segunda-feira, outubro 28, 2013

Brincos de pérolas

Ontem a minha amiga ia perdendo uma parte do brinco, aquela que o prende à orelha. Estávamos sentadas numa esplanada, na Trindade, a beber chás exóticos e os últimos raios de um esplendoroso e muito lisboeta sol de Outono. Quatro mulheres de gatas à procura de uma pecinha microscópica, que finalmente o homem que estava connosco veio a encontrar debaixo de outra mesa.

Isso recordou-me o brinco que perdi há pouco tempo. Tinha uma história gira. As pérolas comprei-as no primeiro andar de uma loja/armazém escura, cheia de bricabraques, em Malé, capital das Maldivas, no final de umas férias de sonho. Nesses tempos, não muito remotos, viajávamos com uma regularidade hoje impensável. Eram umas pérolas lindas, foram bastante baratas, mas estavam encastoadas toscamente. Andaram comigo, até que as levei ao Brasil, e em Abadiânia, mais ou menos em 2010, as entreguei ao cuidado de um jovem joalheiro, que ficou de lhes dar o escrínio perfeito. Paguei de avanço e tudo e vim-me embora, com a certeza absoluta de que mas enviaria,

Enviou. Discretas, as minhas pérolas orientais, trabalhadas no interior do Brasil, foram os brincos mais bonitos que tive. Se calhar exagero, mas não muito.

Entretanto, numa destas tardes - lançamento do livro de um amigo que muito prezo - levei-as. A livraria fica muito próximo do metro, e o metro em Lisboa é fantástico e muito próximo de mim. Foi no regresso, a folhear o livro novo, que, já dentro da estação, percebi que tinha perdido um deles. Voltei atrás, pedi ao funcionário que me deixasse espreitar na estação, fui até à rua, fiz o percurso entre a livraria e o metro, sempre de nariz no chão, regressei, e dou com o funcionário ainda a vasculhar o átrio da estação. Depois, abriu-me a porta para eu não pagar outro bilhete, que amor de pessoa foi comigo, sondar o cais, ajudando-me na minha busca. Em vão. A minha pérola sumiu de vez.

Ficou a outra. Então, entreguei-a à Ana Cardim que vai extrair daquela matéria-prima um anel lindíssimo. É uma grande joalheira e uma grande artista. Isso conforta-me de algum modo.

Mas ainda não ultrapassei a mágoa. Sou tão desligada de coisas, mas com algumas... é mesmo difícil. Será coisa de gaja?

 
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