domingo, março 29, 2020

A utopia da realidade


Com uma grande economia de palavras, Luis Duque Possante desenha em pinceladas enérgicas o ambiente opressivo de uma prisão, onde observa o dentro e o fora de grades, medita, joga xadrez quando tem parceiros, recordando estilhaços de um passado fugidio, até se encontrar consigo mesmo num desfecho que é quase uma surpresa anunciada. Parabéns por mais este contributo das minhas Oficinas de Escrita. Manuela Gonzaga





A Utopia da Realidade

O espelho, quebrado e suspenso numa destas quatro paredes que me cercam, devolve-me uma imagem que não conheço e que me não é familiar. Irrito-me a observá-la e regresso à janela de grades imaginárias, mas que não ouso atravessar e sondo o horizonte até onde a minha vista alcança. Fecho os olhos atento ao mundo que quero ver, idealizado pelos meus sentidos e, num horizonte não muito longínquo, o campo que se espraia está esgotado de árvores frondosas talhadas de várias formas e efeitos e de homens e mulheres, que não quero conhecer, mas que me acompanham nestes dias imemoráveis, únicos, incompreensíveis. Não sei o que faço aqui, nem porque aqui estou. Muito do que vejo é-me impenetrável, disperso e obriga-me a cerrar os olhos, mas cansam-me as imagens que se perfilam na minha imaginação. Regresso à cama, exígua, onde me deito, de pernas cruzadas e braços sob a nuca, cravando o olhar no tecto cinzento, baço, sujo e húmido. Não quero voltar a murar os olhos para não viajar para além deste cárcere, procurando as razões que aqui me prendem… enfraqueci-me de as nãos encontrar, e sem obter uma resposta plausível cansei-me de contar os dias e já me perdi nessa resenha.
Espreitei desinteressadamente os dois livros que tenho na pequena mesa-de-cabeceira: O que escrevi – Até Que o Teu Sorriso se Apague, que já reli até o saber de cor e O Perfume, História de Um Assassino, escrito por Patrick Süskind que me roubou a ideia original e, por isso, matei-o… Será por isso que estou aqui??? Será por isto que aquele maldito espelho não me devolve uma imagem coerente???  
Reescrevo vezes sem conta o que encontro nas minhas reminiscências. As folhas de papel estão-se-me a acabar e nada úbere encontro nestas linhas. Sobressaem nomes cansadamente repetidos, que não relaciono com quem me cruzo nos momentos em que me exercito no exterior destas quatro paredes. Um homem e uma mulher que povoam os meus frequentes e repisados sonhos e que não percebo o que são ou o que fazem neste lugar. E é deles que recebo algum apoio moral e por vezes físico e são eles, com quem não me identifico, que me amparam e socorrem perante as investidas dum tal Manel e Fred, dois brutamontes que, também não sei porquê, me injuriam, perseguem e maltratam, chegando ao ponto de tentarem sodomizar-me.
E o espelho, quebrado, reenvia-me imagens inconstantes: ora sou mulher jovem, bela, formosa e sensual, abafada de vetustas e coloridas roupagens; ora sou um velho quebrado, usado até à exaustão pela carga dos dias amargurados, maltrapilho e enrugado; ora sou uma simbiose entre um animal imaginário e um homem incompleto, que se me afigura como resultado desta permanência inusitada neste estado de ansiedade, frustração e ambiguidade.
Desço até ao salão de convívio disposto a jogar um pouco de xadrez e não encontro quem se disponha a competir comigo. Sento-me numa mesa. Preparo-me para focar a minha mente num pensamento que se me aflora recorrente e insistentemente quando, num impulso, o trangalhadanças do Fred se senta à minha frente, com o seu inseparável Manel, que apelidam de tomba-lobos — não consegui perceber porquê, se o homem é gordíssimo, pequenino e com ar aprumado, apesar do seu aspecto rude. Desafiam-me para uma partida exigindo jogar com as peças brancas!!! Preparo-me para ser, uma vez mais, humilhado e intimidado. Rodo o tabuleiro e aguardo que iniciem a primeira jogada. Os meus joelhos tremem, a minha fronte goteja e a quietude do momento é bruscamente interrompida pelo forte e assustador troar do meu peito. Sinto-me desfalecer, mas, do nada, surgem os meus dois anónimos cúmplices e, de repente, a relação de forças altera-se e passamos a ser três indulgentes em oposição àqueles dois meliantes.
A tensão dissipou-se e, num ápice, o meu corpo viaja até à despótica cela em que me encerram.
O espelho, quebrado, envia-me uma estranha mensagem numa cifra que me apresso a descodificar. Restam-me duas folhas e o último lápis está ao nível da minha falange. Procuro sintetizar o que necessito escrever… vem-me à memória, escassa e difusa, o contexto, vago, desta minha captura…Não sou eu quem está aqui … O espelho, quebrado, só existe na minha imaginação.


Faro, primavera 2020
Luís Duque Possante

Fada Azul. dá-me asas!


