segunda-feira, abril 06, 2015

Lolita Miausótis

É a história desta gata que entrou nas nossas vidas há menos de um ano. Como me chamava da forma mais sedutora que se possa imaginar, e como era minúscula e graciosa, apesar de adulta, chamei-lhe Lolita. Depois, pelo seu miauuuuu de arrasar corações, juntei-lhe o blue da flor. Ficou Miausótis. 

Lolita Miausótis (foto Marta Gonzaga)

Do mural do meu facebook para aqui:

«Entrou nas nossas vidas com patinhas de veludo e um miau de derreter corações. Chamava-me para que a afagasse. Só. E assim foi, durante uns dias. Quando lhe levei, também, comida, aceitou da primeira vez nitidamente para não fazer a desfeita. Da segunda nem olhou. E à terceira virou-me as costas e foi-se embora muito digna, de rabo no ar, a olhar por cima do ombro e palavra de honra que até fez 'pfffff'' de desdém. Então não se estava mesmo a ver que só queria ser mimada, e pronto? 

Garantido esse ritual diário, ao fim de umas semanas, duas ou três, passou finalmente a aceitar comida das minhas mãos para o pratinho que mantém até hoje. Pouco tempo mais tarde, começou a saltar-nos para o colo e de lá para a nossa vida. Não é nossa. Gatos não são propriedade alheia. Mas tornou-nos dela. Ficámos da tribo. Em casa, já entra e sai. E fica. E dorme. E enrosca-se. Pôs o Timóteo na ordem, e duplicou o tamanho em menos de seis meses, porque já come aqui e come muito bem. Antes, assaltava a comida dos gatos domésticos dos jardins em redor. E pendurava-se nas cordas da roupa da Ana, que vive ao lado, a exigir a sua parte nas refeições, miando desalmadamente. 

Em todo o caso, era muito pequenina, muito frágil e muito arisca. 

Mas agora, os gatos grandes silvestres das redondezas, que a atacavam em refregas brutais - vox populi das janelas - têm um medo dela que se pelam. Ela correu com eles do seu território - que é uma faixa alargada de quintais arborizados e floridos, muros altos e escadas de incêndio. No mais, é uma sedutora adorável. 

A nossa Lolita Miausótis.


Nota: O dono anterior - porque o teve - infertilizou-a felizmente. Mas o senhor morreu, e ela nao gostou da casa e do cuidador que lhe sucedeu. Veio para a rua. Uma rua toda feita de muros altos a esconderem os nossos secretos jardins e quintais floridos. Como diz a Ana «fez uma opçao de vida». Até nos encontrar e ter decidido que íamos ser dela. Outra opção de vida. 




sexta-feira, abril 03, 2015

Opinião - «como um coro de tragédia grega»

Sobre Xerazade - a última noite, partilho , evidentemente autorizada, o texto de opinião de um leitor que me acompanha há vários livros. Agradeço profundamente a Manuel Carlos Marques Pinto o entusiasmo, a grande generosidade e o trabalho a que se deu, para comentar tão aprofundadamente a obra. MG. 


Europa e o Touro



Leimotiv

Não fiquei com quaisquer dúvidas, após a leitura entusiasta de “Xerazade”, que estamos perante um “Leimotiv” de ardor humano (talvez paixão), com tudo de grandioso e sublime que lhe é intrínseco, mas, igualmente, misterioso e sedutor. A paixão entre esses dois amantes, dois amigos, tornou-se no centro da narrativa, do romance funcionando como “um coro de tragédia grega, sublinhando a acção e sugerindo interpretações e propósitos onde as personagens os não encontram.”

Na realidade, julgo ter percebido bem este jogo de xadrez que aqui se vai desenrolando e que, no fundo, é a vida, onde muitas vezes somos peões ou outras vezes rainhas e reis montados em cavalos brancos, mesmo que sejamos apanhados em xeque-mate nas voltas que o jogo dessa vida nos apresenta.

