sábado, novembro 07, 2015

Prémio Fémina a Sónia Matias?

Retomo a «minha» Xerazade, a propósito da atribuição do Prémio Femina 2015 a Sónia Matias, toureira. O galardão foi criado em 2010 para «agraciar as Notáveis Mulheres Portuguesas», oriundas de Portugal, Países de Expressão Portuguesa, Comunidades Portuguesas e Lusófonas. No quinto aniversário da sua fundação alargou-se o âmbito das distinguidas com «mérito ao nível profissional, cultural e humanitário» no mundo, bem como pelo seu «relacionamento com outras culturas.

A premiada lidando um bezerro já bem causticado

"É a memória um jogo? 
O meu Touro abriu as asas. Céus, como ele ri! Amor, muito antes de Creta, entre mulheres e touros existe uma aliança. As mulheres não ferem o touro, brincam com ele. As mulheres não matam o touro. Amam-no. Que algumas reclamem para si a arena, a espada, a verónica, o cavalo e as bandarilhas, prova apenas o quanto nos afastámos da essência. Do fruto, sobraram as cascas. A semente perdeu-se há muito. Do gesto, secreto, resta, em mímica adulterada, a profanação de um mistério transformado espetáculo, e sem sentido algum. A não ser o mais primário de
todos os sentidos. O prazer de cheirar e ver correr sangue. Muito sangue.
 
Desde que não seja o nosso.
[...] 
 
O que sobrou do velho culto? Um arremedo. O touro, a arena e um virtuoso. O Matador que demanda assistência e bebe aplausos, na encenação de uma morte precedida por uma espécie de bailado em pontas, gestos largos, ondular de capote, e muitos ferros cravados num corpo palpitante, perante uma assistência que respira o cheiro do medo e rejubila com a agonia, e reclama a estocada final. Mas antes, é preciso provocar, magoar, perseguir sem descanso. No lugar do círculo, sob a claridade estonteante do meio-dia, o toureiro encomenda-se à Virgem, cujo filho se ofereceu em holocausto, tomai o meu corpo, tomai o meu sangue, como símbolo de Redenção e aliança. Que ironia. 
Sob a pretensa invocação de um arquétipo do herói, a larva transmuta-se em pequenos tiranos enfeitados de sangue e jóias falsas. 
Pensa: por que motivo, na arena, o macho se traveste, meneando as ancas, as pernas desenhadas nos colãs cor-de-rosa, as nádegas evidenciadas no fato brilhante, justíssimo, resplandecente de luces, citando o outro macho, em trejeitos de mulher--dama, chamando-lhe «bonito», chamando-lhe «belo»? É para juntar mais um engano ao enredo de enganos. O touro confia na mulher. A mulher ama o touro. Deixa-se levar por ele, sobre as águas." 


Em Xerazade, a Última Noite, Lisboa, 2015, Bertrand, pp, 107-108.

quinta-feira, novembro 05, 2015

«Quando nós, mulheres, precisámos de lutar para ser livres»


«Quando nós, mulheres, não tínhamos voz precisámos de lutar para ser livres.»



Começando em seio burguês, o movimento pelo direito ao voto das mulheres, entre outros, veio, inevitavelmente, a envolver-se na luta pela redução do horário de trabalho, paridade nos salários, e outras reivindicações operárias. É aqui que entronca a origem do Dia Internacional da Mulher em 1910 (consagrado em 1911). Baseado em fatos reais, As Sufragistas, da realizadora Sarah Gravon, recria a história, verídica, das mulheres envolvidas no movimento sufragista inglês. 

O filme conta com Helena Bonham Carter no papel de Edith Ellyn, uma ex-professora que ajudou a organizar e promover as campanhas da organização "Women's Social and Political Union", tendo percorrido a Inglaterra para mobilizar mulheres a lutar por seus direitos, a começar pelo basilar direito ao voto. Meryl Streep interpreta Emmeline Pankhurst, líder do movimento e fundadora da WSPU. Carey Mulligan interpreta Maud Watts, uma jovem operária que, juntamente com o marido trabalha numa lavandaria e que acaba por se juntar ao movimento sufragista.

