sábado, março 28, 2020

O CANTO DO CISNE

Este conto pungente e tão bem escrito é assinado por SANTIAGO, que, com outro nome, foi um dos participantes das nossas Oficinas de Escrita. Um grande prazer, lê-lo.

O Canto do Cisne
Cisne  X
as imaged by the Spitzer Space Telescope

            Acordo de madrugada. Como sempre. Não preciso de verificar a hora, é a hora de sempre, a hora em que os lobos uivam e a coruja anuncia mais uma desgraça à porta de quem a escuta. Não me recordo de ter ouvido a coruja à minha porta. Olho pela janela recortada pela cruz de ferro que me separa da noite. O luar é a única forma de luz que chega até mim. Estou deitado e o luar aconchega-me, cobrindo todo o meu corpo. Sigo um dos raios do luar até às estrelas. Faço espécies de desenhos unindo as estrelas de várias formas. É um dos meus passatempos até ao nascer do sol. É assim que engano esta insónia que dura desde que aqui acordei, neste cárcere impiedoso cujas paredes insistem em sufocar-me. A cada noite que passa são mais uns centímetros que elas se movem para me aprisionar mais e mais.
            Tento reproduzir numa folha este céu de inverno, uma carta celeste, tento unir as estrelas de forma a desenhar o teu rosto. O rosto que guardo e que amo incondicionalmente. Cada ângulo, cada poro, cada imperfeição na perfeição do que somos. Saudades de ti e de nós. No luar do nosso amor. Simão, se chamar mais alto, junto á cruz de ferro que me separa de ti, será que me ouves? Será que cada grito que lanço na noite chega até ti e vens salvar-me deste sufoco?
            — Simão! SIMÃO! SIMMMÃÃÃÃOOOOOOOO…
            Raios que enlouqueço, ainda alimento esta esperança inócua. Noites de anseios e desespero por uma resposta que tarda. Um inverno que me assombra, sem saber os motivos para este abandono. Simão, será este o castigo por te amar de uma forma que ainda não foi descrita em um qualquer livro de ciência ou pintada num quadro de um artista famoso exposto em um qualquer museu do mundo? Insisto em chamar o teu nome
            — SIMÃO…MEU AMOR, ESTOU AQUI, AQUI… SIMÃÃÃOOOOO…
            Coloco teu rosto celestial sobre a mesa, junto a dois livros que aqui se encontram. Não me recordo de quem os aqui deixou. Ou quem me ofereceu. Não me recordo sequer se os li. Ou se algum dos meus amigos me emprestou com pena das minhas insónias contemplativas. Um livro de contos de Vergílio Ferreira e A Caverna de José Saramago. Amanhã talvez comece a ler um deles.
            Falei-te dos meus amigos. Que amigos? Perguntarás tu, conhecendo-me como a pessoa reservada e com barreiras imensas no contacto social. Sim, amigos. Uma memória ténue de amigos aqui neste espaço gélido. Vislumbro conversas no pátio sombrio de árvores despidas. Poucas palavras. Mas palavras suficientes para uma cumplicidade de união que nos salve do desespero último.
            — Simão, se sonhares comigo, envias-me um qualquer sinal?
            — Para onde e como envio esse sinal?
            Senta-te ao piano, abre janela da sala, toca um dos noturnos de Chopin e deixa que a brisa se encarregue de te trazer até mim...
            Gostava de me lembrar dos nomes desses amigos dos quais te falo. Algo me impede. Um espaço em branco... e ouço gritos e ameaças que me encolhem e me deixam indefeso. Estou num gabinete amplo, com dois homens de fato preto, com ar sisudo e compenetrado, murmurando entre si para que não os ouça. Não os ouço. Só vejo aqueles olhos de Adamastor, bocas que se espumam como ondas contra as rochas e dedos em riste a apontar em ódio e raiva.
            — Ali é a constelação da Cassiopeia, em forma de W. Aquela é a constelação do Cisne. Ali, começa por olhar a estrela brilhante, Deneb e a seguir vês uma espécie de cruz alada, uma cruz de esperança.
            — Imagino deus assim, com asas, num voo delicado pelos céus a indicar-nos um caminho...
            — Simão, é por isso que gosto de ti. Vês o belo no mais simples e consegues tornar tudo tão mágico. Acreditas na vida. E fazes-me falta quando à noite não vejo o Cisne com Deneb a mostrar-me o caminho.
            Estremeço quando me levanto. Confronto-me comigo no espelho, lascado e manchado de outros prisioneiros que aqui estiveram. A contemplação tem destes efeitos. O confronto, o reconhecimento, o ardor nos olhos do sal que entra, a alma que se contrai. Um espelho velho, lascado que dilacera o íntimo. Não tenho a certeza que te chamas Simão. Não sei sequer se existes. Meu Deus. O espelho e eu em confrontação e nem sei sequer se te chamas...a mesa é real, os livros em cima da mesa, às páginas tantas são pó e imagens desfragmentadas que vão e voltam e apenas a certeza do meu rosto no espelho. Aparento ter uns 35 anos, talvez 37 anos, ou até 40 ou 50 anos. Já não sei como é um rosto de 35 ou 40 anos. Os olhos cor de mel, orelhas grandes escondidas pelo cabelo castanho e cinzento. A última vez que me cortaram o cabelo...foste tu? És tu quem me corta o cabelo? O nariz forte e bem vincado, escondendo os lábios finos e sedentos por um beijo húmido. A linha dos maxilares bem definida que termina num queixo bem presente. Visto a roupa que usei quando fomos jantar ao restaurante indiano na Rua Nova, na noite em que decidimos mudar de casa. As calças de ganga pretas, a camisa rosa com linhas azuis claras, muito subtis e os sapatos de camurça castanhos já rompidos de tanto andar às voltas...