Não foi, com toda a certeza por acaso, que o romance tem o nome da princesa das Mil Uma Noites, Xerazade, pois julgo entender que é uma homenagem muito sincera a todas as mulheres que sempre desejaram e desejam serem felizes e independentes. Haverá mesmo um certo feminismo, mas muito delicado e discreto (sem necessidade de queimar objectos…) que atravessa, aliás, todo o romance."

Começo por comentar como cruza tão bem, com palavras tão sublimes o que paira além de nós, ou até ainda está entre nós, da mitologia (da pré-clássica ou clássica) que nos deslumbra, dos deuses mais cativantes que nos cercam e que , mesmo involuntariamente nos conduzem, por vezes, mais do que as amarras dos factos históricos! Como são bonitas as lendas, os mitos e como ultrapassam, em tantas ocasiões, em densidade interior, a própria História? “Dos deuses vem todo o engenho que dá as qualidades aos mortais. Eles nos criam artistas, fortes de braços , ou eloquentes”, como diziam os gregos, na procura incessante da virtude, excelência ou conhecimento. Como teve a lucidez de valorizar esse nosso passado mítico tão rico (com exemplos tão variados que enriquecem substancialmente toda a trama narrativa) sabendo que temos sangue de tantos cruzamentos e que bebemos directamente de tantas heranças culturais!

Orfeu trazendo Euridice dos infernos


Gostei, igualmente, da forma como integra o tempo (que por vezes pode ser algoz da fantasia) que liga todos os episódios nesta sucessão de quadros vivos ou sonhados, mas nunca tendo deixado que o próprio tempo enchesse de amargos e desenganos o percurso da existência/vivência daqueles dois seres. Corre devagar, corre ao sabor de um presente e de um passado, mas corre… como um fluir de um rio para o mar! “Nada é permanente, salvo a mudança”( Heráclito).

Mostra ainda que a vida só é bem vivida torneando o sofrimento, mesmo que , por vezes, seja bem complicado alterar o tal destino que só os deuses do Olimpo conseguem escapar! Por isso, os sonhos e as memórias que se vão expressando em forma de diálogo dos seres humanos protagonistas da narrativa, assentam em raízes bem ancestrais, mas tornam-na lógica e encadeada com a passagem até pelo mais trivial e mais terreno: “Sorris. É um sorriso um pouco triste, mas mesmo assim é um sorriso e é tão bom levar essa memória comigo” (pág.69); ou quando se tem um coração que sofre, lamenta, mas compreende sem críticas a fraqueza humana na hora derradeira (”na vizinhança da morte pediu ao amante que lhe cortasse o cabelo bem curto, risca ao lado, à homem”(…) (pág.70).

E, no desenvolvimento deste cruzamento de mitos e realidades ali está com uma marca muito subtil a referência à sua África nas imagens das madrugadas quando os javalis “vêm beber ao lago “( pág.64) ou  “(…) depois, quando morremos, todos desejaríamos ter uma árvore africana , a mais maternal de todas as árvores , o baobá, por túmulo(…) (pág.79) , provando bem que o cordão umbilical que há muito se transformou em saudade continua presente, tecendo um corolário intenso de nostalgias inesquecíveis!

Depois é todo um romance, onde estão bem patentes tantas referências ao nosso imaginário de um passado tão rico, mas também de tantos enigmas , venham eles através da História , dos mitos, ou das nossas memórias : “O rei vai nu”, Ulisses” Inana e Ereshkigal, A História começa na Suméria”, “Dos amores de Afrodite por Marte”, como a sugerir toda a simbologia (”Que verdades se ocultam no mito?”pág.21) que daí decorre , onde se entrelaçam paixão, mistério, fantasia, ódio, presentes , tantas vezes, entre os terrenos! Ou “Da riqueza dos livros”, porque vivem connosco… Mas também a música, tão enaltecida em páginas, todas elas, por sua vez tão musicais, fica a pairar nos nossos sentidos, com uma vibração muito especial:“a música mora em tudo e em todos. E está presente até no silêncio. E, como é sublime esse remate: “É a assinatura da vida” (pág.94); só é pena agora acrescento eu que haja uns tantos que não saibam assinar.