A propósito deste filme a NOS organizou uma exibição no CCB, a 3 de Novembro, precedida por um debate moderado pela jornalista Maria Flor Pedroso. Fui uma das quatro candidatas presidenciais 2016 convidadas para a antestreia deste filme belíssimo, brutal e pungente. Obrigatórios, aliás, para nunca nos esquecermos que, quando não tínhamos voz, houve quem falasse por todas, desse a vida por todas nós e tivesse sido torturada em nome de direitos que a todos nos eram devidos. 

A essas heroínas quase esquecidas do grande público, devemos a homenagem da memória. E porque, no pequeno vasto mundo em que vivemos, grande parte das mulheres ainda precisa de levar a cabo, recordamos e acordemos esta luta que é de toda a Humanidade.




sábado, outubro 17, 2015

Candidata da base da pirâmide: e porém EXISTO

Apresentei a minha candidatura à Presidência da República em Agosto deste ano. A televisão cobriu o acontecimento e, no mesmo dia, de manhã, estive em directo na RTP a antecipar o conteúdo programático e os motivos que me levaram a dar este passo. Tenho site de candidatura, equipas por todo o pais a recolher assinaturas para a formalizar. e acções de campanha em curso. 



Sou uma candidata da base da pirâmide, sem multinacionais a pavimentarem-me a estrada a euros e ouro, nem sociedades paralelas a suportarem-me os encargos da candidatura. Sou EU e a expressão daqueles que NÃO TÊM O DIREITO DE FALAR porque nunca são ouvidos. A não ser nas redes sociais, quando a imprensa, ela também amordaçada, tem de fazer de conta que não ouve, nem sabe, nem vê.

Porém, sou apoiada por um pequeno partido com um programa completíssimo: 160 medidas muito bem equacionadas, a maior parte das quais com enfoque nos direitos das pessoas, mas que enraíza a sua existência na defesa dos direitos das Pessoas, dos Animais e da Natureza. Neste momento, com um deputado eleito à Assembleia da República, o PAN com quase oitenta mil votantes, só para os muitos distraídos e para os muito ignorantes é que eventualmente continua a ser uma espécie de tertúlia dos «amiguinhos dos cães e dos gatos». 

Não subestimemos porém a colossal ignorância das massas. Sobretudo quando das próprias elites, essa ignorância é tão ostensiva como a que manifestou o Professor Adriano Moreira que, em entrevista à Antena 1 afirmava o seu entusiasmo por «pela primeira vez haver uma candidata mulher».(15/10/2015). Referia-se o referido professor à «única candidata»... aceitável? Desejável? Credível? Falava, enfim e apenas, de Maria de Belém Roseira. 

Felizmente, nem todos os jornalistas dormem na fila. Leonete Botelho, no mesmo artigo, recorda que «a professora universitária Graça Castanho e a historiadora Manuela Gonzaga, apoiada pelo PAN, já anunciaram a intenção de se candidatarem em 2016». (ver Maria de Belém é a primeiramulher candidata às presidenciais?)



Desenganem-se os distraídos. Eu existo. Já plantei árvores, em vários países. Tenho quatro filhos, livros - doze - publicados, alguns dos quais traduzidos em francês e curriculares em escolas secundárias e universidades; escrevi muitas centenas de artigos, reportagens, crónicas, entrevistas realizadas durante os quase 40 anos de jornalismo a que dediquei grande parte da minha profissional. Tirei uma licenciatura, uma pós graduação e um mestrado em História que decorreram com lisura, sem exames aos domingos e outras habilidades. Na muito exigente Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

E com excelentes resultados. 

Aliás, o mandatário nacional da minha candidatura, meu amigo, foi meu professor e orientador de tese. O Prof. Dr. João Paulo Oliveira e Costa, director do CHAM (FCSH da Universidade Nova de Lisboa), instituição a que estou agregada. É um magnifico historiador, com prestigio internacional. E um grande romancista.

Dito isto - nunca estive ligada ao poder. Dito isto, nenhum dos grandes partidos ou mesmo dos pequenos - até ao PAN - Pessoas Animais Natureza - me contou nas suas fileiras. Dito isto, das finanças só conheço o deve e haver. E o tormento das contas, as muitas contas que fiz ao longo da vida para prover o meu lar de tudo o que necessitaram as minhas quatro crianças que cresceram num instante, estudaram em Portugal e depois no estrangeiro, e por fim foram-se embora deste pais onde «o sol é tão caro, mãe». 

