sábado, junho 13, 2015

Sopas de cavalo cansado

 
Tenho amigos que percebem, a fundo, de economia e tenho tido conversas muito esclarecedoras com eles. Por exemplo, a forma como me explicaram a questão dos ratings fez-me soar campainhas. E foi então que, depois de horas de troca de informações, algumas leituras, um filme pelo meio, e uma noite bem dormida, acordei hoje a pensar em A Selva' de Ferreira de Castro onde, perdidos nos confins da Amazónia, os seringueiros, os tristes que extraiam a borracha, estavam sempre, mas sempre endividados.

O seu ser era hipotecado logo à cabeça: a viagem que os levava ao 'inferno verde' em condições deploráveis, constituía a primeira dívida, a enorme dívida, ao seu contratador. Depois, ao chegarem ao desolado fim de mundo, somavam-lhe as outras, como e na totalidade, o material necessário ao seu oficio, vendido na cantina do «empresário» local. Associado, como é evidente, ao grande magnata borracheiro. Ainda não tinham começado, e já estavam amarrados aos custos das suas ferramentas de trabalho, comida e transporte até ali.

Então, no seu desalento e desgarradora solidão, os seringueiros, em dia de folga, e depois com mais regularidade, recorriam à cachaça: a crédito. Desta forma, quando chegava a hora do pagamento, ficava tudo nas mãos do cantineiro. E a dívida crescia sempre. Até porque os preços dos bens essenciais, por não haver alternativas,eram inflacionados à vontade do credor, o qual, se lhe 'parecesse' que o endividado tinha poucas condições de pagar, subia os juros da dívida à mercê dos seus obscuros cálculos de 'riscos'.

Em boa verdade, todos os trabalhadores eram 'um risco'. Para o patrão que se queixava da quebra dos valores da borracha nos mercados internacionais, o misero salário que lhes pagava era «um sacrifício». Afinal, sustentava ele aquele bando de miseráveis que se emborrachavam com cachaça para conseguirem forças para lhe garantirem, a ele patrão, a vida luxuosíssima nas grandes cidades, a rechonchuda conta em vários bancos, os filhos tratados como príncipes, viajando mundo fora e estudando e universidades europeias. Para além da opulenta casa, ou casas próprias, e das várias casas das várias amantes teúdas e manteúdas em condições que ilustravam a bondade e a riqueza do respectivo protector.

Quem suportava portanto a quebra dos lucros da borracha nos mercados internacionais? Os madraços dos trabalhadores, que constituam igualmente um risco para o cantineiro que tinha fiado e continuava a fiar os bens de consumo daquela récua humana que nunca mais saia do atoleiro infernalmente solitário, desesperadamente verde, a não ser para dentro de um buraco na terra.

Mais coisa menos coisa, o que o FMI aplica aos povos, é a receita dos esclavagistas omnipresentes neste mundo acolitados pela sua guarda avançada. Os cantineiros de todos os tempos e geografias que tratam como cidadãos de segunda os escravizado das coutadas menos rentáveis. Nós, por exemplo. Já os holandeses (que fazem férias no estrangeiro três vezes por ano) e os alemães (idem) estão bem defendidos pelos cantineiros deles, e ninguém lhes chama preguiçosos, apesar de trabalharem menos do que nós, e gastaram muito mais: porque podem.

Assim, jogando com as nossas vidas cada vez mais instáveis, tirando-nos tudo o que podem tirar, mas auferindo salários e regalias absurdas; ofendendo-se quando queremos saber da gestão da coisa pública, porque é nossa e por nós sustentada; os cantineiros do mundo têm como única preocupação agradar aos grandes donos das árvores da borracha, a quem levam a parte de leão do encapotado saque. Um saque com riscos calculados, e muito atenuado nalguns países, onde é preciso não picar demasiado as populações. Porquê? Porque pode correr-lhes muito mal, já que. mercê de um jogo democrático mais transparente, as contas públicas são bem escrutinadas e as responsabilidades atribuídas.

Dito de outra forma, há ainda países neste mundo onde a culpa nem sempre morre solteira.

