sábado, fevereiro 28, 2015

O Poder das palavras faz-se de liberdade e silêncio

Uma vez que na página as nossas comunicações só estão, por enquanto, em síntese, publico aqui o texto da minha participação nas Correntes d'Escritas 2015.

I - Agradecimentos - À Povoa de Varzim e à sua Camara Municipal que há quinze anos lançou as bases daquele que ainda hoje e nestes moldes, constitui o maior acontecimento literário no nosso país. Ao meu editor, Eduardo Boavida, pelo apoio que sempre me tem dado, permitindo-me o privilégio de escrever em liberdade.


Mesa3 - da esquerda para a direita:
António Cabrita, Clara Usón, Michael Kegler (moderador) Manuela Gonzaga, Vergílio Alberto Vieira
 

II – Palavra e Segredo Quando li o mote da nossa Mesa recordei-me de um ensaio que escrevi há vários anos sobre a Visitação do Santo Oficio da Inquisição ao Estado do Grão Pará e Maranhão (1763-1769), um trabalho desenvolvido em parceria com dois colegas arqueólogos, Rui Gomes Coelho e Ana Rita Trindade. Na divisão de tarefas a que nos propusemos, couberam-me os caminhos da Palavra e do Rito, na reconfiguração de um discurso dito «espiritual» e que mais não era do que uma claríssima afirmação de poder. Um poder sem limites.
Uma breve nota para frisar apenas que os países protestantes também tiveram Inquisição e que esta foi tão brutal como aquela que nos ocupa agora. Portanto, avancei por caminhos onde o poder articula a utilização rigorosa da palavra com a utilização igualmente rigorosa dos rituais que envolviam este teatro do macabro, com a gestão feroz do silêncio – aqui enquadrado na temática do «segredo», fundamental para a optimização dos objectivos a que o Tribunal se propunha: «porque no Santo Ofício não há cousa em que o segredo não seja necessário. [1]»
Para começar, o réu ignorava de que era acusado e por quem. E na primeira sessão a que era chamado, não só ninguém o elucidava, como a Mesa lhe pedia que esquadrinhasse a sua consciência para encontrar as razões que o tinham levado àquela situação, sendo-lhe feito saber que o tribunal possuía contra ele provas eloquentes. A esta primeira sessão, seguia-se o total isolamento, – o réu não falava com ninguém, nem ninguém lhe dirigia a palavra. Por outro lado, a todos os que participavam nestes procedimentos e processos, era imposta a obrigatoriedade ao segredo. Juravam-no os réus, para toda a vida, sob pena de excomunhão e de regresso aos cárceres. Juravam-no testemunhas, ministros e oficiais do Santo Ofício, deputados e Promotor, notários, oficiais e   todos os chamados para os seus serviços. O mesmo manto opressivo cobria os que tivessem de entrar nos cárceres, “em razão de alguma cura ou mezinha de doentes”. E o que vale para médicos, cirurgiões, barbeiros, parteiras, estendia-se a pedreiros, carpinteiros, – que, sem tomarem juramento de segredo sob os evangelhos, não podiam entrar nem exercer os misteres para que eram chamados. O segredo opressivo, tentacular, nunca acabava.2
Da leitura de processos e Regimentos, emana, ainda hoje, a convicção dos seus autores de que a instituição cumpria desígnios divinos, sendo-lhe portanto lícito utilizar todas as armas ao seu alcance, do silêncio à oratória, da tortura nos cárceres ao público auto-de-fé. Que era uma festa para todos – excepção aos actores principais. Os réus.
Auto de fé
 

Organizadora de espaços e mentalidades, a palavra detém, por definição, o poder de representar o pensamento, construindo, por assim dizer, e ao longo dos séculos, a quadrícula que permite não só permite a sua expressão, como também a suscita, como sugere Foucault, num percurso que não é linear mas que atravessa todos os domínios de interacção social, do sagrado ao profano, do privado ao colectivo, do erudito ao popular, do secreto ao público. Nesse sentido soberana, à palavra cabe a tarefa de uma construção onde a representação “o poder de se representar a si mesma” se justapõe, “parte por parte” ao olhar da reflexão.[3]

Esta construção – a da rede do pensamento – torna-se particularmente visível nas fronteiras entre discursos, consoante eles pautam as normas do poder, ou reflectem a linguagem popular e laica. E neste caso, o discurso legalista e espiritual da Igreja Tridentina aqui invocada, leva-nos para um território onde as mesmas palavras de uso quotidiano, não querem necessariamente dizer as mesmas coisas.

Por exemplo. Tropeçamos repetidas vezes em vocábulos como “compaixão”, “brandura” e “piedade” que não têm o mesmo significado se utilizados no discurso corrente, ou num Regimento do Tribunal do Santo Ofício. Sabendo-se como os presos eram tratados, é curioso confrontar esse tratamento com o determinado na alínea sobre os cuidados a dispensar-lhes: aconselha-se a falar-lhes com «gravidade e modéstia» e até com compaixão pela «sua miséria», a fim de se poder conduzir essas rezes tresmalhadas «ao caminho de sua salvação». E ainda, que os presos tivessem ao seu dispor «tudo o que lhes for necessário», principalmente os doentes, de modo que todos reconhecessem que, no Santo Ofício, «piedade e a justiça» eram sinónimos.[4]

Estamos portanto num território onde a palavra afirmava – através do gesto, – o seu contrário. Um território onde o discurso se inseria num tenebroso conjunto de procedimentos que visavam aniquilar física e moralmente todos que caíssem nas suas malhas. Como justificar o injustificável? Através de uma lógica suportada por mecanismos de repressão e vigilância. Estamos perante um verdadeiro edifício ideológico, que busca e auto-fornece a sua própria justificação, nunca descurando uma gestão de argumentos cuidadosíssima. Há assim que reconhecer que Palavra e Segredo formam neste contexto uma dupla e intrincada hélice de cujo equilíbrio depende todo o edifício.