Portanto, não tenho amigos nas corporações nem na Banca, a não ser ao nível do balcão. Nem no poder. Até há duas semanas, quando o André Silva foi eleito deputado pelo PAN. Os meus amigos e amigas são poderosos, mas de outra maneira. Quanto aos outros «poderosos» que mandam nisto tudo e já venderam praticamente tudo que é nosso, conheci-os, conheço-os a quase todos, dos meus tempos de imprensa. Guardo-os na minha memória elefantina. 

Existo SIM. E não admito que me subestimem. É que sou maior do que eu, Sou a VOZ dos que a não têm. E sei gritar sem perder a compostura nem a razão. As palavras são muito minhas amigas.

quarta-feira, outubro 14, 2015

Onda sagrada me leva. Vamos?

Que Causas me movem? Que Causas nos podem unir? Penso nisso, dia e noite - sim, os sonhos ajudam-nos a encontrar caminhos se lhes pedirmos com bons modos - enquanto mergulho na cacofonia de notícias incompletas, desinformadas, conformadas ou rebeldes. 

Procuro o centro. O silêncio no meio do ruído. Procuro o norte solar, para lá do cabo do medo. Este medo que nos aprisiona há tanto tempo que já nem nos recordamos do seu nome. E, de tão habituados, já quase nem sentimos a mordida do seu látego. Acordo e sei que somos muitos. Somos mais, muitos mais do que os outros. E, no íntimo, sabemos para onde queremos ir. Só precisamos que nos recordem. 

Só precisamos que nos acordem.
Os caminhos do mar não têm segredos para o povo de marinheiros que somos. É por aí que podemos rasgar novas estradas e recriar mapas que não vêm nos mapas. Os mapas das estrelas. Os mapas do coração. 


Vamos?


Onda sagrada me leva
[créditos imagem: Deep sea creatures]


Mariza & Tito Paris 2008 Terra #7 Beijo da Saudade

segunda-feira, outubro 12, 2015

«Ela pediu desculpa ao sapinho mas...»

A minha grande amiga Mozzaic, que vive em Las Vegas, contactou-me hoje com a seguinte mensagem:
Hoje estive a falar no Skype com a Iris e ela disse-me que odiou fazer a dissecação de um sapo para ciências. Ficou muito contrariada, pediu desculpa ao sapinho por esta a fazer-lhe aquela maldade mas precisava da nota. Que tal sugerir que as crianças têm direito a recusarem-se fazer crueldade aos animais, sobretudo agora que há vídeos interativos que substituem o ter que fazer uma crueldade para aprenderem. Eu pessoalmente sou contra esse método de ensino. E tu? O que achas?

Virtual frog dissection 

Respondi de imediato: «Acho ODIOSO». Há dois anos, a minha neta Maria desabafou comigo, pouco antes de uma aula: «temos de dissecar uma rã, mas não vou conseguir, acho horrível». Aconselhei-a a invocar «motivos éticos», o que ela fez. A professora aceitou, e não a penalizou na nota.  
Factos: muitos milhões de animais são dissecados todos os anos, no mundo inteiro, em aulas do ensino secundário e universitário (nalguns países isto começa na escola primária). Cada um destes animais retalhado e morto representa uma vida desperdiçada, e um contributo decisivo para uma mentalidade que encara o abuso de animais e do ambiente como natural e útil.
Cada um destes pequenos seres torturados em nome de uma falsa ciência – dado que existem muitas outras formas de se estudar anatomia – reforça a insensibilização de todos e cada um destes futuros adultos, face à natureza e aos outros seres que partilham connosco a casa comum, a Terra. E, consequentemente, a indiferença perante o Outro – humano ou não humano. Desde que pertença a um grupo diferente.
No ensino básico e secundário, as rãs constituem os exemplares mais utilizados. Mas também são utilizados ratos, coelhos, vermes, insectos, fetos de porcos, cães e peixes. Muitos são adquiridos em unidades de reprodução animal que os oferecem aos estabelecimento de ensino, destinando o grosso da produção aos laboratórios que utilizam animais nas suas experiencias. É um negócio que movimenta milhões, e só isso explica a sua existência… Alguns – segundo os estudos levados a cabo pela PETA – são caçados nos seus habitats naturais. Outros são animais de companhia roubados aos seus tutores ou até abandonados por estes.
O que podemos fazer? O que é justo e o que é certo. Invoquem-se motivos éticos, cívicos, ambientais. Leve-se o tema às reuniões das escolas. Porque há muitas outras formas de fazer ciência. Há programadas de computador que tornam obsoletos estes exercícios de falsa ciência. O que não dispensável é a saúde mental e psicológica das crianças e dos adolescentes a quem este tipo de exercício embrutece ou fere por demais. Ambas as consequências são terríveis. 
Nota positiva
Na Índia a PETA disponibilizou, gratuitamente, um softwear que permite aos estudantes aprenderem a dissecar sem terem de utilizar animais nos laboratórios. Acrescentem-se que a utilização massiva de rãs nestes exercícios está a colocar em perigo a biodiversidade pelo extermínio destes animais. Ver: Virtual Frog Dissection 