Misturando contextos tão presentes nos estranhos dias que vivemos, com quadros de ficção cientifica, voando sobre futuros e passados re-construídos e destruídos, numa escrita iluminado pela fantasia redentora da magia, Maria Vitória Duarte constrói uma narrativa com a sabedoria de uma criança e a maturidade de quem aprendeu a ver a irrealidade sob o que nos dizem ser  'real'. Manuela Gonzaga


Pinóquio e a Fada Azul 



Um raio de sol entrou pela janela gradeada e fez uma sombra em cruz em cima da secretária. Era das poucas coisas escuras essa cruz, naquela cela onde quase tudo era branco e asséptico, desde as paredes aos longos cabelos brancos da figura refletida no espelho oval que distorcia um pouco as imagens, pelo que o rosto da figura exibia um esgar estranho e a túnica azul-claro, de amplas mangas, fazia curvas engraçadas sobre os sapatinhos azuis turquesa.
Contrastando com a alvura do cabelo, uma mão jovem estendeu-se para o sol e brincou com os raios.  Z-3004 sorriu pela primeira vez nesse dia que era a sucessão de muitos outros dias todos iguais, sentou-se numa confortável cadeira ergonómica junto à secretária e de súbito os seus olhos quase brancos de tão transparentes e claros, encheram-se de lágrimas. Já só tinha duas folhas. Duas miseráveis folhas A4 era o que restava dos 3 maços de 100 que lhe tinham mandado. Também, das duas esferográficas que estavam perfeitamente perfiladas ao lado das folhas, uma já não escrevia e a outra estava no fim. Adorava escrever. Conectava-a com as memórias, apesar de nas últimas 5 ou 6 folhas apenas tivesse escrito “Fada Azul” e “Maria”, em todos o pedacinhos em branco do papel e depois por cima, até já nada se perceber. Fada Azul! Maria!
Prisão estranha esta, pensou Z-3004, olhando o pulso com a tatuagem com o seu nome. Como teria ido parar a tatuagem aquele sítio? Não se lembrava. As memórias iam e vinham. Era melhor até não se lembrar, achava ela. As memórias provocavam-lhe dores inexplicáveis no peito. Depois, não sabia se eram mesmo memórias ou sonhos, porque passava grande parte do tempo a dormir, há já muito tempo.

Quando sonhava, havia imagens que lhe provocavam sensações. Saudades, tantas saudades. Crianças! Há tanto tempo que não via uma criança! Ouvia-as rir e chorar, enquanto dormia. Sentia o calor dos seus abraços, o cheiro a cão molhado dos seus cabelos. Quando sonhava, tudo tinha cores vibrantes de verdes e amarelos, como os campos que conseguia ver através da janela. Quando sonhava, era como se estivesse mesmo a viver aqueles momentos, como num filme em que era a principal personagem. Também sonhava com rostos de velhos, que lhe sorriam e a amparavam. Sonhava com animais que agora apenas via ao longe, de vez em quando, pela janela.
Olhou para dois livros em cima da cama incrustada na parede branca, de coberta alva, bem esticada.
Pinochio. Adorava o Pinóquio. Um tosco menino de pau que tinha conseguido a alma por bom comportamento, através da Fada Azul. Bondosa fada Azul! Agora era a sua melhor amiga e aliada. Passara tanto tempo a imaginá-la e a falar-lhe, que ela se tinha materializado e vinha cada vez que a invocava, para lhe ajeitar o travesseiro ou para lhe dar um beijo na testa. O outro livro era um álbum de fotografias. Estava cheio de anotações e tinha a capa de couro tão velhinha! Esse era o seu inimigo dentro dessa cela. Porquê? Encolheu os ombros. Não se lembrava.
Lembrava-se que o espelho e esse tal livro faziam a dupla dos seus inimigos mortais. Detestava o que via refletido e detestava as notas a lápis nas margens do livro. Nomes e datas de há mais de 100 anos. Sonhava com as personagens das fotos, algumas chamavam-lhe mãe, outras avó, outras neta…Confundiam-na e perturbavam-na.
Olhou para a janela para seguir o movimento do sol. A janela, era o seu grito de liberdade. Daí via uma boa fatia do mundo exterior. Uma fatia ora verde ora ocre, salpicada de árvores e animais, com estradas onde ninguém circulava e caminhos de terra onde via brincar cabras e burros. Passava muito tempo a olhar para fora, ninguém a proibia. Raramente a deixavam sair da cela, mas não lhe negavam o tempo à janela, e aí respirava outro ar que não fosse branco. Queriam-na confortável, já se apercebera disso. Apenas não lhe davam papel e livros à vontade. Tinha que  escrever dentro da própria cabeça, com o reduzido material das suas memórias.

Uma pancada na porta. Uma, duas, três voltas à chave.
Uma pessoa de fato espacial branco, com uma cruz azul  na testa, entrou na cela e estendeu-lhe a medicação. Tomou-a como sempre, à mesma hora, o mesmo comprimido minúsculo, estendeu como de costume o braço para a colheita de sangue. Sem uma palavra, a pessoa do fato espacial saiu, voltou com um aparelho estranho, com um capacete cheio de fios conectados . Pôs-lhe o capacete, ajudou-a a deitar e saiu fechando a porta. Uma, duas, três voltas na chave. Um suspiro. Abandonou-se ao sono, com o calor do sol a bater-lhe nos pés.
Sonhou com uma festa. Toda a família reunida. Depois uma sirene.  Um pesadelo. Os carros na rua, com altifalantes. “Não saiam de casa, não saiam de casa”. Depois corridas desenfreadas, pessoas escondidas, crianças no seu colo, cães de focinho mimoso. Uma confusão. De repente, cheiro a hortelã. Cheiro a rosas, cheiro a relva cortada. Coisas que o subconsciente tinha guardado e libertava sob o efeito do comprimido minúsculo que lhe davam. Continuava a trote no sonho.
O capacete ia registando a actividade neural, medindo a temperatura, registando tudo no enorme cérebro comum, no centro vital do Centro de Estudos Científicos.
Tinha havido uma doença infame pelo mundo fora. Milhões de mortos. O Estado tinha o dever de proteger as crianças que foram levadas para “lugar seguro”.
Durante esse período, os velhos foram isolados e os menos velhos obrigados a tratar deles. Caixões e mais caixões. Flores pelos campos, Cheiro a álcool, cheiro a vinagre, cheiro a podre. Cheiro a rosas. Cheiro a relva cortada.
A esperança. Suspiro. Sorriso. Cheiro a relva cortada…
Começaram os testes das vacinas nos mais velhos por serem descartáveis, depois os presos… e morreram todos de complicações. Mais uma leva de vacinas e alguns curaram-se, mas ficaram loucos e foram abatidos. Mais uma leva, quando já não havia velhos para cuidar. Nessa altura Z-3004 teria 70 anos, Em 2025. Ofereceu-se como cobaia e recebeu uma primeira dose. Por engano, recebeu uma segunda e uma terceira.

