quarta-feira, outubro 09, 2013

Reciclar palavras: quiçá, todavia, caramba

Gosto de reciclar palavras. Não tenho medo de ir busca-las às prateleiras do esquecimento e, se for caso disso, voltar a pô-las a uso.

«Todavia»: por exemplo. Estava esquecida e negligenciada num canto da minha memória. Tinha prescindido dela desde que passei a achar que cheirava a sala de professores ou a escritório de advogados dos tempos de há muito tempo. Era uma palavra da qual se evolava um indefectível aroma a bafio. Até ao dia, não muito distante, em que a olhar para ela, a tomar-lhe o peso, a saboreá-la lentamente

to-da-via

pareceu-me tão rejuvenescida que voltei a usá-la sem reticências.

 Há pouco, dei por mim a escrever «caramba». Há que séculos que não dizia ou escrevia caramba. E é ou não é uma palavra toda catita? Ah, se ainda ontem eu escrevesse uma frase onde a palavra catita figurasse, até ficaria com vómitos. E agora, dou por mim a sorrir. Caramba! É catita, todavia.

As palavras têm todo o tempo do mundo. Nós é que não. Elas sobrevivem-nos. Ela raramente envelhecem mal. A não ser, talvez, a palavra quiçá. Essa... hum. Não. Não mesmo. Espera... em textos académicos quiçá pode entrar sem fazer má figura. 

As palavras têm moradas de preferência. E lugares cativos em espaços próprios. É isso.
 
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