"Vou consoar com uma mulher da vida. Levo peru, rabanadas, fruta cristalizada, espumante. Até lhe comprei um presente. Uma água-de-colónia.”
Há muito anos, a revista CARAS encomendou-me um Conto de Natal: eu teria total liberdade. Tomei demasiado à letra a amplitude dessa "liberdade" criativa e recordei, romantizando um bocado, um episódio dos tempos do jornalismo romântico quando se partia para a reportagem como quem vai para um safari sem utras armas que não as da palavra e da atenção plena, feita de cumplicidades e amor. Uma narrativa que, reconheço, é de uma inconveniência total para o meio de comunicação a que se destinava. Mas a editora e as chefias de redação da revista não comentaram, pelo que até foram muito delicadas. E felizmente enterraram este conto num suplemento publicitário, daqueles que ninguém lê porque são só para vermos as imagens. Sou-lhes muito grata pela subtileza.
Partilho o conto.
“DESTA
VEZ, LEVO EU O PERÚ”
CONTO
Por Manuela
Gonzaga
Ele queria saber que perfume eu usava. Eu disse, depende e não uso
perfumes, só águas-de-colónia. Às vezes, misturo. Não sejas chata, disse ele, dá-me
dois ou três nomes, é para um presente de Natal. Nessa época, era relativamente
fiel ao Miss Dior, ao Dioríssimo, e outro que não me lembro. E
a uma preciosidade, L'InterditbyGivenchy, “o original, que a Audrey
Hepburn criou” como explicou o amigo que mo ofereceu, comissário de bordo da TAP.
Faltavam três dias para a festa da família e ele não tinha nenhuma. Tinha
várias ex-mulheres e uma porção de filhos. Carlos Alfredo. Grande coração. Na
época, os jornais eram muito românticos e ser repórter implicava meter as mãos
no sangue e nas tripas do mundo. Ele era dessa tribo. A 24 de Dezembro, quando
toda a gente se preparava para voltar para casa mais cedo, ele e uns quantos
náufragos de famílias à deriva, ofereciam-se para as reportagens temáticas. O
Natal na prisão. Nas urgências de um hospital. A Consoada na Sopa dos Pobres. Coisas
assim. Três anos antes, tinha ido para o Linhó e até ficou amigo de um recluso.
No ano seguinte, já com este em liberdade, acompanhou-o na sua qualidade de
ladrão, produzindo uma emocionante reportagem que lhe ia custando a liberdade. O
outro convencera-o a ficar à porta, “a controlar”, enquanto esvaziava o frigorífico
de uns ricaços do Restelo que tinham ido passar a quadra ao Rio de Janeiro. “Assobias
se houver crise. É rápido. Bifes, marisco, vinho, guloseimas para os putos.” O
pior é que, agarradas aos comes e bebes, tinham vindo pulseiras, anéis,
relógios, colares, no valor de uma pipa de massa. Carlos Alfredo defendeu o
segredo profissional com unhas e dentes, mas acabou indiciado como cúmplice.
Salvou-o a boa vontade do ladrão, que devolveu as jóias.
Este ano, pensara noutra temática: “Vou consoar com uma mulher da vida.
Levo peru, rabanadas, fruta cristalizada, espumante. Até lhe comprei um
presente. Uma água-de-colónia.” O chefe de redação encolheu os ombros:
⸺ Pagas do teu. E vê lá se não levas uma coça por conta. Parece-me tão… esquisito.
Na edição de 26 de Dezembro, porém, a reportagem dele não constava. Dia
27, quando voltei ao jornal, soube que tinha metido folgas atrasadas e que não devia
aparecer antes do fim do ano. Ao almoço, um camarada de redacção ⸺ nunca se
dizia “colegas”, porque “colegas são as putas”⸺ contou a história. Tinha-o
encontrado, nessa desolada madrugada. A mulher da vida recrutada no Intendente,
começou por fazer uma cena. Depois lá foi com ele para uma pensão, mas sempre a
resmungar, “filho, tu tens uma tara qualquer”.