Foi quando o Mundo, pouco a pouco, estava a voltar ao normal. Dizia-se que tinham resolvido o problema da pandemia e reforçado os sistemas imunitários enriquecendo a substância da vacina com um tipo especial de radiação.
Foi quando os pais se quiseram voltar a  reunir com as crianças e elas não quiseram porque se sentiram abandonadas, quando as mães espantadas gritavam de dor percebendo que os seus filhos tinham sido injectados com implantes cerebrais que os obrigavam a obedecer à nova mãe, a Pátria. Tinham sido geneticamente modificados para trabalhar com mais resistência por mais tempo.
Foi quando o Mundo inteiro enlouqueceu de vez, começaram os motins, as guerrilhas, as patrulhas do exército pelas ruas, e os aviões a pulverizar o ar com estabilizadores das emoções sobre as cidades. Então, tudo acalmou.

Foi por essa altura que o degelo levantou os mares e o frio se instalou  por toda a Terra que ela se olhou ao espelho e viu que tinha rejuvenescido. Muito. Já não tinha rugas nem dores, levantava 30 kg com uma mão, e fazia o trabalho de 10 pessoas. Sentia-se bem e prosseguiu, como tinha sido ensinada antes da grande Pandemia. Procurou os seus por toda a parte em todos os sítios possíveis. Procurou a casa que habitara e estava ocupada por gente que não conhecia.
Pouco tempo durou a ser convocada para comparecer no Centro de Estudos Científicos. Foi na expectativa de notícias. Nessa altura chamava-se Maria, tinha uma memória incrível e cognição acima do normal. Diziam que tinha superpoderes. Ela ria-se. Sabia bem que tinha sido por causa das doses triplas de vacinas….
Depois tudo ficou mais turvo. Lembrava-se de a mandarem entrar  numa sala de exames. Sentiu uma agulha num braço, um capacete estranho na cabeça…. E  uma cela. Muito branco. Pediu livros e o álbum de fotografias que trazia ao tiracolo, junto ao peito. Trouxeram-lhe o Pinóquio e outro livro qualquer que atirou janela fora. Estipularam 360 folhas e duas canetas, por ano, para poder escrever. Pediu um espelho. Gostava de se observar, notar as diferenças, apesar de odiar ver-se assim. Ninguém lhe podia tocar, estava radioativa. Tinha-se tornado albina. A cor dos olhos diluída em muitas águas, quase transparente. O cabelo branco…
Passou dias, meses e anos a escrever mensagens para os filhos e para os netos. Amarrotava as folhas e atirava-as pela janela. Às vezes, via rolar os papéis com o vento e tinha esperança que chegassem ao seu destino. Ai o vazio, a incerteza, os seus meninos…Uma palavra só que fosse, um beijo de longe, um abraço simulado. Começou a ter insónias e ver a noite pela janela. Chegava a ver a lua. Cheirava a noite como um bálsamo. Sabia o Pinóquio de cor, invocava a Fada Azul.  
— Dá-me outra alma, dá-me outra vida, deixa-me voar. Dá-me asas. Dá-me asas, dá-me asas.
A boa fada vinha, afagando e consolando, protegendo os medos, prometendo asas e Liberdade.
Nos sonhos das memórias, era feliz e fazia feliz o Grande Cérebro, sempre cheio de algoritmos, estatísticas e números. Quando o seu capacete era conectado, todo o Centro de Estudos Científicos se enchia de sons de valsas, cheiros, cores. O Grande Cérebro precisava de Z-3004 para a sua inteligência alternativa se conectar às lembranças dos seres antigos e aprender as emoções que tinham sido suprimidas, por serem um perigo para o Estado Global.
Z-3004 continuava a dormir, a sonhar com brisas, pássaros, abraços, tecidos de veludo, sabores de laranjas...

Foi quando a Fada Azul, vestida com um “fato espacial” azul claro, a foi buscar numa maca equipada com tiras de metal, a sujeitou docemente e levou por um labirinto de corredores brancos e silenciosos, sorriu e a injectou com um líquido vermelho que viu circular por baixo da sua pele quase transparente.
— Fada Azul, dá-me asas.
Sentiu calor, sentiu-se levantar voo. De súbito, todos os pequeninos dos seus sonhos correram ao seu encontro, com braçadas de flores silvestres, os rostos dos velhos lhe sorriram, sentiu os cheiros, os sabores antigos dos seus beijos. Abriu os olhos, feliz e murmurou algo incompreensível.
No relatório da sua morte, constou:

Z-3004
Individuo do sexo feminino, designado Maria, sobrevivente da pandemia de 2020,
Morte decretada pelo Estado Global por constituir perigo para o Grande     Cérebro.
Novembro de 2170

No campo, sob a janela da sua cela no Centro de Estudos Científicos, uma cabra roía uma folha de papel branco, com nomes escritos à mão e um coração desenhado, indiferente à chuva que de repente começou a cair.

