans «Mozambique» comme quelque-chose dont l’auteure semble avoir une pleine conscience, jouant aussi bien avec ses souvenirs qu’avec l’analyse historique du contexte qu’elle dresse pour nous. C’est pour cela que ce livre ne s’adresse pas seulement à ceux qui ont connu le « Mozambique» de l’Empire tardif et de la guerre coloniale; c’est un livre qui s’adresse à tout le monde. Des historiens qui recherchent une écriture fluide, au lecteur curieux quant au passé portugais le plus récent, et amoureux des pages extraordinairement bien écrites. - Rui Gomes Coelho (historiador)



E ainda:

'Histoire de la périphérie du colonialisme européen contemporain»

«Quelle est la scène central du "Mozambique" (de Manuela Gonzaga)? A mon avis, c'est l'Histoire de la périphérie du colonialisme européen contemporain que permet rèflèchir, travers un jeux de miroirs, sur la vrai place du Centre actuel. Dans ce cas, il y en aura que des importantes leçons sur comment écrire des memoires (individuelles aussi bien que collectives) du XXéme siècle. C'est un livre où des histoires et des souvenirs se rejoignent avec une sérénité et une fraîcheur émouvantes. La dimension de la tâche que l'écrivaine ait proposé etait significative dans la mesure où elle a dû rappeler les bonheurs autant que les déchirements. A la fin, on voyagent dans le temps et dans le espace, sur les ailes de sa vision contrastée du monde . En effet, en se pérmettent de se déambuler entre des souvenirs reconstruites d'une jeune fille, c'est comme si nous pourrions atteindre à une partie importante de tout un siècle - Edilson Motta. 

A ditadura

A ditadura, hoje, entra-nos na vida através do liga/desliga dos multibancos, e do corta/suspende do cutelo económico. Caíram as máscaras. Já não se invocam deuses, pátrias e reis locais. Agora, é o lucro, justificado apenas por si próprio, o lucro tentacular de uma ordem invisível, que se faz cada vez mais presente no mundo sem fronteiras nem nações. E uns, porque a máquina na esquina da rua deles ainda vomita papel impresso com símbolos mais ou menos esotéricos, gritam aleluia, nós por cá todos bem.

terça-feira, junho 30, 2015

Tanta gente a falar da Grécia


Tanta gente a falar da Grécia e tão pouca gente a saber do que fala quando fala da Grécia. António Costa Santos para o Expresso traduziu o que Varoufakis apresentou na última reunião do Eurogrupo. É um documento que ajuda a perceber o que a Grécia pedia e a Europa rejeitou, de que transcrevo extractos. É aconselhável ler na íntegra. Para se  concordar ou discordar. Com fundamento e seriedade. MG


FOTO REUTERS/ALKIS KONSTANTINIDIS
«Veja-se por exemplo a provação dos jovens trabalhadores em várias cadeias de lojas que são despedidos quando se avizinha o seu 24º aniversário, para que os empregadores possam contratar funcionários mais jovens e assim evitar pagar-lhes o salário mínimo normal que é inferior para empregados menores de 24 anos. Ou vejam o caso dos empregados que são contratados em part time por 300 euros ao mês, mas são obrigados a trabalhar a tempo inteiro e são ameaçados com a dispensa se se queixarem. Sem contratação coletiva, estes abusos abundam com efeitos nefastos na concorrência (uma vez que os patrões decentes competem em desvantagem com os que não têm escrúpulos), mas também com efeitos negativos nos fundos de pensões e na receita pública. Alguém seriamente pensa que a introdução de uma negociação laboral bem concebida, em colaboração com a OIT e a OCDE, constitui "reversão das reformas", um exemplo de "recuo"? 

E mais
É por isso que continuamos a dizer às instituições que sim, precisamos de uma reforma do sistema de pensões, mas não, não podemos cortar 1% do PIB às pensões sem causar uma nova e massiva miséria e mais um ciclo recessivo, uma vez que estes 1,8 mil milhões multiplicados por um grande multiplicador fiscal (de até 1,5) é retirado do fluxo circular da receita. Se ainda existissem grandes pensões, cujo corte faria diferença a nível fiscal, cortá-las-íamos. Mas a distribuição das pensões está tão comprimida que poupanças dessa magnitude teriam de ir comer nas pensões dos mais pobres. É por esta razão, suponho, que as instituições nos pedem para eliminarmos o complemento solidário de reforma para os mais pobres dos pobres.»