E da vida passada então fica esse belo conto “O Flautista de Hamelin”, conto folclórico, reescrito pela primeira vez pelos Irmãos Grimm e que narra um desastre incomum acontecido na cidade de Hamelin, na Alemanha, em 26 de junho de 1284, e que encantou tantas crianças quando os avós ainda tinham tempo e sabedoria para encantar os netos! Bela e sentida homenagem! Autêntico vale mágico!

E as histórias, as evocações, os diálogos sucedem-se em quadros que vão do onírico ao real, com base também numa espécie de improvisação quase oral e quase homérica, de modo que explica o conhecimento de pessoas e coisas que, quase de  certeza,  já  existiam nas memórias passadas. Por outro lado, consegue, mesmo tratando-se de um romance, não confundir a particularidade do que vai descrevendo seja na História, na lenda ou no mito com o essencial da narrativa, dando assim veracidade e vivacidade com o que cruza na sua escrita.

E surgem as admirações por Creta, “Creta é um lugar de infância e voltar à ilha é uma ideia muito tentadora”(pág.105), pela sumptuosidade de Cnossos , como num apelo à História , mas sem se enredar  na sua trama mais complexa.

Ou o mistério da Torre de Babel (págs.130 e 131) e ambição humana desmedida que nunca mais teve fim segundo o Antigo Testamento (Gênesis 11,1-9), construída na Babilônia pelos descendentes de Noé, com a intenção de eternizar seus nomes. A decisão era fazê-la tão alta que alcançasse o céu. Esta soberba que continua tão presente na nossa sociedade provocou a ira de Deus que, para castigá-los, confundiu-lhes as línguas e os espalhou por toda a Terra.
E depois com o mesmo entusiasmo e com a mesma cadência de introduzir mais lendas e mitos no corpo do romance, “somos deuses” (pág.141), aí estão os bárbaros (págs.136 e 137) e a postura altiva dos clássicos, neste caso, Roma a não entenderem a mão civilizacional que trouxeram e não apenas o nefasto ; eram aqueles que falavam bar-bar-bar.

No capítulo “O Regresso” (págs. 142 a 148) como  revela muito bem a intensidade do diálogo , mas com a simplicidade de uma  abertura ao bom entendimento , afinal tão simples, mas, por vezes tão complicado: “Enfim, também só as crianças, os loucos ou os miraculosos se conseguem abstrair tão absolutamente do mundo em redor que não pensam na transitoriedade dos milagres, esquecendo que a vida continua com o seu pequeno cortejo de misérias” (pág.143).

E que bom foi recordar Hans Christian Andersen esse fabuloso mágico da palavra, filho de gente bem humilde, mas que com a sua nobre escrita foi um autêntico aristocrata e cativou tantas gerações de meninas e meninos! E não tenha dúvidas como é bom voltar à infância, tenha ela acontecido no frio, no calor, na montanha ou na cidade! Os nossos partiram, mas os nossos ficaram; estão ali, estão aqui como disse Saint Exupéry (outro mágico da palavra eterna): “Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós”.
E então os Anjinhos (pág.156) como foram eles importantes nas nossas vidas!

Com os “Portais” ( págs.165 a 172) encontro aqui um texto muito rico psicologicamente (sobretudo na descrição daquela protagonista) com afirmações muito realistas que ficarão na memória de todos aqueles que irão ler Xerazade: “A mulher: loura, olhos cor de avelã, talvez excessivamente magra, branca, queixo duro, pele de camélia, era de uma vivacidade que enchia um estádio de futebol vazio, ou transformava um velório numa festa.
Era daquelas pessoas que só, só com a sua presença , acendia as luzes de Natal , sem ser preciso liga-las  à corrente, e que com a sua inconcebível energia, era capaz de organizar  em menos de duas horas  e na mais soturna das casas uma festa de arromba , com jantar de vários pratos, música adequada e decoração a preceito” (págs.168 e 169).

Há também grande sensualidade, mas também sensibilidade ao falar dos sentimentos humanos que podem ser nobres, mas também obscuros ou misteriosos.