             — Vamos mudar de casa?
            Hoje a minha casa é outra. As paredes não são brancas, nem existe uma claraboia nas escadas, nem tenho um sótão com águas furtadas para ver o céu. Só um buraco com uma cruz de ferro, a partir do qual contemplo Deneb.
            — Vamos mudar de casa?
            Com um quintal nas traseiras, podemos ter um limoeiro, uma laranjeira e um carvalho? Podemos colocar uma cama de rede, um pequeno lago e plantar ervas aromáticas. Deixa-me registar isto numa folha. Vou guardar no meio do livro do Saramago. Ninguém vai saber. Só eu e tu. Só nós.
            — E adotar um cão?
            Esta caneta já não escreve. Vou escrever com a caneta preta, não te importes.
            — Baltazar é um bonito nome para o cão. Baltazar. Eu gosto. E tu?
            E guardar no meio das páginas de A Caverna do Saramago. A tranquilidade que chega com o prenúncio do nascer do dia. E quando mexo nos livros sobre a mesa, cai um envelope. Uma declaração de honra. Assinada por mim. Mas que raios! Assinada por mim. Assumindo ser um espião, conivente com o sistema. Eu a desvendar os crimes de outros prisioneiros que o sistema não consegue deslindar... sob pena de ser privado do único buraco que me permite contemplar Deneb e o seu brilho. Aqueles dois homens, que em contornos obscuros me surgem na memória, que me fazem estremecer de medo. As cicatrizes no meu rosto, que vejo no espelho, as nódoas negras na testa e nos olhos... aqueles monstros...
            — Vou sempre proteger-te dos monstros que te atormentem.
            — E se forem gigantes como o Adamastor?
            — Eu consigo ser mais gigante e amedrontá-lo até se encolher como uma tartaruga dentro da carapaça!
            Fazes-me falta aqui. Preciso do teu grito de Adamastor para que eles se encolham nas próprias carapaças. Por favor! POR FAVOR! Não me ouves pedir POR FAVOR!!! Serei novamente espancado e torturado se não levar nenhuma informação. Eu que pouco ou nada falo. Só com duas pessoas, aqueles amigos que te falei. Amigos porque me tratam bem e sentamo-nos na mesma mesa à hora do almoço. Quando não gosto da sopa, ofereço-lhes e agradecem com bons modos. Após o almoço costumamos estar sentados no pátio debaixo do carvalho. Na sombra. A falar de como é belo o céu azul e a sensação de liberdade de estar num pátio sem teto. Não sei porque estão cá, não falamos do passado. Também não partilhamos sonhos. Nem me recordo dos nomes deles, nem sei se alguma vez lhes perguntei ou se eles se apresentaram.
            As páginas do livro do Saramago estão manchadas com uma cor vermelho forte. Algumas páginas estão coladas por essas manchas. Sinto nojo. Será sangue de alguém que aqui esteve. Será uma piada de mau gosto de alguém que deixou aqui os livros para me intimidar? Porque não param este jogo estúpido, deixem-me sair daqui!!!
            — É de um dos teus escritores preferidos, penso que ainda não tens este.
            É sangue. Tenho a certeza que é sangue de alguém.
            — Depois de leres, emprestas-me para eu também ler? Entretanto vou lendo o livro de contos que me ofereceste no Natal. Já estou na página 53.
            A mesma cor na minha camisa. Manchas com a mesma cor. O que é isto? Sujei-me com o livro. Encostei-o a mim quando tentei esconder o papel que escrevi no meio das páginas. Raios! Tento esfregar, mas as manchas estão tão agarradas que não saem.
            — AAAHHHHHHHH!!!!!!
            E num impulso, dou um murro no espelho que se parte. Lascas de vidro no meu punho. Sangue que escorre pelos meus dedos. Sangue na minha roupa, sangue no chão. Dispo a camisa e enrolo na minha mão para estancar o sangue. Sinto náuseas. Sabes como eu não consigo ver sangue. Os vidros espalhados pelo chão. O choque. Tremo com o choque. Cada vez mais dificuldades em respirar. Respiro fundo 10, 9, 8, 7 TAQUICARDIA 6, 5, 4, 3, 2, 1...
            — E fica consciente, atento à respiração. Podes fazer contagem se for mais fácil manteres-te presente. Inspira 1, expira 1.  Inspira 2, expira 2. E assim sucessivamente até 10.
            Começo a recordar-me. Naquela noite. Não, não pode ser. A tua voz, a minha, a falar alto, muito alto, na sala. Uma faca na minha mão. O livro do Saramago na tua. O teu corpo caído. A poça de líquido vermelho que aumenta debaixo de ti. Eu paralisado junto de ti, já não me respondes.
            — Simão... SIMÃOOOOOOOOOOO...
            As luzes da ambulância que me encandeiam, a sirene do carro da polícia que anuncia ao mundo quem eu sou.
            Debaixo da porta deste cárcere desliza um papel. Abro-o e leio
" Hoje depois do almoço, no sítio do costume, eu e o Zeferino queremos planear contigo a nossa fuga. Renato".
            É a olhar para o espelho em pedaços que planeio a minha fuga. Só eu. Num ato de egoísmo. Escolho o pedaço de espelho mais pontiagudo, o que eu penso que é mais forte para conseguir cortar estas camadas de culpa e arrependimento. E enquanto respiro fundo
            — Inspira 1, expira 1. Inspira 2, expira 2. Sucessivamente até 10.
            sigo Deneb na cauda do Cisne que me leva para longe. Para junto de ti. Para sempre teu.