domingo, outubro 11, 2015

PAN na Assembleia da República

A marcha de encerramento da campanha eleitoral do PAN - da Praça do Chile ao Chiado foi assim
Esta imagem traduz bem o espírito de alegria que animou toda a nossa campanha até ao seu encerramento. Com muito pouca mediatização ao longo de uma campanha feita com entusiasmo, alegria, boas vontades, muita entrega, e uns irrisórios 30 mil euros em gastos, sentíamos, de Norte a Sul, que íamos ter um bom  resultado. Ou como dizia André Silva, o presidente do PAN, «que íamos ser a surpresa positiva das eleições».

E fomos.

Nestas legislativas, o PAN tornou-se a 7ª força política em Portugal, com 74.656 votos em território nacional (1,39%). Ficou assim à frente de todas as outras pequenas forças políticas, como o PDR de Marinho e Pinto, o PCTP/MRPP; o Livre, de Rui Tavares; o Agir de Joana Amaral Dias. Aparentemente, os resultados nos círculos da Europa e fora da Europa não vão contar. Aparentemente, chegaram tarde...

http://www.pan.com.pt/comunicacao/noticias/item/742-pan-na-ar-2015.html
André Silva, deputado pelo PAN à assembleia da República, no discurso da vitória

André Lourenço e Silva é um novo deputado no parlamento. Com uma agenda poderosa, compassiva, ética e de uma grande amplitude. O dilúvio de entrevistas que se sucederam à eleição, trouxe ao de cima a grande injustiça com que o PAN foi tratado durante quase toda a campanha, pela maior parte dos órgãos de comunicação social. Mas tem servido para esclarecer muita gente e para alargar o debate das ideias trazendo para a agenda do dia a defesa do direito à vida e ao bem-estar de todos os seres sencientes e a urgência da promovernos  uma maior harmonia ecológica.

Para quem achava que este era um «partido de freaks, ou tias e tios fanáticos de cãezinhos e gatinhos» a surpresa não se ficou por aqui. As 160 medidas do nosso programa foram pensadas, debatidas e trabalhadas durante muitos meses. E estão equacionadas com toda a clareza. A mesma clareza de linguagem que André Silva transmite em todas as suas prestações radiofónicas, jornalísticas, televisivas. Os elogios começam a chegar dos lados mais imprevistos. Fora a catadupa de mensagens que, de vários países, nos chegam por parte de políticos e activistas que se congratulam com esta pequena grande vitória de todos.

Pessoas, Animais, Natureza.


quinta-feira, setembro 24, 2015

«Esta barragem não deveria existir»

A minha crónica de hoje, no Comício Público, é dedicada ao Vale do Tua. Citando:
«E foi assim que hoje, a comitiva do PAN desceu do comboio na estação do Tua, em Carrazeda de Ansiães, e foi a pé até à zona da obra, onde se pode observar o paredão de betão a ser construído no rio, e as infraestruturas do estaleiro que se estende pelas encostas. Bem como a linha de caminhos-de-ferro desactivada por causa desta barragem que, a ser concretizada, irá arrasar um dos patrimónios mais selvagens que existem em Portugal, afetando espécies em vias de extinção, prejudicando o turismo, e destruindo “imensos terrenos agrícolas”.  Nas palavras de André Silva, porta-voz do PAN:
 “O que está aqui em causa é de facto todo um património cultural, ecológico, social e económico. Esta barragem não deveria existir, tal como outras que estão ser construídas no [no âmbito do] Plano Nacional de Barragens”. [em «Esta barragem não deveria existir», TVI notícias]»

Para ler na integra: «Esta barragem não deveria existir»