Alguma vez chegamos a conhecer alguém?” (pág.172).

No capítulo “A Realidade” (a partir da pág.173) enquadra muito bem o que é a vida, e o que é a ilusão a que muitas vezes ela nos conduz; somos realmente, em tantas ocasiões, cegos de tudo, mesmo que tenhamos todos os sentidos a funcionarem. “Então todos os cegos começaram a discutir, tentando prevalecer a sua verdade , e não chegaram a acordo” ( pág.174). Por isso, o que é real, muitas vezes nos parece irreal e vice-versa: “ Há histórias a emergir à nossa volta, aproveitando a escuridão e a tranquilidade para viverem as suas existências bidimensionais. Simulacros de vidas? Variações em torno das vidas que nós próprios deixámos para trás? Memórias perdidas que não se resignam ao olvido?” (pág.176).

E ao abordar uma página dedicada à literatura infantil (pág.176) com a história da Princesa Magalona, soube avivar , mais uma vez, os sonhos de todos nós  e revolver saudades , mesmo que sobressaiam algumas amarguras  nesse sonhar acordado. E ao passar para as “aventuras e hilariantes de Dom Roberto, do Diabo, o Barbeiro, o Padre, o Polícia, forcados, bandarilheiros, o Barbeiro, o Padre, o Polícia, os forcados, bandarilheiros e touros, mais a Princesa Magalona, a Imperatriz Porcina e a Donzela Teodora, atinge em cheio a juventude de muitos de nós. Inolvidáveis momentos sempre presentes nas nossas recordações! Acho que me ainda escuto a rir, rodeado de olhares tão carinhosos e tão cúmplices. Afinal, onde estão? Por mim, continuo lá, porque a realidade  é mesmo “aquilo em que acreditamos”(pág.184).

Finalmente leio o capítulo “Não Me Deixes” (a partir da pág.186). E o que leio e medito? Percebo que quer fechar o círculo maiêutico como começou, para não se escapar da razão do seu romance: A procura incessante que o seu interlocutor estivesse sempre presente em toda a narrativa, tornando-se ele, igualmente, um porta-voz das suas histórias/mitos/mitos/histórias tivessem elas as formas que tivessem mas também das suas angústias, dos seus sonhos, das suas memórias, do seu acerto com uns salpicos autobiográficos, de um certo erotismo como ritual pacificador, do alcance máximo das relações homem /mulher/mulher/homem, umas vezes conseguidas, outras nem por isso, da lógica do mito O mito é o nada que é tudo”( Fernando Pessoa) e da forma melhor do amor, fonte perene da humanidade.

Assim, não pretendendo com estas palavras um pouco soltas e nunca exaustivas, assumir qualquer tipo de crítica literária e muito menos de recensão crítica (para as quais nem sequer estou habilitado), não poderei de expressar aqui os meus mais sinceros parabéns por esta obra tão bem conseguida: é um romance muito bem estruturado que facilita a leitura e é revelador de grande imaginação, fantasia, sensibilidade, cultura e um sentido estético muito apurado.
Lhe auguro, por isso, triunfante caminho…
Com estima e consideração,

Manuel Carlos Marques Pinto
 Em 23/03/2015
Texto escrito de acordo com a antiga ortografia



segunda-feira, março 30, 2015

Do palco à caverna

«Já o teatro propõe-nos o caminho inverso – o regresso ao útero da história. A cortina só se abre quando o público mergulha na escuridão. É então que tem início o ofício sagrado, já que o que se passa no palco, iluminado por velas, tochas, reflectores, holofotes ou luminárias, é sempre um exercício que busca religar a humana transcendência à sua fugidia existência.» 