Guimarães, 26 março 2020 // autor: Santiago


Créditos da imagem: NASA - http://www.nasa.gov/mission_pages/spitzer/multimedia/pia15253.html, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=19475200

LIBERDADE INCONDICIONAL

Já sentia a vossa falta! Os tempos em que vivemos, e a história que uma grande amiga minha partilhou comigo, serviram-me de mote para o lançamento de uma nova Oficina de Escrita. O tema, Liberdade Incondicional, vem de caminhos que trilhei há uns anos, quando fui pré-candidata pelo PAN às eleições presidenciais (2015), O meu manifesto eleitoral teve essa frase por titulo. Agora, tratou-se de outra partilha. E abri inscrições para uma oficina que já deu belíssimos resultados que partilharei aqui. Este, o primeiro, é  meu e ilustra, de algum modo, o ponto de partida. Somos sempre livres, quando somos donos da nossa imaginação criadora. 





Um admirável mundo novo só para nós


Naquele tempo, fechavam-nos num grande quarto vazio, com janelas inatingíveis, e deixavam-nos ali ficar até as visitas se irem embora. Ora acontecia que a casa, um palacete do século XVIII, recebia muitas visitas. E acontecia também que os adultos eram tão altivos e distantes, que de tão pequenos que eles eram, praticamente só os viam do joelho baixo. A começar pelo grande pai e pela linda mãe que eram, seguramente, muito apaixonados porque a relação deles já produzira 13 filhos, quase em escadinha, entre rapazes e raparigas. Eles os quatro, eram os mais novos. Tinham entre os sete e os dois anos. Todos leão de signo.