Falamos de ocultação de provas e de branqueamento de práticas.

III – A assinatura da Vida - O mote que nos foi dado visava o «poder da palavra» através da Liberdade e do Silêncio. Sei que estou nos antípodas. Mas por mais que pense em liberdade, quando se trata da palavra e da sua capacidade de criar universos e realidades, é quase inevitável ir, também, ao encontro da sua antítese. A Palavra é uma arma de poder. Pode libertar e pode aprisionar. Pode calar o discurso, a vontade e a própria vida. Ou pode fornecer-nos as pistas de como conquistarmos as nossas próprias asas. Pode suscitar o silêncio criador, matriz de toda a Criação.

Nesse sentido, nós, os do ofício, temos um dever sagrado. O dever de não calar, e a obrigação de recordar. Porque, em tempos e termos históricos, o que estamos a celebrar é uma singularidade e um privilégio tão grande, que, para salvaguarda dos valores que defendemos – poder pensar e poder partilhar pensamento em liberdade –, temos o dever de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para manter acesa esta luz.

A liberdade não é um dado adquirido

De certa forma, enquanto escritora, e já antes, enquanto jornalista, sempre senti como se, nós, os do ofício, tivéssemos de pagar tributo pela exultação que sentimos quando o silêncio e a palavra se articulam na música da criação. Precisamos de ambos. Mas só lhes chegamos em liberdade. Por isso, temos de ser os seus guardiães.

A terminar, vou ler uma passagem de Xerazade, a última noite, livro que acabei de lançar aqui, nas Correntes d´Escritas, e que depois do negrume onde mergulham as primeiras páginas desta comunicação, constitui um contraponto, a meu ver, mais redentor:



«No princípio de todos os princípios, foi o som. Depois, a palavra. Por fim, a música. A trindade primeva da criação. A sua emergência em espírito, alma e corpo. Um corpo de glória, cuja pauta são os números sagrados. É por isso, que a música está em todo o lado — desde os confins do espaço e do fundo dos tempos, à incerta e delicada estrutura atómica. Cada estrela, cada planeta, cada galáxia, cada cometa e cada asteróide cantam na sua própria vibração. Assim como cantam todos e cada um dos corpos — da célula ao átomo e seus componentes até à plataforma fantasmática da preexistência quântica. A música mora em tudo e em todos. E está presente até no silêncio. É a assinatura da vida

 
 
 
 

 

 
 


[1] Regimento do Santo Ofício da Inquisição dos Reinos de Portugal (2004 [1640]), in As Metamorfoses de um Polvo. Religião e Política nos Regimentos da Inquisição Portuguesa (Séc. XVI-XIX). FRANCO, J. E. e ASSUNÇÃO, P. de (eds.), Lisboa: Tít. I «Do número, qualidades e obrigações dos ministros e oficiais da Inquisição», §7 (Encomenda-se o segredo).
[2] Regimento... , Tít. I (Do número, qualidades e obrigações dos ministros e oficiais da Inquisição).
[3] Foucault, M 2005 – As Palavras e as Coisas. Lisboa: Edições 70 As Palavras e as Coisas. Lisboa: Edições 70, p. 131.
[4] Regimento...:, Tít. III (Dos inquisidores), §24 (Que não falem com os presos senão em presença do notário).
 
 
 
 
 

 
 

domingo, fevereiro 08, 2015

O pai que 'roubou' a noiva ao filho

Há tempos, num romance dito 'histórico' assinado por uma aristocrata inglesa e revisto por um historiador, voltei a deparar-me com a 'lenda' da suposta concupiscência de D. Manuel que, babado pela noiva do filho, resolveu roubar-lha. Pior ainda - ao Venturoso atribuía a senhora escritora na altura de tal feito, a vetusta idade de 70 e picos anos, quando ele morreu aos 52.
Posto isto, aqui fica um extracto de Imperatriz Isabel de Portugal:


D. Manuel I (1469-1521)


Quando D. Maria morreu, D. Manuel caiu numa tristeza tamanha que chegou a pensar ir viver para o Algarve, deixando ao príncipe herdeiro D. João, de 15 anos de idade, e seus conselheiros, o governo do reino. E à filha mais velha, Isabel, então com e catorze anos, confiou-lhe o cuidado dos irmãos, doando-lhe Viseu e Torres Vedras e fazendo-a herdeira do património da mãe[i]. Nessa altura a infanta Beatriz tinha doze, D. Luís, dez, D. Fernando, nove, D. Afonso, sete, D. Henrique, cinco, e D. Duarte ainda não cumprira os dois anos. 

Por essa altura, o rei era alvo de uma campanha de descrédito nos meios palacianos. Dizia-se que era um homem mais preocupado em construir edifícios do que em atentar à sua «real dignidade». Censuravam-lhe ser tão «descuidado» da «gravidade de um rei» que se tornara acessível a todo o tipo de pessoas, fosse qual fosse a sua condição, não desprezando de falar com nenhuma. Criticavam-lhe os passeios a cavalo e a sua prodigalidade com o «ouro e a prata». Finalmente, tentaram convencer o príncipe a distanciar-se do seu pai, pois se queria adquirir renome de «príncipe grandíssimo» deveria comportar-se de forma muito diferente.  

