Volto ao Sul, como quem chega ao norte. A minha geografia está de pernas para o ar. Acordada e a dormir, revisito lugares que já nem existem nos mapas com os nomes que tinham quando os conheci. Acordada e a dormir, revejo gente que partiu e volta. Há horas e desoras. Encontro e desencontros. É bom dançar pela noite dos sonhos acordados
terça-feira, junho 28, 2016
A noite dos sonhos acordados
Volto ao Sul, como quem chega ao norte. A minha geografia está de pernas para o ar. Acordada e a dormir, revisito lugares que já nem existem nos mapas com os nomes que tinham quando os conheci. Acordada e a dormir, revejo gente que partiu e volta. Há horas e desoras. Encontro e desencontros. É bom dançar pela noite dos sonhos acordados
terça-feira, abril 26, 2016
'Os livros são feitos de palavras vivas que se deixam capturar'
Desde o principio, quando comecei a escrevê-lo, até ao momento em que, das minhas mãos o livro passou para as do editor, soube que não era uma obra fácil. Em primeiro lugar porque, após três biografias bem sucedidas, saltava para o romance de uma forma «abrupta». E que romance!! Para começar, a fórmula narrativa que enforma o género não se encontra aqui aplicada na sua grelha mais singela. Os tempos são múltiplos, porque num simultâneo 'agora' onde dois se encontram, há múltiplos caminhos que levam a muitos 'antes'. Os próprios locais divergem. Quem é ela? Quem é ele? O que está a acontecer? Que realidades convergem e divergem nesta peregrinação que uma mulher inicia, despedindo-se do homem que ama, com beijos e histórias enroladas umas nas outras?
Ora, e para mim, os livros não se escrevem a pensar no «leitor» ou na «leitora». Os livros são feitos de palavras vivas que se deixam capturar. Palavras que são a música, a moldura e o molde onde tecemos as vidas da Vida, em suas infinitas mutações. Hoje, mais uma recensão veio encher-me de alegria. Um também escritor, Guilherme Valadão, diz:
Em - Guilherme Valadão's Reviews > Xerazade - a última noite
Ora, e para mim, os livros não se escrevem a pensar no «leitor» ou na «leitora». Os livros são feitos de palavras vivas que se deixam capturar. Palavras que são a música, a moldura e o molde onde tecemos as vidas da Vida, em suas infinitas mutações. Hoje, mais uma recensão veio encher-me de alegria. Um também escritor, Guilherme Valadão, diz:
«[...] Na breve cerimónia de apresentação de ‘Xerazade’, ouvi o Samuel Pimenta dizer algumas das suas passagens numa toada poética como se se dirigisse a uma multidão de jovens apaixonados, perdida na consciência de cada escritor desiludido. Tudo à minha volta se silenciou naquele instante e senti uma urgência arrebatadora de me entregar àquelas páginas como se me tivessem feito falta durante toda a minha vida!
Xerazade» é um poema vivo de um'«A Última Noite» que nos emociona e nos transporta para as latitudes mais misteriosas e inesperadas da alma humana. Na intimidade daqueles diálogos há mistérios que ninguém ainda decifrou, fechados nas arcas do tempo em torres que brilham longe demais para serem nossas.
«Amor, amo-te até ao fim da memória». «Eu sei. É por isso que tens de me deixar ir».«Xerazade» não é, simplesmente, um livro. Um livro excelente, aliás, nas suas páginas carregadas de um misticismo antigo, de interrogações tão velhas como a memória dos deuses de um Olimpo que o tempo não mudou. É muito mais um cúmplice do espírito rebelde e inquieto que sentimos em certos momentos da nossa vida.Uma tapeçaria, um colar de pérolas, um homem, uma mulher... num livro inesquecível![...]»