Ele tratou de tudo. Abriu a garrafa, juntou as mesinhas de cabeceira e
cobriu-as com uma toalha. Até levava velas: “Vai daí, ela desatou a beber e… apagou”. Rimos muito. E ele sem aparecer.
Dia 30, uma rapariga foi ao jornal, à sua procura. Cara angulosa, pele branca e
desmaiada, casaco pelo de coelho, saia comprida, roxa, botas cambadas. Olhos de
quem tem 527 anos. Atendia-a eu. “Família?”, perguntei. Ele tinha tantas
ex-famílias…
⸺ Amiga – respondeu ela. E acrescentou: ⸺ quer-se dizer.
Abreviando, era a tal da
consoada:
⸺ Um homem tão bom. Tão delicado, poças. Deu-me um perfume. Deixou um
monte de dinheiro. E eu, em jejum. Dois copitos e faz de conta que é o meu
homem, faz de conta que somos uma família. Mais um copo. Tudo tão porreirinho, coiso
e tal. Faz de conta. Tirei os sapatos, doíam-me os pés…
Calou-se, o rosto subitamente cor-de-rosa, olhos aflitos e envergonhados.
Depois acrescentou:
⸺ Lixei-lhe o trabalho, não foi? ⸺ Estendeu-me a mão, com um papel:⸺ O
meu número de telefone. Ele que apareça no Ano Novo. Conto-lhe a vida toda. Até
pode escrever um livro!
Acompanhei-a à escada. Começou a descer, depois virou a cara para cima.
Sorriu, era quase jovem e inocente outra vez:
A cerimónia da cremação pretende libertar a alma de quem morreu. As famílias recolhem as cinzas numa casca de coco, e levam-nas para o mar ou para o rio mais próprio, devolvendo os restos mortais à Mãe Terra.
Da Vida e seus tropeços
Depois, há aqueles dias em que tudo o que era a nossa terra firme desaparece. Amores, bens, casas, empregos, esteios das mais diversas naturezas do palpável. Em breve, os amigos tão constantes, tão presentes, diluem-se num horizonte de solidões. Em boa verdade, não eram amigos verdadeiros. Eram clientes. Da nossa alegria, da nossa riqueza material ou imaterial, do nosso cintilar que, como pequenas borboletas tontas e nocturnas, fogem para junto de outras efémeras luzes. Só que nesse mesmo instante em que parece que tudo acabou, é que a Vida na sua girândola volta a recomeçar e o caminho apresenta-se mais nítido do que nunca. Mesmo através de um véu de nevoeiros e medos e lágrimas, se ainda as soubermos chorar.
Todos os destinos passam por estes ordálios. Todos. Caminhar é viver. Viver é cair e levantar e seguir em frente. Às vezes, só em solidão podemos voltar a ouvir a voz verdadeira que nos indica, sem falha, o rumo da estrela polar da vida que determinámos ser. A nossa própria voz. Daí a importância vital do Sonho, o único bem inalienável que possuímos. Para além do tempo, mas sobre este ultimo não temos poder algum, apenas usufruto.
Ele girou na cama, tomando consciência do colchão duro, dos lençóis leves, do corpo pesado, o seu, subitamente desperto e consciente do outro corpo ao seu lado.
— Abraça-me — pediu ela.
Tinha uma voz rouca e falava muito baixo. Cheirava a animal marinho. Tinha uma pele suave e um corpo denso. Era grande. Era quase tão grande como ele.
— Quero a tua boca — pediu ela.