Por cá...um quarto da população vive já abaixo do que foi delineado como limiar da pobreza.

Por cá... uma em cada três crianças vai para a escola com fome.

Por cá... temos avós a sustentaram, sob o seu tecto, filhos e netos.

Por cá... quem pode, vai para lá. Algures. Seringar por outros lados.

É provável que volte a moda das «sopas de cavalo cansado». Pão molhado em vinho e açúcar, que, por falta de outro alimento, foi o pequeno almoço dos grandes e dos pequeninos camponeses que, depois de começarem o dia a trabalhar no campo ainda de noite, chegavam às escolas caídos de bêbados, no tempo da radiosa ditadura de que muitos dizem sentir saudade.

Depois, dizia-se deles e da gente do campo em geral, ou dos pobres das cidades que eram estúpidos, que a cabeça deles não dava para os estudos, e que eram madraços. Um risco para os seus exploradores, portanto. Aqui, ali, em todo o lado.

Imagem: "Rescued Children," from Best, facing p. 116. Courtesy of the Shaftesbury-Grooms Society



 

domingo, maio 17, 2015

O príncipe com orelhas de Dumbo

Hoje num I que apanhei a jeito num café, li uma crónica sobre o problema do rapaz das orelhas grandes que foi gozado num programa de televisão (sobre talentos...) e a reacção da avó que pede uma indemnização à estação televisiva por danos morais causados ao neto. Basicamente, o cronista defende que a avó é uma chica-espera que ilustra uma nova forma de empresariado que está a proliferar (a dos oportunistas pequeninos) e que quer ganhar dinheiro à conta do neto, porque estaria careca de saber que o formato do programa implica este tipo de bondades. 

Pasmei.


Eu sou do tempo em que os cronistas de um jornal tinham de ter uma mais valia qualquer. Até podiam ser mauzinhos (como o Miguel Esteves Cardoso da época aurea), mas a inteligência, o brilho da escrita!, a graça, a cultura, tinham de prevalecer sobre o mero debicar bitates e ocupar espaço porque o espaço de um jornal custa dinheiro e uma crónica é, ou era, uma espécie de consagração que se outorgava a quem merecia por talentos vários. O que não é o caso deste cronista. 


A sua preopinância não mereceria nem um olhar quanto mais uma reflexão, se não fosse de um moralismo trágico que infelizmente, e pelo nível de ignorância que estamos a atingir, está a fazer o seu caminho.


Até eu, que praticamente só consumo a informação em rede, leio jornais na internet (portugueses e não só) e que 'papo' revistas cor-de-rosa onde as apanho (normalmente fora de prazo), sei e soube que o rapaz das orelhas grandes está a ser criado por aquela avó muito pobre e muito doente, porque o pai morreu de overdose ou coisa que o valha e mãe para lá caminha. 


Até eu sei, e sei pouco ou quase nada do chinfrim mediático destas coisas, que o caso do menino (que tem aulas no ensino especial). ilustra as gravíssimas assimetrias sociais do nosso país de pobres, que empobrece a cada ano, mesmo quando há pobres que até vão tendo algum ou muito dinheiro, e que acham, na sua arrogante pobreza endinheirada que ainda cheira a merda mal desincrustada, que são superiores ao resto que chafurda nos restos. 

E até eu sei que o rapaz, menor de idade de mais a mais, é daqueles pobres a quem nunca ninguém vai dar nada, e muito menos à avó, que para além dele cria mais oito ou nove netos e que julgou, na sua boa fé e ignorância desvalida que a televisão, como o totoloto ou a lotaria, poderiam dar-lhe uma ajuda para qualquer coisinha. A pobreza desta avó é nosso espelho. A pobreza deste menino é nosso espelho. A tristeza dele e a vergonha dele são nossa vergonha também. 


Numa sociedade onde a educação tivesse sido dispensada a todos e a jorros, como em sociedades mais evoluídas; numa sociedade onde filhos de deuses menores e de pais mortos de overdose e outras misérias humanas; numa sociedade mais justa,mais equitativa, mais inteligente e saudável, estes meninos e estas avós não precisariam de sonhar com caixinhas mágicas onde freack shows imperam, disfarçados de oportunidades radiosas. 