Edinburgo - durante o Festival. 
Mas sempre que entro num teatro, seja qual for a sua dimensão, sinto um frémito de reverência. Não pelo espaço em si, mas pelo que ele comporta, guarda e permite transpor. Sentia exactamente o mesmo no tempo em que trupes de saltimbancos, palmilhando o mundo de terra em terra, levavam esta magia no bojo das suas miseráveis carroças de mulas, que, num desdobrar de tendas, numa fanfarra de músicas, e num artifício de corpos e adereços, pelo poder sagrado da palavra, devolviam à vida enredos de comédia ou tragédia, que ignorados demiurgos haviam engendrado. Quem eram eles? Nunca sabíamos. Não queríamos realmente saber. Não eram os autores das histórias que nos importavam.» - p. 10, Xerazade - a última noite.

domingo, março 29, 2015

Cinco estrelas para Xerazade



Em Goodreads, a opinião de Sofia Teixeira, autora do Blogue Bran Morrighan, considerado de forma consensual um dos mais interessantes blogues literários, sobre Xerazade - a última noite, a que dá cinco estrelas: «Tendo lido apenas um único livro, que poderei esperar deste novo num formato diferente? Lido este segundo, Xerazade - A Última Noite, tenho a certeza que não podia estar mais certa quanto à minha opinião e que Manuela Gonzaga é das melhores escritoras que alguma vez li.»


Transcrevo o seu texto na íntegra aqui: 

Opinião: O meu primeiro contacto com a escrita da autora Manuela Gonzaga deu-se com a sua obra Moçambique - Para a Mãe Lembrar Como Foi, escrito em honra e memória da sua mãe. Mesmo sendo autobiográfico, houve algo na sua forma de expressão que me conquistou, um sentido de personalidade e força, mesmo no meio das fraquezas, que rapidamente humanizou aquela imagem de escritor que muitas vezes temos tida como distante e fria. Não foi surpresa para mim quando, fazendo o balanço das leituras de 2014, não tive dúvidas que aquele era um dos livros do ano, não havia outra hipótese dada a sua qualidade. Quando elevamos assim a consideração e o gosto por um escritor, pegar em algo novo seu causa sempre aquele formigueiro de expectativa. Irei gostar tanto como o outro? Tendo lido apenas um único livro, que poderei esperar deste novo num formato diferente? Lido este segundo, Xerazade - A Última Noite, tenho a certeza que não podia estar mais certa quanto à minha opinião e que Manuela Gonzaga é das melhores escritoras que alguma vez li. 


«Não tenhas medo. Não é para sempre. Se nunca nos perdemos até agora, não será desta que tal acontecerá. Temos de aprender a aceitar as separações com a serenidade que nos for possível. Sabendo que todas elas escondem a alegria dos reencontros que nunca nos falham


Ao contrário do que nos tem habituado, Xerazade até pode ter algo de auto-biográfico, mas pegamos nele enquanto romance, enquanto universo que nos engole e nos consome à medida que percorremos cada página. Tal como a própria narrativa o vai demonstrando, também a leitura se torna febril capítulo após capítulo. "Não me deixes.", desejo sentido pelos protagonistas, mas também pelo leitor, que se vê vazio quando tem que pousar o livro. 


«Nunca devemos mostrar tudo o que temos, quando o que temos é mais do que quase toda a gente tem. Não são luxos, mas passam por isso. São mais do que isso, até. São frutos de muito amor e muito labor. Mas as pessoas só vêm o resultado final e então provam o mais ácido dos venenos. A inveja.»


Quem é que não conhece as Mil e Uma Noites? Em que Xerazade empreende num plano arriscado para salvar a vida das mulheres que o sultão insiste matar todos os dias? É com estórias, as mais belas e aterradoras, em que a eloquência e a sagacidade com que desenrola cada fio narrador lhe concede mais algum tempo de vida. É num formato parecido que viajamos por uma estória que é de dois, mas de muitos mais, uma trama apaixonada que não se prende a estereótipos e que expele as mais diversas emoções inerentes ao ser humano - paixão, amor, dor, ódio, rancor, lealdade e traição, entre tantos outros.


«A dor tem muitos rostos e muitas formas de se fazer sentir.»