Ele respirou fundo, extasiado pela onda de um desejo avassalador, tão inesperado que teve vontade de gritar. Estavam deitados numa cama larga, num quarto escuríssimo a espaços fatiado pela claridade incerta de uma luz leitosa. De onde vinha? Aparentemente do exterior, por uma janela que não se deixava ver. O silêncio que os rodeava era quase total. Não se ouviam ruídos de tráfego, barulho de gente, zumbidos de máquinas. Nada. Só um profundo silêncio habitado pela respiração dos dois e pelo triunfante rufar de tambores do seu próprio coração. E por um cheiro amoniacal e doce onde ele encontrou a memória muito antiga de algas meio secas na preia-mar, à mistura com peixes esventrados por bicos de gaivotas famintas, e bagas de iodo a rebentar sob os seus dedos infantis. Há quanto tempo não sorvia aquele perfume?
A boca dela colou-se à sua e a sensação de felicidade tornou-se tão grande que ele sentiu medo. Medo do próprio desejo acordado? Ou da silenciosa e estranha sugestão de ameaça que pairava sobre ambos, como se perigo se ocultasse nas sombras? Respirou fundo. Perigo algum conseguiria diminuir um átimo que fosse da intensidade do desejo acordado pela presença do corpo quente, macio e duro, deliciosamente nu, colado ao seu.
— Volta-te mais para mim — ordenou ela.
E ele voltou-se a tempo de ver, nas tréguas breves da luz que cortava a mortalha da escuridão que os envolvia, os olhos cor de avelã que brilhavam como sóis no rosto que lhe parecia moreno, de uma beleza sem idade. Ela cheirava, também, a canela.
— Cobre-me — exigiu, numa urgência agónica. E ele pensou que a voz dela lhe fazia lembrar o último sopro de um animal degolado.
E foi então, ao cobri-la, que reconheceu a natureza da ameaça que se erguia contra os dois. Num desespero, ainda sentiu o calor molhado do beijo que trocaram e que o orvalhou de um prazer tão intenso que aquele sabor permaneceria nele para o resto dos seus dias. Mas mal conseguiu penetrá-la e muito menos permanecer no corpo que se lhe oferecia. Nesse exacto momento sentiu, num desgosto infinito, que a respiração da mulher, os seios duros, as pernas fortes a enrolarem-se à volta de si, a escura, a escaldante boca, a flor de carne que se abria a acolher por brevíssimos momentos a sua serpente triunfantemente intumescida, tudo se desfazia como uma miragem.
Acordou com uma vontade tremenda de chorar e de rir.
Um homem muito velho, com uma gloriosa ereção de quarenta anos, deitado junto de uma mulher idosa que ressonava baixinho. Ergueu-se em silêncio para não a acordar. Não estava a sonhar com ela. Nunca sonhava com ela. Viviam juntos, eis tudo, numa cumplicidade feita mais de silêncios do que de palavras, há tantos anos talhados em dias tão iguais, que tocar-lhe ou imaginar-se sequer a tocar-lhe por prazer e com desejo, mesmo em sonhos, lhe teria parecido obsceno.
Lentamente, dirigiu-se à janela e espreitou o dia que começava a nascer. «Obrigada», murmurou, a boca quase encostada à vidraça que de imediato ficou embaciada. Depois aclarou a garganta que doía e limpou os olhos húmidos. Quem sabe se e quando voltaria a encontrá-la?
A Noite Escura é um útero sem mãe à volta. É o silêncio da floresta sem árvores, do rio sem água, do caminhar num território onde para cima ou para baixo, para um lado ou para o outro, é igual. Na Noite Escura, o sentir é sem sentidos. O vento não tem asas. O tempo não tem medida. Só existe o trilho singular que se percorre à luz trémula da certeza no devir da incandescente alvorada. São eles e elas que o dizem. Em muitas línguas. Em muitos cultos. Em muitos e desvairados tempos. Eles os bem-amados da divindade que caminham por caminhos que não existem. Eles são o caminho. Eles são. E nós aqui, tão sozinhos uns com os outros, aguardamos o seu sinal.
