domingo, março 29, 2015

Cinco estrelas para Xerazade



Em Goodreads, a opinião de Sofia Teixeira, autora do Blogue Bran Morrighan, considerado de forma consensual um dos mais interessantes blogues literários, sobre Xerazade - a última noite, a que dá cinco estrelas: «Tendo lido apenas um único livro, que poderei esperar deste novo num formato diferente? Lido este segundo, Xerazade - A Última Noite, tenho a certeza que não podia estar mais certa quanto à minha opinião e que Manuela Gonzaga é das melhores escritoras que alguma vez li.»


Transcrevo o seu texto na íntegra aqui: 

Opinião: O meu primeiro contacto com a escrita da autora Manuela Gonzaga deu-se com a sua obra Moçambique - Para a Mãe Lembrar Como Foi, escrito em honra e memória da sua mãe. Mesmo sendo autobiográfico, houve algo na sua forma de expressão que me conquistou, um sentido de personalidade e força, mesmo no meio das fraquezas, que rapidamente humanizou aquela imagem de escritor que muitas vezes temos tida como distante e fria. Não foi surpresa para mim quando, fazendo o balanço das leituras de 2014, não tive dúvidas que aquele era um dos livros do ano, não havia outra hipótese dada a sua qualidade. Quando elevamos assim a consideração e o gosto por um escritor, pegar em algo novo seu causa sempre aquele formigueiro de expectativa. Irei gostar tanto como o outro? Tendo lido apenas um único livro, que poderei esperar deste novo num formato diferente? Lido este segundo, Xerazade - A Última Noite, tenho a certeza que não podia estar mais certa quanto à minha opinião e que Manuela Gonzaga é das melhores escritoras que alguma vez li. 


«Não tenhas medo. Não é para sempre. Se nunca nos perdemos até agora, não será desta que tal acontecerá. Temos de aprender a aceitar as separações com a serenidade que nos for possível. Sabendo que todas elas escondem a alegria dos reencontros que nunca nos falham


Ao contrário do que nos tem habituado, Xerazade até pode ter algo de auto-biográfico, mas pegamos nele enquanto romance, enquanto universo que nos engole e nos consome à medida que percorremos cada página. Tal como a própria narrativa o vai demonstrando, também a leitura se torna febril capítulo após capítulo. "Não me deixes.", desejo sentido pelos protagonistas, mas também pelo leitor, que se vê vazio quando tem que pousar o livro. 


«Nunca devemos mostrar tudo o que temos, quando o que temos é mais do que quase toda a gente tem. Não são luxos, mas passam por isso. São mais do que isso, até. São frutos de muito amor e muito labor. Mas as pessoas só vêm o resultado final e então provam o mais ácido dos venenos. A inveja.»


Quem é que não conhece as Mil e Uma Noites? Em que Xerazade empreende num plano arriscado para salvar a vida das mulheres que o sultão insiste matar todos os dias? É com estórias, as mais belas e aterradoras, em que a eloquência e a sagacidade com que desenrola cada fio narrador lhe concede mais algum tempo de vida. É num formato parecido que viajamos por uma estória que é de dois, mas de muitos mais, uma trama apaixonada que não se prende a estereótipos e que expele as mais diversas emoções inerentes ao ser humano - paixão, amor, dor, ódio, rancor, lealdade e traição, entre tantos outros.


«A dor tem muitos rostos e muitas formas de se fazer sentir.»


Existe uma genialidade nesta narrativa que está ao alcance de muito poucos, ou de mais ninguém. Não é algo que se compare, é certamente belo e fascinante, mas penso que acima de tudo único e, mais uma vez, Manuela Gonzaga mostra a fibra de que é feita. Flexível, sem quebrar, forte sem deixar de ser sensível, e uma capacidade de projectar os cenários mais simples de forma tão intensa. Existe uma estética e uma imagética tão sedutores quanto torturantes, no bom sentido, pois queremos rapidamente chegar ao fim sem que na verdade toda esta musicalidade mitológica, real, filosófica e paisagística termine. 