Maria Vitória Duarte












VOANDO COM AS PALAVRAS

Mais um conto que nasceu nas nossas oficinas de escrita. Rasgando o espartilho da proposta, Clara Pedrogão voou para muito longe. Foi até à sua infancia africana, subiu para o alto de árvores protectoras, e, para se defender, entrou numa prisão perfumada e secreta que a protegeu... mas aprisionou durante muito tempo. Até ao di em que... Este, é um texto muito belo que fala de redenção.  Manuela Gonzaga



VOANDO COM AS PALAVRAS

Sergey Nivens - Russian Federation


Quando nasci, num dia quente de Maio, num local longínquo de Africa, completamente isolado, com uma única casa de cimento que era a nossa, sem hospital nem médico, não chorei de imediato: trazia o cordão umbilical à volta do pescoço. Foi com a maior dificuldade que o meu pai, fazendo as vezes de parteiro, apenas com uma assistente “as chamadas curiosas”, me trouxe à vida. Esta e outras histórias, contava-as o meu pai, olhando para mim com ar enternecido. 

E dizia: «és uma princesa! Só poderás ter uma vida linda!»

E eu cresci com o estigma da intrusa, da menina que não respirava e que o pai ressuscitou e obrigou a viver. E com responsabilidades acrescidas de viver, respirar, ser 'princesa', ter uma vida linda e ser igual aos outros. Mas nada foi fácil. Deambulei sempre entre luzes e sombras, num mar de inquietações e perguntas sem resposta. Nunca me senti pertencer a lugar nenhum e, sem falsas modéstias, sempre achei não ser boa em nada. Todos perguntavam à minha mãe: «Maria, esta é diferente das outras, não é?» E era de facto. Não alinhava nas brincadeiras dos meus nove irmãos, que me batiam para eu obedecer às suas ordens e fazer parte do clã, sujeitando-me às suas maldades e enxovalhos. Chamavam-me nomes e faziam-me partidas inconcebíveis. Eu tentava amá-los e brincar com eles, mas não conseguia ser genuinamente fútil, ao ponto de criar pactos e alinhar nos disparates que faziam. Pouco a pouco afastaram-me e fui percebendo que jamais quebraria a barreira criada entre mim e os outros, e, por mais que fizesse, nunca me aceitariam. 

Aos pouco fui-me isolando. E, quase sem me dar conta, um dia dei por mim completamente banida. A partir de então, entrei num mundo de clausura, repleto de sonhos e de travessias do irreal, onde eu própria liderava o grupo de amigos existentes apenas na minha imaginação. Finalmente em paz, acolhi-me numa prisão de onde não queria escapar.

Nessa altura, a minha cela era exígua, escura e sem janela. Era o fundo de um guarda-vestidos, onde me escondia horas sem conta, com os vestidos de tafetá da minha mãe a roçarem-me a cara, impregnando-me do seu doce perfume, de tal forma, que ainda hoje esse aroma serve-me de bálsamo em dias mais vulneráveis. Ali dentro, ouvia o sino a tocar, chamada habitual para as refeições, mas não me mexia. O meu esconderijo era tão secreto (e foi durante muitos anos) que passavam por mim chamando-me, mas nunca me encontraram. Quando por fim me apresentava na sala de refeições, acabava por jantar sozinha, sem ninguém sonhar que esse ‘castigo’ era um presente dos deuses. A seguir, encaminhavam-me logo para o quarto, onde me deixavam, de luz apagada. No dia seguinte tinha de escrever cem vezes:

Eu não posso esconder-me de ninguém.

E assim aprisionada, cresci amarrada ao estigma da menina diferente que nasceu morta. Até ao dia, muitos anos depois, em que acordei estremunhada e muito confusa num quarto todo branco, cheio de luz, despojado de móveis, que não me era nada familiar. Levantei-me num salto, respiração ofegante, e reparei que usava um fato de algodão cinzento, confortável, que não me pertencia. Estaria num hospital? Mas se não estava doente! Perturbada, olhei em redor e vi uma pequena secretária e uma cadeira mal amanhada. Sobre a secretária, papel e caneta. Havia também uma janela que, naqueles primeiros instantes nem percebi para onde dava. Bastava-me que fosse uma janela. Qualquer uma, pequena ou grande provoca em mim uma sensação de liberdade que sugeria Viagem. Além do papel e caneta que me davam a possibilidade de voar. Mas, naquele momento, a única coisa que me importava era falar com alguém e a minha ansiedade tornou-se quase insuportável. Levantava-me e sentava-me, chorava e fazia um esforço enorme para me controlar.

Entretanto, no corredor, ouviam-se muitas vozes mas não diziam nada que eu conseguisse perceber, dada a alucinação em que eu me encontrava. Sentia-me a levitar, a sair fora do meu corpo e acho até que tive febre. Então resolvi chamar alguém:
                Por favor, está aí alguém? Alguém que me ajude, por favor
— O que quer a senhorita? — respondeu-me uma voz de mulher, que continuou: — Hoje deixámo-la dormir, mas amanhã segue as regras da casa.
Então, vi-a. Era uma grotesca, mascarada de cinzento, com um enorme molho de chaves na mão.
— Diga-me por favor, onde estou, porque estou aqui?
 Está na prisão. Está numa cela! Ah, querem ver que se esqueceu…— a mulher riu-se baixinho
— Mas porquê? Como vim cá parar?
— A senhora lá saberá porquê. Eu só estou aqui para cumprir ordens. Deixo-lhe os horários dos banhos, das refeições dos recreios, e da biblioteca. Amanhã às oito começa a sua rotina.
E, saindo, fechou a porta com um grande estrondo.
Fiquei em estado de choque, tentando recordar como chegara ali, mas era tudo muito confuso e não havia ninguém com quem eu pudesse desabafar.