"Qualquer historiador (e eu sou) tem sempre uma ponta de receio quando começa a pesquisar os seus biografados. E se for tudo mentira? E se tudo não passasse de uma farsa bem montada? Que coerência, que inteligência, esperar dos envolvidos neste duelo? E os médicos estariam realmente de boa-fé, ou e à partida, por afinidades de casta, de classe, de sexo até, decidiram antecipadamente que o desfecho, fosse qual fosse a direção do processo, teria de ser favorável ao amigo e companheiro de causas, dr. Alfredo da Cunha? Haveria mesmo uma história de amor entre ambos, Adelaide e Manuel, ou um deles estaria a aproveitar-se do outro?"
Partilho um artigo meu publicado no Jornal Expresso a 16 de Setembro de 2020
Ricos, famosos, cultos, a viverem num palácio. Mãe, pai, filho. Apontados como a família perfeita...
Já vai na 7º edição
Manuel Cardoso Claro
Uma, entre muitas conferências. Esta na Universidade Lusófona onde a biografia é curricular nos mestrados de Psicologia
Durante o lançamento da obra no Palácio de São Vicente, que me abriu as portas durante largos meses que durou a investigação
A biografia de Maria Adelaide que escrevi com o título de ‘Doida não e não!’ Maria Adelaide Coelho da Cunha foi lançada pela Bertrand em 2009 e relançada em 2018. Fez sucessivas edições. Foi apresentada no Palácio de São Vicente pelo Professor Fernando Rosas na presença de muita gente, e até de descendentes e amigos do casal Manuel Claro e Maria Adelaide (sobrinhos, netos e bisnetos) que só então se conheceram e só então puderam completar o puzzle das esfarrapadas e incompletíssimas estórias de família que cada um ouvira ao longo da vida. Foi comovedor. A imprensa acolheu com muito entusiasmo a história de Maria Adelaide e Manuel Claro. Tive três convites (nestes doze anos) de realizadores que a quiseram levar ao grande ecrã e também à televisão. Nunca conseguiram apoios. No último concurso passámos duas etapas, mas… havia outra proposta que ganhou, com a assinatura de Mário Barroso e o suporte do grande produtor Paulo Branco. Parabéns.Ordem Moralé pura ficção e saudemo-la enquanto tal. Baseia-se numa outra ficção,Doidos e Amantes, romance de Augustina Bessa Luís lançado em 2005. Neste registo, quer por parte da escritora, quer na versão do realizador Mário Barroso, não existe um casal de amantes apaixonados pois Manuel é um bissexual frágil com uma dívida de gratidão à antiga patroa (a quem trata sempre ‘minha senhora’), e Adelaide é uma mulher revoltada que quer vingar-se do marido. Liga-os a amizade e o hábito da estima.
O meu processo de escrita da biografia Maria Adelaide Coelho da Cunha: ‘Doida não e não!’ (Bertrand) foi longo, moroso e exultante. Entre 2007 e 2009 quando o livro foi lançado no mesmo palácio de onde Maria Adelaide fugira quase cem anos antes, tive acesso a relatórios médicos detalhados, processos policiais, registos de tribunal, actas, bilhetinhos, cartas, diários, fotografias, livros publicados na época, assinados por psiquiatras, advogados, jornalistas, gente directa ou indirectamente envolvida na trama. Passei muitas semanas a consultar jornais, sobretudo A Capital e o Diário de Notícias de 1919 a 1923. Cruzei informações. Recolhi testemunhos orais, pois conheci pessoas que ainda chegaram a conhecer Maria Adelaide depois dela ter saído do Hospital Conde de Ferreira. Visitei os locais onde tudo isto se desenrolou. E, passei meses e meses na biblioteca da Senhora de São Vicente a ler e anotar de fio a pavio a documentação encontrada no fundo falso de uma escrivaninha. Eram as peças que Alfredo da Cunha coligira, para montar a teia da sua defesa e do seu ataque. Tudo, e por iniciativa dos novos donos, devidamente catalogado e arrumado em pastas. Centenas de documentos. Muitos milhares de páginas. Fascinante.