«No princípio de todos os princípios, foi o som. Depois, a palavra. Por fim, a música. A trindade primeva da criação. A sua emergência em espírito, alma e corpo. Um corpo de glória, cuja pauta são os números sagrados. É por isso, que a música está em todo o lado — desde os confins do espaço e do fundo dos tempos, à incerta e delicada estrutura atómica. Cada estrela, cada planeta, cada galáxia, cada cometa e cada asteróide cantam na sua própria vibração. Assim como cantam todos e cada um dos corpos — da célula ao átomo e seus componentes até à plataforma fantasmática da preexistência quântica. A música mora em tudo e em todos. E está presente até no silêncio. É a assinatura da vida.»


Todos conhecemos a lei da atracção e da unicidade da matéria que nos faz reflectir, que nos leva a questionar o que nos rodeia. Neste contexto, mais do que um livro que dá respostas, através de Xerazade a escritora levanta várias questões, confronta o leitor com a sensação do todo, mas também com a inevitabilidade da perda, do que fica no fim. Era capaz de esgotar elogios no que a este livro diz respeito e mais, tenho a certeza que esta obra se vai tornar num Clássico da Literatura Portuguesa. 

Sofia Teixeira, 22 de Março de 2015»




domingo, março 15, 2015

Enquanto isso, eu penso no meu Touro do Céu

Um extracto de Xerazade - a última noite - um romance que quase se foi escrevendo a si próprio, num deslindar de memórias, aforismos e lendas que uma mulher, em jeito de despedida, vai contando ao seu amante que, inconformado, se recusa deixá-la partir.

Europa e o Touro, Museu de Tarquínia, c. 480 AC
 
Enquanto isso, eu penso no meu Touro do Céu
[...]
O que sucede às palavras quando o som foge delas? O que sucede à luz quando todas as suas partículas escolhem ondular pelo infinito mar do devir? E nesse vaguear marinho, em que matriz encaixar os nossos desejos e apegos? Gostava de certezas, neste momento em que a única certeza é o incerto acontecer. O pior é que só me veem à memória toadas infantis, cantilenas de embalar e histórias do tempo em que os animais falavam e só crianças ou tolos entendiam o que eles diziam. Caminhámos tanto, e afinal o que nos resta é um punhado de canas, um punhado de histórias e um punhado de pérolas soltas?

Diz-me se isto faz algum sentido.

Sou de um tempo em que fadas e anjos eram quase da mesma família. Sou de um tempo em que, entre fadas e anjos, se estendia uma muralha de fogo e um redemoinho de anátemas. Sou do tempo em que fadas e anjos jaziam, lado a lado, num sepulcrário, o mesmo, atulhado de fantasias quebradas e arrumadas a eito. Podíamos visitá-los como quem percorre um museu, ou a cave de um teatro barroco, precioso mas entretanto abandonado, atulhada de adereços inúteis, sem uma única referência de como, quando e para quê foram usados. Sou de um tempo em que já nem se falava de fadas, nem de anjos. Sou de um tempo em que inventámos uns e outros, à medida que eles próprios nos inventavam também.

É a memória um jogo?

O meu Touro abriu as asas. Céus, como ele ri! Amor, muito antes de Creta, entre mulheres e touros existe uma aliança. As mulheres não ferem o touro, brincam com ele. As mulheres não matam o touro. Amam-no. Que algumas reclamem para si a arena, a espada, a verónica, o cavalo e as bandarilhas, prova apenas o quanto nos afastamos da essência. Do fruto, sobraram as cascas. A semente perdeu-se há muito. Do gesto, secreto, resta, em mímica adulterada, a profanação de um mistério transformado espectáculo, e sem sentido algum. A não ser o mais primário de todos os sentidos. O prazer de cheirar e ver correr sangue. Muito sangue.

Desde que não seja o nosso.