Existe uma genialidade nesta narrativa que está ao alcance de muito poucos, ou de mais ninguém. Não é algo que se compare, é certamente belo e fascinante, mas penso que acima de tudo único e, mais uma vez, Manuela Gonzaga mostra a fibra de que é feita. Flexível, sem quebrar, forte sem deixar de ser sensível, e uma capacidade de projectar os cenários mais simples de forma tão intensa. Existe uma estética e uma imagética tão sedutores quanto torturantes, no bom sentido, pois queremos rapidamente chegar ao fim sem que na verdade toda esta musicalidade mitológica, real, filosófica e paisagística termine. 


«No princípio de todos os princípios, foi o som. Depois, a palavra. Por fim, a música. A trindade primeva da criação. A sua emergência em espírito, alma e corpo. Um corpo de glória, cuja pauta são os números sagrados. É por isso, que a música está em todo o lado — desde os confins do espaço e do fundo dos tempos, à incerta e delicada estrutura atómica. Cada estrela, cada planeta, cada galáxia, cada cometa e cada asteróide cantam na sua própria vibração. Assim como cantam todos e cada um dos corpos — da célula ao átomo e seus componentes até à plataforma fantasmática da preexistência quântica. A música mora em tudo e em todos. E está presente até no silêncio. É a assinatura da vida.»


Todos conhecemos a lei da atracção e da unicidade da matéria que nos faz reflectir, que nos leva a questionar o que nos rodeia. Neste contexto, mais do que um livro que dá respostas, através de Xerazade a escritora levanta várias questões, confronta o leitor com a sensação do todo, mas também com a inevitabilidade da perda, do que fica no fim. Era capaz de esgotar elogios no que a este livro diz respeito e mais, tenho a certeza que esta obra se vai tornar num Clássico da Literatura Portuguesa. 

Sofia Teixeira, 22 de Março de 2015»




domingo, março 15, 2015

Enquanto isso, eu penso no meu Touro do Céu

Um extracto de Xerazade - a última noite - um romance que quase se foi escrevendo a si próprio, num deslindar de memórias, aforismos e lendas que uma mulher, em jeito de despedida, vai contando ao seu amante que, inconformado, se recusa deixá-la partir.

Europa e o Touro, Museu de Tarquínia, c. 480 AC
 
Enquanto isso, eu penso no meu Touro do Céu
[...]
O que sucede às palavras quando o som foge delas? O que sucede à luz quando todas as suas partículas escolhem ondular pelo infinito mar do devir? E nesse vaguear marinho, em que matriz encaixar os nossos desejos e apegos? Gostava de certezas, neste momento em que a única certeza é o incerto acontecer. O pior é que só me veem à memória toadas infantis, cantilenas de embalar e histórias do tempo em que os animais falavam e só crianças ou tolos entendiam o que eles diziam. Caminhámos tanto, e afinal o que nos resta é um punhado de canas, um punhado de histórias e um punhado de pérolas soltas?

Diz-me se isto faz algum sentido.

Sou de um tempo em que fadas e anjos eram quase da mesma família. Sou de um tempo em que, entre fadas e anjos, se estendia uma muralha de fogo e um redemoinho de anátemas. Sou do tempo em que fadas e anjos jaziam, lado a lado, num sepulcrário, o mesmo, atulhado de fantasias quebradas e arrumadas a eito. Podíamos visitá-los como quem percorre um museu, ou a cave de um teatro barroco, precioso mas entretanto abandonado, atulhada de adereços inúteis, sem uma única referência de como, quando e para quê foram usados. Sou de um tempo em que já nem se falava de fadas, nem de anjos. Sou de um tempo em que inventámos uns e outros, à medida que eles próprios nos inventavam também.

É a memória um jogo?

O meu Touro abriu as asas. Céus, como ele ri! Amor, muito antes de Creta, entre mulheres e touros existe uma aliança. As mulheres não ferem o touro, brincam com ele. As mulheres não matam o touro. Amam-no. Que algumas reclamem para si a arena, a espada, a verónica, o cavalo e as bandarilhas, prova apenas o quanto nos afastamos da essência. Do fruto, sobraram as cascas. A semente perdeu-se há muito. Do gesto, secreto, resta, em mímica adulterada, a profanação de um mistério transformado espectáculo, e sem sentido algum. A não ser o mais primário de todos os sentidos. O prazer de cheirar e ver correr sangue. Muito sangue.