Para ler na íntegra:

Em Expresso, «Palavra por palavra, proposta por proposta: o que Varoufakis pediu e a Europa rejeitou», 19.06.2015, c


sábado, junho 20, 2015

O 11º Mandamento - «não poluirás»

A última encíclica do papa Francisco, definindo a posição da Igreja Católica face ao meio ambiente, aos direitos dos animais e das populações mais desfavorecidas, tornou-se manchete no mundo inteiro. Considerado por alguns o chefe de Estado «mais à esquerda do planeta», segundo por exemplo o Liberátion que lhe chama o «papa Verde», o papa apela à união das nações para salvarem o planeta, e afirma que as alterações climáticas provocadas pelo aquecimento global são. claramente, da responsabilidade dos homens, sendo as nações pobres as mais prejudicadas.

Francisco, o papa, vem assim acrescentar um à lista dos Mandamentos: «não poluirás». Para ler na íntegra a encíclica papal, em castelhano, clicar aqui

Civilization 


Até há uns bons trinta anos antes de agora, quando se falava de poluição, ecologia (por acaso não me lembro se a palavra fazia parte do léxico alargado), e de catástrofes ambientais, como o desmatamento da Amazónia ou dos perigos da energia nuclear, a reacção geral era de condescendência temperada de ironia.

Então não se via logo que a Amazónia teria árvores até ao fim do mundo? E que o nuclear, bênção da humanidade, constituía a energia mais fiável que poderia existir e estávamos 'condenados' a ela se quiséssemos apanhar o 'comboio do progresso'? Quanto à poluição era uma anedota. Nós, europeus, nós portugueses, tínhamos  - na cidade e no campo - água canalizada,  casas de banho, normas de higiene e por aí fora. E havia aterros para o lixo, ora bolas! Não chegava? O lixo dos outros não nos dizia respeito.Resumindo, os que invocavam problemas tão menores num mundo de coisas tão sérias, eram «uns grandes patuscos».

Consensualmente, porém, as preocupações ambientais foram entrando nas conversas, á custa do trabalho notável dos activistas, sempre a remar contra a maré. E também por causa dos resultados catastróficos que por vezes emergiam nos noticiários, fruto do «desenvolvimento» selvagem, filho dilecto do capitalismo ultra selvagem. Assim, mas sempre pela porta dos fundos, algumas agendas políticas deram-lhe um pouco de atenção, sem privilegiaram grandes medidas para a travar, verdade seja dita. O «progresso» não casa com defesa do ambiente - diz-se. 

Em todo o caso, o tema está cada vez mais na ordem do dia, e  a encíclica papal mais recente conferiu-lhe o estatuto de prioridade e seriedade absolutas. É um grandecíssimo avanço, este, que vem avalizar também o trabalho heróico, dedicado, e sem tréguas que tem vindo a ser desenvolvido no mundo inteiro pela gente da boa vontade. Esses anónimos heróis. que contra ventos e marés, lutam no terreno, para que o terreno continue... vivo. E nós com ele. E os animais também.

Mas essa é toda uma outra conversa.


Capa do jornal francês Libération, 17 de junho de 2015.


quinta-feira, junho 18, 2015

«Dor grande, passos pequenos» - Faz sentido

Ontem estive na Sic Mulher, programa Faz Sentido e dei por mim a falar no PAN logo ao minuto dois. Porquê? Porque quando saímos da esfera do estrictamente «eu» e nos conectamos ao «outro» a alegria soma, a tristeza subtrai e a dor diminui. O activismo que Pessoas, Animais, Natureza me permite exercer em cidadania consciente e em crescendo, trouxe muito sentido ao meu e nosso viver.

Creio que a felicidade tem de passar pela partilha ou é um mero jogo de luzes que brilham por um momento e desaparece sem deixar rastro.

Mas, e face à dor, tema do programa, há muito mais a fazer, e a Filipa Jardim da Silva deu, como de costume, um excelente contributo a estas conversas que a Rita guia com tanta elegância  e alegria.
http://sicmulher.sapo.pt/programas/faz-sentido/videos/2015-06-18-Faz-Sentido---Dor-Grande-Passos-Pequenos-

sábado, junho 13, 2015

Sopas de cavalo cansado

 
Tenho amigos que percebem, a fundo, de economia e tenho tido conversas muito esclarecedoras com eles. Por exemplo, a forma como me explicaram a questão dos ratings fez-me soar campainhas. E foi então que, depois de horas de troca de informações, algumas leituras, um filme pelo meio, e uma noite bem dormida, acordei hoje a pensar em A Selva' de Ferreira de Castro onde, perdidos nos confins da Amazónia, os seringueiros, os tristes que extraiam a borracha, estavam sempre, mas sempre endividados.