Lembra-te do tauróbolo. Estivemos juntos em São Clemente, Roma, só que dessa vez nenhum de nós se lembrava. As imagens que guardamos desses dias, tiradas com uma câmara de plástico comprada numa loja de souvenires perto da Fontana de Trevi, mostram-nos de mão dada diante da basílica erigida sobre a primitiva igreja que, nos primórdios do Cristianismo veio encapsular um Mithraeum[1]. Imagina: Cristo e Mitra reunidos no mesmo espaço. Religião e arqueologia, camada por camada, século após século, andar por andar. Descemos até às entranhas.

Vimos tudo – e não vimos nada.

Mas o mistério persiste na cave outrora vedada a mulheres. Amor, desta viagem tens de te lembrar, foi tão recente. Nós os dois, como se nada fosse, rindo de tudo, até das tuas máquinas fotográficas que as crianças nos roubaram, estivemos num dos teatros do deus oriental que nasceu há milhares de anos a 25 de Dezembro para salvar a humanidade. Trezentos anos antes do nascimento do Menino, já Mitra era adorado desde a Índia ao mundo mediterrâneo. Matara o touro por amor da humanidade e o rito repetia o misterioso ciclo. Às ocultas, na sacralidade do espaço iniciático onde o touro era degolado para o seu sangue cair sobre o neófito. No Mithraeum de São Clemente não rimos.

Mas também não entendemos.

O que sobrou do velho culto? Um arremedo. O touro, a arena e um virtuoso. O Matador que demanda assistência e bebe aplausos, na encenação de uma morte precedida por uma espécie de bailado em pontas, gestos largos, ondular de capote, e muitos ferros cravados num corpo palpitante, perante uma assistência que respira o cheiro do medo e rejubila com a agonia, e reclama a estocada final. Mas antes, é preciso provocar, magoar, perseguir sem descanso. No lugar do círculo, sob a claridade estonteante do meio-dia, o toureiro encomenda-se à Virgem, cujo filho se ofereceu em holocausto, tomai o meu corpo, tomai o meu sangue, como símbolo de Redenção e aliança. Que ironia. Sob a pretensa invocação de um arquétipo do herói, a larva transmuta-se em pequeno tiranos enfeitados de sangue e joias falsas.

Pensa: porque motivo, na arena, o macho se traveste, meneando as ancas, as pernas desenhadas nos collants cor-de-rosa, as nádegas evidenciadas no fato brilhante, justíssimo, resplandecente de luces, citando o outro macho, em trejeitos de mulher dama, chamando-lhe bonito, chamando-lhe belo? É para juntar mais um engano ao enredo de enganos. O touro confia na mulher. A mulher ama o touro. Deixa-se levar por ele, sobre as águas.

Portanto, o segredo da arena já não é segredo nenhum. São estes homens bamboleando-se como fêmeas que incitam o touro para o magoar, e para serem aplaudidos pela sua morte a que chamam gloriosa para se distinguirem do magarefe que não quer palmas para nada, porque sabe que matar o touro é apenas um trabalho sujo pelo qual lhe pagam. Porque o fazem? Porque já esqueceram. Pensa nas dançarinas em Creta e nos curetes. Recorda Zeus e Europa. Reflecte sobre o crime de Minos, ele próprio filho de um touro, o Touro sagrado. E a vergonhosa maldição de Pasífae que gerou o touro, o Minotauro. Recorda Indra, o que fez do trovão seu aliado. Tu sabes. Eu sei. Alguns ainda recordam. Só eles não sabem nada.

Enquanto isso, eu penso no meu Touro do Céu.


―Estás a delirar. Abre os olhos, querida.

Naqueles dias, sabíamos que é preciso nascer para vencer a morte.

― Não quero saber de grutas, nem de touros, nem de mortes. Estou aqui, ao teu lado. Não te esqueças disso.


 [...] em Manuela Gonzaga, 2015, Xerazade - a última noite, Lisboa, Bertrand, pp. 106-109.