Qualquer historiador (e eu sou) tem sempre uma ponta de receio quando começa a pesquisar os seus biografados. E se for tudo mentira? E se tudo não passasse de uma farsa bem montada? Que coerência, que inteligência, esperar dos envolvidos neste duelo? E os médicos estariam realmente de boa-fé, ou e à partida, por afinidades de casta, de classe, de sexo até, decidiram antecipadamente que o desfecho, fosse qual fosse a direção do processo, teria de ser favorável ao amigo e companheiro de causas, dr. Alfredo da Cunha? Haveria mesmo uma história de amor entre ambos, Adelaide e Manuel, ou um deles estaria a aproveitar-se do outro?
Li Doidos e Amantes (2005) da escritora Augustina Bessa Luís, obra dedicada à sua amiga Maria Marcelina de Matos, bisneta de Júlio de Matos (um dos psiquiatras que mais mal visto sai de toda esta trama). No seu romance a história de amor é completamente desvalorizada. A confirmá-lo a escritora numa grande entrevista a Fátima Vieira («Uma intriga tenebrosa», Pública, 29/01/2006:51-57) negou com toda a veemência a hipótese de que entre Maria Adelaide e Manuel Claro tivesse existido uma paixão. Para ela o que havia era «um episódio de fuga». Maria Adelaide poderia estar «enamorada de uma mulher», apontando a sua ligação com figuras assumidamente lésbicas, nomeadamente a uma redactora d’A Capital. Quanto ao Manuel Claro, que Bessa Luís não acredita ter sido o companheiro da vida de Adelaide, viria a ser apenas «um acompanhante fiel e dedicado, grato à patroa que lhe serviu de enfermeira». Afinal, o motorista que «só se preocupava em ter sapatos bonitos», poderia ser «ou um consumado patife, ou um solitário, possivelmente um homossexual que encontra em Maria Adelaide a figura da mãe sonhada»». Quanto à fuga do Palácio, a escritora defende que Adelaide teria tentado escapar a uma espécie de claustrofobia social, não descartando a possibilidade de «haver uma paixão proibida, um perigo qualquer...».
Quando dei por mim, tinha entrado pela vida daquelas pessoas:Maria Adelaide, Alfredo da Cunha, Manuel Claro, José da Cunha… e os repectivos afins. Avassalador. Tornei-me mais do que testemunha, vivenciei, procurando manter sempre a imparcialidade. Eu não queria julgar ninguém. Eu queria saber como é que tudo se tinha passado, e porquê. Com todo o rigor que um labor historiográfico exige. E, como tal, prossegui um trabalho de ‘garimpo’ que foi, como é sempre, bastante árido e muitíssimo minucioso. Amarrando a imaginação que, aqui, só me poderia estorvar. Mas encontrando verdadeiros tesouros. Fulgores. Manipulações da verdade. Revelações.
Nesta mesma entrevista, Augustina duvida, em grande medida, que as cartas publicadas no jornal A Capitale assinadas por Adelaide Coelho, fossem da sua autoria. Ou a sê-lo, só parcialmente, motivo pelo qual «o texto está cheio de vulgaridades como se fizessem parte duma linguagem doméstica, adquirida com as empregadas da casa.» É que ela – Maria Adelaide – «sentia-se bem na sua vida laboriosa e sem pretensões, fazendo as camas e subindo as bainhas dos vestidos» e era, «sobretudo, uma boa criada». Finalmente, conclui: «Se assentarmos no facto de que Maria Adelaide era medíocre, entramos num terreno menos espinhoso do que se tivéssemos de a achar interessante. O marido há muito que se tinha apercebido da vulgaridade da sua mulher.» Até porque, conclui a escritora, em matéria de cultura «era uma figura decorativa».