Em - Guilherme Valadão's Reviews > Xerazade - a última noite
segunda-feira, abril 11, 2016
O "caso Dona Maria Adelaide" e a causa dos Sem-Abrigo
Eles eram irmãos. Numa
noite de tempestade apanhámo-los a dormir no átrio do nosso prédio. Não tivemos
coragem de os mandar embora, de modo que a situação foi-se prolongando. Durante
um ou dois meses usaram aquela entrada como quarto de dormir e porto de
abrigo. Na condição de não fazeram porcarias ali dentro. A certa altura, já mandavam vir connosco quando acendíamos a luz
das escadas quer porque ainda estavam a dormir, quer porque se preparavam para
fazê-lo. Mas chovia tanto, que nunca tínhamos coragem de os mandar embora.
Embora fossem aldrabões, mal-educados, e ladrõezecos de bairro -- iam ao
minipreço e por encomenda, surripiar bens de consumo que vendiam às velhotas do
Bairro Alto.
Um dia, perante o átrio inqualificavelmente sujo como se fosse uma
latrina, corri os dois à vassourada. Estava tão indignada, tão furiosa, que eles
fugiram mesmo. E acabou-se a parceria. Dois anos depois, um deles foi quase figura pública porque deu uma estalada numa socialite, e ela, com toda a razão, fez queixa e ele foi preso. Só lhe fez bem. Engordou um quilinhos, e durante algum tempo andou todo aprumado.
Houve mais, em anos idos. Mas o último, foi em 2000 e picos. Estivera ligado a grupos extremistas, acabara por fugir e exilara-se na
Holanda, correra Seca a Meca e tinha uma história de resistência de dores e abandonos, desde a infância, dessas que cortam o coração. Bem aprumado, irrepreensivelmente limpo e barbeado, com olhos que viram demais, entrou na nossa vida numa das nossas festa de aniversário. Ninguém
conhecia ninguém, porque cada um foi convidando quem encontrava de onde
resultou o grupo mais heterogéneo que se pode imaginar. Apareceram
músicos, pintores, designers, amigos de várias nacionalidades, uma
fadista/cantora em ascensão, de voz soberba. E este revolucionário desactivado,
que em anos idos vivera num mausoléu do Alto de São João, onde
também, ao que parece, os seus camaradas guardavam armas e munições. Penso que se vestia de viúva,
quando entrava ou saia do cemitério.
Quando o conhecemos, dormia na cave de um prédio em construção, na companhia de uma gata. Lavava-se e à roupa,
num fontanário. No Inverno, e para não ser roubado, chegava a vesti-la molhada.
Arranjamos-lhe casa, já nem me lembro bem como, e praticamente mobilámo-la. Um
dia, inventou um incêndio, que mais não foi que uns fogachos, para vir outra vez
asilar junto de nós. Mandámos pintar a sua casa e arranjar os «estragos», e
por fim, muito a contragosto, ao fim de um mês e tal, lá nos deixou em paz. A situação, ao longo destes anos,
melhorou muito. Sobretudo porque recuperou a filha, holandesa, que
não via há anos e que o recebeu de braços abertos e coração sem mágoas.
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| «Frio: Lisboa e Porto vão acolher sem-abrigo» cortesia de Boas Noticias |
Pois surge agora uma oportunidade de
poder dar alguns contributos a esta causa que abraço de coração, num melhor enquadramento. O acaso, se tal existe, pôs-me em contacto com o Dr. António Bento, muito sensível a estas mesmas áreas, e cujo trabalho é sobejamente reconhecido: é director
de Psiquiatria Geral e Transcultural, no Centro Hospitalar Psiquiátrico de
Lisboa ; do Grupo Psicoterapêutico Aberto, com 1062 doentes, dos quais quase 500
são sem-abrigo, migrantes e refugiados; de um Curso de Psiquiatria de Rua
e Transcultural; de outro de “Psiquiatria Intersticial", ligada ao
trabalho na rua com os sem-abrigo, complementar da psiquiatria tradicional que
fazemos nos "silos" (consultas, internamentos, urgência); e muito
mais.