               Foi quando vi o espelho. Um espelho antigo, sem moldura, preso por uma corrente cromada, pendurado numa parede. A visão desse espelho abriu uma clareira na minha memória. Lentamente lembrei-me que me acostumara a ver espelhos assim nas casas de banho dos cafés manhosos, onde parava em viagem. Sorri. Fugazmente. E como relâmpagos, começaram a surgir-me pedaços de histórias, à cabeça. Viagens? Cafezinhos rascas? Mas quais viagens? Concentrando-me no eco de outras vozes de criança, gargalhadas entrecortadas pelo vento, e de um choro longínquo que parecia ser meu, deixei de ouvir as vozes do corredor. Imagens a preto e branco, passavam rapidamente. Vi – me, sentada numa prisão escura, no fundo de um guarda-fatos que cheirava ao perfume da minha mãe, cujos vestidos roçavam a minha cara.

E lembrei-me de atrocidades que os meus irmãos mais velhos me faziam e da ausência de autoridade dos meus pais, que achavam que era tudo uma brincadeira de crianças. Lembrei-me de fugir deles, instalando-me nos ramos das árvores mais altas do jardim, caladinha, noite adentro, para que não me metessem a cabeça na sanita puxando o autoclismo de seguida ou para não correrem atrás de mim, ameaçando-me de me tirarem os olhos com bambus. Das caminhadas até ao poço, onde ficava horas a falar sozinha, e com os duendes das florestas, poupando-me às inúmeras maldades a que me sujeitavam.Lembrei-me da minha enorme solidão, escondida de todos, a inventar amigas, cidades e caminhos no céu, as minhas secretas viagens que me permitiram ultrapassar pontes mágicas e tocar as estrelas mais brilhantes. Quantas vezes chorei, sentada nos braços da lua, com um anjo a enxugar-me as lagrimas. Inventei-me durante uma vida inteira deixando os meus sonhos suspensos nas asas dos pássaros, os mesmo que me ensinavam o caminho de volta, quando me perdia.

Não esqueço a amargura permanente de negar o amor, temendo a perda, e de, ao mesmo tempo, querer ser amada até ao sufoco. Incongruências para muitos, mas para mim absolutamente lógicas. Não amando, não me magoava, nem os outros me feriam.

Olhei-me ao espelho e quase não me reconheci. A idade deixa marcas e eu, com o dedo, segui as estradas abertas pelas amarguras, mas rapidamente mudei para os rios sinuosos de esperança. Ainda estava uma mulher interessante, agora com o cabelo embranquecido que gostei de ver. Fui-me revisitando e quando cheguei aos olhos confrontei-me com a outra parte de mim e pela primeira vez na vida senti-me inteira e liberta. E perdoei. De repente, um raio de sol entrou pela janela, reflectiu-se no espelho e acordou-me.

 A prisão iluminada ou escura, era o meu estigma de nascença. Morava em mim. Um baloiço entre luz e sombra. E não há presente nem futuro possível, quando caminhamos de mãos dadas com a sombra de um passado tortuoso. A escolha tem de ser de luz, se queremos viver. E luz pressupõe-se liberdade plena. Viver na luz, é viver na paz, na verdade, na justiça e no amor, com todas as possibilidades de escolhas. Pela janela entrava o sol a jorros, e de lá avistei um pátio enorme, com várias mulheres em grupos passeando ao sol. Porque estariam ali? Talvez tivessem assassinado alguém, roubado, ou tão-somente se tivessem matado a si próprias, como eu. Porque a escolha é sempre nossa. Umas continuarão presas, outras não. Tudo depende do crime, da intenção, da escolha, do comportamento. E da força. 

Ergui um pouco a cabeça e deparei-me com uma paisagem verde, maravilhosa, um céu azul cheio de promessas e aquela luz branca que abraçou de imediato a minha desventura. As grades fui eu que as inventei ao longo da minha vida, e a cela era o guarda-fatos onde me encarcerei para não me destruírem. As vozes calaram-se. O sol despedia-se. As mulheres recolheram. Fazia-se tarde, mas ainda era tempo de agarrar os sonhos suspensos. 

VIAJEI PARA LÁ DA JANELA, VOANDO COM AS PALAVRAS

Os pássaros esperam por mim.

Clara Pedrogão
Grupo B Oficinas da Escrita
27 Março 2020

sábado, março 28, 2020

O CANTO DO CISNE

Este conto pungente e tão bem escrito é assinado por SANTIAGO, que, com outro nome, foi um dos participantes das nossas Oficinas de Escrita. Um grande prazer, lê-lo.