D. Manuel, na altura com 48 anos e pai de oito filhos homens, acabou por ficar ao corrente destas práticas. E para melhor se salvar da «solidão e menosprezo», e do receio que D. João acabasse refém de lisonjeiros, desprezando-o e deitando o reino a perder, pediu ao imperador D. Carlos que lhe desse em casamento a mesma infante D. Leonor, de excelente formosura e bondade, que pedira antes para seu filho. 

Ou, como equaciona Oliveira e Costa, no receio de uma perturbação interna, a primeira no seu já longo reinado, e sob o risco de enfrentar uma revolta encabeçada pelo filho, D. Manuel atuou «como sempre fizera, dissimuladamente, com manha, e matou a revolta que lhe parecia lavrar na corte, roubando a noiva ao filho»[i]. As negociações foram levadas a cabo no maior segredo e, sem surpresa, Carlos concordou – para lá de todas as outras razões, casando D. Manuel com a irmã, D. Leonor, ganhava um poderoso aliado na Península Ibérica – celebrando-se de imediato o inesperado enlace por palavras de presente, seguido de grandiosas festas e jogos no palácio de Saragoça. De seguida, a nova rainha portuguesa partiu e chegou à raia no mês de Novembro de 1518.

Esta mudança de planos causou espanto e deu azo a muita murmuração na corte[iii], mas indiferente a murmúrios, D. Manuel no esplendor dos seus quarenta e nove anos, casou mesmo e pela terceira vez na vida, com uma jovem de vinte, transformando em sua mulher a que deveria vir a ser nora…O reino conheceria assim nova rainha, e os infantes, seus filhos, uma madrasta, para grande desgosto de D. João e de «alguns senhores» que levaram «a mal». Mas o Venturoso convocou os que se encontravam na corte, explicando-lhes os motivos que o tinham levado a este casamento. Os argumentos do rei, e a sua autoridade, calaram a oposição deixando todos «satisfeitos», ou pelo menos parecendo, excepto o príncipe que nunca mostrou ter disto «gosto, nem contentamento». 

O beija-mão real selou o encontro.[iv]





* D. Manuel era um poderoso e muito rico soberano hispânico com laços importantes no reino vizinho, de tal forma que, no início da década de vinte, representantes dos comuneros lhe virão pedir que aceite o trono de Castela, desgostosos com o séquito borgonhês e com os conselheiros Flamengos de Carlos V, cujo poder, e arrogância suscitou grande resistência por parte da velha nobreza e dos povos. Na prática, Carlos foi um usurpador, apropriando-se do trono da mãe. Como Oliveira e Costa enuncia, neste «fazer e desfazer de alianças tudo era possível de acontecer». Embora Joana a Louca desse sinais de instabilidade, se porventura voltasse a casar, logo com um esposo que assegurasse a governação, como sucedera durante os meses em que Filipe o Belo vivera em Castela, o filho perderia toda a legitimidade ao trono. Daí que, quando se soube da morte de D. Maria, os conselheiros de Carlos V propuseram Margarida da Áustria para nova consorte do rei de Portugal. Face ao desinteresse desta, e à pressão de D. Manuel que estava mais interessado em resolver um problema interno do seu reino do que envolver-se num conflito externo de resultados muito incertos, o pedido do Venturoso à mão de D. Leonor da Áustria foi aceite com toda a celeridade. [Oliveira e Costa, D. Manuel I…, 245]
* Pequeno e elegante cavalo de raça
[i] Oliveira e Costa, D. Manuel I..., 243.
[ii] Ibidem, 244.
[iii] Jerónimo Osório, op. cit., II, Liv. XI, 222-224.
[iv] Sobre o casamento, recebimento, Crónica do felicissimo, IV, caps. xxxiii e xxxiiii.
[v] Ibidem, IV, cap. xxxiiii.
[vi] Gaspar Correia (1992) – Crónicas de D. Manuel e D. João III (até 1533), leitura, introdução, notas e índice por José Pereira da Costa, Lisboa, Academia das CiênciasAntónio Villacorta Baños-García (2009) – La Emperatriz Isabel, su vida al lado de Carlos V, su mundo, su época, Madrid, Editorial Actas, 95.
[vii] «Para deixar estes reinos em boa ordem e governo não vejo outra solução que não casar com a infanta Isabel de Portugal», cf. , William Bradford [editor] (1850) – Correspondence of the Emperor Charles V. and his ambassadors at the courts of England and France from the original letters in the imperial family archives at Vienna; with a connecting narrative and biographical notices of the Emperor and of some of the most distinguished officers of his army and household; together with the Emperor's itinerary from 1519-1551, Londres, Richard Bentley, 136; também cit., em John Hale (2000) – A Civilização Europeia do Renascimento, Lisboa, Presença, 82.


sábado, fevereiro 07, 2015

Beijos encarnados

Quando faz frio e chuva e dias cinzentos, ela cobre-se de beijos encarnados que caem a arder no chão do inverno e tudo à nossa volta fica mais feliz.



domingo, janeiro 25, 2015

LE PETIT SOLDAT NE REVIENDRA PAS

Como prometi a alguns leitores, deixo aqui um capítulo de Mozambique pour que ma mère se souvienne na tradução exemplar de Laure Collet. Reflexões da escritora e historiadora que sou sobre as memórias que a menina que fui guardou de uma vida quotidiana em tempos e cenários de guerra e paz. Quando rotinas, alegrias e perplexidades se cruzavam com a morte omnipresente, como se vivêssemos em vários patamares da realidade. As colunas militares que iam e vinham dos matos da guerra, as populações locais, nós - os que vinhamos da 'metrópole' - e as várias raças e etnias presentes na mesma paisagem soberba, inesquecível e, por vezes, quase irrespirável.
Porque é que as coisas se passavam assim?