Conhecemo-nos através do meu grande amigo (e compadre) Carlos Poiares, vice-reitor da Universidade Lusófona, a propósito de
um livro que publiquei há uns anos. De
modo que quem nos juntou, por assim dizer, foi uma mulher que já morreu no
século passado, mas continua muito viva. 'Maria Adelaide Coelho da Cunha
«Doida não e não»! ' Este livro, que continua a ser regularmente utilizado
nos CVs da Lusófona, é também um dos que o Dr. António Bento recomenda. Foi
numa palestra sobre a «Vida dos Livros» que trocámos as primeiras impressões. Daqui surgiu o convite
para eu integrar, a 5 de Julho, uma mesa onde voltaremos a falar «Caso D. Maria
Adelaide» no âmbito dos seminários orientados por si, nomeadamente Anton
Tchekov ('Enfermaria nº 6') e 'Ignorância-II.
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| Maria Adelaide Coelho da Cunha |
Desse evento, voltarei a falar. E de tudo o que lhe está subjacente. Porque é Causa Nossa.
domingo, abril 03, 2016
Sim! Temos mais um cão! A Lasse.
A Lasse estava à minha espera na montra de uma loja de velharias/antiguidades e livros em segunda mão que calha serem quase todos novos. Muitos até aparecem nesta montra antes de saírem para o mercado. Por exemplo, ainda a minha Imperatriz Isabel de Portugal aguardava o dia de vir a lume, numa apresentação maravilhosa na Casa dos Bicos, e já havia exemplares (dois) à venda nesta loja de bairro. Ainda Moçambique para a Mãe se lembrar como foi estava em vésperas de lançamento na Bicaense, e já marcava presença, em destaque, na mesma montra. Eu sabia destas movimentações por alguém muito próximo que, com grandes mostras de indignação, me fazia chegar fotos desta «pouca vergonha». Mas que fazer, se, em termos de edição, os livros não são (ainda) numerados? Por outro lado, estas actividades demonstram que são objectos de desejo de modo que, e com desvios aparentemente tão residuais, é melhor deixar andar.
Porém há encontros do destino, e a Lasse, genuinamente old and used e vintage a olhar-me da montra, tinha de entrar na nossa vida. É um Puro Loiça, como lhe chamou a minha querida amiga Inês de Sousa Real. E fica muito bem com os outros habitantes de quatro patas que invadiram os nossos corações, casa e vidas.
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| Lolita meets Lasse |
Porém há encontros do destino, e a Lasse, genuinamente old and used e vintage a olhar-me da montra, tinha de entrar na nossa vida. É um Puro Loiça, como lhe chamou a minha querida amiga Inês de Sousa Real. E fica muito bem com os outros habitantes de quatro patas que invadiram os nossos corações, casa e vidas.
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| Timóteo meets Lasse |
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| Maia não quer saber |
domingo, março 20, 2016
Para (muitos) bens ou quando os peixes têm asas
Quando os peixes têm asas nunca se sabe onde podem ir parar. Então, é assim. Ontem fiz anos. E foi muito bom, apesar das distâncias tantas e todas. É que foram centenas de mensagens - somadas em telefonemas, sms, posts e emails... Vozes atravessaram mares, oceanos, ventos, fusos horários. Abraços de todos os tamanhos, e todos a caberem no coração. Mas uma das mensagens que mais me tocou chegou-me dela. Da Mozzaic. A recordar a festa de aniversário, minha, onde cantei fado com guitarristas profissionais e tudo - presente/surpresa de amor.
Mas é dela que quero falar. Um dia, que terá de ser breve, vou escrever, a quatro mãos a história incrível da vida dela. Nunca conheci ninguém assim. Aqui fica o seu beijo e abraço de para (muitos) bens que me chegou pelas redes, via Las Vegas onde ela se encontra a viver. E onde, nas margens do deserto, criou um oásis. Como só ela sabe fazer.