Desculpem não pôr o nome do cronista. Esqueci-me e não vale a pena recordá-lo. A crónica nem sequer era minimamente bem escrita.



sábado, maio 09, 2015

Livros com contra-indicações

Eu acho que os livros, como os medicamentos, deviam ter assinaladas as contraindicaçoes respectivas, em letra maior do que a que a indústria farmacêutica utiliza. 

Por exemplo, há livros fortemente desaconselhados aos praticantes da monocultura literária. E assim sendo, é perca de dinheiro e de tempo, investir em obras mais exigentes que impliquem a colaboração de quem lê em modo de atenção plena. A menos que a tal presida uma vontade de explorar novos caminhos que passem por alargar níveis de apreensão do real, e uma crescente exigência estética. De outro modo, o ou a leitora, pode ter sintomas de indigestão e dar o dinheiro por mal empregue. E tem toda a razão!! 


Da mesma forma, um ou uma leitora mais habituado a diversificar leituras, com hábitos de concentração e imaginação mais reforçados, e até uma cultura geral mais aprofundada, não consegue passar das primeiras páginas de um romance banal, e mesmo medíocre, por mais na moda que esteja. 


Eu por acaso, consigo. Em casos muito pontuais, e se não houver mais nada à mão.A prova é que li dois Dan Brown e gostei tanto como gosto de ler livros policiais!! É trepidante, intrigante, razoavelmente bem escrito e não insulta a nossa inteligência.A densidade emotiva da trama é zero? É. O voo é muito rasante? É. Mas entretém por umas horas (dois dias, com interrupções, três vá lá, está feito). E é muito melhor do que ir ao cinema ver um medíocre filme de acção, que o são quase todos.

Ora gostar de livros mais «fáceis» não tem nada de errado. Até porque quem lê, já está em claríssima vantagem em relação a quem nunca o faz. Ler implica um extraordinário exercício mental.Trata-se de (re)construir, na fábrica de sonhos que é a nossa imaginação criadora. os cenários, os actores, a paisagem emocional, onde o enredo se desenrola. 

Na verdade, ler implica sempre a nossa colaboração, o que, de algum modo, nos torna co-autores da obra. 

Dito de outra forma: o leitor tem sempre razão. E o livro, também. Acontece é que há muitos desencontros. Como em tudo. smile emoticon 


Em ultima análise, é o crivo do tempo que coloca tudo nos seus devidos lugares.

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quinta-feira, maio 07, 2015

«O lume que veio das cinzas»

O poeta moçambicano Jaime Rafael Munguambe Júnior enviou-me ontem a sua opinião sobre o meu livro que tem Moçambique no título e no corpo de um revisitar de memórias passadas para memória futura. É um texto belíssimo, o dele, como aliás é tudo o que ele escreve. Mas este, e agora para mim, tem um valor acrescido muito especial. Jaime é negro e eu sou branca. Eu nasci em Portugal, no Porto. Ele é filho da Terra que aprendi a amar como minha, Moçambique. Jaime é mais novo que o mais novo dos meus filhos e a nossa amizade virtual nasceu da paixão, do culto, da Palavra. Ele é genial. Tem o fogo sagrado que habita muito poucos, e para além disso, escreve com todos os sentidos e com todos os elementos. Eu escrevo com o corpo todo, com a mesma alegria e seriedade das crianças que brincam.

Mas as nossas memórias só coexistem, eventualmente, num aspecto: a geografia. Melhor, em dois. Quando o livro saiu e ele leu extractos, escreveu-me a agradecer o amor que demonstrava pelo seu país. Depois, quase um ano depois, enviei-lhe por uma amiga dos tempos do colégio Barroso que continua ligada ao ao seu país, um exemplar de Moçambique para a Mãe se Lembrar como Foi que ele começou a ler.