[1] Originalmente, um santuário ao deus Mitra, cujo culto vindo da Ásia Central, se veio a tornar um dos mais importantes no império romano, até ser abolido em 391 DC.
 

quinta-feira, março 12, 2015

Xerazade - a última noite

Uma «última noite» que foi o primeiro dia deste novo livro, que comecei a escrever há nove meses atrás - sim, nove meses - sem perceber que era livro até que, no encadeado das narrativas, muito curtas, que me foram atropelando todos os pensamentos, obrigando-me à sua fixação em suporte digital, percebi.

Havia uma mulher e essa mulher estava a despedir-se do amante. Havia um homem, e esse homem não queria deixar aquela mulher deixá-lo. E havia histórias, muitas histórias que cruzavam os tempos, desde tempos muito remotos, que ela insistia em contar-lhe porque, dizia, eram outros tantos retábulos da vida dos dois, através das muitas vidas em que se tinham cruzado. E porém, estes relatos pareciam também subterfúgios para conquistar tempo... o tempo da distância que ele não lhe deixava tomar...

A principio, eu não sabia dela mais do que ela queria que eu soubesse. E não sabia dele, a não ser por intermédio do que ela queria que eu soubesse. Depois, a história tomou conta de mim, de uma forma avassaladora. Quando disse ao meu editor, Eduardo Boavida, que tinha um livro novo a caminho, ele até se riu. Tinha acabado de lançar Moçambique pra a mãe se lembrar como foi, e o processo fora estimulante, muitíssimo envolvente, mas... doloroso.

Quanto tinha cerca de setenta páginas e um montão de dúvidas, enviei-lhas. Ele gostou. E deus sabe como precisamos de estimulo e apoio nessa fase silenciosa e escondida, em que nos enrolamos nas nossas próprias estórias, procurando dar-lhe o chão seguro de uma narrativa que suporte, com elegância e credibilidade, o seu esqueleto musical.


Ontem, 11 de Março, o livro foi apresentado ao público. Trechos da obra selecionados e lidos na voz lindíssima do Samuel Pimenta criaram uma aura de silencio mágico na sala. Deixem-me acrescentar que a FNAC do Chiado estava mesmo muito cheia. Mas antes, Vítor Rua fez uma apresentação brilhante, generosa, inusitada a reflectir uma leitura muito profunda do livro. E o prazer muito evidente que ele teve em lê-lo. Foi... extraordinário. A principio, o registo era tao como dizer? out que criou uma aura de espanto. Estas coisas da cultura costumam revestir-se de alguma  solenidade excessiva, que, no meu caso, tento arredar. Mas nem toda a gente consegue o prodígio que este músico, este intelectual, conseguiu. Criar silêncios arrepiados e arrancar gargalhadas.

O meu neto, Gabriel, que é um dínamo, um furacão à solta, escutou tudo numa imobilidade reverencial, e isto diz muito de uma criança de três anos que no fim, voltou ao seu estado 'normal' e, saltando do colo do pai, desatou a correr pela FNAC fora, tipo lebre. Ora quando até uma criança assim ouve como o Gabriel ouviu, é porque um anjo passou por aquele espaço. Vítor falou de deus, ao falar do livro, mas nem me atrevo a citá-lo. Quando estiver online, deixarei aqui o que aconteceu e foi filmado.
Vítor Rua, atrás do tablet desdobrável, a apresentar brilhantemente Xerazade - A Última Noite, de Manuela Gonzaga, com Eduardo Boavida e Samuel Pimenta



A todos muito obrigada. Tanto, tanto, tanto. Adorei todos os abraços, todas as palmas, gargalhadas, expectativa, encontros, reencontros com amigos e desconhecidos. Adorei a apresentação do Vítor Rua, e os trechos escolhidos pelo Samuel Pimenta. Agora, o livro já não é meu. É, literalmente, de quem o apanhar. A vossa leitura, fará o resto.

 

sábado, fevereiro 28, 2015

O Poder das palavras faz-se de liberdade e silêncio

Uma vez que na página as nossas comunicações só estão, por enquanto, em síntese, publico aqui o texto da minha participação nas Correntes d'Escritas 2015.