 
 
Chegada de tropas a Lourenço Marques, actual Maputo



 

Jusqu’à quel point la mort conditionne notre vie ? Jusqu’à quel point ce décor de guerre omniprésent dans nos jours et nos nuits déterminait nos quotidiens ? Je n’ai pas la réponse. Mais je me souviens encore qu’on voyait constamment passer dans les rues de Vila Cabral et de Tete des véhicules militaires qui se mélangeaient tranquillement à la circulation civile, car c’était de là-bas que partaient et revenaient régulièrement des colones qui faisaient l’aller-retour entre la ville et l’immensité de la forêt où les attaques de la guérilla étaient en pleine recrudescence, un cauchemar dont personne n’entrevoyait la fin. Mais nous ne savions que peu de choses de ces quotidiens brutaux, à moins que nos amis militaires ne partagent avec nous ce qu’ils avaient vu de cet enfer, ce qu’ils ne faisaient que très rarement.

Le Notícias de Lourenço Marquês, le journal le plus lu au Mozambique, se pencherait plus en profondeur sur ces questions, en donnant la parole aux soldats portugais. Jusqu’en 1967-68, le sujet était abordé de manière soit excessivement discrète soit exagérément apologique. À grand renfort d’emphase, on décrivait les arrivées et les départs des contingents militaires (à ou de la « Mère patrie ») et les défilés dans les rues de Lourenço Marquês, avec leur point d’orgue en plein centre-ville, sur la place Mouzinho de Albuquerque, où les « élégants, droits, et valeureux soldats qui venaient d’arriver » affirmaient comme un seul homme « épaule contre épaule, comme nous tous, que cette terre est en vérité, aujourd’hui et pour toujours, la terre de Portugal ».[1]

Que personne ne se fasse d’illusion : au-delà de la tournure excessive des phrases, une majorité écrasante d’entre nous, dont je faisais partie, ressentait et pensait la même chose, que ce soit avec ces mots ou n’importe quels autres. Nous suivions avec émotion et délice les nouvelles sur les saisies d’armes de la guérilla, et la destruction d’une de leurs bases ; la reddition « en masse » des populations autochtones, qui se livraient à nos hommes, réclamant leur protection contre les « bandits » ; et les désertions de noms qui sonnaient si bien, comme Lazaro Kavandame,[2] parmi les chefs traditionnels makondes les plus éminents, et plus tard Urias Simango,[3] successeur direct d’Eduardo Mondlane, qui s’était éloigné du triumvirat de la Frelimo, qui comptait également Marcelino dos Santos et Samora Machel, déclarant ouvertement sa dissidence avec les deux hommes ; ou encore sur les guérilleros auréolés de gloire, qui venaient se rendre aux autorités portugaises, en racontant des histoires sur le « sectarisme, le tribalisme, et le régionalisme » de la Frelimo ; les purges internes du mouvement ; les prisons regroupées en Tanzanie ; et les inombrables pertes humaines, comme celle de Sivério Nungu, dont certains, comme Simango, affirmaient qu’il avait en fait été assassiné. Et tant d’autres encore, jamais reconnues.    

Et à côté de ces reportages et de ces entretiens de première page, il y avait les nouvelles extrêmement discrètes, concernant les décès quotidiens, au combat et au service de la patrie, dans un petit encart sans photo, où l’on ne trouvait pratiquement que le nom de ces héros inconnus, qui ne reverraient donc jamais leurs terres métropolitaines « de l’autre côté de l’océan ».

La guerre se jouait sur trois fronts, et la Frelimo dominait les régions de Cabo Delgado, Niassa, et Tete, lorsque Guilherme de Melo, écrivain primé, poète, journaliste, et secrétaire général du Notícias, a été envoyé sur le terrain, dans les zones de conflit. Ses reportages, illustrés par les images du magnifique photographe Carlos Alberto Viera, ont été quotidiennement publiés entre avril et mai 1968, sous le titre générique de « Ao Norte – Guerra e Paz ».[4] Cette initiative s’est avérée être un succès, et le journal a dû augmenter ses tirages. En fin de compte, et autant que la guerre le permettait, la population qui avait accès à la presse était désormais confrontée aux retables de la vie de l’armée portugaise dans la solitude insomniaque des forêts imprenables.

Avec les mots de ce journaliste, peut-être arrivions-nous à sous-entendre des critiques voilées à l’encontre des développements de cette guerre qui faisait rage depuis quatre ans déjà. Mais ceux que le journaliste censurait ouvertement, c’était surtout les stratèges de café qui, dans le confort douillet des villes et de leurs oisives conversations de fin d’après-midi, formulaient des analyses méprisantes sur l’inefficacité des soldats, soutenant que la guerre aurait du mal à continuer sur une si bonne lancée même avec des « terroristes » si « stupides » et « mal préparés » puisque nos troupes ne faisaient rien, s’occupant seulement de faire passer leurs heures de service dans les meilleures conditions et le plus rapidement possible, afin d’avoir la chance de « retrouver leur terre natale».