Estas afirmações de Bessa Luís provocam a reação indignadíssima de duas senhoras que tinham conhecido e privado longamente com Maria Adelaide Coelho da Cunha e Manuel Cardoso Claro. De imediato, Maria Manuela Delgado de Oliveira e Maria Elisa Seara Cardoso Perez escreveram para o mesmo jornal, e os seus extensos contraditórios foram publicados na íntegra na revista Pública a 19 de Março de 2006. Nunca foram minimamente desmentidos. Dois anos mais tarde, tendo conhecimento que eu estava a escrever sobre Maria Adelaide e Manuel Claro disponibilizaram-se a partilhar comigo tudo o que sabiam sobre uma história que já começara a ‘garimpar’.
Em 11 de fevereiro de 2008, eu estava no Porto a escutar Maria Manuela Delgado, uma referência no panorama da arqueologia portuguesa, cujo nome está ligado a projectos tão emblemáticos como Conímbriga. A arqueóloga, que ainda não era nascida quando Adelaide saiu do manicómio, conheceu-a desde que nasceu, já que foi em casa dos seus avós que ela esteve escondida. O advogado Bernardo Lucas pedira à sua avó se ela «se importava de receber esta senhora na sua casa por três ou quatro dias». A senhora acedeu sem uma hesitação sequer. «Não foram quatro dias, foram os quatro anos em que o Manuel esteve preso. Quando ele saiu da Cadeia da Relação, Maria Adelaide saiu com ele. E foram viver juntos» revelou-me Manuela Delgado.
Na descrição da arqueóloga, «Maria Adelaide era uma senhora sempre interessante, tinha um encanto todo interior e uma enorme cumplicidade com o Manuel. A história deles é excepcional. Estiveram juntos até ao fim. Ele era um homem culto, muito bonito e muito respeitado entre os seus colegas». E as cartas, para A Capital? «Era o meu pai, que na altura tinha 17 anos e andava no Conservatório de Música, que as punha no correio!» contou-me ainda Manuela Delgado que tratava Maria Adelaide por Lalá e a considerava como tia, acrescentando: «Vou-lhe contar um segredo. A família, que não tinha desistido de a voltar a internar no manicómio, nunca soube do seu paradeiro. E ela, para não ser descoberta, ia disfarçada de lavadeira visitar o Manuel, durante os quatro anos em que ele esteve preso. Punha uma saia rodada, uma rodilha onde assentava a trouxa na cabeça, uns panos brancos, grandes, dobrados em quatro e atados em nós, onde estava a roupa, e ia e vinha da cadeia. Nunca desconfiaram dela. Mas eu nunca pude antes contar uma coisa dessas como lhe estou a contar agora a si.»
A outra senhora que reagiu indignada às entrevistas e ao livro de Augustina, foi Maria Elisa Seara Cardoso Perez que era filha de Paulina e Fortunato Seara Cardoso, proprietário e diretor do Comércio do Porto. Veio a conhecer Maria Adelaide no Inverno de 1942, em casa dos pais, na rua da Alegria, Porto, onde esta se reencontrou com o filho, José Coelho da Cunha, 24 anos após a sua saída do Palácio de S. Vicente, em Lisboa. Maria Elisa, à época com 15 anos, viu, da janela da cave, aquela senhora pequenina, de cabelo todo branco, mas muito direita e com uma dignidade tocante, avançar ao encontro do filho que não via há tanto tempo, posto o que ambos se encerraram no salão da casa, onde estiveram uma tarde inteira à porta fechada. «Maria Paulina, minha mãe, tinha uma grande consideração e estima por Maria Adelaide de quem se tornou amiga e com quem tinha muitas e longas conversas.»
Mas entre aquele estranho casal… seria amor? Maria Elisa Perez respondeu-me: «Sem a menor dúvida. Maria Adelaide contou à minha mãe que encontrou no Manuel Claro o carinho e o respeito que o seu marido, Alfredo da Cunha, nunca lhe dera.» Estes e outros testemunhos e todos os factos que recolhi provaram-me que, embora na curva descendente da idade, Maria Adelaide continuou a ser uma mulher reconhecidamente encantadora e sedutora sem esforço. Era culta, e teve educação primorosa. As cartas da professora dela e dos irmãos enaltecem a sua inteligência. E o Manuel, para além de ter sido um homem muito atraente (as fotografias provam-no e os testemunhos confirmam-no) era inteligente, sensível, culto – nunca deixou de ler e era amigo pessoal de Raul Rego -- e amou indubitavelmente esta mulher a quem se dedicou para o resto da vida. Não há o menor indício que aluda à sua imaginada homossexualidade e muito menos à sua pretensa fragilidade. O Manuel era um homem forte e de fortes convicções.