Aos poucos, deixava escapar alguns comentários. Como por exemplo, este:

«Neste momento, não sei dizer em que geografia pouso. Porém, me ocorre no cais da lembrança o barco da viagem que outrora subi quando à princípio fui folhear a obra de Manuela Gonzaga, deixando assim as palavras perseguirem os olhos e as pálpebras criarem barulho, não deu tempo para fazer levitar o coração das montanhas. Por isso agora estou dentro do lume que veio das cinzas.» (Jaime Rafael Munguambe Junior, 3/04/20215)

Só um poeta poderia escrever isto: «o lume que veio das cinzas» a propósito de um livro de memórias de um, neste caso, uma escritora que só conhece de palavra dada e trocada e comungada.

Pensei, como é um miúdo negro, educado, universitário, poeta, vai olhar para as minhas recordações de branca, que por pouco privilegiada que fosse, viveu o privilégio? Pois foi assim que Jaime Rafael Munguambe Junior olhou, e eu chorei ao lê-lo e não tenho palavras para agradecer a beleza e a ternura do seu comentário:




«Puxado pelo destino e seduzido pelo exorcismo da palavra, tive o ensejo de pousar num telhado literário, inter e pluribiográfico de uma autora que reside no coração do tempo, respira nos palácios das magias, arranca a luz que a hora plantou outrora na geografia moçambicana, mescla os momentos dentro da sombra que o presente tem e colabora com a imortalização dos dias. 

Falo-vos da Escritora Manuela Gonzaga, a máquina tricótoma e humana, que tive e tenho a chance de conhecer a cada dia, no oásis artístico das tertúlias. Na obra Moçambique Para se Lembrar como Foi o passado não é um mero lugar onde habitam as cinzas do fogo aceso pelo presente, é uma prateleira onde cada um é fonte que gera lendas, fonte onde jorra a sabedoria da vida. Digo isso, não pela largura do riso que se abre as duas laudas do rosto (na fotografia exposta na orelha do livro). Mas pela magnificiência que é a Moçambique para Mãe se Lembrar como Foi'. A autora ressuscita das cinzas o fogo, para expó-lo onde a multidão respira Invernos, onde o reflexos das íris e o deserto dos ouvidos são a essência do milagre. 

Em Moçambique para a Mãe se lembrar Como Foi. Manuela Gonzaga abre a porta e tira todos habitantes da memória, para mostrar ao mundo a soma dos tesouros que se transportam no coração de uma mãe. Que para além de ser apenas a da autora passa a ser de todo leitor que entornar o olhar sobre a obra.

Jaime Rafael Munguambe Junior
Maputo, 06-05-2015 15:08





quinta-feira, abril 23, 2015

Do Teatro à Caverna, amor


«É que as histórias, no teatro, ganham o que mais próximo conseguimos atingir no caminho, a nós vedado, da imortalidade. E em certas actuações, amor, o palco é percorrido por um invisível adejar de muitas asas. Então, os actores deixam-se possuir pelo seu o anjo ou daimon, desculpa não traduzir por demónio porque não o é, e todo o teatro acorda, num despertar tão contagiante que até as sombras que durante eternidades viveram na sombra, emergem do seu torpor e, esfaimadas de aplausos, avançam à boca de cena para sorver a energia inconcebível que se derrama do palco para o público e retorna do público para o palco, acrescida de um milhão de vóltios de alvoroço, maravilha e êxtase.

E é desta maneira que o teatro nos devolve, em consciência, ao espaço da caverna do pequeno universo pessoal, cheio de equívocos e lamentos, de risos e absurdidades, amores e desamores, mortes e reencontros. Mas só poderás perceber a sua dimensão transcendente, amor, se esperares pelo fim e te deixares ficar numa plateia que se esvazia de gente. Ou num camarote de onde podes ver a multidão atropelando-se a caminho da saída. Ou mesmo num dos lugares mais modestos, de galeria ou galinheiro, de onde a visão do palco provoca vertigens aos mais sensíveis. A seguir, o que resta? O silêncio. O cheiro. O cheiro inconfundível de um teatro desabitado.