Guilherme de Melo leur répondait en décrivant les battues dans la forêt, entre pistes et fourrés, bourbiers et nuages de poussière, au gré d’une pluie qui tombait sans répit, ou d’un sol qui brûlait sans trêve, au fur et à mesure que ces hommes retiraient les mines, défaisaient les pièges, et subissaient des attaques. Il nous a parlé de groupes de fusiliers, de commandos, de chasseurs, et de parachutistes, qui arpentaient la forêt lors d’opérations de cinq, dix, douze, ou quinze jours, au cours desquels ils ne se nourrissaient que de rations de combat, de pain dur comme de la pierre, et ne buvaient que l’eau des flaques et de petites rivières ou s’abreuvaient, dans un délire assoiffé, directement dans les bourbiers. Le journaliste et le photographe nous ont fait vivre des nuits entre les herbes hautes ou les herbes sèches, avec le sol pour plancher et le ciel pour toit, dans un repos toujours bref et agité, interrompu dès le lever du jour, qu’ils occupaient inlassablement à l’ouverture de pistes, la construction de pont, ou le démantèlement de bases.
 
Luís Guimarães (esquerda) e Anselmo Oliveira em Cabo Delgado
 
Comme des coups de poing, les mots du journaliste ont toumenté l’indolente placidité tropicale des villes et éveillé une conscience tardive, mais évidemment diffuse et partielle concernant le revers de la médaille, soulevant la pointe du voile sur ce qui se passait en réalité, et saupoudrant toutefois son texte d’un optimisme et d’une conviction inébranlable en une victoire finale, à laquelle Guilhermo de Melo lui-même avouerait plus tard avoir été très loin de souscrire.[5]

La conscience collective a finalement accepté de prendre en compte ce « sacrifice tremblant » que l’on exigeait des « valeureux » soldats qui versaient leur sang « pour la patrie » et qui étaient encore à cette époque passablement méprisés, notamment par les citadins. Mais l’optimisme était général. En 1968, une simple chaise avait réalisé l’inimaginable : mettre à terre un dictateur, dans une chute lourde de conséquences, puisque Salazar avait laissé sa place à Marcello Caetano, ce qui présageait du printemps du régime, même si le Vieux s’accrochait fermement à la vie, ce dont nous étions tenus au courant par les bulletins de santé publiés chaque jour en première page des journaux. Comme si « l’amélioration de son état de santé » ou les « degrés de sa température », ses battements cardiaques, ou sa tension artérielle intéressaient véritablement quelqu’un, on nous les détaillait avec la plus grande minutie, jour après jour. Je ne me souviens pas, d’ailleurs, d’une quelconque émotion face à la possibilité de la mort de Salazar. Mais je me souviens qu’entre de petits rires discrets, on pouvait entendre des commentaires du genre : « il est tellement mauvais que même la mort n’en veut pas », ainsi qu’une pluie diluvienne d’anecdotes sur ses prochaines rencontres dans l’au-delà.

De manière générale, nous avions tous envie de changement. Duquel ? Marcello Caetano le résumait dans un slogan exemplaire : le « changement dans la continuité » ; ce qui dans le cas des provinces d’outremer annonçait finalement une diminution de l’intervention de la métropole, chose que la pression internationale sur le Portugal exigeait depuis des années, ainsi que l’engagement en conséquence pour la création de cadres locaux auxquels le pouvoir pourrait être remis, « sans tomber entre les mains d’extrémistes » (Blancs ségrégationnistes ou porte-paroles de mouvements subversifs dont l’objectif était d’expulser les populations blanches d’Afrique). En outre, le nouveau chef du gouvernement promettait le maintien des territoires d’outre-mer, et donc la continuation de la guerre en Afrique, puisque la patrie était et resterait, un corps élargi, agrandi qui d’Europe s’étendait du Minho jusqu’au Timor, obligeant les Portugais à sa préservation ; et c’était bien le désir d’une majorité d’entre nous. On n’imaginait même pas qu’une formidable onde de choc se rapprochait de notre tranquille existence à vitesse grand V, pour changer l’axe de ce monde de manière si radicale qu’il ne serait plus jamais le même. 

Guinée, Angola, Mozambique, Portugal : nous étions « un seul peuple », nous formions « une seule nation avec un gouvernement unique ». On a rapidement commencé à introduire des changements dans le régime des colonies, que l’on désignait par « provinces d’outremer »[6] depuis 1946, dans un effort de consolidation de l’argument idéologique et national selon lequel tous ces territoires formaient le corps indissoluble de la nation. Mais ce n’est qu’à partir de 1967 ou 1968 que les entraves à l’arrivée des colons ont été rapidement levées ; l’opération a même été encouragé par tous les moyens, avec des mesures élaborées par des théoriciens dans de lointains cabinets, qui ne connaissaient pas le terrain, qui n’avaient pas la moindre idée des moyens humains nécessaires, et qui ne disposaient pas non plus de la vision politique adéquate face à ce genre de conditions. Finalement, on admettait qu’il fallait que l’on «fonctionne vite et mieux », comme le Secrétaire d’État à l’Industrie l’affirmait, soutenant enfin le besoin urgent d’une réforme administrative de fond.

C’est ainsi que le Terreiro do Paço de Lisbonne a pris conscience d’une évidence flagrante : «le peuplement est le plus grand ennemi du terrorisme ». On a alors commencé à établir de petits groupes de colons qui croissaient jour après jour, dans l’immensité désertée du Nord, dans les districts du Niassa et de Cabo Delgado ; sous le slogan de Salazar « l’épée à la main, la serpe dans l’autre », les soldats démobilisés ont été les premiers à arriver : le gouvernement leur offrait des terres agricoles, du bétail, de petites parcelles de terrain, et prenait même à sa charge le voyage des membres directs de leur famille, femme et enfants, pour qu’ils soient réunis dans leur nouveau chez eux. Mais cette installation était très, très difficile, même pour ceux qui échappaient ainsi à une vie économiquement très rude sur le territoire métropolitain, ne serait-ce que sous la pression de la guérilla.