Por fim, aos 74 anos, Adelaide viu-lhe ser retirado o rótulo de louca-lúcida. Há muito tempo, porém, que deixara de ter o poder policial à perna. Com o Manuel, conseguiu refazer uma vida com muita dignidade e até algum desafogo. Junto do seu antigo motorista, Maria Adelaide encontrou a ternura e o afecto que o marido nunca lhe soube dar, segundo testemunho de quem os conheceu de perto. Amou-o até à morte. Mais novo, o companheiro sobreviveu-lhe quinze anos. Nunca casou. Nas palavras de quem os conheceu de perto, «Maria Adelaide foi o amor da vida dele».
Aos 74 anos, já livre do rótulo tremendo de "louca".
Suportada por toda uma investigação de fundo, a minha biografia de Maria Adelaide, que é posterior à ficção de Agustina, revela uma história como raramente encontramos. É improvável e tem tudo para correr mal. Mas aquele era um grande amor de gente grande que enfrentou e resistiu a todos os ordálios com uma imensa dignidade, num registo onde a realidade ultrapassa largamente a ficção. Depois do que publiquei sobre a vida de Maria Adelaide e de Manuel Claro, o filme Ordem Moral, embora se trate de uma ficção, ignora perigosamente algumas evidências entretanto reveladas. Torna-se assim um arriscado exercício de negação dos valores que estas pessoas defenderam, com um custo demasiado elevado para serem obrigadas a continuar a pagar juros indevidos
Sublinho, a finalizar, que não deixa de ser muito curioso o autênticovolte face que, na época e através da sua defesa literária, Maria Adelaide conseguiu produzir suscitando o favor do público, numa altura em que não era invulgar, nem sequer mal visto, que um marido lavasse a honra com sangue. Por fim, já só no círculo muito restrito de amigos do casal, e dos médicos que a tinham dado por louca, persistia a ideia de que ela enlouquecera. Mesmo das fileiras da própria ciência, e até, da jurisprudência, junto da esmagadora maioria dos que não estavam directamente envolvidos no caso, já não havia dúvidas de que a psiquiatria, que promovera tantos benefícios em prol da saúde mental das populações, conquistara aqui uma desonrosa, e desnecessária, referência. Em carta a Alfredo da Cunha, de 18 de Agosto de 1920, o senador Júlio Ribeiro da Silva refuta a «loucura lúcida», como «um paradoxo que os médicos alienistas inventaram». E acrescenta: «não haverá criminalista capaz de me convencer que um homem boçal, inculto, grosseiro, sem delicadezas de espírito, nem agudeza de inteligência, nem primores de educação, seja capaz de seduzir uma mulher superior, requintadamente artística, e cheia de qualidades. [Portanto] não se trata de uma doida, nem de um sedutor […]. E creia V. Exª que com excepção de um advogado meu amigo, aliás distinto, com quem discuti o assunto, ninguém, absolutamente ninguém, encontrei de opinião diferente.»