E tu. E o palco oculto pela cortina que oculta os engenhos mecânicos que fazem um palco ser tudo aquilo que nós queremos que ele seja. Uma casa, uma floresta, um oceano, um dormitório, uma prisão, um descampado, um cenário de guerra, uma escola, uma cidade, um templo, um quarto de hospital. Onde estão os actores, as personas que os habitaram, os adereços, a respiração sobressaltada ou indolente do público, o ponto, o contra-regra, enfim, todas as pessoas dos bastidores, ocultas e essenciais, a música, a história que te prendeu durante uma fracção da noite? As palavras mágicas do texto de um demiurgo, que outro demiurgo encenou? Dormem, é isso.

Até ao próximo espectáculo.» 

MG, em Xerazade - a última noite, pp.11-12



  
Summer Festival
Edinbourgh 


domingo, abril 19, 2015

Conselhos a uma jovem escritora?

Tenho muita pena que ela não apareça em nenhuma das fotografias, mas mesmo que aparecesse não iria partilhar o seu rosto lindo e sério publicamente. Tinha uma pergunta seriíssima. «Que conselhos para uma jovem escritora?» Como ela. Intensa, tímida, curiosa, atenta. No final, trazia o meu livro para eu assinar. Aos 14 anos e vai ler Xerazade - a última noite. Já escreveu um livro que, penso, é também guião de filme. Foi na FNAC de Faro, quando ali esteve a falar com leitores, a encontrar e reencontrar amigos. Como a Elza Cunha e o marido, o Luís Bulha e a mulher, a Helena Ralha e a filha, e outros que não conhecia e tive tanto prazer em conhecer.
Foi muito bom.
Em Faro, FNAC

O que lhe aconselhei? Segredo. Silêncio. Porque os sonhos despertam mágoas - em que não consegue sonhar tão longe. E as mágoas despertam rancores. E os rancores acordam a ironia da inveja, essa lamazinha pegajosa que macula as asas e prende os pés no chão da incertezas. É preciso crescer o suficiente para que tal não nos macule, nem magoe... pelo menos tanto. O que lhe aconselhei? Trabalho. Muito muito trabalho. Ser escritor é fazer um pacto com a palavra. Esse pacto é a tempo inteiro. Esse pacto é implacável.

Impossível viver sonhos destes sem compromissos totais.

Ela percebeu tudo.


quinta-feira, abril 16, 2015

«não podia fazer filhos e livros ao mesmo tempo»


Era um senhor muito bom. Só tinha um defeito: não gostava de trabalhar. Passava os dias sentado, a ler e a escrever. Era assim, aos olhos da sua criada, como então se dizia, o Grande Alexandre Herculano. O quanto devemos à sua «preguiça» está por dizer. Aos livros, ao conhecimento, ele dedicou-se por inteiro de uma forma que, hoje, quase ninguém conseguiria entender. 

Fica uma lista de obras suas, digitalizadas, aqui. E uma carta dele, preciosa, que diz tudo sobre as suas opções de vida: 

Alexandre Herculano 


«[...] Tive aos 26 anos uma destas paixões que todos temos naquela idade, mas havia em mim outra mais poderosa, a das ambições literárias. Os meus amores foram com a irmã do Meira, D. Mariana Hermínia. A paixão literária venceu a outra. Tive a coragem de lhe sacrificar esta. Com a minha modesta fortuna não podia fazer filhos e livros ao mesmo tempo. Era necessário ser uma espécie de frade, menos o convento. Falei, pois com franqueza a minha actual mulher, que então era uma cabeça algum tanto romanesca. As mulheres são capazes de actos de abnegação que seriam para nós impossíveis. Já havia rejeitado por minha causa um casamento vantajoso que a família lhe arranjara com um primo, mas à vista das minhas declarações, foi mais longe: aceitou uma posição ambígua, sujeita a comentários e calúnias, sem soltar um queixume, sem a menor quebra durante trinta anos de uma dedicação e amizade ilimitadas. Confesso-lhe que, neste ponto, eu que me parece estar curado de todas as vaidades, ainda tenho vaidade nisto. [...]»

Para ler na integra em ABENCERRAGEM Correspondências #26 - Alexandre Herculano a Joaquim Filipe de Soure, 17/12/2005, consult. a 16/04/2015.