O Canto do Cisne
Cisne  X
as imaged by the Spitzer Space Telescope

            Acordo de madrugada. Como sempre. Não preciso de verificar a hora, é a hora de sempre, a hora em que os lobos uivam e a coruja anuncia mais uma desgraça à porta de quem a escuta. Não me recordo de ter ouvido a coruja à minha porta. Olho pela janela recortada pela cruz de ferro que me separa da noite. O luar é a única forma de luz que chega até mim. Estou deitado e o luar aconchega-me, cobrindo todo o meu corpo. Sigo um dos raios do luar até às estrelas. Faço espécies de desenhos unindo as estrelas de várias formas. É um dos meus passatempos até ao nascer do sol. É assim que engano esta insónia que dura desde que aqui acordei, neste cárcere impiedoso cujas paredes insistem em sufocar-me. A cada noite que passa são mais uns centímetros que elas se movem para me aprisionar mais e mais.
            Tento reproduzir numa folha este céu de inverno, uma carta celeste, tento unir as estrelas de forma a desenhar o teu rosto. O rosto que guardo e que amo incondicionalmente. Cada ângulo, cada poro, cada imperfeição na perfeição do que somos. Saudades de ti e de nós. No luar do nosso amor. Simão, se chamar mais alto, junto á cruz de ferro que me separa de ti, será que me ouves? Será que cada grito que lanço na noite chega até ti e vens salvar-me deste sufoco?
            — Simão! SIMÃO! SIMMMÃÃÃÃOOOOOOOO…
            Raios que enlouqueço, ainda alimento esta esperança inócua. Noites de anseios e desespero por uma resposta que tarda. Um inverno que me assombra, sem saber os motivos para este abandono. Simão, será este o castigo por te amar de uma forma que ainda não foi descrita em um qualquer livro de ciência ou pintada num quadro de um artista famoso exposto em um qualquer museu do mundo? Insisto em chamar o teu nome
            — SIMÃO…MEU AMOR, ESTOU AQUI, AQUI… SIMÃÃÃOOOOO…
            Coloco teu rosto celestial sobre a mesa, junto a dois livros que aqui se encontram. Não me recordo de quem os aqui deixou. Ou quem me ofereceu. Não me recordo sequer se os li. Ou se algum dos meus amigos me emprestou com pena das minhas insónias contemplativas. Um livro de contos de Vergílio Ferreira e A Caverna de José Saramago. Amanhã talvez comece a ler um deles.
            Falei-te dos meus amigos. Que amigos? Perguntarás tu, conhecendo-me como a pessoa reservada e com barreiras imensas no contacto social. Sim, amigos. Uma memória ténue de amigos aqui neste espaço gélido. Vislumbro conversas no pátio sombrio de árvores despidas. Poucas palavras. Mas palavras suficientes para uma cumplicidade de união que nos salve do desespero último.
            — Simão, se sonhares comigo, envias-me um qualquer sinal?
            — Para onde e como envio esse sinal?
            Senta-te ao piano, abre janela da sala, toca um dos noturnos de Chopin e deixa que a brisa se encarregue de te trazer até mim...
            Gostava de me lembrar dos nomes desses amigos dos quais te falo. Algo me impede. Um espaço em branco... e ouço gritos e ameaças que me encolhem e me deixam indefeso. Estou num gabinete amplo, com dois homens de fato preto, com ar sisudo e compenetrado, murmurando entre si para que não os ouça. Não os ouço. Só vejo aqueles olhos de Adamastor, bocas que se espumam como ondas contra as rochas e dedos em riste a apontar em ódio e raiva.
            — Ali é a constelação da Cassiopeia, em forma de W. Aquela é a constelação do Cisne. Ali, começa por olhar a estrela brilhante, Deneb e a seguir vês uma espécie de cruz alada, uma cruz de esperança.
            — Imagino deus assim, com asas, num voo delicado pelos céus a indicar-nos um caminho...
            — Simão, é por isso que gosto de ti. Vês o belo no mais simples e consegues tornar tudo tão mágico. Acreditas na vida. E fazes-me falta quando à noite não vejo o Cisne com Deneb a mostrar-me o caminho.
            Estremeço quando me levanto. Confronto-me comigo no espelho, lascado e manchado de outros prisioneiros que aqui estiveram. A contemplação tem destes efeitos. O confronto, o reconhecimento, o ardor nos olhos do sal que entra, a alma que se contrai. Um espelho velho, lascado que dilacera o íntimo. Não tenho a certeza que te chamas Simão. Não sei sequer se existes. Meu Deus. O espelho e eu em confrontação e nem sei sequer se te chamas...a mesa é real, os livros em cima da mesa, às páginas tantas são pó e imagens desfragmentadas que vão e voltam e apenas a certeza do meu rosto no espelho. Aparento ter uns 35 anos, talvez 37 anos, ou até 40 ou 50 anos. Já não sei como é um rosto de 35 ou 40 anos. Os olhos cor de mel, orelhas grandes escondidas pelo cabelo castanho e cinzento. A última vez que me cortaram o cabelo...foste tu? És tu quem me corta o cabelo? O nariz forte e bem vincado, escondendo os lábios finos e sedentos por um beijo húmido. A linha dos maxilares bem definida que termina num queixo bem presente. Visto a roupa que usei quando fomos jantar ao restaurante indiano na Rua Nova, na noite em que decidimos mudar de casa. As calças de ganga pretas, a camisa rosa com linhas azuis claras, muito subtis e os sapatos de camurça castanhos já rompidos de tanto andar às voltas...
             — Vamos mudar de casa?
            Hoje a minha casa é outra. As paredes não são brancas, nem existe uma claraboia nas escadas, nem tenho um sótão com águas furtadas para ver o céu. Só um buraco com uma cruz de ferro, a partir do qual contemplo Deneb.
            — Vamos mudar de casa?
            Com um quintal nas traseiras, podemos ter um limoeiro, uma laranjeira e um carvalho? Podemos colocar uma cama de rede, um pequeno lago e plantar ervas aromáticas. Deixa-me registar isto numa folha. Vou guardar no meio do livro do Saramago. Ninguém vai saber. Só eu e tu. Só nós.
            — E adotar um cão?
            Esta caneta já não escreve. Vou escrever com a caneta preta, não te importes.
            — Baltazar é um bonito nome para o cão. Baltazar. Eu gosto. E tu?
            E guardar no meio das páginas de A Caverna do Saramago. A tranquilidade que chega com o prenúncio do nascer do dia. E quando mexo nos livros sobre a mesa, cai um envelope. Uma declaração de honra. Assinada por mim. Mas que raios! Assinada por mim. Assumindo ser um espião, conivente com o sistema. Eu a desvendar os crimes de outros prisioneiros que o sistema não consegue deslindar... sob pena de ser privado do único buraco que me permite contemplar Deneb e o seu brilho. Aqueles dois homens, que em contornos obscuros me surgem na memória, que me fazem estremecer de medo. As cicatrizes no meu rosto, que vejo no espelho, as nódoas negras na testa e nos olhos... aqueles monstros...
            — Vou sempre proteger-te dos monstros que te atormentem.
            — E se forem gigantes como o Adamastor?
            — Eu consigo ser mais gigante e amedrontá-lo até se encolher como uma tartaruga dentro da carapaça!
            Fazes-me falta aqui. Preciso do teu grito de Adamastor para que eles se encolham nas próprias carapaças. Por favor! POR FAVOR! Não me ouves pedir POR FAVOR!!! Serei novamente espancado e torturado se não levar nenhuma informação. Eu que pouco ou nada falo. Só com duas pessoas, aqueles amigos que te falei. Amigos porque me tratam bem e sentamo-nos na mesma mesa à hora do almoço. Quando não gosto da sopa, ofereço-lhes e agradecem com bons modos. Após o almoço costumamos estar sentados no pátio debaixo do carvalho. Na sombra. A falar de como é belo o céu azul e a sensação de liberdade de estar num pátio sem teto. Não sei porque estão cá, não falamos do passado. Também não partilhamos sonhos. Nem me recordo dos nomes deles, nem sei se alguma vez lhes perguntei ou se eles se apresentaram.
            As páginas do livro do Saramago estão manchadas com uma cor vermelho forte. Algumas páginas estão coladas por essas manchas. Sinto nojo. Será sangue de alguém que aqui esteve. Será uma piada de mau gosto de alguém que deixou aqui os livros para me intimidar? Porque não param este jogo estúpido, deixem-me sair daqui!!!
            — É de um dos teus escritores preferidos, penso que ainda não tens este.
            É sangue. Tenho a certeza que é sangue de alguém.
            — Depois de leres, emprestas-me para eu também ler? Entretanto vou lendo o livro de contos que me ofereceste no Natal. Já estou na página 53.
            A mesma cor na minha camisa. Manchas com a mesma cor. O que é isto? Sujei-me com o livro. Encostei-o a mim quando tentei esconder o papel que escrevi no meio das páginas. Raios! Tento esfregar, mas as manchas estão tão agarradas que não saem.
            — AAAHHHHHHHH!!!!!!
            E num impulso, dou um murro no espelho que se parte. Lascas de vidro no meu punho. Sangue que escorre pelos meus dedos. Sangue na minha roupa, sangue no chão. Dispo a camisa e enrolo na minha mão para estancar o sangue. Sinto náuseas. Sabes como eu não consigo ver sangue. Os vidros espalhados pelo chão. O choque. Tremo com o choque. Cada vez mais dificuldades em respirar. Respiro fundo 10, 9, 8, 7 TAQUICARDIA 6, 5, 4, 3, 2, 1...
            — E fica consciente, atento à respiração. Podes fazer contagem se for mais fácil manteres-te presente. Inspira 1, expira 1.  Inspira 2, expira 2. E assim sucessivamente até 10.
            Começo a recordar-me. Naquela noite. Não, não pode ser. A tua voz, a minha, a falar alto, muito alto, na sala. Uma faca na minha mão. O livro do Saramago na tua. O teu corpo caído. A poça de líquido vermelho que aumenta debaixo de ti. Eu paralisado junto de ti, já não me respondes.
            — Simão... SIMÃOOOOOOOOOOO...
            As luzes da ambulância que me encandeiam, a sirene do carro da polícia que anuncia ao mundo quem eu sou.
            Debaixo da porta deste cárcere desliza um papel. Abro-o e leio
" Hoje depois do almoço, no sítio do costume, eu e o Zeferino queremos planear contigo a nossa fuga. Renato".
            É a olhar para o espelho em pedaços que planeio a minha fuga. Só eu. Num ato de egoísmo. Escolho o pedaço de espelho mais pontiagudo, o que eu penso que é mais forte para conseguir cortar estas camadas de culpa e arrependimento. E enquanto respiro fundo
            — Inspira 1, expira 1. Inspira 2, expira 2. Sucessivamente até 10.
            sigo Deneb na cauda do Cisne que me leva para longe. Para junto de ti. Para sempre teu.