Esta é uma memória de uma memória. É um instantâneo extra catálogo da reportagem que fui fazer para a revista Notícia de Angola. Foi tirada em 74, Cabinda, floresta do Maiombe, por onde tenho andado a passear com a minha amiga Isabel Valadão. Somos irmãs há muito anos e temos também muitas memórias juntas a partilhar. Conhecemo-nos por lá. Em Luanda, Angola. Reencontrámo-nos por cá, em Lisboa por alturas do lançamento de um dos meus livros. Tinham-se passado décadas, mas o tesouro da nossa amizade estava intacto. Um, dois anos depois, ela começou a publicar, estreando-se no romance literário com Loanda, Escravas, Donas e Senhoras. Eu tinha feito História Ramo Científico (Nova) ela, História de Arte (Clássica). E tinha o tal livro na gaveta que a "obriguei" a tirar cá para fora. Foi o recomeço. Reganhámos chão e recuperámos raízes dispersas. Reencontrámos e partilhámos outra gente muito querida desses tempos outros. Tertuliamos. Descobrimos que ambas temos um amor incondicional pelos nossos companheiros de quatro patas. Privilégio.
E agora, temos feito outras viagens.
Cabinda, Junho 1974, em reportagem para a revista Notícia de Angola
Portanto aqui estava eu, fresca como uma alface tripeira, numa reportagem que teve incidentes dignos de nota. Assustadores. Exultantes. A liberdade estava a caminho. Foi depois de Abril. Esta imagem integra o conjunto de fotografias que ilustram as (outras) memórias narradas em Moçambique para a Mãe se lembrar como foi um livro que tem corrido mundo e que a Mãe ainda foi a tempo de ver impresso
"Sabes, amor, porque caminhamos em círculos?
Caminhamos em círculos porque somos cópias de um molde inicial, ou de muitos
moldes iniciais, à procura do útero que nos deu origem. Vou-te dizer ainda
mais. Todo o fascínio da arena enraíza aí. Foi quando percebemos, apesar da nossa cegueira e precisamente por causa da tragédia de sermos cegos, que
o jogo sempre foi de vida, para os deuses, de morte, para nós. Foi também quando
julgámos que através de um sem fim de cultos sacrificiais poderíamos apaziguar
cóleras politeístas de raiz matricial comum, enganando a morte, a nossa, com a
morte de muitas vítimas, num cenário perfeito.
O círculo.
[...]
Teatro grego de Dodona (sec. III a.C.) no sítio arqueológico de Dodona, na vizinhança do monte Tomaros, onde se encontram as ruínas o famoso santuário e oráculo de Zeus.
Ora, não sendo o círculo de que a serpente guarda o registo, a encerrar em si a perfeição do indiferenciado, e não sendo esta a de um corpo de
homem, a mais desejada das formas porque a mais rara do universo (e não me
perguntes como o posso afirmar com tamanha convicção pois sobre esse
conhecimento cai igualmente o véu do segredo), a forma perfeita é a do
Andrógino. O molde perdido de uma completude paradisíaca que tentamos refazer,
de vida em vida, de corpo em corpo, de amor em amor, para conseguirmos escapar da
condenação ao círculo pela vertigem da espiral. Como tu e eu temos feito
sempre, já nem sei desde quando, na nossa história de dois que foi sempre de
tantos.
Ora também sucede que, nesse caminhar, somos impelidos para a
repetição de narrativas primordiais – sempre as mesmas. O jogo das mutações só
aparece no momento em que irrompe a desconcertante, a enigmática, a apaixonante
variável, que veio abanar até aos alicerces as relações entre o Céu e a Terra. O
princípio da incerteza, golpe fatal na monótona repetição das sagas celestes,
fomos nós, Criaturas, que o desferimos. Trouxemos a mistura – lembras-te? – o terrível,
porque sempre imprevisível, jogo da mistura.
Todos os tabus do sangue, todos os preconceitos de raça que
se estendem aos preconceitos de casta, entroncam aí, no medo da mescla que começou
quando "os filhos de Deus" se enamoraram pelas tão formosas "filhas dos homens",
nelas gerando a amaldiçoada raça dos gigantes. Outros contam a mesma história
com uma ligeira variante: naqueles dias, os filhos de deus conheceram as filhas
dos homens – "as quais lhes deram filhos" – os Nefilins. E eram os «varões de
renome da antiguidade» que andavam sobre a terra."
em Xerazade, a última noite, 2015, Bertrand editora, pp. 16-18.