L’initiative avait été mise en route en 1963, avec la création d’un nouveau noyau de population, Nova Madeira, dans le triangle agricole du plateau du Niassa, où à partir de 1969 on a commencé à planifier l’implantation de mille familles sur les six années à venir. Et des dizaines, des centaines de milliers de nouveaux colons pour Tete, Manica, et Sofala, dans le district de Cabo Delgado, dans une occupation qui donnerait lieu en conséquence au développement économique du territoire, sous la tutelle de la Junta Provincial de Povoamento, récemment créée. Comme si nous avions encore tout ce temps devant nous. Ce projet n’atteindrait jamais, même pas de loin, les résultats escomptés.

Le Dr. Baltazar Rebelo de Sousa était le nouveau gouverneur général du Mozambique depuis1968 ; il avait traversé le pays de pare en pare, à grand renfort de manifestations populaires en chemin, et avait déclaré à la fin de son périple que, partout, il avait retrouvé « la marque lusitanienne, imprégnée de paix, de tolérance, et d’amour ». À cette époque-là, nous attendions également avec beaucoup d’impatience la visite de Marcello Caetano en Angola et au Mozambique, pour renforcer tous ces liens, dans l’espoir également que le poids de la tutelle métropolitaine se réduise passablement, permettant ainsi le développement de la province, toujours si ceinturé et conditionné par les intérêts de Lisbonne.

Mais nous étions en train de gagner. Car n’était-il pas vrai que les populations soumises par la force des katanas et des armes russes, chinoises, et tchèques soutenaient de plus en plus à contrecœur les turras ? Et n’était-il pas vrai que ces derniers perdaient du terrain, chaque jour, partout au Mozambique ? Et n’était-il pas vrai que l’Afrique du Sud et la Rhodésie nous soutenaient et nous ont soutenu jusqu’au dernier moment, parce que toute la géopolitique du continent et la propre survie de leurs régimes dépendaient de notre présence ? Même les nouveaux présidents noirs des nouveaux pays africains étaient nos amis et nos alliés ! Et n’était-il pas vrai que les populations n’étaient séduites que par la force ou la tromperie, ou carrément contraintes à soutenir la guérilla ? Et que la Frelimo écrasait toute forme d’opposition de manière si dure que ses anciens partisans revenaient au Mozambique pour chercher refuge sous le drapeau colonial ? Et n’était-il pas vrai que le Mozambique était une mosaïque de peuples et de tribus constamment en guerre les uns avec les autres, qui n’avaient connu la paix que grâce à la présence portugaise ?

Nous y croyions dur comme fer. Et il y avait évidemment dans ces chimères un fond de vérité, des lacs de mensonges, et une bonne dose de désinformation.

La vie suivait son cours. Autant que je m’en souvienne, le plus grand scandale à avoir occupé notre imaginaire à la fin de l’année 1968, c’est l’annonce du mariage de Jacqueline, 39 ans, veuve du mythique président John F. Kennedy, assassiné à Dallas six ans plus tôt, avec un horrible « vieux », mais carrément riche, Onassis, qui avait conquis, entre autres, le cœur de la diva Maria Callas. Un sujet dont nous avons discuté sous tous les angles possibles. Mais comment une femme si belle, si jeune, et si chic, qui avait été l’épouse d’un président de conte de fées pouvait se livrer aux mains, aux bras de ce satyre grec ?»

 



[1] Notícias, Lourenço Marquês, 26/01/1968, p. 1.
[2] La bibliographie à ce sujet, et sous différents angles, est très vaste. Ce n’est pas ici l’endroit idéal pour tout exploiter, mais je mentionne, par exemple, « Lazaro Kavandame abandona a Frelimo, Notícias, 4/04/1969, Lourenço Marquês, p. 1 ; et en contrepoint, l’interview par Olívia Massango de Sérgio Vieira : « O grupo de Kavandame nao queria o II Congresso no interior de Mocambique », O País, 24/04/2012, http://opais.sapo.mz/index.php/entrevistas/76-entrevistas/19981-o-grupo-de-kavandame-nao-queria-o-ii-congresso-no-interior-de-mocambique.html (consulté le 20/01/2014).
[3] Notícias, Lourenço Marquês, 1/01/1970, pp. 1-4 ; “Grande entrevistacom neto de Lazaro Kavandame” sur Canal de Moçambique, http://macua.blogs.com/files/cmc_n178_netokavandame.pdf (consulté le 20/01/2014).
[4] « Au Nord – Guerre et Paix » (N.d.T.).
[5] Guilherme de Melo, “Por quem as cruzes alvejam...”, Notícias, Lourenço Marquês, 26/05/1968, pp. 1-4.
[6] Dénomination créée en Inde portugaise, correspondant à un très léger changement dans le régime de tutelle pour empêcher l’intégration de Goa, Daman, et Diu dans l’Union indienne, que Jawaharlal Nehru réclamait depuis l’indépendance.

domingo, janeiro 11, 2015

A grande festa de ver gente a morrer

A crueldade e a estupidez, frutos da árvore da ignorância cultivada no horto do poder, não são privilégio de um povo ou de um espaço mental ou geográfico. Durante trezentos anos tivemos em espaço ibérico, portanto Europa, a linda festa de ir ver gente a morrer. Queimada. É que houve um tempo em que se morria no decorrer de espectáculos públicos, muito festivos e altamente concorridos, sob a acusação de cultuar outro deus. Ou de ironizar a seu respeito, pois a sátira levava gente à fogueira. Aqui. Em espaço europeu. Na Península Ibérica. Em Portugal. Quase que se pode dizer que foi anteontem. Ou ontem. Afinal, dois séculos, um século e meio, são pouca coisa na história dos povos com muita história escrita.