Guimarães, 26 março 2020 // autor: Santiago


Créditos da imagem: NASA - http://www.nasa.gov/mission_pages/spitzer/multimedia/pia15253.html, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=19475200

LIBERDADE INCONDICIONAL

Já sentia a vossa falta! Os tempos em que vivemos, e a história que uma grande amiga minha partilhou comigo, serviram-me de mote para o lançamento de uma nova Oficina de Escrita. O tema, Liberdade Incondicional, vem de caminhos que trilhei há uns anos, quando fui pré-candidata pelo PAN às eleições presidenciais (2015), O meu manifesto eleitoral teve essa frase por titulo. Agora, tratou-se de outra partilha. E abri inscrições para uma oficina que já deu belíssimos resultados que partilharei aqui. Este, o primeiro, é  meu e ilustra, de algum modo, o ponto de partida. Somos sempre livres, quando somos donos da nossa imaginação criadora. 





Um admirável mundo novo só para nós


Naquele tempo, fechavam-nos num grande quarto vazio, com janelas inatingíveis, e deixavam-nos ali ficar até as visitas se irem embora. Ora acontecia que a casa, um palacete do século XVIII, recebia muitas visitas. E acontecia também que os adultos eram tão altivos e distantes, que de tão pequenos que eles eram, praticamente só os viam do joelho baixo. A começar pelo grande pai e pela linda mãe que eram, seguramente, muito apaixonados porque a relação deles já produzira 13 filhos, quase em escadinha, entre rapazes e raparigas. Eles os quatro, eram os mais novos. Tinham entre os sete e os dois anos. Todos leão de signo.