I - Agradecimentos - À Povoa de Varzim e à sua Camara Municipal que há quinze anos lançou as bases daquele que ainda hoje e nestes moldes, constitui o maior acontecimento literário no nosso país. Ao meu editor, Eduardo Boavida, pelo apoio que sempre me tem dado, permitindo-me o privilégio de escrever em liberdade.


Mesa3 - da esquerda para a direita:
António Cabrita, Clara Usón, Michael Kegler (moderador) Manuela Gonzaga, Vergílio Alberto Vieira
 

II – Palavra e Segredo Quando li o mote da nossa Mesa recordei-me de um ensaio que escrevi há vários anos sobre a Visitação do Santo Oficio da Inquisição ao Estado do Grão Pará e Maranhão (1763-1769), um trabalho desenvolvido em parceria com dois colegas arqueólogos, Rui Gomes Coelho e Ana Rita Trindade. Na divisão de tarefas a que nos propusemos, couberam-me os caminhos da Palavra e do Rito, na reconfiguração de um discurso dito «espiritual» e que mais não era do que uma claríssima afirmação de poder. Um poder sem limites.
Uma breve nota para frisar apenas que os países protestantes também tiveram Inquisição e que esta foi tão brutal como aquela que nos ocupa agora. Portanto, avancei por caminhos onde o poder articula a utilização rigorosa da palavra com a utilização igualmente rigorosa dos rituais que envolviam este teatro do macabro, com a gestão feroz do silêncio – aqui enquadrado na temática do «segredo», fundamental para a optimização dos objectivos a que o Tribunal se propunha: «porque no Santo Ofício não há cousa em que o segredo não seja necessário. [1]»
Para começar, o réu ignorava de que era acusado e por quem. E na primeira sessão a que era chamado, não só ninguém o elucidava, como a Mesa lhe pedia que esquadrinhasse a sua consciência para encontrar as razões que o tinham levado àquela situação, sendo-lhe feito saber que o tribunal possuía contra ele provas eloquentes. A esta primeira sessão, seguia-se o total isolamento, – o réu não falava com ninguém, nem ninguém lhe dirigia a palavra. Por outro lado, a todos os que participavam nestes procedimentos e processos, era imposta a obrigatoriedade ao segredo. Juravam-no os réus, para toda a vida, sob pena de excomunhão e de regresso aos cárceres. Juravam-no testemunhas, ministros e oficiais do Santo Ofício, deputados e Promotor, notários, oficiais e   todos os chamados para os seus serviços. O mesmo manto opressivo cobria os que tivessem de entrar nos cárceres, “em razão de alguma cura ou mezinha de doentes”. E o que vale para médicos, cirurgiões, barbeiros, parteiras, estendia-se a pedreiros, carpinteiros, – que, sem tomarem juramento de segredo sob os evangelhos, não podiam entrar nem exercer os misteres para que eram chamados. O segredo opressivo, tentacular, nunca acabava.2
Da leitura de processos e Regimentos, emana, ainda hoje, a convicção dos seus autores de que a instituição cumpria desígnios divinos, sendo-lhe portanto lícito utilizar todas as armas ao seu alcance, do silêncio à oratória, da tortura nos cárceres ao público auto-de-fé. Que era uma festa para todos – excepção aos actores principais. Os réus.
Auto de fé
 

Organizadora de espaços e mentalidades, a palavra detém, por definição, o poder de representar o pensamento, construindo, por assim dizer, e ao longo dos séculos, a quadrícula que permite não só permite a sua expressão, como também a suscita, como sugere Foucault, num percurso que não é linear mas que atravessa todos os domínios de interacção social, do sagrado ao profano, do privado ao colectivo, do erudito ao popular, do secreto ao público. Nesse sentido soberana, à palavra cabe a tarefa de uma construção onde a representação “o poder de se representar a si mesma” se justapõe, “parte por parte” ao olhar da reflexão.[3]

Esta construção – a da rede do pensamento – torna-se particularmente visível nas fronteiras entre discursos, consoante eles pautam as normas do poder, ou reflectem a linguagem popular e laica. E neste caso, o discurso legalista e espiritual da Igreja Tridentina aqui invocada, leva-nos para um território onde as mesmas palavras de uso quotidiano, não querem necessariamente dizer as mesmas coisas.