Desde que não seja o nosso.

Lembra-te do tauróbolo. Estivemos juntos em São Clemente, Roma, só que dessa vez nenhum de nós se lembrava. As imagens que guardamos desses dias, tiradas com uma câmara de plástico comprada numa loja de souvenires perto da Fontana de Trevi, mostram-nos de mão dada diante da basílica erigida sobre a primitiva igreja que, nos primórdios do Cristianismo veio encapsular um Mithraeum[1]. Imagina: Cristo e Mitra reunidos no mesmo espaço. Religião e arqueologia, camada por camada, século após século, andar por andar. Descemos até às entranhas.

Vimos tudo – e não vimos nada.

Mas o mistério persiste na cave outrora vedada a mulheres. Amor, desta viagem tens de te lembrar, foi tão recente. Nós os dois, como se nada fosse, rindo de tudo, até das tuas máquinas fotográficas que as crianças nos roubaram, estivemos num dos teatros do deus oriental que nasceu há milhares de anos a 25 de Dezembro para salvar a humanidade. Trezentos anos antes do nascimento do Menino, já Mitra era adorado desde a Índia ao mundo mediterrâneo. Matara o touro por amor da humanidade e o rito repetia o misterioso ciclo. Às ocultas, na sacralidade do espaço iniciático onde o touro era degolado para o seu sangue cair sobre o neófito. No Mithraeum de São Clemente não rimos.

Mas também não entendemos.

O que sobrou do velho culto? Um arremedo. O touro, a arena e um virtuoso. O Matador que demanda assistência e bebe aplausos, na encenação de uma morte precedida por uma espécie de bailado em pontas, gestos largos, ondular de capote, e muitos ferros cravados num corpo palpitante, perante uma assistência que respira o cheiro do medo e rejubila com a agonia, e reclama a estocada final. Mas antes, é preciso provocar, magoar, perseguir sem descanso. No lugar do círculo, sob a claridade estonteante do meio-dia, o toureiro encomenda-se à Virgem, cujo filho se ofereceu em holocausto, tomai o meu corpo, tomai o meu sangue, como símbolo de Redenção e aliança. Que ironia. Sob a pretensa invocação de um arquétipo do herói, a larva transmuta-se em pequeno tiranos enfeitados de sangue e joias falsas.

Pensa: porque motivo, na arena, o macho se traveste, meneando as ancas, as pernas desenhadas nos collants cor-de-rosa, as nádegas evidenciadas no fato brilhante, justíssimo, resplandecente de luces, citando o outro macho, em trejeitos de mulher dama, chamando-lhe bonito, chamando-lhe belo? É para juntar mais um engano ao enredo de enganos. O touro confia na mulher. A mulher ama o touro. Deixa-se levar por ele, sobre as águas.

Portanto, o segredo da arena já não é segredo nenhum. São estes homens bamboleando-se como fêmeas que incitam o touro para o magoar, e para serem aplaudidos pela sua morte a que chamam gloriosa para se distinguirem do magarefe que não quer palmas para nada, porque sabe que matar o touro é apenas um trabalho sujo pelo qual lhe pagam. Porque o fazem? Porque já esqueceram. Pensa nas dançarinas em Creta e nos curetes. Recorda Zeus e Europa. Reflecte sobre o crime de Minos, ele próprio filho de um touro, o Touro sagrado. E a vergonhosa maldição de Pasífae que gerou o touro, o Minotauro. Recorda Indra, o que fez do trovão seu aliado. Tu sabes. Eu sei. Alguns ainda recordam. Só eles não sabem nada.

Enquanto isso, eu penso no meu Touro do Céu.


―Estás a delirar. Abre os olhos, querida.

Naqueles dias, sabíamos que é preciso nascer para vencer a morte.

― Não quero saber de grutas, nem de touros, nem de mortes. Estou aqui, ao teu lado. Não te esqueças disso.