Olha encontrei: Oh minha querida parece que foi ontem que estava contigo na tua festa de anos no Bairro Alto e ate cantaste o fado. Experiência linda que nunca me esquecerei. Tens uma voz de fadista incrível, foi uma surpresa tao agradável. E depois entre esse "ontem" e hoje, se passaram 15 anos. A tua magia trouxe-me um Paddy, e tantos voos magníficos paralelos a tua viagem encantadora e surpreendente. A magia de Avalon, vai unir-nos para sempre. E vieram livros com jardins secretos, Isabeis, Andres, Variações, e tantos mais bebes que trouxeste ao mundo, gerados no teu coração e na tua mente brilhante. E vieram Tims foram-se Toms,entraram Pans e PuM! foste candidata a Belém, deste que falar, abriste horizontes por desbravar numa mentalidade portuguesa, sedenta de possibilidades. Foram os Artivists, E os animais, sempre os animais e a natureza passando pelos direitos das pessoas. Tu defendes tudo, ensinas, avisas, choras e ris, delicias-te com a humanidade dos animais e a deshumanidades dos humanos deixa-te muito triste e revoltada. Então pegas nessa revolta e transformas isso tudo num projecto positivo. Es uma fonte de inspiração minha querida amiga. Alimentas-te conscientemente, e distribuis por todo nos essa energia positiva. Que viagem! Adoro-te e desejo que muitas mais rodadas em torno do sol, te tragam tantas outras aventuras, muita PAZ e muito amor. Ja faltam poucos dias para te dar este abracinho que trago guardado no meu coração desde a ultima vez que nos vimos ha 7 anos atrás! Parece que foi ONTEM. Parabéns, passa um dia muito feliz e delicia-te com um bolo de chocolate Emoji wink Emoji heart
Mas é dela que quero falar. Um dia, que terá de ser breve, vou escrever, a quatro mãos a história incrível da vida dela. Nunca conheci ninguém assim. Aqui fica o seu beijo e abraço de para (muitos) bens que me chegou pelas redes, via Las Vegas onde ela se encontra a viver. E onde, nas margens do deserto, criou um oásis. Como só ela sabe fazer.
quinta-feira, março 17, 2016
Amadeo de Souza-Cardoso
Amadeo de Souza-Cardoso
(1887-1918) – vai ser alvo da grande
homenagem que há tanto lhe era devida. Na última edição da Vogue Portugal, escrevi sobre ele. Foi um privilégio revisitar a sua vida e obra. MG
"Português
de gema, nortenho a quem Lisboa nunca capturou, homem do mundo, que se procura
incessantemente, recusando escolas, que homem, que pintor, que filho da terra,
que português foi ele? Como amou, como foi amado? «Cada artista que o é, tem em
si qualquer coisa de inconfundível, que só lhe pertence e a ninguém mais» -
escreverá em 1910, já em Paris, ao seu tio Francisco, seu primeiro mentor
artístico, aquele que mais apoiará as suas opções, homem de grande
sensibilidade e cultura, e até na «filiação» política monárquica que lhe
transmite ao longo da infância breve e tão protegida. Filho de José Emídio de
Sousa Cardoso, produtor vinícola reconhecido, e de Emília Cândida Ferreira
Cardoso, Amadeo nasceu na madrugada do dia 14 de novembro de 1887, e passou uma
infância feliz na grande casa de família, rodeado dos pais, nove irmãos, tios,
primos e criados, rendeiros e tarefeiros contratados para os serviços da
quinta."
quarta-feira, março 16, 2016
«Só de pensar nela»
Na última revista das Correntes D'Escritas vem um conto meu. Gosto muito de histórias curtas. De as ler, e de as escrever. É um desafio aliciante, embora 'comercialmente' como reconhecem os editores, nada interessante. Este relato relâmpago, porém, recordou-me, as saudades imensas que tenho de escrever: ficção, ensaio e tudo aquilo a que for convocada.
Partilho a história breve.
Partilho a história breve.
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