Por exemplo. Tropeçamos repetidas vezes em vocábulos como “compaixão”, “brandura” e “piedade” que não têm o mesmo significado se utilizados no discurso corrente, ou num Regimento do Tribunal do Santo Ofício. Sabendo-se como os presos eram tratados, é curioso confrontar esse tratamento com o determinado na alínea sobre os cuidados a dispensar-lhes: aconselha-se a falar-lhes com «gravidade e modéstia» e até com compaixão pela «sua miséria», a fim de se poder conduzir essas rezes tresmalhadas «ao caminho de sua salvação». E ainda, que os presos tivessem ao seu dispor «tudo o que lhes for necessário», principalmente os doentes, de modo que todos reconhecessem que, no Santo Ofício, «piedade e a justiça» eram sinónimos.[4]

Estamos portanto num território onde a palavra afirmava – através do gesto, – o seu contrário. Um território onde o discurso se inseria num tenebroso conjunto de procedimentos que visavam aniquilar física e moralmente todos que caíssem nas suas malhas. Como justificar o injustificável? Através de uma lógica suportada por mecanismos de repressão e vigilância. Estamos perante um verdadeiro edifício ideológico, que busca e auto-fornece a sua própria justificação, nunca descurando uma gestão de argumentos cuidadosíssima. Há assim que reconhecer que Palavra e Segredo formam neste contexto uma dupla e intrincada hélice de cujo equilíbrio depende todo o edifício.

Falamos de ocultação de provas e de branqueamento de práticas.

III – A assinatura da Vida - O mote que nos foi dado visava o «poder da palavra» através da Liberdade e do Silêncio. Sei que estou nos antípodas. Mas por mais que pense em liberdade, quando se trata da palavra e da sua capacidade de criar universos e realidades, é quase inevitável ir, também, ao encontro da sua antítese. A Palavra é uma arma de poder. Pode libertar e pode aprisionar. Pode calar o discurso, a vontade e a própria vida. Ou pode fornecer-nos as pistas de como conquistarmos as nossas próprias asas. Pode suscitar o silêncio criador, matriz de toda a Criação.

Nesse sentido, nós, os do ofício, temos um dever sagrado. O dever de não calar, e a obrigação de recordar. Porque, em tempos e termos históricos, o que estamos a celebrar é uma singularidade e um privilégio tão grande, que, para salvaguarda dos valores que defendemos – poder pensar e poder partilhar pensamento em liberdade –, temos o dever de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para manter acesa esta luz.

A liberdade não é um dado adquirido

De certa forma, enquanto escritora, e já antes, enquanto jornalista, sempre senti como se, nós, os do ofício, tivéssemos de pagar tributo pela exultação que sentimos quando o silêncio e a palavra se articulam na música da criação. Precisamos de ambos. Mas só lhes chegamos em liberdade. Por isso, temos de ser os seus guardiães.

A terminar, vou ler uma passagem de Xerazade, a última noite, livro que acabei de lançar aqui, nas Correntes d´Escritas, e que depois do negrume onde mergulham as primeiras páginas desta comunicação, constitui um contraponto, a meu ver, mais redentor:



«No princípio de todos os princípios, foi o som. Depois, a palavra. Por fim, a música. A trindade primeva da criação. A sua emergência em espírito, alma e corpo. Um corpo de glória, cuja pauta são os números sagrados. É por isso, que a música está em todo o lado — desde os confins do espaço e do fundo dos tempos, à incerta e delicada estrutura atómica. Cada estrela, cada planeta, cada galáxia, cada cometa e cada asteróide cantam na sua própria vibração. Assim como cantam todos e cada um dos corpos — da célula ao átomo e seus componentes até à plataforma fantasmática da preexistência quântica. A música mora em tudo e em todos. E está presente até no silêncio. É a assinatura da vida