 [...] em Manuela Gonzaga, 2015, Xerazade - a última noite, Lisboa, Bertrand, pp. 106-109.



[1] Originalmente, um santuário ao deus Mitra, cujo culto vindo da Ásia Central, se veio a tornar um dos mais importantes no império romano, até ser abolido em 391 DC.
 

quinta-feira, março 12, 2015

Xerazade - a última noite

Uma «última noite» que foi o primeiro dia deste novo livro, que comecei a escrever há nove meses atrás - sim, nove meses - sem perceber que era livro até que, no encadeado das narrativas, muito curtas, que me foram atropelando todos os pensamentos, obrigando-me à sua fixação em suporte digital, percebi.

Havia uma mulher e essa mulher estava a despedir-se do amante. Havia um homem, e esse homem não queria deixar aquela mulher deixá-lo. E havia histórias, muitas histórias que cruzavam os tempos, desde tempos muito remotos, que ela insistia em contar-lhe porque, dizia, eram outros tantos retábulos da vida dos dois, através das muitas vidas em que se tinham cruzado. E porém, estes relatos pareciam também subterfúgios para conquistar tempo... o tempo da distância que ele não lhe deixava tomar...

A principio, eu não sabia dela mais do que ela queria que eu soubesse. E não sabia dele, a não ser por intermédio do que ela queria que eu soubesse. Depois, a história tomou conta de mim, de uma forma avassaladora. Quando disse ao meu editor, Eduardo Boavida, que tinha um livro novo a caminho, ele até se riu. Tinha acabado de lançar Moçambique pra a mãe se lembrar como foi, e o processo fora estimulante, muitíssimo envolvente, mas... doloroso.

Quanto tinha cerca de setenta páginas e um montão de dúvidas, enviei-lhas. Ele gostou. E deus sabe como precisamos de estimulo e apoio nessa fase silenciosa e escondida, em que nos enrolamos nas nossas próprias estórias, procurando dar-lhe o chão seguro de uma narrativa que suporte, com elegância e credibilidade, o seu esqueleto musical.


Ontem, 11 de Março, o livro foi apresentado ao público. Trechos da obra selecionados e lidos na voz lindíssima do Samuel Pimenta criaram uma aura de silencio mágico na sala. Deixem-me acrescentar que a FNAC do Chiado estava mesmo muito cheia. Mas antes, Vítor Rua fez uma apresentação brilhante, generosa, inusitada a reflectir uma leitura muito profunda do livro. E o prazer muito evidente que ele teve em lê-lo. Foi... extraordinário. A principio, o registo era tao como dizer? out que criou uma aura de espanto. Estas coisas da cultura costumam revestir-se de alguma  solenidade excessiva, que, no meu caso, tento arredar. Mas nem toda a gente consegue o prodígio que este músico, este intelectual, conseguiu. Criar silêncios arrepiados e arrancar gargalhadas.

O meu neto, Gabriel, que é um dínamo, um furacão à solta, escutou tudo numa imobilidade reverencial, e isto diz muito de uma criança de três anos que no fim, voltou ao seu estado 'normal' e, saltando do colo do pai, desatou a correr pela FNAC fora, tipo lebre. Ora quando até uma criança assim ouve como o Gabriel ouviu, é porque um anjo passou por aquele espaço. Vítor falou de deus, ao falar do livro, mas nem me atrevo a citá-lo. Quando estiver online, deixarei aqui o que aconteceu e foi filmado.
Vítor Rua, atrás do tablet desdobrável, a apresentar brilhantemente Xerazade - A Última Noite, de Manuela Gonzaga, com Eduardo Boavida e Samuel Pimenta



A todos muito obrigada. Tanto, tanto, tanto. Adorei todos os abraços, todas as palmas, gargalhadas, expectativa, encontros, reencontros com amigos e desconhecidos. Adorei a apresentação do Vítor Rua, e os trechos escolhidos pelo Samuel Pimenta. Agora, o livro já não é meu. É, literalmente, de quem o apanhar. A vossa leitura, fará o resto.