Recorde-se.

De 1480 a 1834 (Espanha) 1534 a 1821 (Portugal) funcionou uma instituição tida por modelar, responsável pela morte ritualizada de milhares e milhares de pessoas, pelo desaparecimento de muitas outras e pela conversão forçada ou expulsão dos reinos ibéricos de povos em massa. Mouros judeus ou gentios, estes sobretudo nos territórios ultramarinos, ou praticantes de outras fés, como os protestantes. Chamava-se Inquisição e com o tempo veio a tornar-se num verdadeiro Estado dentro do Estado, na asserção de que cumpriria desígnios divinos, utilizando todas as armas ao seu alcance para maior glória de Deus. Desde a oratória, à tortura nos cárceres ao público auto-de-fé. Mas sobre os procedimentos, todos os intervenientes eram compelidos a jurar segredo, dos réus aos executantes, passando por médicos, carpinteiros, parteiras, e todos os que tinham acesso aos cárceres, aos presos, aos processos. Quebrar tal segredo, pronunciado sobre os Evangelhos equivalia a cair sob a alçada do Santo Oficio.

O funcionamento da máquina era minuciosamente concebido. Exemplo: a primeira sessão, de genealogia, não elucida em nada o réu, posto que este não sabe de que é acusado, nem por quem. Pede-se-lhe que esquadrinhe a consciência e encontre as razões que o levaram aquela situação. É-lhe feito saber que o tribunal tem contra si provas eloquentes. Segue-se o total isolamento – o réu não fala com ninguém nem ninguém lhe dirige a palavra. E este indizível tormento moral e psicológico em breve dá lugar a outros procedimentos. A tortura física, que quebra corpos e consciências, e que nos cárceres do Santo Ofício complementa, com frequência, as sessões de interrogatório.


Francisco Rizzi, Auto da Fé, Praça Maior, Madrid, 1683, Museo del Prado, Madrid.
 
 
Castigos e suas aplicações culminavam em público espectáculo, rigorosamente cronometrado e ritualizado, ao qual todos eram convidados, compelidos a assistir. E era uma festa. Uma tremenda festa plena de alegria para os que só estavam a assistir.  «A morte pelo fogo dava lugar a uma festa» – a palavra é dos inquisidores – anunciado publicamente uma entre uma semana e um mês de avanço nas principais ruas e praças da cidade, ou nas redes de igrejas. As ruas ornamentava-se de bandeiras e grinaldas de flores, as varandas e janelas cobriam-se de tapetes. Havia comes e bebes e levavam-se as crianças, mesmo as mais pequenas que, por fim, subiam para os ombros dos progenitores a fim de ver o melhor do espectáculo. A parte dos corpos a arder nas fogueiras. E como os autos-da-fé duravam muitas vezes de sol a sol, junto do tablado coberto por um dossel vermelho, onde ficava o altar e os palcos para o rei, ou governador e outros notáveis laicos e religiosos, construíam-se urinóis para os convidados de honra.



A roupa diz tudo sobre o destino de cada um dos réus e suas condenações, num simbolismo gráfico acessível, que todos conseguem descodificar
O Iluminismo veio enfraquecer decididamente uma instituição já muito enfraquecida, até por falta de matéria-prima. Na verdade, as sátiras a partir do século XVIII, abundantemente propagandeadas fora do espaço ibérico, nomeadamente nos países Reformados, contribuíram decididamente para a enterrar. Não de vez, já que a Inquisição servia altos propósitos, dava emprego a muita gente e estas coisas não morrem de um dia para o outro. Desenhos satíricos e textos mordazes, porém, ferraram bem o dente neste horror. Já nos seus estertores, posta em questão toda a sua máquina, ainda Francisco Goya se viu a braços com ela por causa dos Caprichos, gravuras satíricas que atacavam o clero e a alta nobreza.


Francisco Goya, «Aqueles polbos...», série Caprichos, nº 23 (pormenor), 1799, obra delatada à Inquisição que viu no lema uma acusação dirigida não ao réu mas ao tribunal. O pintor, já nos princípios do século XIX chegou a temer tanto a Inquisição que suspendeu a venda das referidas gravuras que só foram reeditadas a parti de 1826.

Por cá, cerca de meio século antes, um escritor, dramaturgo, genial, foi queimado em praça pública, num dos últimos espectáculos inquisitoriais «dignos» desse epíteto. Chamava-se António José da Silva, nascera numa fazenda nos arredores do Rio do Janeiro (1705). De origem judaica era baptizado, mas juntamente com a sua família foi vitima da perseguição que, em 1712 dizimou a comunidade de cristãos-novos do Rio de Janeiro, já que sua mãe, Lourença Coutinho, acusada de judaizar foi deportada para o reino. O pai, o advogado e poeta João Mendes da Silva, decidiu então partir da Portugal para estar próximo da sua mulher, trazendo o pequeno António consigo. Este estudou direito na Universidade de Coimbra, e, interessado por dramaturgia escreveu uma sátira que o conduziu aos calabouços do Santo Oficio onde foi duramente torturado, a ponto de ficar inválido por algum tempo.

Tendo vindo a tornar-se o mais famoso dramaturgo português do seu tempo, António José da Silva viria novamente a ser preso pela Inquisição em 1737, nessa altura juntamente com  a mãe e a esposa, Leonor de Carvalho, as quais foram posteriormente libertadas. Uma vez mais torturado, e por fim, num processo altamente irregular até pelos cânones do Santo Oficio, O Judeu, como ainda hoje é conhecido, foi condenado à morte numa das públicas cerimónias tão concorridas como eram os autos-da-fé, em 1739. Um dos últimos, com estas características, em solo português, registe-se.