 
 
 
 

 

 
 


[1] Regimento do Santo Ofício da Inquisição dos Reinos de Portugal (2004 [1640]), in As Metamorfoses de um Polvo. Religião e Política nos Regimentos da Inquisição Portuguesa (Séc. XVI-XIX). FRANCO, J. E. e ASSUNÇÃO, P. de (eds.), Lisboa: Tít. I «Do número, qualidades e obrigações dos ministros e oficiais da Inquisição», §7 (Encomenda-se o segredo).
[2] Regimento... , Tít. I (Do número, qualidades e obrigações dos ministros e oficiais da Inquisição).
[3] Foucault, M 2005 – As Palavras e as Coisas. Lisboa: Edições 70 As Palavras e as Coisas. Lisboa: Edições 70, p. 131.
[4] Regimento...:, Tít. III (Dos inquisidores), §24 (Que não falem com os presos senão em presença do notário).
 
 
 
 
 

 
 

domingo, fevereiro 08, 2015

O pai que 'roubou' a noiva ao filho

Há tempos, num romance dito 'histórico' assinado por uma aristocrata inglesa e revisto por um historiador, voltei a deparar-me com a 'lenda' da suposta concupiscência de D. Manuel que, babado pela noiva do filho, resolveu roubar-lha. Pior ainda - ao Venturoso atribuía a senhora escritora na altura de tal feito, a vetusta idade de 70 e picos anos, quando ele morreu aos 52.
Posto isto, aqui fica um extracto de Imperatriz Isabel de Portugal:


D. Manuel I (1469-1521)


Quando D. Maria morreu, D. Manuel caiu numa tristeza tamanha que chegou a pensar ir viver para o Algarve, deixando ao príncipe herdeiro D. João, de 15 anos de idade, e seus conselheiros, o governo do reino. E à filha mais velha, Isabel, então com e catorze anos, confiou-lhe o cuidado dos irmãos, doando-lhe Viseu e Torres Vedras e fazendo-a herdeira do património da mãe[i]. Nessa altura a infanta Beatriz tinha doze, D. Luís, dez, D. Fernando, nove, D. Afonso, sete, D. Henrique, cinco, e D. Duarte ainda não cumprira os dois anos. 

Por essa altura, o rei era alvo de uma campanha de descrédito nos meios palacianos. Dizia-se que era um homem mais preocupado em construir edifícios do que em atentar à sua «real dignidade». Censuravam-lhe ser tão «descuidado» da «gravidade de um rei» que se tornara acessível a todo o tipo de pessoas, fosse qual fosse a sua condição, não desprezando de falar com nenhuma. Criticavam-lhe os passeios a cavalo e a sua prodigalidade com o «ouro e a prata». Finalmente, tentaram convencer o príncipe a distanciar-se do seu pai, pois se queria adquirir renome de «príncipe grandíssimo» deveria comportar-se de forma muito diferente.  

D. Manuel, na altura com 48 anos e pai de oito filhos homens, acabou por ficar ao corrente destas práticas. E para melhor se salvar da «solidão e menosprezo», e do receio que D. João acabasse refém de lisonjeiros, desprezando-o e deitando o reino a perder, pediu ao imperador D. Carlos que lhe desse em casamento a mesma infante D. Leonor, de excelente formosura e bondade, que pedira antes para seu filho. 

Ou, como equaciona Oliveira e Costa, no receio de uma perturbação interna, a primeira no seu já longo reinado, e sob o risco de enfrentar uma revolta encabeçada pelo filho, D. Manuel atuou «como sempre fizera, dissimuladamente, com manha, e matou a revolta que lhe parecia lavrar na corte, roubando a noiva ao filho»[i]. As negociações foram levadas a cabo no maior segredo e, sem surpresa, Carlos concordou – para lá de todas as outras razões, casando D. Manuel com a irmã, D. Leonor, ganhava um poderoso aliado na Península Ibérica – celebrando-se de imediato o inesperado enlace por palavras de presente, seguido de grandiosas festas e jogos no palácio de Saragoça. De seguida, a nova rainha portuguesa partiu e chegou à raia no mês de Novembro de 1518.