Quando, na prisão onde os encerravam, prudentemente vazia de tudo o que lhes pudesse causar dano, brinquedos, livros de colorir e lápis de cor inclusive, um deles, ou vários, precisavam de ir à casa de banho, atiravam-se todos juntos aos pontapés à porta de madeira maciça e gritavam sem parar. Ao fim de algum tempo, um dos irmãos mais velhos, ou uma das criadas, era assim que se chamavam, vinha ver o que se passava com os ‘fedelhos’ e tratava do assunto, levando-os à casa de banho e trazendo-os, sem contemplações, de volta ao isolamento. Como todos se esqueciam deles, às vezes, aquelas crianças tinham fome. Apartadas por completo do resto da casa, que, com as constantes visitas, estava sempre numa azáfama festiva, aspiravam gulosos e esfaimados o cheiro dos bolos, e ouviam o tilintar das pratas e dos cristais nas bandejas que as criadas levavam de um lado para o outro. Então, rangiam os dentes de fúria, e na sua raiva de leõezinhos enjaulados, começavam a gritar e a ferir ininterruptamente a porta, com pontapés vibrantes desferidos pelas sólidas botas de carneira. Até o bebé de dois anos entrava nesta rebelião. Por fim, um dos mais velhos lá trazia, racionadas, as bolachas maria a que cada um dos ‘fedelhos’ tinha direito. Quando vinha uma das criadas, havia lanche a sério. Mas era raro.

Foi então que ela se lembrou de lhes contar histórias. Ela tinha recursos que ninguém imaginava. Ela sempre conseguiu sair dos espaços onde a aprisionavam, pela porta grande do pensamento livre. Ela voava. E, nessa alturas, voltava a Casa, porque sempre soube que a sua morada não era aqui. Ela está cá de empréstimo, para ajudar. Silenciosamente. Discretamente. Remotamente. Mas sempre tão presente. Então, naquela prisão de crianças, começou a falar aos irmãos de um grande viagem e de um grande projeto, só deles.
«Vamos sair daqui para fora».

E ali estavam aquelas crianças deitadas no chão, de barriga para cima, a olhar para o tecto a quatro metros de altura, todo trabalhado em volutas, cornijas, florões, em gesso pintado, de uma geometria hipnótica e fascinante, por onde ela entrava e de onde partia para o outro lado de um mundo, onde tudo o que se imaginava podia ser realizado. Eles seguiam-na. E todos contribuíram para a construção de um mundo novo onde não havia absolutamente mais ninguém, a não ser eles os quatro. Pai, mãe, irmãos mais velhos, criadas, cozinheira, todas aquelas pessoas que, de modo geral, só viam dos joelhos para baixo, desapareceram de vez, porque, e de comum acordo, as quatro crianças aprisionadas resolveram matá-los, sem contemplações e com assumida satisfação. Mataram-nos até os verem mortos e bem mortos, e, depois, enterraram-nos até os verem bem enterradinhos. Começaram pelo pai e pela mãe. A seguir, pelos irmãos. Depois pelos outros adultos todos que conheciam. Não sobrou ninguém.

O mundo deles, era só deles. Quatro leõezinhos coroados e donos absolutos de um admirável mundo novo. Havia pássaros? Oh, sim. E borboletas, joaninhas, formigas, cães. gatos, vacas, coelhos carneiros. E mar, rios e peixes. Tudo o que lhes viesse à cabeça, e que gostassem de ter por perto. A história, esmaltada de cores vibrantes e figuras animadas, tornou-se de tal forma o seu refúgio encantado, que, agora, quando chegava o momento de os levarem para a prisão das crianças, em vez de serem arrastados, a espernear e aos gritos, iam aos saltos de alegria.

Sem saberem sequer o que isso era, estavam a fazer a catarse de todas as maldades de que sentiam alvos. Deitadas no chão, de barriga para o ar e a olhar para o tecto hipnótico de onde saiam para o novo mundo, as quatro crianças sentiam-se cheias de força. A irmã que os guiava, deixava-os à solta. E estas viagens empoderaram-nos para a vida. Sem mágoas, nem contas para acertar. Nunca ninguém soube do que se passava. Sei eu, agora, e vocês com quem esta narrativa é partilhada. Entretanto, a minha amiga que vive entre mundos, continua a cruzar fronteiras sem dar contas a ninguém, mas anda há anos a ensinar e a ajudar quem precisa, resgatando pessoas e já são tantas mas tantas mas tantas mesmo.


quinta-feira, janeiro 31, 2019

Os castelos de São Pedro

Por aqui, há muitos castelos. São castelos mágicos. Os espargos selvagens não o dispensam. Outros dizem que os duendes também não. Soubera eu encontrá-los. Aos duendes.

domingo, janeiro 27, 2019

Quando Chang'an?

À noite, ouço a música das ondas na imensidão de areia que cobre as cidades mortas no deserto de Taklamakan. Vejo o vento dançar nas dunas e erguer do pó Serafins com rostos de homem e asas de anjo. Uigures de pele escura, narizes grandes e vozes profundas a cantar as tempestades que sepultaram palácios e templos e mercados e casas nos oásis, e os ladrões de túmulos petrificados de medo porque o ouro dos seus saques voltou ao altar de Kuan Yin, a que ouve os lamentos do mundo. A da Compaixão.

Amor, somos tão efémeros e a viagem é tão longa. 

Quando verei Chang'an?