O seu ser era hipotecado logo à cabeça: a viagem que os levava ao 'inferno verde' em condições deploráveis, constituía a primeira dívida, a enorme dívida, ao seu contratador. Depois, ao chegarem ao desolado fim de mundo, somavam-lhe as outras, como e na totalidade, o material necessário ao seu oficio, vendido na cantina do «empresário» local. Associado, como é evidente, ao grande magnata borracheiro. Ainda não tinham começado, e já estavam amarrados aos custos das suas ferramentas de trabalho, comida e transporte até ali.

Então, no seu desalento e desgarradora solidão, os seringueiros, em dia de folga, e depois com mais regularidade, recorriam à cachaça: a crédito. Desta forma, quando chegava a hora do pagamento, ficava tudo nas mãos do cantineiro. E a dívida crescia sempre. Até porque os preços dos bens essenciais, por não haver alternativas,eram inflacionados à vontade do credor, o qual, se lhe 'parecesse' que o endividado tinha poucas condições de pagar, subia os juros da dívida à mercê dos seus obscuros cálculos de 'riscos'.

Em boa verdade, todos os trabalhadores eram 'um risco'. Para o patrão que se queixava da quebra dos valores da borracha nos mercados internacionais, o misero salário que lhes pagava era «um sacrifício». Afinal, sustentava ele aquele bando de miseráveis que se emborrachavam com cachaça para conseguirem forças para lhe garantirem, a ele patrão, a vida luxuosíssima nas grandes cidades, a rechonchuda conta em vários bancos, os filhos tratados como príncipes, viajando mundo fora e estudando e universidades europeias. Para além da opulenta casa, ou casas próprias, e das várias casas das várias amantes teúdas e manteúdas em condições que ilustravam a bondade e a riqueza do respectivo protector.

Quem suportava portanto a quebra dos lucros da borracha nos mercados internacionais? Os madraços dos trabalhadores, que constituam igualmente um risco para o cantineiro que tinha fiado e continuava a fiar os bens de consumo daquela récua humana que nunca mais saia do atoleiro infernalmente solitário, desesperadamente verde, a não ser para dentro de um buraco na terra.

Mais coisa menos coisa, o que o FMI aplica aos povos, é a receita dos esclavagistas omnipresentes neste mundo acolitados pela sua guarda avançada. Os cantineiros de todos os tempos e geografias que tratam como cidadãos de segunda os escravizado das coutadas menos rentáveis. Nós, por exemplo. Já os holandeses (que fazem férias no estrangeiro três vezes por ano) e os alemães (idem) estão bem defendidos pelos cantineiros deles, e ninguém lhes chama preguiçosos, apesar de trabalharem menos do que nós, e gastaram muito mais: porque podem.

Assim, jogando com as nossas vidas cada vez mais instáveis, tirando-nos tudo o que podem tirar, mas auferindo salários e regalias absurdas; ofendendo-se quando queremos saber da gestão da coisa pública, porque é nossa e por nós sustentada; os cantineiros do mundo têm como única preocupação agradar aos grandes donos das árvores da borracha, a quem levam a parte de leão do encapotado saque. Um saque com riscos calculados, e muito atenuado nalguns países, onde é preciso não picar demasiado as populações. Porquê? Porque pode correr-lhes muito mal, já que. mercê de um jogo democrático mais transparente, as contas públicas são bem escrutinadas e as responsabilidades atribuídas.

Dito de outra forma, há ainda países neste mundo onde a culpa nem sempre morre solteira.

Por cá...um quarto da população vive já abaixo do que foi delineado como limiar da pobreza.

Por cá... uma em cada três crianças vai para a escola com fome.

Por cá... temos avós a sustentaram, sob o seu tecto, filhos e netos.

Por cá... quem pode, vai para lá. Algures. Seringar por outros lados.

É provável que volte a moda das «sopas de cavalo cansado». Pão molhado em vinho e açúcar, que, por falta de outro alimento, foi o pequeno almoço dos grandes e dos pequeninos camponeses que, depois de começarem o dia a trabalhar no campo ainda de noite, chegavam às escolas caídos de bêbados, no tempo da radiosa ditadura de que muitos dizem sentir saudade.

Depois, dizia-se deles e da gente do campo em geral, ou dos pobres das cidades que eram estúpidos, que a cabeça deles não dava para os estudos, e que eram madraços. Um risco para os seus exploradores, portanto. Aqui, ali, em todo o lado.

Imagem: "Rescued Children," from Best, facing p. 116. Courtesy of the Shaftesbury-Grooms Society