Alguma bibliografia
AA.VV., JewishEncyclopedia.com, [http://www.jewishencyclopedia.com/view.jsp?artid=2155&letter=A]
Antonio Puigblanch (1811) La inquisicion sin máscara: ó disertacion... [ebook, acesso livre)
AZEVEDO, J. Lúcio de, História dos Cristãos Novos Portugueses, (1975), Lisboa, 2ª ed., Livraria Clássica Editora.
BENNASSAR, Bartolomé, (1979), L’Inquisition Espagnole XV – XIXe Siècle, Paris, Hachette
BETHENCOURT, Francisco, (1994) História das Inquisições, Portugal, Espanha e Itália, Lisboa, Circulo de Leitores.
COELHO, António Borges, (1987) Inquisição de Évora, Dos Primórdios a 1668, Lisboa, Caminho, vols. 1 e 2.
GOTHEIL, Richard, (2002) Auto da Fé:, [http://www.jewishencyclopedia.com/view.jsp?artid=2155&letter=A]
GRIGULÉVITCH, Iossif, (1990) História da Inquisição, Editorial Caminho, Lisboa

 

terça-feira, janeiro 06, 2015

Morrighan - «Os melhores de 2014! Literatura»

Sofia Teixeira, a autora de um blogue literário que já se tornou uma referência, comentou  Moçambique para a Mãe se lembrar como foi, na sua página em Goodreads :

«[...] As várias recordações recolhidas para este livro chegam-nos muitas vezes em pequenos fragmentos e tanto parecem relatados com alguma indiferença como com imensa emoção. Achei extraordinária a forma como a autora conseguiu descrever a mentalidade das pessoas naquela altura, o quão os brancos eram facilmente questionáveis e todo o esforço de adaptação. A mãe da autora, uma mulher senhora de si e muito independente, é o exemplo de mulher progressista, mas que depois em relação à própria filha nem sempre conseguiu ser tão tolerante. Deste livro de memórias, o leitor pode retirar uns quantos excertos e romanceá-los, estendê-los na sua própria mente, sem nunca desvirtuar o quão real elas forma.

Com um enquadramento histórico preciso, a escrita de Manuela Gonzaga tem o poder de nos transportar para aqueles tempos, dando-nos a possibilidade de ver com os seus olhos toda uma evolução da sua posição na sociedade, da sua luta, de toda uma experiência num país que, apesar de na altura ser uma extensão do nosso, atravessou todo o tipo de fases - desde a prosperidade à guerra. O sonho de ser escritora começou de forma subtil, na voz de um soldado que partilhava as suas várias angústias. Como é que Manuela poderia saber e sentir tais coisas? Só mesmo tendo presenciado e vivido no meio de tal violência. A continuação, deixo-a para vocês a descobrirem.» para ler mais seguir o link: Goodreads
 
Agora, tomei conhecimento de que este meu livro veio integrar Os Melhores de 2014! Literatura, TOP literário do blogue Bran Morrighan. É um estímulo, mais um. Num ano que começou com uma perca irreparável a nível pessoal, este tipo de reconhecimento ao nosso trabalho aquece e dá força. Isso e o abraço quente e fiel dos que nos querem muito bem.
 

segunda-feira, janeiro 05, 2015

2015 na Zona Franca

Eu queria atravessar o ano como os passageiros clandestinos. Porém... o inesperado espera-nos quando menos esperamos. Vinte minutos antes da meia-noite lá estávamos nós, mais o cão, evidentemente, a entrar por aquele bar, restaurante, tertúlia, que serve refeições, e se prolonga por um espaço muito maior do que à entrada podemos supor, para terminar num pátio com telheiro e um enorme maracujá que floresce e frutifica disparatadamente e dá frutos dulcíssimos, vá-se lá saber porquê.



Lisboa é tão especial.

Antes do ano morrer, a história do lugar foi-nos contada por um dos associados fundadores deste espaço que fora, até há pouco, uma mercearia tradicional como muitas outras. Pachorrenta e imutável. Balcões velhos, prateleiras rombas do peso dos 'secos e molhados'. Porém, por trás do balcão havia uma sala com uma grande bola de espelhos a fazer de candeeiro, e vários quartinhos servidos por dois duches, extremamente exíguos. A mercearia era multiusos o que já não seria tão tradicional.

Agora, desses usos outros nada resta, melhor fora. Mas o espírito dos lugares é mais tenaz do que se pode pensar. A boémia, vivida de outra forma, é cultivada de formas plurais e muito felizes, ali onde se recita poesia, se fazem saraus literários e o mais que adiante se irá vendo. Sem esquecer que se come bem e barato, com a presença de gastronomias para todos os gostos, pratos veganos incluídos.

Afinal, o sitio tem o melhor nome que se podia arranjar, Zona Franca.


Desta inesperadíssima passagem de ano, com champanhe e tudo e passas engolidas de uma só vez, porque o raio dos desejos embrulha-se e a pessoa esquece-se logo do que estava a pedir antes, ainda trouxe mais. Uma história deliciosa. Um amigo de amigos que ali se encontravam, apaixonou-se por uma marroquina com idade para ser sua filha e casou-se com ela, deu-lhe uma motoreta e, naturalmente, cidadania portuguesa. Acima de tudo, deu-lhe a total liberdade de o amar apenas e só se quiser. Agora, em Fez, aquela miúda que anda por todo o lado de cara destapada na sua flamejante motinha, é a mulher mais livre daquela terra onde ser mulher é... o que se sabe.

Isto é lindo. Aconteça o que acontecer no desenrolar da história.