Esta mudança de planos causou espanto e deu azo a muita murmuração na corte[iii], mas indiferente a murmúrios, D. Manuel no esplendor dos seus quarenta e nove anos, casou mesmo e pela terceira vez na vida, com uma jovem de vinte, transformando em sua mulher a que deveria vir a ser nora…O reino conheceria assim nova rainha, e os infantes, seus filhos, uma madrasta, para grande desgosto de D. João e de «alguns senhores» que levaram «a mal». Mas o Venturoso convocou os que se encontravam na corte, explicando-lhes os motivos que o tinham levado a este casamento. Os argumentos do rei, e a sua autoridade, calaram a oposição deixando todos «satisfeitos», ou pelo menos parecendo, excepto o príncipe que nunca mostrou ter disto «gosto, nem contentamento». 

O beija-mão real selou o encontro.[iv]





* D. Manuel era um poderoso e muito rico soberano hispânico com laços importantes no reino vizinho, de tal forma que, no início da década de vinte, representantes dos comuneros lhe virão pedir que aceite o trono de Castela, desgostosos com o séquito borgonhês e com os conselheiros Flamengos de Carlos V, cujo poder, e arrogância suscitou grande resistência por parte da velha nobreza e dos povos. Na prática, Carlos foi um usurpador, apropriando-se do trono da mãe. Como Oliveira e Costa enuncia, neste «fazer e desfazer de alianças tudo era possível de acontecer». Embora Joana a Louca desse sinais de instabilidade, se porventura voltasse a casar, logo com um esposo que assegurasse a governação, como sucedera durante os meses em que Filipe o Belo vivera em Castela, o filho perderia toda a legitimidade ao trono. Daí que, quando se soube da morte de D. Maria, os conselheiros de Carlos V propuseram Margarida da Áustria para nova consorte do rei de Portugal. Face ao desinteresse desta, e à pressão de D. Manuel que estava mais interessado em resolver um problema interno do seu reino do que envolver-se num conflito externo de resultados muito incertos, o pedido do Venturoso à mão de D. Leonor da Áustria foi aceite com toda a celeridade. [Oliveira e Costa, D. Manuel I…, 245]
* Pequeno e elegante cavalo de raça
[i] Oliveira e Costa, D. Manuel I..., 243.
[ii] Ibidem, 244.
[iii] Jerónimo Osório, op. cit., II, Liv. XI, 222-224.
[iv] Sobre o casamento, recebimento, Crónica do felicissimo, IV, caps. xxxiii e xxxiiii.
[v] Ibidem, IV, cap. xxxiiii.
[vi] Gaspar Correia (1992) – Crónicas de D. Manuel e D. João III (até 1533), leitura, introdução, notas e índice por José Pereira da Costa, Lisboa, Academia das CiênciasAntónio Villacorta Baños-García (2009) – La Emperatriz Isabel, su vida al lado de Carlos V, su mundo, su época, Madrid, Editorial Actas, 95.
[vii] «Para deixar estes reinos em boa ordem e governo não vejo outra solução que não casar com a infanta Isabel de Portugal», cf. , William Bradford [editor] (1850) – Correspondence of the Emperor Charles V. and his ambassadors at the courts of England and France from the original letters in the imperial family archives at Vienna; with a connecting narrative and biographical notices of the Emperor and of some of the most distinguished officers of his army and household; together with the Emperor's itinerary from 1519-1551, Londres, Richard Bentley, 136; também cit., em John Hale (2000) – A Civilização Europeia do Renascimento, Lisboa, Presença, 82.


sábado, fevereiro 07, 2015

Beijos encarnados

Quando faz frio e chuva e dias cinzentos, ela cobre-se de beijos encarnados que caem a arder no chão do inverno e tudo à nossa volta fica mais feliz.