Quando, na prisão onde os encerravam, prudentemente vazia de tudo o que lhes pudesse causar dano, brinquedos, livros de colorir e lápis de cor inclusive, um deles, ou vários, precisavam de ir à casa de banho, atiravam-se todos juntos aos pontapés à porta de madeira maciça e gritavam sem parar. Ao fim de algum tempo, um dos irmãos mais velhos, ou uma das criadas, era assim que se chamavam, vinha ver o que se passava com os ‘fedelhos’ e tratava do assunto, levando-os à casa de banho e trazendo-os, sem contemplações, de volta ao isolamento. Como todos se esqueciam deles, às vezes, aquelas crianças tinham fome. Apartadas por completo do resto da casa, que, com as constantes visitas, estava sempre numa azáfama festiva, aspiravam gulosos e esfaimados o cheiro dos bolos, e ouviam o tilintar das pratas e dos cristais nas bandejas que as criadas levavam de um lado para o outro. Então, rangiam os dentes de fúria, e na sua raiva de leõezinhos enjaulados, começavam a gritar e a ferir ininterruptamente a porta, com pontapés vibrantes desferidos pelas sólidas botas de carneira. Até o bebé de dois anos entrava nesta rebelião. Por fim, um dos mais velhos lá trazia, racionadas, as bolachas maria a que cada um dos ‘fedelhos’ tinha direito. Quando vinha uma das criadas, havia lanche a sério. Mas era raro.

Foi então que ela se lembrou de lhes contar histórias. Ela tinha recursos que ninguém imaginava. Ela sempre conseguiu sair dos espaços onde a aprisionavam, pela porta grande do pensamento livre. Ela voava. E, nessa alturas, voltava a Casa, porque sempre soube que a sua morada não era aqui. Ela está cá de empréstimo, para ajudar. Silenciosamente. Discretamente. Remotamente. Mas sempre tão presente. Então, naquela prisão de crianças, começou a falar aos irmãos de um grande viagem e de um grande projeto, só deles.
«Vamos sair daqui para fora».

E ali estavam aquelas crianças deitadas no chão, de barriga para cima, a olhar para o tecto a quatro metros de altura, todo trabalhado em volutas, cornijas, florões, em gesso pintado, de uma geometria hipnótica e fascinante, por onde ela entrava e de onde partia para o outro lado de um mundo, onde tudo o que se imaginava podia ser realizado. Eles seguiam-na. E todos contribuíram para a construção de um mundo novo onde não havia absolutamente mais ninguém, a não ser eles os quatro. Pai, mãe, irmãos mais velhos, criadas, cozinheira, todas aquelas pessoas que, de modo geral, só viam dos joelhos para baixo, desapareceram de vez, porque, e de comum acordo, as quatro crianças aprisionadas resolveram matá-los, sem contemplações e com assumida satisfação. Mataram-nos até os verem mortos e bem mortos, e, depois, enterraram-nos até os verem bem enterradinhos. Começaram pelo pai e pela mãe. A seguir, pelos irmãos. Depois pelos outros adultos todos que conheciam. Não sobrou ninguém.

O mundo deles, era só deles. Quatro leõezinhos coroados e donos absolutos de um admirável mundo novo. Havia pássaros? Oh, sim. E borboletas, joaninhas, formigas, cães. gatos, vacas, coelhos carneiros. E mar, rios e peixes. Tudo o que lhes viesse à cabeça, e que gostassem de ter por perto. A história, esmaltada de cores vibrantes e figuras animadas, tornou-se de tal forma o seu refúgio encantado, que, agora, quando chegava o momento de os levarem para a prisão das crianças, em vez de serem arrastados, a espernear e aos gritos, iam aos saltos de alegria.

Sem saberem sequer o que isso era, estavam a fazer a catarse de todas as maldades de que sentiam alvos. Deitadas no chão, de barriga para o ar e a olhar para o tecto hipnótico de onde saiam para o novo mundo, as quatro crianças sentiam-se cheias de força. A irmã que os guiava, deixava-os à solta. E estas viagens empoderaram-nos para a vida. Sem mágoas, nem contas para acertar. Nunca ninguém soube do que se passava. Sei eu, agora, e vocês com quem esta narrativa é partilhada. Entretanto, a minha amiga que vive entre mundos, continua a cruzar fronteiras sem dar contas a ninguém, mas anda há anos a ensinar e a ajudar quem precisa, resgatando pessoas e já são tantas mas tantas mas tantas mesmo.


quinta-feira, janeiro 31, 2019

Os castelos de São Pedro

Por aqui, há muitos castelos. São castelos mágicos. Os espargos selvagens não o dispensam. Outros dizem que os duendes também não. Soubera eu encontrá-los. Aos duendes.

domingo, janeiro 27, 2019

Quando Chang'an?

À noite, ouço a música das ondas na imensidão de areia que cobre as cidades mortas no deserto de Taklamakan. Vejo o vento dançar nas dunas e erguer do pó Serafins com rostos de homem e asas de anjo. Uigures de pele escura, narizes grandes e vozes profundas a cantar as tempestades que sepultaram palácios e templos e mercados e casas nos oásis, e os ladrões de túmulos petrificados de medo porque o ouro dos seus saques voltou ao altar de Kuan Yin, a que ouve os lamentos do mundo. A da Compaixão.

Amor, somos tão efémeros e a viagem é tão longa. 

Quando verei Chang'an?



quinta-feira, novembro 08, 2018

A Crise Académica de 62 e a Guerra Colonial


Ao longo deste mês de Novembro, ainda na ressaca das patetadas de praxes idiotas, algumas bem graves, seria de bom tom recordarmos que no século passado, anos 60, os nossos estudantes universitários lutavam por causas bem maiores. Causas que pediam uma coragem que anda meio esquecida... nesse aspecto, a Crise Académica de 1962 como ficou consignada na História, foi o primeiro caso grave de agitação estudantil sob o Estado Novo, e a primeira das grandes lutas de estudantes dos anos 60 em toda a Europa.


De volta dos meus papéis, e estudos, e livros, retiro das páginas de 'Moçambique para a Mãe se Lembrar como Foi', estas linhas:

25 de Novembro de 1961

'Em 1962, de Março a Junho, Portugal vivera quatro meses de crise estudantil, assinalados por plenários, manifestações de rua, greves aos exames e «luto académico», contagiando outras Universidades. Esta crise fora anunciada no jantar das comemorações do 25 de Novembro de 1961 que reuniu em Coimbra estudantes de todo ao país. Foi a primeira gota de água de uma caudalosa contestação que se prolongaria pelo ano seguinte. Tudo começou com mais de duzentas pessoas e um lema «Queremos Paz!», num coro de protesto contra a Guerra Colonial que inspirou um cortejo animado pela cidade de Coimbra, a que as forças policiais responderam como as mandaram responder, com espancamentos e prisões, que não conseguiram impedir uma vaga de apoio que os secundou por todo o país.

A tensão aumentou num crescendo que viria a eclodir em 1962 na cidade de Coimbra e em Lisboa. Para a história ficou o registo da repressão brutal exercida pela polícia de choque, que espancou manifestantes nas duas cidades, prendeu muitos, e expulsou muitos outros. A Crise Académica de 1962 como ficou consignada na História, foi o primeiro caso grave de agitação estudantil sob o Estado Novo, e a primeira das grandes lutas de estudantes dos anos 60 em toda a Europa[1].
Só nós, a maior parte de nós, não sabíamos nada disto, porque os jornais transmitiam a conta-gotas as noticias do que se passara, desvalorizando o número dos envolvidos e enquadrando os seus objectivos na generalizada designação de «arruaças» instigadas por «provocadores» mal-intencionados, inimigos da nação, a que não convinha dar crédito, porque os nossos governantes eram fortes, e já tinham tomado conta do assunto.

Mas, e uma vez mais… o que sabíamos nós, portugueses da metrópole, da África então portuguesa? Nada. Ou muito pouco. Uma coleção de estereótipos a legendar belas imagens mal coladas umas às outras, de onde se evolava o perfume da lonjura e da liberdade dos grandes espaços indómitos.
[...].'





[1] Em, por exemplo José Barreto, «O Islão do século XX’ e o comunismo do século XXI» em Villaverde, Manuel, e outros (org.), Itinerários: A Investigação nos 25 Anos do ICS. Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2008, p. 793.

António Variações - É a Vida Alvim!


Fernando Alvim conversa com: Manuela Gonzaga, autora de "António Variações - Entre Braga e Nova Iorque"; Álvaro Lopes e Nuno Furtado, a propósito do Dance Summit. (em Canal Q).

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E no próximo sábado, em Serpa!